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  • Led Zeppelin: Um "supergroup" em si

    O termo supergroup , neste caso, remete para uma banda constituída por artistas que já alcançaram um distinto grau de fama, noutras bandas ou a solo, antes de se juntarem para formar um novo grupo. A mais famosa banda de rock   que é tipicamente batizada como um supergroup são os Traveling Wilburys, o grupo composto pelos prestigiosos Bob Dylan (solo), George Harrison (Beatles), Tom Petty (Tom Petty and the Heartbreakers), Roy Orbinson (solo) e Jeff Lynne (Electric Light Orchestra). É evidente que esta combinação de estrelas não acontece apenas no mundo da arte musical, muitas vezes vemos grandes nomes a colaborar em filmes e, talvez mais frequentemente, no desporto. Como a denominada era dos Galácticos  do Real Madrid, que no início do século contavam com Ronaldo Nazário, Luís Figo, Zinédine Zidane, David Beckham, Roberto Carlos e outros célebres jogadores. Em 2010, o canal de televisão inglês BBC Two transmitiu uma série de pequenos documentários chamada “ I’m in a Rock’n’Roll Band!”. Recorda a história da música rock, focando-se também nos diferentes elementos que compõem uma banda tradicional de rock. Ao longo da série, são expostas votações para determinar quem é, dentro de cada função, o melhor artista de todos os tempos. Eleitos foram: Freddie Mercury (vocalista dos Queen); Jimmy Page (guitarrista dos Led Zeppelin); John Bonham (baterista dos Led Zeppelin); Flea (baixista dos Red Hot Chilli Peppers). Para além dos nomes lendários, salta também à vista o facto de metade deste supergroup  pertencer a uma só banda: aos Led Zeppelin. Isto é, dos Led Zeppelin, dois dos quatros membros foram votados os melhores de sempre nos seus respetivos papéis. Acrescento ainda que seria legítimo nomear Robert Plant, vocalista, e John Paul Jones, baixista, os melhores nestas mesmas condutas, também. Ou seja, não teria sido de maneira nenhuma absurdo ou impróprio terem ganho os quatro membros, porque todos o mereceriam. Assim, pode-se dizer que os Led Zeppelin por si mesmo representam um supergroup , algo de raro, senão único, na música. Cada um dos artistas foi essencial para definir o som icónico da banda como também do próprio hard rock , embora compreendