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  • O que Vemos e o que não Vemos

    «Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.» - Eça de Queirós, As Farpas, 1871. Apenas cinco anos depois da sua fundação, o Chega consegue nestas eleições 18% dos votos e mais de um milhão de eleitores. Anunciou o “fim do bipartidarismo”, com o melhor resultado eleitoral de uma terceira força em democracia (o PRD conseguiu 17,9% em 1985, com menos 70 mil votos). Como já esperávamos, André Ventura será o kingmaker daqui em diante (ou o “fazedor de reis”, como foi horrendamente traduzido na comunicação social). Quem foi vendo os telejornais poderá ter estranhado. Embora não tenha ficado surpreendido – qualquer resultado do Chega, dos 13% aos 20%, seria compreendido –antecipava uma queda do Chega em relação às sondagens e uma vitória mais robusta da AD, talvez um mau resultado da IL, que seria secada pelo voto útil. Mas, mesmo com uma campanha fraca, senão desastrosa do Chega, ignorado pelos outros partidos senão pelo Bloco e um discurso a cada dia mais radical, procurando a atenção a que o habituaram, mas que desta vez não lhe foi concedida (recordou-me da imagem que Rui Rocha pintou de Ventura no debate entre ambos, da “criança que vai a um parque de diversões”), o Chega superou as expectativas otimistas daqueles que, como eu, esperavam um mais sereno discernimento do povo português. Em 1850, o filósofo Frédéric Bastiat escreveu um ensaio que intitulou de «Ce qu´on voit et ce qu´on ne voit pas», ou seja, O que Vemos e o que não Vemos. Residirá o problema naquilo que não vemos? Quem, como eu, ficou alarmado com o resultado do Chega ou não compreende a mobilização de que é capaz, estará a passar ao lado de qualquer coisa. E essa distância entre mim e o eleitor do Chega preocupa. Eu não vejo o que eles vêm nem eles vêm o que eu vejo. Seja no TikTok, no X, em grupos de WhatsApp ou noutras redes sociais, é claro que a campanha que me foi apresentada não foi a mesma que lhes foi apresentada a eles. Para esses eleitores, talvez a “campanha” no sentido tradicional já tenha deixado de fazer sentido. Sem entrar em aritméticas e previsões futuras acerca do curso da legislatura, é importante entender que o problema com que nos deparamos é mais amplo que conjuntural. É necessário, como disse, e bem, Pedro Nuno Santos, «ir ao encontro desse país que está descontente», e ver o que alguns, até aqui, ou não conseguiram, ou não quiseram ver. O líder do PS poderia estar-se a referir ao eleitorado descontente com o seu partido, mas a mesma reflexão é válida para os outros partidos, para todo o sistema e para o regime. Uma das críticas apontadas pelos antigos às democracias era a facilidade com que deslizam para a demagogia. Não deixemos que isso aconteça. Eça identificou o problema, cabe-nos agora a nós vê-lo também.

  • AVentura de Centro

    Foi há cerca de um mês apresentado o programa eleitoral do Chega, para os próximos quatro anos. Desta vez maior, até para contrapor as frugais nove páginas do documento de 2022. Depois de ter crescido 165 páginas, a tentativa de centralização do partido é evidente: “Criar uma contribuição extraordinária temporária sobre o sector bancário, aplicável aos lucros excedentários apurados nos períodos de tributação para efeitos do IRC que se iniciem nos anos de 2024 e 2025 e manter a Contribuição do Sector Bancário já existente e aumentá-la em 10%.” Um programa que se dizia liberal ou até mesmo libertário como o de 2022 defende, agora, uma taxa extraordinária para bancos e gasolineiras face aos lucros juntando-se assim à CDU e ao BE. Ainda à semelhança do BE, propõe que o salário mínimo, em dois anos, atinja os mil euros. Um partido “liberal”, como se autointitula, a querer aumentar salários por decreto? Nada de novo. A fórmula já nos tinha sido apresentada pela onda populista europeia. Primeiro ganha-se notoriedade com discursos polémicos, nostálgicos e fáceis, e depois avança-se para um discurso mais moderado. Aconteceu com Giorgia Meloni em Itália, Geert Wilders nos Países Baixos e está a acontecer em Portugal com André Ventura O Chega arranca, feroz, com uma proposta de castração química para os pedófilos e violadores, um tema disruptivo, cumprindo o propósito viral e hoje ocupa 20 palavrinhas do seu programa eleitoral. Deixou de ser uma das bandeiras do partido. Perdiam-se votos. Voltemos às questões económicas e aos exemplos europeus. Meloni, Primeira-Ministra italiana, apresentou uma proposta de taxação dos bancos, semelhante à do partido Chega. Com uma diferença, foi executada. As ações dos bancos registaram, obviamente, quedas generosas, obrigando o governo a recuar. A questão é: André Ventura tem conhecimento disto? Sabe que é, absolutamente, irresponsável taxar a banca desta maneira? Porque é que insiste então? Ventura o intrépido justiceiro. De Sherwood a Mem Martins, ninguém, nada e nenhuma noção o parará. Citando o manifesto político do partido Chega: “nasceu para reduzir o Estado às suas funções mínimas essenciais, com uma redução drástica da sua asfixiante presença na vida da República”. Em que é que ficamos? Tomemos apenas como exemplo o seguinte: Os 3.2 mil milhões gastos na reestruturação da TAP, tal como o PS, BE e CDU, Ventura não se opôs. Esta despesa daria para pagar 16 vezes os apoios às forças de segurança que Ventura diz defender. A labiríntica e incoerente retórica de André Ventura vem à superfície. Nas 176 páginas (acrescentadas), o sector privado aparece, reiteradamente colado ao setor público, em rota de colisão com o suposto princípio orientador e fundador do partido. Apresenta-nos reformas fantasiosas não conseguindo demonstrar-nos como pagar ou mesmo como pô-las em prática. O partido que queria diminuir a intervenção do Estado na vida das pessoas, parece, agora, querer asfixiá-las em restrições, burocracias e, inevitavelmente, impostos. É uma tentativa de catch all desastrosa. Um programa que quer agradar a todos e de qualquer maneira. Palavras falaciosas, promessas irresponsáveis e discursos de esperança (vã). Cheio de dúvidas com uma única certeza, a de uma banca rota. Faz-nos lembrar alguém - é pena que o Sócrates português tenha sido tão medíocre, porque o original saberia como lutar contra a demagogia deste sofista.

  • O "funk" verdadeiro

    Todos nós ouvimos música, todos gostamos de música de alguma maneira – uns mais, outros menos – mas é algo de que não dá para fugir ou ter uma posição agnóstica. E se há quem só oiça o que passa na rádio e viva bem assim, existe também quem oiça tudo: desde clássica a eletrónica; de soul a new wave ; do heavy metal  ao jazz , saltando ao sabor do impulso ou do acaso   entre uma “Queixa” do Caetano Veloso, uns de “Echoes” dos Pink Floyd, uma “Temptation” para os New Order, no fundo, Jesus e etc., mas evangelizado pelos Wilco e qualquer outro grupo – do mais obscuro ao mais comercial – para ver a qual deles vai dar o privilégio de ser ouvido nesse dia, enfrentando sempre a possibilidade de um novo povo chegar à terra em disputa e juntar-se à batalha.   Cada um é como cada qual, e cada qual é como é (até deixar de ser). E eu, sendo muitas outras coisas, sou também uma fã de funk .   À data de hoje, podemos dividir a humanidade em três grupos: um primeiro grupo constituído pelas pessoas que adoram funk – e porque adoram, ouvem em qualquer situação, numa festa, num desgosto amoroso, em todas as estações. Um segundo formado pela oposição, composto por todos os que fogem do funk e de tudo o que lhes faça lembrá-lo, aproveitando-se de qualquer oportunidade para manifestarem este desprezo. E por fim os que passam ao lado e que pouco para aqui interessam.   No entanto, nestes três grupos há quem tenha em mente uma perceção específica do funk, que na realidade nada tem que ver com a original. O funk que gera todo este conflito é chamado “funk carioca”, também conhecido como “funk favela”. Acho que o nome fala por si, pelo que não serão precisas grandes introduções. É um estilo influenciado pelo hip-hop , nascido no Rio de Janeiro.   Não sou contra nem a favor, mas sou, e sempre serei uma defensora daquilo a que gosto de chamar de “ real funk ”.   O “ real funk ” é um género musical que nasceu nos anos 60, na comunidade afro-americana, e se tornou popular durante as décadas de 70 e 80. Um novo estilo cheio de improvisações, com um sentimento ousado e atrevido, um som rítmico e dançável que nasce da junção de elementos de vários géneros como soul, o R&B e o jazz, dando protagonismo a uma espécie de conversa entre linhas de baixo fortes e baterias, que resultam naquilo a que chamamos de grooves .   O funk era algo novo, original e, portanto, inovador. A maioria dos géneros musicais já estabelecidos e usuais apostava na melodia, na progressão de acordes e nos arranjos. O funk, termo que vem do inglês “ funky ” – sendo este usado para descrever algo fora da caixa, incomum ou único – musicalmente, é um estilo de música de dança, urbana, agressiva, que combina baixo, bateria e um grande número de instrumentos, muitos metais, todos trabalhando para um groove . O funk é uma forma mais extravagante de R&B, e os seus temas retratam a vida tal como ela é: por vezes doce e suave; na maior parte violenta e dura para as minorias negras, mas também esperançosa. O funk é a banda sonora alegre de uma realidade difícil.   James Brown, George Clinton e os Parliament/Funkadelic, Sly and The Family Stone, Prince, Kool and The Gang, são alguns dos grandes nomes da história do funk. Nas letras das suas músicas, tanto se abordavam temas sérios, tentando passar uma mensagem, como temas mais prosaicos e divertidos.   “Papa Was A Rollin’ Stone” (The Temptations) conta um diálogo entre um filho e a sua mãe, em que o filho relembra a ausência do pai em toda a sua vida, como nunca o viu e como sobre ele nunca ouviu nada se não coisas más. O filho refere-se ao pai com uma rolling stone : nunca ficava quieto num sítio, qualquer lugar onde pusesse o seu chapéu era a sua casa (logo, todos os sítios tornavam-se sua casa, todos menos a sua verdadeira casa com a sua família). É uma letra cultural e socialmente muito forte, pois era infelizmente comum dentro das comunidades afro-americanas os pais abandonarem as suas famílias. Durante os seus sete minutos, o filho interroga-se e elenca as falhas, atrocidades e imoralidades que ouviu acerca do seu pai, e concluiu, no final, que “ All he left us was alone ”.   “The Revolution Will Not Be Televised”   (Gil Scott-Heron) é outro exemplo de crítica social, talvez mais um apelo, em que se incita os que querem fazer parte da revolução a mexerem-se, a envolverem-se e a reagirem porque, no final de contas, the revolution will not be televised . A verdadeira revolução é aquela que acontece na cabeça e nas ações de cada um, e não aquilo que aparece nas televisões.   “Ladies Night” (Kool & The Gang) descreve uma clássica noite de raparigas, onde tudo está bem, tudo é possível e mais nada interessa. “ Oh, yes, it’s ladies’ night, and the feeling’s right (…) what a night ”.   “I’m Your Boogie Man”   (KC & The Sunshine Band) – mais uma vez, uma letra simples sem qualquer mensagem significativa, mas que graças ao ritmo do funk, da mistura harmoniosa dos sons de todos os instrumentos combinados, se torna num clássico que toma conta do nosso corpo e nos põe a dançar.   Enfim, complexos, manias e gostos de lado, a verdade é que, nos dias de hoje, a palavra “funk” é usada pela maioria das pessoas como algo muito mais circunscrito face ao que realmente é. Com o verdadeiro funk, sem nos apercebermos, estamos a dançar ao ritmo da batida que nos transporta imediatamente para os anos 70, onde as roupas, os cabelos e a atitude eram uma extensão da música. O verdadeiro funk é mem’bom .

  • Orçamento Envelhecido

    Chegará 2025 e, surpreendentemente, o PSD ainda será o líder do governo. Não o digo em tom pejorativo, mas é de facto admirável como é que 80 deputados, apenas mais dois que o PS, edificaram um projeto político com um programa tão reformista como o da AD.   Infelizmente, a resposta é inteligível: o programa que fez da coligação PSD-CDS-PP-PPM vencedora em março de 2024 não é o mesmo programa que irá reger o projeto político do próximo ano. O IRS jovem prometido caiu, a redução do IRC prometida caiu, o salário mínimo prometido mudou, o programa de pensões mudou. Poderia escrever tanto mais sobre o que foi prometido e não se cumpriu.   Foi aprovado o Orçamento do Estado para 2025, depois de vários e insólitos dias de perseguição à aprovação do documento. Luís Montenegro conseguiu obter do líder da oposição uma mísera abstenção. Esta aproximação ao PS valeu o voto contra da Iniciativa Liberal.   É mais um Orçamento que responde (pobremente) com soluções de curto prazo. Uma navegação à vista. A promessa de uma reforma estrutural não passou de uma quimera. Aos jovens, foi-lhes vendida a proposta do IRS Jovem, com um teto máximo de 15% até ao penúltimo escalão. Bastante diferente daquela que foi apresentada no documento final.   Pensemos num jovem de 33 anos que esteja a cumprir o oitavo ano de descontos, e que ganhe 2500 euros brutos mensais – este jovem iria pagar menos 1.860 euros (aproximadamente) anuais de IRS. Isto, se a AD tivesse mantido a palavra que prometeu aos jovens. Quando Rui Rocha anunciou a intenção de voto da IL, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, respondeu às críticas do presidente dos liberais: “ Nós fazemos uma atualização dos escalões do IRS bem superior à inflação ”. Quem ouve esta declaração não imagina que estamos a falar de uma inflação nos 2,9% e uma atualização de 4,6%. Será então 4,6 “bem superior” a 2,9? É esta a reforma estrutural?   O sistema de pensões é outro dos muitos problemas que os jovens portugueses enfrentarão. Com a abstenção do partido Chega, o PS viu a sua proposta viabilizada. Um aumento permanente e praticamente transversal a todos os pensionistas de 1,25%. Uma medida que custará mais de mil milhões de euros até ao final da legislatura. Recordo que a média de despesa portuguesa, em prestações sociais como as pensões, encontra-se nos 17,6%.  Bastante acima da média da União Europeia de 12,9%. Bem sei que a meta deste governo é governar. E vai consegui-lo. Mas a que preço? A AD ganhou, com o nosso voto, o voto jovem. Os socialistas foram a força política cujos votos menos dependeram dos jovens. Apenas 10% do eleitorado PS tem menos de 34 anos.   A AD não aguentou a pressão. Cedeu em diminuições de impostos e aumentou apoios sociais. A equilibrar malabares no nariz assistimos ao espetáculo do insólito:  uma continuação dos últimos oito orçamentos do PS. Cujos quais o PSD votou, sempre, contra.   Numa só palavra, “desolador”. Votámos diferente, não estávamos à espera das mesmas soluções. Continuaremos a ser governados por medidas pró-pensionistas, ideias inflexíveis sobre o conceito de salário mínimo e sucessivos aumentos da despesa pública. Alterar o metabolismo basal instalado nas instituições, nos comportamentos e funcionamentos da função publica, é difícil. Não impossível.

  • O fardo de não saber ser em "The Worst Person in the World"

    Nunca se sabe bem quando irão as crises de identidade surgir para nos amedrontar e desregular a nossa homeostasia identitária. Afinal de contas, tanto podemos chegar ao fim de vida iludidos e magnetizados pelo espírito do prazer momentâneo, onde nunca o estado reflexivo sobre o verdadeiro eu surge, tal como podemos, num segundo da nossa jovem ainda vida, aperceber-nos que tudo está errado, que nada daquilo nos faz sentido: podemos perceber que não fazemos sentido, que o relógio se desregulou momentaneamente e eternamente do sentido do universo. A premissa de The Worst Person in the World (2021) é apresentar-nos a vida de Julie em doze capítulos, aos quais se juntam um prólogo e um epílogo: é uma jornada biográfica, em que acompanhamos a sua vida desde o início da vida adulta até aos seus trinta e poucos anos. O filme apresenta-nos a quotidianidade de alguém que se sente quase sempre infeliz, que quer sempre mais do que o que tem e que é questionada, pelas normas sociais, porque não quer o que deveria querer. The Worst Person in the World apresenta-nos uma história que poderia ser facilmente confundida com a nossa. O poderio argumentativo e introspetivo desta obra-prima está no facto de capturar o peso das escolhas e das não-escolhas, o fardo invisível do tempo que escorre pelas nossas mãos. Cada decisão que Julie toma – deixar Aksel, envolver-se com Eivind, adiar a maternidade – não é apenas um passo temporal em frente, mas também um corte com tudo o que poderia ter sido: trata-se da simultânea eliminação e criação de novos mundos possíveis. O filme desafia-nos a pensar naquilo que sacrificamos, consciente ou inconscientemente, em nome de uma felicidade que nunca chega a ser plena, mesmo quando julgávamos ser o êxtase perene. Entre sorrisos efémeros e momentos de perda devastadora, a narrativa convida à reflexão sobre o que se prioriza na instantaneidade da vida. Julie não é heroína nem vilã; é apenas alguém que, como todos nós, tenta encontrar sentido no caos, enquanto o mundo à sua volta insiste em exigir respostas que ela ainda não tem. Na complexidade simples da trama, é Julie o ponto de ligação entre as três personagens principais do filme: Aksel, ela mesma e Eivind. Mais do que uma relação amorosa com Julie como vértice comum, as três personagens sofrem da instabilidade de, um dia, querer sol na eira e, noutro, sol no nabal – os três, por muito diferentes que sejam, personificam a estável instabilidade da vida e uma vontade ofegante de ser feliz. A vida é o ecoar distorcido das imagens alucinogénias da própria mente e da nossa reflexão: é uma dupla reflexão, no sentido imagético e no sentido psíquico, em que cada um se vê obrigado a debruçar sobre a sua vida, sobre si mesmo, curvando-se pelo peso de querer ser tudo o que não é, para mais tarde querer ser o que foi. É por isso que também Proust procura o tempo que perdeu; é por isso que Aksel diz sentir muito mais do que nostalgia quando olha para o passado e pensa no apartamento da infância, nos seus primeiros contactos com a banda desenhada, nos tempos em que vivia com Julie: olhamos para trás quando a parede que defronte de nós surge nos parece intransponível e a ponte que ligava os dois lados do abismo ruiu. Admitimos que precisamos do conforto que antes tivemos. Recordamos os nossos primeiros amores ou recordamos os verdadeiros amores que entretanto não passavam da ilusão bonita de uma juventude que os viveu; lembramo-nos de um álbum que se ouviu, uma brincadeira que ficou. Enfim. Buscamos sempre o que o tempo nos tende a tirar, ou aquilo que julgamos para sempre perdido, porque os tempos de hoje são infinitamente diferentes dos tempos que foram, as tais realidades e mundos distintos que acabámos por criar. É por isso que o artista não quer viver na sua arte, nem o amado quer viver na memória do amor da sua vida: seja qual for a situação, cada um escolhe sempre viver, não na memória dos outros, mas sim no seu apartamento, com a sua família, com a mulher da sua vida. Queremos ser tudo aquilo que sempre desejamos e que julgávamos ser eterno; talvez num qualquer momento da nossa vida tenhamos julgado que aquele momento em particular ou aquele estado de coisas seria eterno; talvez desejássemos que o futuro fosse a repetição de um passado; talvez o que nós queremos não seja aquilo que realmente queremos, pois só queremos querer o que julgamos querer. Julie é a representação do devir, personificando a necessidade de fuga, a insegurança que a segurança nos dá quando julgamos estar estabelecidos enquanto pessoas. Nada nela é de infra-humano face a qualquer um de nós; muito menos a qualifica como pior. No desespero de viver entre a sua alma e o seu corpo, entre o seu coração e a sua pele, Julie personifica o que de mais normal há em nós: não sabermos o que queremos ser e o facto de isso provocar em nós uma reação visceral de terror. Assustamo-nos connosco mesmos, quando julgamos que os verdadeiros monstros estarão fora de nós, prontos a atacar na escuridão dos nossos quartos de infância. A verdadeira Julie dá-se quando invade um casamento e tem uma noite irrepetível com Eivind; quando reencontra Aksel, nesses caminhos desencontrados da vida, e passa o dia com ele; a verdadeira Julie aparece quando supera o medo da solidão; a verdadeira Julie, e por consequência a mais feliz, é quando se entrega ao acaso, quando o inesperado acontece no esperado. Talvez seja isso: os verdadeiros rasgos de felicidade que temos dão-se quando somos nós mesmos, quando efetivamente aceitamos o charme arrebatador e aterrador de sermos o que somos. Talvez seja o medo de sermos quem somos que faz de cada um ser a pior pessoa no mundo. Quem me dera um dia ser como Julie: quem me dera um dia deixar de ser a pior pessoa do mundo.

  • Trump não vai ser ditador dos EUA

    Nenhum presidente dos Estados Unidos da América está isolado do Congresso ou mesmo do seu próprio governo. O pessimismo omnipresente que sucedeu à vitória de Donald Trump ignora tanto o seu primeiro mandato entre 2017 e 2021, como um partido que teve 162 anos de história antes deste se tornar o seu candidato presidencial. A maior parte dos atuais senadores foram eleitos pela primeira vez antes da campanha presidencial do empresário em 2016. Foram estes que impediram que o presidente eleito se tornasse um ditador no passado e, se necessário, não hesitarão em voltar a assumir esse papel.   Há uma parte do Partido Republicano que não está alinhada com Donald Trump. A maioria destes republicanos mantiveram a sua lealdade ao partido, muito poucos arriscaram declarar o seu apoio a Kamala Harris, como fizeram Dick e Liz Cheney. No entanto, foram estes mesmos republicanos que votaram aos milhões em Nikki Haley nas primárias.   O anterior vice-presidente de Trump, Mike Pence, permitiu o reconhecimento dos resultados eleitorais que deram a vitória a Joe Biden, contrariando as ordens do presidente na altura. Vance é um político muito mais alinhado com o presidente eleito do que é Pence, no entanto, ainda não foram revelados todos os secretários que constituirão o governo. O primeiro secretário da defesa de Trump, o General Jim Mattis, discordou publicamente do presidente na carta em que anunciou a sua demissão em 2019. O secretário da defesa que lhe sucedeu, Mark Esper, tal como o próprio Mattis, Dick Cheney e todos os outros ex-secretários da defesa ainda vivos, publicaram uma carta aberta em que apelavam ao secretário da defesa interino e ao próprio presidente que não envolvessem o Departamento da Defesa em tentativas de reverter os resultados eleitorais. Não só nem todos os secretários eram inabalavelmente leais a Trump, como parte deles impediram exatamente que o empresário interviesse no normal funcionamento da Democracia.   Dos nomeados até à data destacam-se a advogada Pam Bondi para procuradora-geral e o comentador da Fox News, Pete Hegseth, para secretário da defesa, postos que poderão definir em parte a capacidade do presidente eleito para subverter as normas democráticas. Ambos são claríssimos apoiantes de Trump. Destacam-se também o senador Marco Rubio e o governador Doug Burgum. Os dois republicanos mantiveram-se distantes de Trump no passado (e Rubio confirmou a contagem do voto eleitoral em 2020), mas foram recentemente «convertidos» (ambos ambicionavam ser a escolha para vice-presidente).   Também o Congresso poderá limitar o poder do presidente eleito. Apenas cerca de 40 dos 220 atuais membros republicanos da Câmara dos Representantes integram o Freedom Caucus , o grupo parlamentar que defende mais claramente a linha política de Donald Trump. Em 2020, apesar da maioria dos membros republicanos da Câmara dos Representantes ter votado a favor da objeção à recontagem dos votos eleitorais do Arizona e da Pensilvânia, menos de 10 senadores acompanharam-nos. Mitch McConnell, senador republicano que era na altura líder da maioria, aconselhou o voto dos seus pares depois de reconhecer a vitória de Biden em dezembro de 2020. 10 U.S. representatives (Liz Cheney entre eles) e 7 senadores (incluindo Mitt Romney) votaram a favor do segundo impeachment  de Trump.   Desta vez, foram eleitos vários senadores e U.S. representatives  que foram endossados pelo presidente eleito, no entanto, e apesar de Mitt Romney se ter reformado, restam ainda vários senadores moderados, como Susan Collins do Maine ou Lisa Murkowski do Alasca.   Foram, em parte, Collins e Murkowski, para além de McConnell e o senador John Curtis do Utah (que substituirá Romney), que provocaram a desistência de Matt Gaetz, primeiro nomeado de Trump para procurador-geral. O voto destes 4 senadores seria o suficiente para impedir que o desmoderadamente America First U.S. representative  fosse confirmado. O Senado definiu-se como a primeira barricada contra os radicalismos do presidente eleito, antes mesmo deste tomar posse.   Numerosos funcionários públicos e republicanos impediram que Trump contornasse as normas democráticas, particularmente no período após a sua derrota eleitoral em 2020. As tentativas menos claras de desmantelar a Democracia serão limitadas pelo facto de o empresário ser, acima de tudo, um populista. Se os restantes políticos e partidos reconhecem a complexidade dos problemas, os populistas simplificam-nos. As políticas resultantes deste processo são mais irresponsáveis do que limitadoras da Democracia. Várias das promessas feitas em campanha pelo presidente eleito, tanto este ano como em 2016 e 2020, são consensualmente consideradas impraticáveis.   Trump prometeu, por exemplo, voltar a decretar uma ordem executiva (foi decretada pela primeira vez no seu mandato anterior, mas nunca posta em prática) que implicaria que centenas de milhares de funcionários públicos passassem a ser nomeados pelo presidente, com o propósito de desmantelar completamente o « deep state » para se livrar de burocratas «incompetentes» e «corruptos». Se neste novo mandato for o mesmo Trump a tomar as decisões, a América verá mais cedo o caos administrativo do que a queda da Democracia. Os quase 3 milhões de funcionários públicos americanos, incluindo funcionários com décadas de carreira que trabalharam sob vários presidentes (incluindo Trump), não são todos dispensáveis, nem serão facilmente substituídos por “ yes-men ”.   A atitude dos democratas face a Donald Trump também não foi a mais acertada. O empresário é acusado de pretender usar os procuradores federais para perseguir opositores políticos, no entanto, foi durante o mandato de Biden que Trump foi acusado em dois casos federais iniciados pelo atual procurador-geral e num caso na Geórgia iniciado por uma procuradora democrata, todos relacionados com a sua conduta depois de ter sido derrotado em 2020. Os democratas decidiram que era oportuno tentar condenar Trump por crimes políticos, certamente com o propósito de desacreditar completamente o empresário. Na prática, os democratas tentaram dar a Trump, em quem 74 milhões de americanos tinham votado em 2020, o rótulo de antidemocrático. Estes casos permitiram que Trump dinamizasse o seu discurso, desacreditando o próprio sistema, que aos olhos de uma parte importante do eleitorado estava a usar o aparelho do Estado para destruir um movimento político que contava factualmente com milhões de apoiantes. Os democratas contribuíram para polarizar ainda mais o eleitorado, sendo que esta questão se resumiu a um concurso de «é a minha palavra contra a tua», que nenhum dos lados poderia vencer.   Outro assunto prioritário nas campanhas democratas foram os direitos reprodutivos das mulheres. É inquestionável que é um tema fundamental, mas para além de muitas eleitoras não o terem considerado prioritário, mesmo as mulheres que alinhavam com o discurso democrata não votaram em massa como era esperado.   Em 2020, Biden venceu entre os eleitores com menores rendimentos em parte por ter estado sempre associado aos sindicatos e ao mundo industrial. Este ano, a vice-presidente perdeu a maioria dos votos da classe trabalhadora americana, porque não convenceu a mesma de que a sua estabilidade financeira era a sua maior prioridade.   Kamala Harris não defendeu como podia ter defendido o mandato de Biden, que incluiu medidas que melhoraram efetivamente a vida dos trabalhadores e que permitiram resistir e recuperar de crises económicas mundiais, nem convenceu o eleitorado de que a sua pouco comentada « opportunity economy » era a melhor alternativa.   O discurso da campanha democrata foi desmedidamente anti-Trump e politicamente pouco claro, para além de se ter concentrado demasiado nos direitos reprodutivos das mulheres. Faltou à vice-presidente apresentar uma visão da América futura que verdadeiramente inspirasse os americanos.

  • Identidades na música: Manteau. Entrevista a João Carriço e Zé Salgado.

    Sempre em procura e a evoluir, os Manteau revelam-nos um estilo de música que facilmente se destaca dentro da música portuguesa. Expressam-se através de línguas e linguagens musicais diferentes, acompanhadas por melodias serenas e melancólicas. Composta por Zé Salgado (voz e guitarra), António Jordão (voz e guitarra), João “Janito” Carriço (bateria) e João Girbal (baixo), a banda pretende lançar o primeiro álbum em 2025, depois de dois EPs, Timequake  (2022) e Farsa  (2023). Depois de assistirem ao concerto de dia 15 de novembro na Sala Lisa, Luís Rau Silva e Luís van Zeller foram recebidos por Zé Salgado e João Carriço no seu estúdio, para discutir percursos e objetivos, a dinâmica e a música da banda, entre outros assuntos. Começo por perguntar se sempre quiseram pertencer a uma banda, se é um sonho desde sempre? Ou foi quando começaram a tocar juntos há uns anos que perceberam que havia um projeto que valia a pena desenvolver? ZÉ SALGADO: Eu sempre quis fazer parte de uma banda. Se eu pensar no meu percurso desde que comecei a tocar guitarra, sempre fiz parte de uma banda de uma forma ou outra. Na escola foi com uns amigos, eu vivia na Suíça, e tocávamos para uma coisa que eram os “Talent Shows”; na universidade, havia um open mic  e com um amigo fizemos alguns. Também fiz um Erasmus em que fui baixista durantes três concertos, depois expulsaram-me porque baldei-me a um concerto no dia antes. Vim para Portugal viver em 2020 e tive uns meses sem banda e estava com uma urgência enorme, queria imenso tocar com malta. Foi aí que conheci o António [Jordão] e o [João] Girbal. Portanto, sim, diria que sempre precisei de tocar com uma banda. JOÃO CARRIÇO: Eu acho que quando era puto não era bem um sonho. Não me imaginava a tocar numa banda, nem acho que seja muito natural para mim atuar. Comecei a tocar bateria por incentivo da minha irmã que tocava guitarra. Não era aqueles gajos que tocava nas panelas e isso, foi mais “Ya, pode ser”, e foi uma cena que fui apanhando o gosto. No início foi mais daquelas coisas onde os nossos pais nos inscrevem e não gostamos logo. Fui ficando mais velho e comecei a gostar cada vez mais, mas ao contrário do Zé nunca tinha estado numa banda. Só depois do secundário, quando decidi estudar música profissionalmente, é que já queria estar numa banda. Entretanto fui para jazz na Lusíada, onde tive alguns projetos com colegas meus, mas não demos concertos nem nada. Depois decidi parar de estudar música, fui para uma escola de cinema, mas continuei a querer ter uma banda e depois surgiu esta oportunidade. Porque não eras o baterista original. JOÃO CARRIÇO: Não. Surgiu quando fui vê-los uma vez ao Cosmos. ZÉ SALGADO: Hás de ter vindo nos ver em maio de 2022, e, entretanto, em agosto o nosso baterista original, o João Carvalho, tinha outros projetos e teve de cancelar dois concertos connosco. Nós queríamos arranjar alguém e lembrámo-nos do nosso amigo que foi quem levou o Janito ao concerto, sabíamos que era baterista. Por isso ele tocou connosco esses concertos. JOÃO CARRIÇO: Na altura fiquei um bocado à toa porque nem me tinha apresentado como baterista, que foi um bocado estúpido. Mas foi mais forte que a minha inaptidão de me expor profissionalmente, e pronto, fizemos uns gigs e a cena resultou. E vão agora lançar um álbum, em 2025, certo? JOÃO CARRIÇO: A ideia é essa! Não está nada gravado. Queria-vos ler aqui uma coisa que o João Girbal disse numa outra entrevista vossa, depois de lançarem o Farsa : “Ainda estamos a encontrar [o nosso som característico]. Como não tínhamos um portefólio muito grande, optámos por fazer um EP, porque sentíamos que estávamos à procura do nosso som, do que é que queríamos tocar, de onde é que nos inseríamos e de como é que nós os quatro nos conjugávamos melhor. E continuamos a fazer essa busca e espero que assim seja sempre, porque não conseguimos, nem queremos definir o som Manteau como algo específico.”   Acham que agora que já estão a gravar músicas para um álbum essa busca avançou mais? ZÉ SALGADO: A busca é para sempre! JOÃO CARRIÇO: Não é que eu não queira definir o som Manteau, mas a verdade é que nós vamos evoluindo como pessoas e a música vai evoluindo também. ZÉ SALGADO: Até estou impressionado porque essa frase bate mesmo no ponto. Nós estamos sempre em procura, se calhar o nosso som já maturou, porque já tocámos mais juntos e já experimentámos mais coisas com composições, mas está sempre em desenvolvimento. Isto de fazer um álbum, sobretudo olhando para as coisas que já lançámos, dois EPs e um single, já temos trabalho para poder olhar e dizer: “Experimentámos isto, experimentámos aquilo, agora conseguimos focar e queremos fazer uma coisa com pés e cabeça, estamos prontos para fazer um álbum”. E sabendo que o som vai sempre mudar, acho que isso é a característica de qualquer músico no mundo, está sempre a evoluir e aprender, as influências vão mudando. A coisa está sempre em evolução, mas sinto que estamos com maturidade em conjunto e que está na altura de fazermos um álbum. Portanto não se inserem em nenhum género musical? Já foram descritos como uma banda de “indie, rock, jazz” e “uma infusão de jazz com rock sensível”. JOÃO CARRIÇO: Acho que de jazz claramente não somos, embora no início vocês quisessem ser. Acho que não é para aí que vamos. ZÉ SALGADO: Há uns toques, sim. Se bem que também é dos géneros mais abrangentes, mas não diria que somos uma banda de jazz. Mas os outros talvez. Indie, rock, rock sensível com uma infusão de jazz, parece-me tudo adequado. Considerando a instrumentação (guitarras elétricas, baixo e bateria) só isso mete-nos nessas categorias. JOÃO CARRIÇO: Da música que eu oiço, eu não costumo organizar por género. Categorizar a nossa música só serve para marketing quase, é um bocado uma questão de logística. As pessoas quando ouvem sentem o que sentem, tentar encaixar é só mais uma cena que os humanos fazem. Para os festivais dá jeito, este precisa de uma banda indie, este é de jazz. Eu se pudesse, não chamava de nada. ZÉ SALGADO: Mas fico satisfeito com esses três. Já disseram também que têm backgrounds e linguagens muito diferentes. Quais é que são? JOÃO CARRIÇO: Sim, eu venho do jazz. Quando se estuda música, ou se estuda jazz ou clássico. O rock não é bem estudado, não é académico. ZÉ SALGADO: Eu não tive formação académica, portanto venho mais do rock, de pegar numa guitarra e aprender os acordes. Só mais recentemente é que comecei a ter interesse por ter uma formação mais formal. Umas aulas de jazz, de piano, recentemente fiz um curso de composição para cinema onde abordámos mais repertório clássico, e, portanto, sinto que estou encaminhado para o meu “ life-long learning ”. Estar sempre a aprender sobre música e explorar, e melhorar. Como é que vocês, tendo pontos de vista e backgrounds diferentes, se conjugam? Qual é o processo criativo? JOÃO CARRIÇO: É um bocado democrático às vezes. Às vezes é literalmente votarmos se uma coisa é fixe ou não. Neste momento é mais alguém trazer uma ideia e nós tentamos “regá-la” e ver o que é que surge. Acho que nenhum de nós está num ponto de fazer músicas de início ao fim sozinho. No geral é isto, alguém traz uma ideia e vemos se ela vinga. Às vezes também as ideias morrem, ninguém luta por elas. ZÉ SALGADO: Mas sinto que isso também já mudou. Ao início era muito à base de estarmos a tocar juntos em jam , a ver se surgia qualquer coisa aí. Hoje em dia, não é tanto assim. Até porque, falando pelos quatro, não somos instrumentistas de excelência, assim uma coisa maluca. Portanto quando estamos a tocar em jam , estamos dentro de um círculo, só conseguimos uma certa harmonia ou um certo tempo. É um bocado mais limitado. Acho que já deixámos um bocado o compor à base de jams . Há partes que possam surgir assim, mas em geral começa com uma ideia. Mencionaste há bocado a música que ouvias – queríamos saber quais é que são as vossas referências musicais? Passadas ou presentes, portuguesas ou estrangeiras, quem é que vos influenciou mais diretamente? JOÃO CARRIÇO:   Para aprender, uma grande escola são os Beatles, Pink Floyd, Arctic Monkeys, por aí. O que me influencia, eu curto muito de Radiohead, e os Smile, curto de música de cantautores, mas não sei como é que isso vem parar à banda. Enquanto baterista, tenho andado a curtir de Sonic Youth, a ver se puxo um bocado mais power para os Manteau. Quando estudava jazz, ouvia imensos bateristas de jazz, mas assim de repente é isto. Ringo Starr acho muito underrated.  É muito bom porque compunha partes para bateria que são simples, mas muito originais, serviam mesmo bem a música. ZÉ SALGADO: Os meus têm vindo a mudar. Eu ao início, a minha razão de pegar numa guitarra aos 12 anos foi Jimi Hendrix. Para fazer bandas, os Capitão Fausto acabaram por me influenciar muito, porque eu era emigrante e então agarrava-me à minha identidade portuguesa assim. Eles influenciaram-me a querer ter uma banda. Eu tenho também um grande amigo desses circuitos, o Gonçalo Bicudo [baixista dos Ganso], portanto estive sempre próximo de poder ter uma banda. Essa malta influenciou-me. Hoje em dia já é diferente. Já tenho uma banda, e tenho ido pegar influências a outros sítios. Por exemplo, para o “Só Sei Dançar Assim”, uma banda que me influenciou muito foi os Black Country, New Road – é muito guitar-based , tem sido sempre uma grande influência na banda. E depois também gosto de cantautores, do Justin Vernon dos Bon Iver. Mais recentemente estou-me a virar para música instrumental, que não tem tanta voz. Nomeadamente, hoje sou obcecado com o Steve Reich e a música minimalista. Estou a tentar perceber como é que isso se pode aplicar no contexto de uma banda de rock, mas eu sinto que só por ter isto na minha cabeça, trago coisas deste universo para a banda. Comecei a explorar música de formas que antes não explorava. A música pode surgir de conceitos, e não só de estar a tocar e ir dizendo umas palavras. Não só de estar a experimentar coisas, pode vir de um conceito. No caso do minimalismo pode ser: uma música só vai ter um acorde, e vamos pegar aí. Entre vocês qual é que escreve mais letras? ZÉ SALGADO: Até agora, on record , sou eu. Em inglês e em francês, sou sempre eu. Por teres vivido no estrangeiro. Queria de te perguntar sobre isso – é sem dúvida um fator que vos distingue doutras bandas, como é que te chega esse processo de escreveres em três línguas? Um dia chega-te uma letra em francês, outro uma em inglês… ZÉ SALGADO: Isto começa de uma questão de identidade. Sou português, mas vivi maior parte da minha vida na Suíça, onde aprendi francês e estudei numa escola inglesa. Então é uma questão de identidade, vou usar as três línguas que eu conheço. Tento perceber o que é que a música pede. Também é muito difícil escapar o inglês, sei que muitas bandas portuguesas vão para o inglês porque a música feita assim em banda é em inglês. Por todas as influências. E é uma coisa que eu quero continuar a fazer, gosto muito disso. As diferentes línguas soam diferente, é um instrumento diferente. Falo bem as três línguas e quero usar isso. Objetivamente escrevo melhor em inglês também, eu só leio em inglês. O português tem sido um desafio, mas com o “[Só Sei] Dançar [Assim]” já há uma evolução. Há malta que não fala muito bem inglês e mais facilmente faz uma letra de porcaria em inglês. Eu quero evitar isso. JOÃO CARRIÇO: Regra geral, tentamos forçar mais o português. Eu sinto alguma responsabilidade em escrevermos em português. Alguém tem que fazer música portuguesa! Por falar em música portuguesa, em relação ao cenário musical cá, acham que tem evoluído em alguma direção? Por exemplo, o que acham da forte presença de indie na música portuguesa? É algo a alimentar, ou talvez de se afastar? ZÉ SALGADO: Em termos de artistas, tem estado a crescer acho, isso é fixe de se ver. Acho que cada vez mais abandona-se aquilo que dizia de escrever em inglês. No dia em que isso deixar de acontecer, a identidade da música portuguesa vai estar consolidada. Eu gosto de sempre fazer música que seja relevante e que mereça existir. Se for uma cópia do que já existe, não me interessa. Se calhar algumas músicas que nós fizemos não precisam de existir, mas agora fazem parte da nossa história. JOÃO CARRIÇO: O rock morreu, não é, e o punk também acho eu. Certamente é bom não estarmos todos a fazer indie, mas indie também engloba muita coisa. Cá em Portugal, que artistas é que acham que passam despercebidos, que mereça mais reconhecimento? ZÉ SALGADO: É difícil perceber onde é que é a linha que separa o reconhecimento e o não-reconhecimento. Acho que se alguém merece e quiser muito trabalhar, consegue esse reconhecimento. Eu acredito nisso. Não quero dar assim de bandeja. Também há muitas pessoas que não querem reconhecimento, reconhecimento mediático. Se temos o conhecimento de nós próprios é o mais importante. Eu achar que faço boa música interessa-me mais do que outra pessoa achar ou não. JOÃO CARRIÇO: Vem-me agora um nome à cabeça, mas confesso que me desleixo um bocado em estar atento à cena portuguesa. Fui ver os MÁQUINA. que não é propriamente a minha cena, mas gostei muito. Vi também um que é o Prétu, um rapper, foi grande concerto e achei que era tipo o Kendrick Lamar português. Há uns anos vocês abriram para os Ganso, como é que é a vossa relação com eles? ZÉ SALGADO: Nós somos muito próximos do Gonçalo Bicudo, o baixista, foi um bocado o nosso padrinho no início da banda. Produziu os nossos dois EPs e eu conheço-o desde que tenho 10 anos ou assim. Foi através dele que conseguimos meter isso a acontecer. Eles é que estão a crescer de uma forma impressionante. Abriram agora a terceira data para um concerto no B.Leza que é impressionante. JOÃO CARRIÇO: No B.Leza? Isso é louco. Acho que tirando os Capitão Fausto não há nenhuma banda a fazer isso. ZÉ SALGADO: Isso para nós é uma inspiração, e é mesmo com trabalho. O que mais me inspira do novo álbum é o trabalho, está mesmo a render, é o mais importante. Está a ter o tal merecido reconhecimento. JOÃO CARRIÇO: É o craftsmanship  deles, o artesanato, a maneira que as coisas são feitas e contruídas. Tem muito trabalho metido e isso nota-se. Em relação à vossa música, o “Só Sei Dançar Assim” que lançaram em setembro, qual é que foi a inspiração por trás das imagens e das temáticas? ZÉ SALGADO: Eu escrevi 60% ou 70% depois foi o Janito que escreveu o resto. Mas o videoclipe foi o Janito por isso devias ser tu a responder. JOÃO CARRIÇO: Acho que a música não é necessariamente sobre a infância, pelo menos inicialmente. Depois foi ganhando umas cores mais infantis, não sei. Eu sempre imaginei uma cena de baile de finalistas, não sei porquê, mas foi a imagem que meti na cabeça. Talvez de termos usado um xilofone. Acho que há ali qualquer coisa que se pode aplicar a infância, ou pelo menos a criança dentro do adulto. ZÉ SALGADO: As primeiras frases que surgiram foram o “só sei dançar assim” e o “olha só”, e foi a partir daí, do vulnerável, da insegurança, de ganhar confiança sem ter a opinião e o olhar dos outros. O “olha só” implica outra pessoa, também uma coisa interessante. Também queríamos tocar na inspiração por trás do “Funny Hand”. ZÉ SALGADO: O “Funny Hand”   sinto que vem do mesmo sítio que o “Só Sei Dançar Assim”. JOÃO CARRIÇO: É uma espécie de prequela. Foi um ato criativo espontâneo também. ZÉ SALGADO: A letra inteira saiu-me em dois minutos. Tem a ver com o ser mais fácil escrever em inglês, mas vem do mesmo sítio, da mesma pessoa. Num avião, a voltar para Portugal com a minha família, pouco depois do Covid quando toda a gente usava máscara, estava a ouvir precisamente uma música dos Black Country, New Road. O “Track X”, que está escrito em rimas AABB e estava tipo, “Bem, vou escrever aqui uma rima com isto”. Escrevi no meu telefone, olho para cima e vejo a hospedeira de bordo a inclinar-se e a tirar a máscara, portanto a primeira frase ficou “You pulled down the mask”. Passado um ano, arranjámos um tempo que estava a fluir bem e precisávamos de uma letra, e saquei a letra do “Funny Hand”. De repente funcionou muito bem. Agora em relação ao futuro, como já mencionámos, lançam o vosso primeiro álbum para o ano, o que esperam dele? O que é que nos podem contar em especial sobre o álbum? JOÃO CARRIÇO: Uma coisa que vai ser diferente é que vamos tentar gravar num estúdio profissional. Isso acho que vai fazer uma grande diferença. ZÉ SALGADO: Acho que também há um bocado aquela coisa dos Ganso, do craftsmanship ¸ nós temos a música e a partir daí é trabalhá-las assim mais ao detalhe, tanto nos arranjos como no som, a mistura em geral. Mas também nunca queremos chegar a um ponto extremo. Acho que se houver um pequeno erro na guitarra, não quero ir substituir esse mini erro. São mais os detalhes de adicionar outros instrumentos, ajustes na mistura, que requer tanto trabalho como se eu fosse corrigir o erro da guitarra. JOÃO CARRIÇO: Não sei o que é que vai acontecer no próximo álbum. Já temos algumas músicas, mas ainda podem mudar, e vão mudar. ZÉ SALGADO: Estamos numa fase de escrever as canções. Queremos chegar às 10 ou 15 músicas, para depois ir a um estúdio gravá-las. É esse o plano para o princípio de 2025. Eu acredito que um álbum não deve demorar dois anos a fazer. Especialmente numa banda como a nossa, é trabalhar. A partir de ir para o estúdio, é trabalhar. E objetivos mais a longo prazo? Algum sítio onde gostavam muito de tocar, algum alcance, meta? JOÃO CARRIÇO: Paredes de Coura! ZÉ SALGADO: Paredes do Coura é o clássico, o inevitável. Para o nosso estilo de música é um bocado tipo o Meca. JOÃO CARRIÇO: Para mim é especial também porque cresci a ir lá e foi onde conheci música nova. Para a banda acho que é o melhor festival cá em Portugal onde podíamos tocar, é uma meta fixe. ZÉ SALGADO: Nós queremos, acho que antes disso, tocar mais concertos fora de Lisboa. Isso implica tocar em salas para três pessoas, para depois no ano seguinte virem 150. É o trabalho que temos de fazer. Sinto que é fácil chegar a um certo nível onde se toca salas em Lisboa, depois o difícil é entrar no circuito nacional dos festivais. Em Lisboa, temos crescido. JOÃO CARRIÇO: Há um ano, estávamos um bocado, “Fogo, porque é que não estamos a tocar no Paredes”, e isso, mas ainda bem que não, que terrível ideia. Se fôssemos tocar ao Paredes seria péssimo, ainda não estamos lá. Ainda não merecemos. Com o álbum podem vir a merecer? JOÃO CARRIÇO: Uma coisa é o álbum, outra coisa é o concerto. Acho que podermos ir a festivais, os nossos concertos têm de ser uma cena que ainda não são, em termos de consistência. O álbum só vai ajudar, é importante. É o portefólio, mas a realidade são os concertos. ZÉ SALGADO: Hoje em dia fazem-se álbuns para tocar concertos. É fácil dizermos que podemos tocar no Paredes, mas temos de olhar para e nós e perguntar, “Podemos mesmo?”. Uma questão para vocês: O que é que sentem em relação às nossas coisas gravadas e o concerto que vocês viram? Isto aplica-se a todos os artistas, não só vocês, mas acho que prefiro muito mais ao vivo. ZÉ SALGADO: Mas sentiram alguma diferença na essência, ou na emoção? Na emoção talvez, mas viver a música eleva muito a experiência. Depois de um concerto, passo a gostar muito mais de músicas que talvez não gostava tanto. Relaciono-me muito mais por ter ouvido em concerto. ZÉ SALGADO: Pois, já se sabe de onde é que vem. JOÃO CARRIÇO: Se eu tivesse de escolher só gravar músicas ou só tocar ao vivo para o resto da minha vida, acho que para a banda pelo menos, escolhia só tocar ao vivo. Também vem um bocado do rock. ZÉ SALGADO: Eu acho que tenho um bocado mais orgulho nos nossos concertos, que as pessoas venham, do que no nosso corpo de trabalho. E gostava de poder ter um grande orgulho neste primeiro álbum. Acabando aqui com umas perguntas de resposta rápida, não precisam de elaborar: Qual o vosso álbum de eleição? JOÃO CARRIÇO: O primeiro que me vem à cabeça é o A Love Supreme , John Coltrane, um de jazz. ZÉ SALGADO: Bon Iver, Bon Iver , o   segundo álbum dos Bon Iver. Melhor concerto que já deram? JOÃO CARRIÇO e ZÉ SALGADO: Gliding Barnacles 2024! Uma música vossa underrated , que vocês achem que mereça mais atenção? ZÉ SALGADO: Diria o “Só Sei Dançar Assim”, por enquanto. Um concerto onde gostavam de ter estado? ZÉ SALGADO: Os Queen, Wembley 1985. Ou o Keith Jarrett Köln Concert. JOÃO CARRIÇO: Não sei, talvez o Woodstock. Se pudessem colaborar com algum artista, qual seria? ZÉ SALGADO: Rick Rubin. É válido! JOÃO CARRIÇO: Nós tínhamos um bocado a ideia de trabalhar com o Bruno Pernadas, podia ser interessante. ZÉ SALGADO: Também estamos sempre a imaginar trabalhar com uma voz feminina portuguesa. JOÃO CARRIÇO: Sim ainda hoje falámos da A Sul, gostei da voz e do timbre dela.

  • O Chega, Europa-EUA e força no poder. Entrevista a Tiago Moreira de Sá

    Tiago Moreira de Sá, antigo deputado do PSD, foi eleito nas eleições europeias pelo Chega, em junho deste ano. António Agulheiro, Duarte Amorim e Luís van Zeller estiveram com o atual eurodeputado para conversar sobre o seu trajeto político, a relação entre a Europa e os EUA e ainda as eleições americanas de amanhã.   Começando pelo inevitável assunto – a sua transição do PSD para o Chega. Gostaríamos de perceber a que se deveu esta mudança.   Por várias razões, de natureza ideológica, programática, estratégica, entre outras. A primeira razão consiste no facto de eu ser um homem de direita, conservador e católico. Sempre senti que faltava em Portugal um partido que se assumisse claramente, sem complexos, como tal.   Quando apareceu um partido com estas características, desde a primeira hora que senti que era ali, naquele partido, que eu devia pertencer. Antes não havia, passou a haver.   Depois, também não é segredo para ninguém, que eu sou um grande fã e admirador de André Ventura. Hoje em dia, até amigo. É um dos grandes políticos do século XXI português; é um animal político, no bom sentido, de um instinto político raro. É um político por quem eu tenho uma admiração profunda.   Senti também, há muito tempo, que nós tínhamos um problema de representação que estava a minar a democracia representativa. Uma boa parte dos eleitores, do povo, deixou de ter representação, deixou de ser representado pelos partidos tradicionais. Isso coloca um problema sério à própria democracia. E estamos a falar de muitas pessoas. O Chega teve quase 18%, porque passou a representar uma grande parte, diria uma maioria silenciosa, do povo que precisava, e passou a ter uma representação no Chega.   Isto é uma questão fundamental, porque tem a ver com a própria existência da democracia representativa. Tem de haver representantes a representar os representados. O mandato vem do povo. O povo tem de ter alguém a quem possa dar o mandato, numa relação de confiança.   Os partidos tradicionais deixaram de representar os interesses das pessoas comuns. Quem não tem poder, quem faz parte de uma minoria, quem não é rico, deixou de ter quem lhe dê voz. Isso é muito visível em Portugal, mas também na Europa e nos EUA.   Acho também que o sistema como está, não pode continuar. O sistema político – mas também a comunicação social, a justiça, etc. – precisa de uma mudança significativa, de um verdadeiro banho de ética. Hoje em dia o que nós temos é um sistema político incapaz de resolver temas como a saúde, a educação, sem suma de garantir o funcionamento do estado social em geral. Temos um Estado que se mete na vida de toda a gente, que sobrecarrega as pessoas com impostos, e que depois praticamente não dá nada em troca. Quando uma pessoa precisa do Estado, seja na educação, na saúde, no que for, o Estado não é capaz de dar nada em troca.   O contrato social que sustentava o sistema está quebrado. Nós cedemos ao Estado um bocado da nossa liberdade, e quando ele não é capaz de cumprir na questão de segurança, da imigração, no Estado social, na educação, o sistema deixa de funcionar.   Há mais razões para a minha mudança, mas não vos quero sobrecarregar.   No plano estratégico, eu não percebo como é que tendo resultado uma maioria clara de direita nas últimas eleições, como é que foi possível desperdiçar esta oportunidade única de mudar o país, em troca de um “não é não”, de uma linha vermelha, que mais não é do que comprar a conversa da esquerda.   Isto serve a esquerda, não a direita. Estamos a ser governados há quase 50 anos à esquerda e tínhamos pela primeira vez uma oportunidade de mudar significativamente as coisas com um governo de direita. Foi desperdiçado pela atual direção do PSD, que aceitou que lhe impusessem os termos em que pode agir e pensar politicamente – e eu recuso aceitar isso.   Então esta ida para o Chega não tem volta nenhuma a dar? Não há nenhuma figura do PSD que, se avançasse para presidente do partido, o fizesse repensar?   Não, ninguém, É uma decisão absolutamente irrevogável. Aliás, para mim era muito claro que o meu caminho e o de André Ventura iam-se cruzar para nunca mais separar. Isto é uma relação e um projeto para sempre.   Para além disso, para além da questão pessoal, não tenho dúvidas que houve uma transformação sistémica no sistema partidário português.   Deixou de ser bipartidário, isso veio para ficar. O Chega é um partido que continuará a crescer. Tem uma base social de apoio muito alargada e significativa, que veio para ficar. E não é só um fenómeno português, vemos isto em toda a Europa e no mundo ocidental. Os partidos com os genes do Chega, os partidos de direita popular, como eu gosto de dizer, estão a crescer em todo o lado. É algo estrutural.   Não tenho dúvidas nenhumas que é deste lado que eu quero estar. É uma decisão irrevogável.   Como é que avalia estes primeiros oito meses de Luís Montenegro e do governo da AD? Qual é o balanço que faz?   Acho que é demasiado parecido com o anterior – o que diz muito. O que este governo tem feito é o que em larga medida fazia o anterior.   Tem prometido tudo a todos, fingido que dá tudo a todos, ainda promete baixar impostos e fazer uma nova ponte sobre o Tejo e um novo aeroporto e TGV – pura e simplesmente isto não existe. Nós não temos condições em Portugal para tudo isto.   Infelizmente, isto é uma consequência estrutural – e previsível – da estratégia de “não é não” e de “linhas vermelhas” do atual Primeiro-Ministro. A consequência prática do erro de recusar uma aliança à direita foi ficar dependente da esquerda para governar – e a esquerda agradece aplicando a sua agenda e as suas políticas de sempre e que nos conduziram a este estado de coisas.   O que se espera de um governo de direita é: contas em ordem, capacidade de fazer reformas significativas nas áreas fundamentais de governação; redução do peso do Estado na vida geral das pessoas; baixa de impostos de uma forma sustentada; defesa da família, do direito à vida, da demografia; combate à imigração ilegal e desordenada – e nada disso tenho visto neste governo.   Este governo, tal como o anterior, pensa que governar é prometer tudo a todos. Isso não é governar. Nós estamos numa altura em que é absolutamente crucial ter um governo verdadeiramente reformista, o mundo está a mudar a uma velocidade aceleradíssima. Estivemos 8 anos parados com os governos socialistas. Como diz o livro, Alice no País das Maravilhas , “Estar parado significa andar para trás”. As coisas no mundo funcionam a uma velocidade brutal. Com os governos socialistas, andámos para trás, e agora, como disse, desperdiçámos uma oportunidade única de ter um governo verdadeiramente à direita.   Na verdade, temos um governo que está permanentemente em campanha eleitoral. Não só não está a fazer as reformas que o país precisa, como está a desbaratar aquilo que é uma das imagens da direita, que é a ideia do rigor das contas públicas.   Para além disso, acho que ficou visível neste orçamento que continua a existir na governação um bloco central. Não é por acaso que o PS aprova o orçamento da AD. Estou convencido que o próprio Pedro Nuno Santos não teria aprovado, mas a pressão foi tal do sistema que viu-se obrigado a aprovar.   Acho que isso diz muito sobre o que pouco distingue um governo do outro. E é pena porque de facto o país precisa de uma grande mudança, e nota-se a insatisfação das pessoas, com muita razão.   O que é que o leva a crer que o Chega teria essa capacidade reformista, se chegar o dia de poder mostrar que tem?   Desde logo pela sua própria natureza, é um partido verdadeiramente antissistema e isso é bom. É um partido que não se revê na forma como o sistema funciona - neste caso, como não funciona. Quem está comprometido com o sistema, quem de alguma maneira faz parte dos “privilégios” do sistema nunca muda nada. Ao longo da história, nunca ninguém que beneficiou de um sistema foi capaz de o mudar. A grande mudança tem de vir de quem nasce de fora do sistema.   Em segundo lugar, sei bastante bem o que o Chega pensa nas várias áreas e na diferença muito grande que existe em relação à atual governação. Desde logo, na questão do peso relativo que existe entre o indivíduo, a família e o Estado. Atualmente, nós temos o Estado no centro de todas as coisas. O individuo e a família é que devem ser o centro de todas as coisas – esse é o princípio da liberdade individual. Como dizia anteriormente, o Estado só deve existir quando é estritamente necessário em nome de um bem comum superior. O que nós temos hoje em dia não é isso, mesmo dentro de nossa casa encontramos o Estado à frente. O Chega é um partido economicamente liberal e socialmente conservador.   Depois, acredito que a governação tem uma dimensão fundamental de valores e ela para nós é muito importante. Defendemos os valores conservadores fundamentais da família, da natalidade, do direito à vida, da soberania e identidade nacional, a não cedência ao wokismo e às causas identitárias. É a luta contra essa agenda da esquerda que vem dominar o pensamento, infelizmente, até da própria direita que é preciso combater.   Temos também a questão das grandes bandeiras que nós trouxemos para o centro do debate político e da ação política. A questão do combate à imigração ilegal e descontrolada que em Portugal já se começa a sentir de forma significativa, com grande incidência nos últimos três/quatro anos e que lá fora, em países como Itália, França, Bélgica, Suécia, entre outros, está a atingir posições dramáticas: e este será o nosso futuro se não fizermos nada. A questão do combate à corrupção; a questão da segurança, que agora bem se viu nos acontecimentos mais recentes e que nós temos vindo a alertar há muito tempo.   Fomos nós que introduzimos estes temas fundamentais no debate e fomos acusados de ser radicais. Agora, muitos têm vindo a começar a falar destes problemas. São problemas reais e da vida das pessoas.   Portanto, há um conjunto de causas e valores. Acima de tudo, reforço o facto de ser um partido antissistema, com vontade e capacidade de mudar o sistema e que tem uma visão diferente do contrato social, isto é, da relação que se estabelece entre o indivíduo, as famílias, a sociedade e o Estado. Neste momento temos o Estado acima de tudo e, depois, temos tudo resto a funcionar em função do Estado. Nós pensamos exatamente o contrário: no centro tem de estar o indivíduo, a liberdade individual, a família, depois a sociedade e depois o Estado.   Há uma série de razões que justificam a diferença que o Chega vem representar.   Acha que o podemos ver, um dia, a ser um protagonista do Chega, cá em Portugal?   Eu acabei de ser eleito para o Parlamento Europeu. A minha área é a das relações internacionais, da política externa, por isso, o que eu me vejo a fazer é estar nesta área internacional. Neste momento acabei de assumir este mandato europeu muito entusiasmante.   É um grande desafio. O Parlamento Europeu tem uma dimensão incomparavelmente maior do que Parlamento português e, cada vez mais, goste-se ou não, as coisas passam pela Europa, havendo cada vez menos verdadeiras soluções exclusivamente nacionais. Embora tenha de haver mais soluções nacionais do que tem havido.   Nós somos europeístas, mas temos uma visão diferente da Europa e estou convencido de que a nossa visão é a única que pode salvar o projeto de integração europeia. Querendo nós que os Estados tenham maior capacidade para defender por si próprios o seu interesse nacional, também temos que reconhecer que, cada vez mais, as soluções passam também pela Europa e, num mundo que se encaminha para a multipolaridade, provavelmente organizada sob a forma de grandes espaços – o espaço americano, o espaço chinês e eventualmente, o indiano – vamos ter de conseguir conjugar as duas coisas.   No Parlamento Europeu podemos servir muito o nosso país e, por isso, nos próximos cinco anos, eu vejo-me a fazer, com um grande entusiasmo e com cada vez mais conhecimento, o que estou a fazer agora.   Pegando precisamente nessa importância que diz que a Europa tem, quem tem mais relevância nas vidas dos portugueses? É o eurodeputado Tiago Moreira de Sá, ou é o deputado nacional Bruno Nunes, por exemplo?   Não é um ou outro, não é algo binário. Cada um tem a sua área de luta. O deputado nacional toma uma série de decisões que têm um impacto muito direto na vida das pessoas. O deputado nacional tem uma enorme importância.   Apesar de estarmos a assistir aquilo que o Professor Adriano Moreira chamava “o presidencialismo do primeiro-ministro” e, de alguma maneira, os partidos do sistema foram esvaziando um bocadinho o Parlamento, sobretudo quando há um governo de maioria absoluta como aconteceu  no mandato passado, o Parlamento continua a ter muita importância e toma um conjunto de decisões que têm um impacto muito direto na vida dos portugueses, seja a nível económico, seja a nível social, seja a nível ate dos valores. Lembro-me de, na minha altura [enquanto deputado nacional], debatermos questões, como a questão da eutanásia, que a nível de valores, tem um impacto enorme na vida das pessoas.   Mas, também é verdade, que grande parte das decisões importantes para os países passa pela Europa e, nós temos de tomar um conjunto de decisões fundamentais. Nós, Europa, passados quase oitenta anos, voltámos a viver no mundo da guerra. Robert Kagan dizia que os europeus eram de Vénus (Deus do amor) e que os americanos eram de Marte (Deus da guerra), agora nós voltámos a viver no mundo de Marte e isso implica tomar um conjunto de decisões, desde logo ao nível da segurança e da defesa europeia. A defesa deve ser de competência nacional, mas é inevitável que também haja soluções europeias para fazer face ao mundo da guerra.   O projeto de integração europeia, ao longo de várias décadas, tem sido, no essencial, bom para os Estados e bom para o seu interesse nacional. É por isso que ele continua a existir. Os Estados são livres de sair, como foi o caso do Brexit , logo se decidem não sair é porque consideram que é do seu interesse. No entanto, em tese, a transferência de soberania não é uma coisa boa – é uma coisa que os Estados fazem quando têm mais a ganhar com isso do que a perder.   O princípio deve ser os Estados terem, em si mesmos, os instrumentos para defender os seus interesses nacionais, porque, se Portugal não defender os seus interesses, não vai ser, por exemplo, um alemão a defendê-los. Quando consideram que ganham mais em partilhar soberania do que em mantê-la, então aí decidem partilhar, como é o caso da moeda única. Apesar das dificuldades que a moeda única coloca a economias como à nossa, os Estados consideram que é do seu interesse.   Nós somos realistas e soberanistas e, numa visão tipicamente realista, os Estados defendem melhor os seus interesses do que os outros.   Dito isto, nós temos de reconhecer que há um conjunto de grandes decisões que os Estados já não têm força suficiente para tomar sozinhos, por exemplo, a nível económico e, então, acabam por ser decisões tomadas a nível europeu. Era impossível combater a crise do euro, ou a pandemia, ou as grandes catástrofes naturais de forma completamente nacional. Há um conjunto de assuntos em que a Europa tem um grande impacto, até porque grande parte da legislação europeia é incorporada na legislação nacional.   É impossível não deixar de falar dos Estados Unidos da América. Sem olhar a eleições e a partidos, de um modo geral, qual é a influência, atualmente, que a América tem na Europa?   É uma influência enorme e crucial e para Portugal é uma relação essencial pela geografia.   A relação entre a Europa e os EUA tem vários momentos históricos. Pelo menos, a partir das duas guerras mundiais, a segurança e a sobrevivência dos europeus e dos americanos cruzam-se, o que dura até aos dias de hoje. Goste ou não se goste, a Europa ainda é dependente dos EUA para garantir a sua segurança, sobretudo pelo “guarda-chuva” nuclear americano. E aquilo que nós nunca poderemos abdicar é a segurança e a sobrevivência.   Por isso, é do nosso interesse fundamental ter uma boa relação com os EUA, seja quem for o presidente norte-americano, e é assim que tem sido durante todo este tempo, com os presidentes mais diferentes entre si.   Para além disso, a Europa e os EUA partilham um conjunto de valores. Uma identidade de regimes, a democracia, uma mesma conceção de liberdade, uma relação de Estado e direito, de separação de poderes, de checks and balances.  Por isto também, esta relação tem sido crucial e deve continuar a ser.   No entanto, também é do interesse da Europa deixar de depender tanto como depende dos EUA, nomeadamente em termos de defesa. Não podemos continuar a depender dos EUA para tudo e mais alguma coisa, embora o princípio da nossa defesa comum deva sempre ter no centro a Aliança Atlântica, que é absolutamente fundamental. A NATO é o instrumento crucial desta aliança, não é por acaso Portugal, mesmo num regime de Estado Novo, aceitou algo tão revolucionário como fazer parte de uma aliança militar permanente como um artigo - o quinto - que diz que um ataque contra um é um ataque contra todos.   Já não vou tão longe como o Professor Borges Macedo que diz que a nossa tradição é uma tradição de neutralidade, porque isso é discutível, mas nunca tínhamos feito parte de uma aliança militar permanente desta natureza, isto porque o Atlântico é fundamental para nós.   E agora tirando o véu de ignorância e focando-se nesta eleição que está à porta. Se não estou em erro, corrija-me se estiver, votaria em Donald Trump, caso pudesse votar ...   Não faz sentido responder. Sou português, não sou americano. Compete exclusivamente aos americanos escolherem quem querem para seu Presidente e nós temos de respeitar isso. Não escondo que vejo com muita preocupação a atual fraqueza e – perceção de fraqueza – internacional da América. Com consequências para a segurança de todo o mundo ocidental, incluindo Portugal e a Europa.   Há muita gente, ao centro-direita, e não só, que tipicamente votaria ou apoiaria o candidato republicano, mas que não o faz agora apelando, precisamente, a razões europeias; que Trump é um perigo para a Europa, ouve-se muito isto, que a Europa tem de temer a eleição de Trump. Portanto como eurodeputado, tem naturalmente uma preocupação enorme com a Europa, mas acha que Trump é o melhor para a Europa. Porquê?   Vamos lá ver. O debate em Portugal sobre a política norte-americana está muito enviesado, faltando um pouco de honestidade intelectual e perspetiva histórica. Quem conhece - e eu conheço a política americana desde 1776 - muitas das coisas de que se falam agora já aconteceram igual ou pior no passado.   Por exemplo, fala-se que esta eleição é muito violenta. Mas a eleição que toda a gente elogia, e bem, a de 1800 entre o Jefferson e o Adams, foi de uma violência enorme. Já para não falar na eleição de 2016, entre Trump e Hillary Clinton.   A história é fundamental e dá perspetiva, mas eu não quero fugir à pergunta. Por falta de conhecimento da história política norte-americana, ou por viés ideológico, ou por desonestidade intelectual, o debate cá está, quanto a mim, comprometido à partida. E com muita emoção. Nós temos de ser frios e não ter emoções, nós somos portugueses, não somos americanos, não temos de ter candidatos.   O que é que nós temos de objetivo, de concreto? Temos a presidência Trump durante quatro anos, temos as campanhas eleitorais e temos aquilo que foi sendo dito ao longo do tempo. Em termos concreto, no que diz respeito à política externa a Presidência Trump até não foi má.   Foi o primeiro a ter uma política que faz sentido em relação à China. Nós temos de lidar com a China em termos de contenção e dissuasão. Não numa lógica de Guerra Fria, mas numa lógica de interesses antagónicos e concorrenciais. Nós temos de defender os nossos interesses muitas vezes em confronto com eles. E Donald Trump foi o primeiro a ter uma política nesse sentido.   E eu confesso que tenho muitas dúvidas que com uma presidência Trump, pela força e até pela imprevisibilidade dele, que a Rússia tivesse invadido a Ucrânia ou que o Irão e o Hamas se achassem livres para fazer o que estão a fazer no Médio Oriente, ou a Coreia do Norte para escalar na Península da Coreia, ou mesmo a China na questão de Taiwan. A força é o segredo das relações internacionais e Trump é um líder forte.   Quanto à questão europeia?   Eu sou um realista. O presidente dos Estados Unidos deve defender os interesses da América, os líderes europeus devem defender os interesses dos europeus, os líderes de Portugal devem defender os interesses de Portugal. E independentemente do que se pense de Donald Trump, o que tem falhado é a capacidade de os líderes europeus defenderem os seus próprios interesses. E isso vê-se na enorme dependência da Europa em relação aos Estados Unidos em matéria de defesa.   Por isso, se calhar, o que nós precisávamos era de, em vez de passarmos a vida a queixar-nos dos presidentes norte-americanos, que não nos dizem respeito, fazermos a nossa parte como deve ser, e aí não estaríamos tão preocupados em saber quem seria o presidente norte-americano.   Na questão fundamental da NATO, seja ou não seja essa a intenção, a verdade é que Trump acabou por fazer um favor aos europeus (e isto já vem desde o tempo do Obama: o Acordo de Gales é de 2014). E tem razão, os europeus têm que suportar um pouco mais o custo da sua defesa e da defesa comum no âmbito da NATO.   Até porque há uma coisa que qualquer presidente norte-americano tem de reconhecer: que os americanos se cansaram de pagar o custo da ordem internacional liberal saída da Segunda Guerra Mundial. O eleitorado americano cansou-se disso e nenhum presidente pode deixar de estar em sintonia com o seu povo.   Quando os líderes europeus não se inibem de comentar a política norte-americana, não se inibem de dizer de Donald Trump o que dizem, é natural que a relação no dia seguinte esteja inquinada, mas isso é culpa das duas partes.   Os asiáticos não fizeram isso. Os japoneses e os sul-coreanos a primeira coisa que fizeram em 2016, a seguir à eleição de Trump, foi ir a Mar-a-Lago conversar com Trump e chegar a acordo, tendo ele deixado de dizer mal deles. Trump é um homem de negócios e nós temos de saber lidar com ele.   O que nós devíamos estar a preparar era não só sermos menos dependentes, mas uma forma de nos relacionarmos com Trump (caso seja eleito) de maneira a que ele defenda os interesses da América, que é o que lhe compete, e nós defendamos os interesses da Europa, que é o que nos compete.   O que eu estou preocupado não é com o presidente norte-americano e o seu impacto na Europa. Estou preocupado é com os líderes europeus e o seu impacto na Europa.   Para mim não há nada mais perigoso para a Europa do que esta fraqueza e esta imagem de fraqueza internacional dos Estados Unidos da América neste momento. E isto vê-se em todo o lado: na Ucrânia, no Médio Oriente, em Gaza, na Península da Coreia.   E agora falando um pouco de Kamala. Disse que o segredo das relações internacionais é a força, acha que esta fraqueza não seria curada com Kamala?   Não, acho que ainda é pior. Joe Biden, não sendo fraco, acabou por ser um Presidente ligado a uma imagem de fraqueza, desde, pelo menos, os acontecimentos da saída do Afeganistão.   E também pela evidente diminuição das suas capacidades físicas e intelectuais. Acabou num grande estado de fraqueza. Tanto que foi afastado. Mas era muito experiente! Joe Biden está há cinquenta anos como Senador na área das relações internacionais, tem quase mais tempo como Senador do que eu tenho de vida. Portanto, era muito experiente e era um homem da Guerra Fria, que percebe este mundo de que estamos aqui a falar. Um mundo em que a força é absolutamente fundamental, o hard power .   Ele era experiente. Kamala Harris é fraca, inexperiente e vem de uma tradição de política externa pacifista (ao contrário de Biden, que, como já disse, era um homem da Guerra Fria, era um falcão, tendo apoiado as intervenções militares americanas quase todos desde a Segunda Guerra Mundial). E essa tradição é perigosíssima, a mais perigosa de todas a meu ver. Porque para além de enfraquecer o país, parte de uma visão do mundo que não existe. Que é um mundo como eles queriam que ele fosse e não um mundo como ele é. E nós vemos como é que isso acabou, por exemplo, no período pré-Primeira Guerra Mundial ou no período entre guerras.   Estou absolutamente convencido de que, independentemente do que pensamos de um e de outro (Kamala e Trump), para o mundo ocidental a coisa mais perigosa que há é esta fraqueza do líder do mundo ocidental, que são os EUA.   Tocando num tópico mais à parte, Viktor Orbán é uma figura muito importante na sua família política, Patriots for Europe, que aparenta ter uma relação mais chegada a Putin. Sendo o Professor abertamente pró-Ucrânia, isto não lhe faz alguma confusão?   Não! Isso é mais um mito criado pela esquerda, e que infelizmente alguma direita vai reproduzindo.   A Hungria é um país que tem uma história, uma geografia, uma economia, uma geopolítica, uma política energética, muito particular. Portugal é completamente diferente. A Hungria está localizada perto da Rússia, fez parte do bloco soviético, tem uma economia muito dependente da Rússia. E tem de ser capaz de gerir isto.   Portugal é o contrário, como falámos há bocado. Está no extremo ocidental da Europa, virado para o Atlântico. A nossa relação fundamental é com o Atlântico, com os EUA; a Rússia está longe, nem a nossa economia, nem energia, dependem da Rússia, etc.   Por isso, da mesma maneira que eu, enquanto português, defendo os interesses de Portugal, defendo uma determinada política externa portuguesa, inclusive na questão da Ucrânia, Viktor Orbán tem de pensar nos interesses da Hungria.  E isso obriga a gerir a questão com uma flexibilidade maior.   Quando nós passamos das palavras para os atos, vemos que a Europa tem apoiado a Ucrânia maciçamente desde a primeira hora, quer do ponto visto económico, quer do militar. Ora, se a Hungria quisesse, isto não teria acontecido, porque estas são áreas de unanimidade. Podia ter vetado, não vetou, por alguma razão não vetou.   O mesmo no âmbito da NATO, a Hungria se quisesse podia vetar. Mais, Europa e os EUA impuseram sanções muito significativas à Rússia; se a Hungria quisesse podia ter vetado, que também são matérias de unanimidade.   Fala-se muito da visita de Orbán à Rússia, mas primeiro foi a Ucrânia, a Kiev. Estes gestos têm significado. E também não foi só ele. Emmanuel Macron não se fartou de ir à Rússia? António Guterres na Cimeira dos BRIC, a Alemanha de Angela Merkel, etc.   Dá jeito atacar Orbán, mas na verdade não é por nenhuma destas razões. Isto é aquilo que a esquerda quer fazer crer. A esquerda tem esta capacidade de reinventar a história e até de transformar os seus assassinos em heróis românticos. E a direita vai atrás.   A razão principal porque atacam Orbán é porque é antissistema. Ele que mudar a Europa, quer mudar o sistema europeu, que acabar com os privilégios de muitos que vivem à conta do sistema há décadas. Estes perceberam que uma maneira de o atacar era colá-lo à Rússia, fazendo tábua rasa daquilo de que estávamos a falar: a história, a geografia, a economia, a segurança – e dos factos!   Acrescento ainda que nós fazemos parte de uma família política que é soberanista e nacionalista, ou patriota (prefiro patriota, por causa da história). Nesta família política, cada um responde por si. Eu não falo pelos húngaros, falo por Portugal e pelos portugueses, acho que essa e a minha obrigação. Devemos manter este princípio: cada um representa o seu povo e preocupa-se com os seus interesses dos seus países.   O que é que se pode, ou não, esperar da Ucrânia com Trump?   É uma boa questão. Nós temos que, por um lado, ter a capacidade de perceber que as relações internacionais são essencialmente relações de força, portanto, nós não podemos ser colocados na Ucrânia numa posição de fraqueza e isso implica apoiar Kiev.   Basta abrir os livros de história para perceber a importância de estar numa posição de força (e não de fraqueza) e para entender que temos de apoiar a Ucrânia para impedir que a Rússia se sinta confiante para continuar a avançar pelos espaço pós-soviético.   Mas tem de se ter presente que a Guerra não é um fim em si mesmo e que a nossa finalidade deve ser sempre a paz. Por isso precisamos de um plano para a paz, sim, mas tem de ser baseado no conceito de “paz pela força”. Um plano de paz que implique uma cedência à Rússia é péssimo, é um convite para que a Rússia não pare. Um acordo de paz numa posição de força que mantém a integridade territorial e a soberania da Ucrânia, é o ideal, é o que toda a gente quer.   É nisso que consiste o plano de paz Trump/Vance. Ele é muito mais elaborado do que tem sido dito aqui na Europa. Pressupõe a criação de um contexto negocial a partir de uma posição de força que permita uma paz que não seja imposta pelos termos russos, mas que seja nos termos preferenciais dos interesses do mundo ocidental. É por isso que ele defende, antes mesmo da negociação de paz, que as capacidades militares dos países da NATO que fazem fronteira com a Rússia sejam reforçadas significativamente, para negociar numa posição de força. Se é exequível, ou não, é outra questão. Essa é que é a grande questão.   Mas que a forma deve ser paz pela força, não tenho a mais pequena dúvida, porque é sempre assim. Portanto, a proposta de Trump e Vance é mais elaborada do que se diz e fala da manutenção da integridade territorial da Ucrânia.   Tudo somado, é preciso dizer que é do nosso interesse – desde logo da Europa – continuar a apoiar a Ucrânia.

  • Versos Inconjuntos I

    Pensamentos dispersos do quotidiano. Seleções de versos soltos, contemplados por diferentes autores. Vejo as tuas saliências e entusiasmo-me, Por entre o teu nevoeiro tranquilizo-me, Cheiro-te e tudo ganha mais senso, É a ti, alta Serra de Sintra, que pertenço // Esteja onde estiver, o mar salgado que me toca faz-me sentir em casa. É sempre o mesmo. // As nuvens amontoam-se, afrontam-se, desfilam, dissipam-se e fingem. Rosadas, fingem tornarem-se pequenas, Quando na verdade, eu, que me limito a um teto impenetrável, Eu, que gigante me percepciono, subo aos telhados, minúsculo debaixo delas. // Que venha a luz do Outono E a paz do Inverno, Para que tudo passe. // E que fizemos nós para merecer o céu e as estrelas, O teu olhar, E tudo o resto?   // Tenho a cabeça enfraquecida e em chamas. Mas se a vejo… na realidade ou na imaginação, sejam estes termos o que sejam, produzo um leve e meigo sorriso, que exprime todos os sentimentos do mundo. // O sorriso que veem não é meu. Não passa de uma máscara que evita perguntas. Porque, por cada pergunta que façam, Pensarei ainda mais em ti. // A sós deambulo Pelas sombras dos meus pensamentos, Encurralado e derrotado Pela amiga minha à qual chamam Consciência. // Vagos e impessoais têm andado os meus pensamentos, Quando penso neles, fogem-me, Quando fujo deles, penso-os. ~ Luís Rau Silva, João Vilhena Baptista, Luís van Zeller

  • O que nos espera em 2024?

    O ano 2023 teve um pouco de tudo. Desde, a nível nacional, uma dissolução do Parlamento à Jornada Mundial de Juventude, como, a nível global, o crescimento contínuo e controverso da Inteligência Artificial a artistas e filmes que abalaram as bilheteiras e as nossas expetativas. No entanto, tudo indica que o ano que vem terá ainda mais. POLÍTICA 2024 será um ano interessantíssimo politicamente a nível nacional e internacional.   Em Portugal, teremos as eleições legislativas  no dia 10 de Março. Tendo em conta as sondagens e os cenários possíveis de governação, realçaremos três cenários.   Pedro Nuno Santos ganha as eleições e forma uma nova geringonça de esquerda, com maioria absoluta. A AD ganha as eleições e, com a Iniciativa Liberal, obtém maioria absoluta de centro-direita. A AD ganha as eleições e precisa da IL e do Chega para aprovar o programa de governo.   As sondagens apontam para o terceiro cenário, o que, provavelmente, levará Portugal a novas eleições, tendo em conta as declarações de André Ventura.   A nível internacional, em 2024, mais de dois mil milhões de pessoas, em cerca de 50 países irão às urnas votar.   Destaco as eleições no Taiwan em janeiro e as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em novembro.   O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, está a preparar as forças militares para uma invasão a Taiwan em 2027. O futuro da ilha é incerto e uma invasão chinesa pode dar origem a uma guerra com os Estados Unidos. A forma de lidar com este conflito depende, evidentemente, das estratégias adoptadas por Taiwan e pelos EUA. Por isso, estas eleições serão relevantes e poderão definir um futuro mais instável a nível mundial.   CINEMA É importante referir, antes de mais, que muitos filmes foram adiados devido às tão divulgadas greves em Hollywood  – meses históricos de 2023.   Depois do ano que passou, que viu o lançamento de Oppenheimer  e Barbie , o panorama cinematográfico aguarda mais uma variedade de filmes que estão para vir, prometendo uma combinação de géneros, estilos e narrativas. Mas parece que no mundo do cinema, 2024 será o ano das sequelas.   Desde já, em março, será lançado o tão esperado Duna: Parte Dois , a dramática adaptação de Denis Villeneuve, tentando seguramente alcançar o triunfo da primeira parte que ganhou seis Oscars . Estreiam-se também as sequelas dos filmes Joker  (2019) e O Gladiador  (2000), com o regresso do protagonista e do realizador do controverso Napoleão  (2023) – Joaquin Phoenix em Joker: Folie à Dieux  (outubro) e Sir Ridley Scott em O Gladiador 2  (novembro). No universo dos filmes de animação, chegarão aos cinemas o O Panda do Kung Fu 4  (março), Divertida-Mente 2  (junho) e Gru – O Maldisposto 4  (julho), procurando o mesmo sucesso que os seus respetivos antecessores.   Apresentam-se ainda duas biopics  de grande interesse – serão representadas as vidas dos músicos Amy Winehouse em Back to Black  (maio) e Bob Marley em One Love: The Bob Marley Story  (fevereiro).   DESPORTO Também a nível desportivo, 2024 será um ano de grande interesse. Destaco três principais eventos: um nacional, um europeu e outro mundial.   Por cá advinha-se um campeonato como há muito não se via, disputado a três. Chegamos a 2024 com os três grandes, primeiros três classificados, separados por apenas três pontos. O Sporting segue na frente com 37 pontos, seguido do Benfica com 36 e atrás o Porto com 34 pontos. Não há memória recente de campeonatos disputados pelos três até ao fim. Esperemos que este ano assim aconteça, só tem a acrescentar ao nosso futebol.   2024 é ano de europeu em futebol, competição especial para qualquer português desde 2016. Ainda mais numa altura em que a seleção nacional vive uma era de sonho, tendo ganho todas as partidas que disputou desde a chegada do novo selecionador. Portugal tem, por isso, todas as razões para poder sonhar.   Dia 26 de Julho marca o arranque dos Jogos Olímpicos 2024, de regresso a Paris. Este é um evento que entretém qualquer pessoa, goste-se mais do desporto x ou y, há lugar para todos os gostos e feitios. É inevitável não passar umas quantas horas em frente à televisão nestes dias.   MÚSICA 2024 não deixará a tradição festivaleira, já muito marcada em Portugal, ficar para trás. Nos dias 6, 7 e 8 de junho teremos o primeiro grande festival do ano, o Primavera Sound , no Porto, que já conta com artistas como Lana Del Rey e Tiago Bettencourt.   O Rock in Rio , que este ano decorrerá no novo Parque Tejo, vai receber, nos dias 15, 16, 22 e 23 de junho, famosos artistas internacionais e nacionais como Ed Sheeran, Camila Cabello e os Xutos e Pontapés.   O colossal NOS Alive já entra neste novo ano com nomes como Dua Lipa e Pearl Jam, banda que, com a música “Alive”, deu na 1.ª edição, em 2007, o nome ao festival. Como sempre, será realizado no Passeio Marítimo de Algés, entre 11 e 13 de julho.   Ainda em julho, dar-se-á o Super Bock Super Rock , de 18 a 20, no Meco, com a presença de Måneskin, a banda por trás do hit “Beggin’”, e o MEO Marés Vivas em Vila Nova de Gaia, de 19 a 21.   Já em agosto, teremos o MEO Sudoeste de 7 a 10, na Zambujeira do Mar, e o Vodafone Paredes de Coura , de 14 a 17.   Por fim, a fechar a época, entre 29 e 31 de agosto, irá realizar-se o muito recente, mas promissor, MEO Kalorama no Parque da Bela Vista, com Sam Smith, Jungle, Peggy Gou, e mais.   Para que não fiquem gostos por agradar, haverá ainda uma série de artistas a dar concertos, tal como Laura Pausini, The 1975, Capitão Fausto com um novo álbum em breve, Slow J, Depeche Mode, Hans Zimmer, o compositor da música de tantos filmes que conhecemos, Vanessa da Mata, J Balvin, Olivia Rodrigo, Simple Minds, Bárbara Tinoco, o compositor André Rieu, entre tantos outros músicos nacionais e internacionais.   Destacamos ainda os concertos nos dias 24 e 25 de maio, no Estádio da Luz, de Taylor Swift, a artista mais popular de 2023. Sem dúvida, 2024 será um ano que não desapontará Portugal em termos musicais, tendo em conta os artistas que já foram, e aqueles que ainda serão, anunciados para festivais e concertos.

  • Fugir de mim / Reter-me em nós

    Cheguei à conclusão que não quero mais ter amigos. Não quero; não preciso. São-me absolutamente dispensáveis, tal como dezenas, centenas e milhares de coisas da minha vida.  Cansei-me desta vivência verdadeira de os ter a meu lado, exigindo que seja o que sou, nem aquém, nem além. Se hoje me perguntares o porquê de todo este desabafo, respondo-te somente desta forma: cansei-me de ter amigos. Basta. Infelizmente, tenho muitos amigos: tenho-os como o sustentáculo que atrai a impossibilidade de me continuar a enganar a mim próprio, de continuar a dizer, a mim mesmo, que sou tudo e mais alguma coisa, quando não sou nada, nem um mísero nada. Infelizmente, tenho amigos que me dizem quando erro e ainda quando acerto. Infelizmente, tenho amigos que constroem o que sou, quando eu ando há dias, há meses, há anos, a tentar fugir de tudo isso. Infelizmente tenho amigos que me obrigam a ser melhor, com eles e comigo. Que altivez, que superioridade moral aberrante! Como é que é possível que ninguém perceba que o meu errar não é errante, mas sim certeza, escapatória em vista a um irreal com desejos de realidade? Tudo o que faço não são manifestações da minha identidade, mas da minha tentativa de a eliminar, de a tornar numa anti-identidade . Deixem-me construir uma narrativa idílica do que não sou, dizer-me o melhor dos homens e o rei de todos os castelos de areia deste mundo! Deixem-me propagar aos sete ventos a honestidade desonesta de ser quem quero ser, mas efetivamente não sou! Mas não… Os meus amigos fazem-me relembrar que não posso ser isso, porque o que sou é o que sou e não posso não ser eu. Como podem eles gostar de algo, quando esse mesmo algo se abomina a si mesmo? Todos me faziam um favor, se me deixassem ser o que não sou; se me deixassem viver a vida na ilusão de ser outro que não eu mesmo. Libertavam-me do peso que é estar obrigado a ser o que o homem é, quando nunca o pediu, nunca o desejou e jamais o desejaria. Mas afinal e no final das contas, estes sujeitos que se dizem meus amigos, sê-lo-ão, ou não passarão de meros inimigos? A verdade nua e crua é que me cansei de ter amigos. Por hoje e a partir de hoje, chega de amigos: deixem-me estar miseravelmente resoluto, nesta decisão de ser tudo o que não sou. Pois, só na constância da fuga a mim mesmo é que posso perceber o quão crápula e deselegante eu sou realmente. Só me vendo na dispersão de mim, é que posso objetivamente odiar-me. E mesmo assim, enquanto vou fugindo de mim, todos os meus amigos me relembram do que deixei para trás, como se de um crime se tratasse fugir da carga que me assola. Não há como seguir nesta narrativa que inventei, pois a caneta com que me vou escrevendo está constantemente a ser roubada das minhas mãos, para que jamais me deixem dizer as falsas verdades acerca de mim mesmo. E mesmo assim, sendo o pior homem de todos os homens, a besta das bestas, há algo que continua a perseguir-me e a fazer com que jamais me esqueça da verdade que em mim habita. Como um mísero recluso das galés, encareceram-me na prisão de ser eu e só eu. Odeio-me odiando-me e odeio-me na incapacidade de não poder ser um se não eu mesmo. Mas mesmo assim, os meus amigos continuam aqui, terminantemente comprometidos em demover-me do sonho de algo mais que não eu mesmo. Mesmo odiando-me a mim, eles são capazes de me amar: pelo que sou, não por aquilo que não serei. Por mais que as pulsões de evasão e de migrar para um outro me dominem, os meus amigos persistem na estabilidade ontológica do eu, como se fossem guardiões indesejados de uma verdade, da minha verdade. E é essa insistência deles que me enerva: não me deixam mergulhar no conforto da ilusão, não me permitem viver na pele de alguém que não sou, no manto de um Imperador de um Império sem terras. Talvez seja isso o que mais me assusta. Talvez, afinal, essas amizades, que tantas vezes me parecem uma prisão, sejam a única coisa que me mantém são, mesmo quando tudo em mim grita por evasão. No meio do berrar da minha alma, os meus amigos emprestam-me silêncio e põem fim à tempestade que destrói os barcos no alto dos oceanos… Apesar de tudo o que sou e insisto não ser, ainda tenho os meus amigos. Talvez não seja assim tão mau. Mesmo sendo um homo horribilis , ainda tenho os meus amigos…

  • O PS e o PSD precisam de outra oportunidade

    O OE para 2025 só é aprovado se o PSD reunir o apoio do PS ou do Chega. Nenhuma destas possibilidades teria qualquer contributo positivo para além de permitir ao país mais uns meses de estabilidade. Isto aplica-se a todos os partidos envolvidos. No entanto, na quinta-feira, Pedro Nuno Santos indicou que os deputados do PS vão-se abster quando o OE for votado. O líder socialista apontou também que não há um compromisso com o Governo, apenas com os portugueses. Se este OE for de facto aprovado, não vai corresponder certamente ao que foi prometido aos portugueses que votaram no PS e no PSD.   Também nenhum destes partidos seria recompensado eleitoralmente depois de se apresentarem como coautores deste OE. Em 1999, depois do PSD de Marcelo Rebelo Sousa ter deixado passar todos os OE do primeiro governo de António Guterres, o sentido de voto não mudou quase nada quando comparado a 1995. Para além de que qualquer acordo consistiria num dos partidos ceder ideologicamente, acabando o OE, naturalmente e independentemente da sua popularidade e conteúdo, por ser associado ao governo liderado por Luís Montenegro. Mesmo no caso praticamente impossível de o OE ser completamente substituído na especialidade (Pedro Nuno Santos indicou também no seu discurso que o seu partido iria discutir ativamente o conteúdo do OE na especialidade), o contributo do Partido Socialista não seria notado para além da cúpula política.   É importante também desmontar a narrativa de que o PSD de Montenegro é um PSD «centrista». O próprio primeiro-ministro liderava o grupo parlamentar social-democrata durante os anos de Pedro Passos Coelho, para além de ter nomeado a antiga ministra Maria Luís Albuquerque para a cada vez mais importante Comissão Europeia. Aguiar-Branco, também antigo ministro de Passos Coelho, foi eleito Presidente da Assembleia da República (a principal arena de todos estes desenvolvimentos) e o impetuoso Hugo Soares lidera o grupo parlamentar. Isto tudo sem apontar sequer que este governo inclui também o CDS, o que, tendo em conta a história recente da política portuguesa, indica pouco «centrismo». O Partido Socialista tem de saber claramente com quem está a dialogar.   Os eleitores esperam que os dois maiores partidos se apresentem como alternativas. Se o PS se abstiver quando o OE for votado, o eleitorado verá certamente um Bloco Central, confundindo-se os dois partidos. Pedro Nuno Santos indicou que esta decisão foi excecional e tomada apenas face à crise política que enfrentamos, mas a passagem deste OE resolve apenas os problemas imediatos do país. Mais OE terão de ser aprovados até acabar esta legislatura e a composição do Parlamento não vai mudar.   O Chega, catalisador desta crise, não irá a lado nenhum, independentemente do que acontecer. A política europeia mostra-nos que este tipo de eventos não impactam os partidos da direita populista.   Nos países onde existem há décadas, estes partidos só foram verdadeiramente afetados depois de efetivamente governarem, como aconteceu em 2002 na Áustria ou em 2019 na Dinamarca (neste caso, a causa da perda eleitoral foi a incapacidade de governarem depois da direita ter vencido em 2015 e o partido ter sido o mais votado deste bloco). O cerne incoerente destes partidos só foi realmente exposto nestes casos, e de qualquer forma voltaram a assumir o destaque passados alguns anos. A direita populista representa um movimento quase inevitável, uma crise democrática que certamente não se resolverá através da política parlamentar.   O impacto do Chega no Parlamento é claro, foi o facto de ter elegido cinquenta deputados que iniciou esta crise parlamentar. Para além disto, os seus resultados eleitorais não serão afetados por se manter ou não o cordão sanitário. Apesar disto, o PSD também não ganhará em colaborar com os deputados que se sentam mais à direita no Parlamento. O senhor primeiro-ministro não só quebrará a sua promessa particularmente mediática de que «não é não» (apesar de muitos no partido terem no passado e novamente mais recentemente, note-se o discurso de Carlos Moedas, discordado destas palavras), como a ainda maioria dos portugueses concordará em que o contributo político do Chega não será propriamente positivo.   Uma nova ronda eleitoral traria realmente nova instabilidade ao país, mas apresentaria uma oportunidade para o PS ou o PSD conquistarem uma maioria absoluta ou uma maioria com o apoio dos seus habituais parceiros políticos. Isto permitiria verdadeiramente desbloquear a política portuguesa. Se forem incapazes de a obter, as previsões anteriormente referidas terão de ser assumidas, mas, depois de terem passado por esta crise política, é esperado que se revele um novo dinamismo e sentido de dever dos partidos arquitetos da democracia portuguesa. Apesar de tudo, o OE só será votado definitivamente em Novembro; o cenário político ainda pode mudar e ainda há tempo para reverter o sentido de voto proposto esta semana. Uma nova campanha eleitoral iria requerer, no entanto, um novo ímpeto partidário e lideranças fortalecidas que inspirem verdadeiramente o eleitorado.

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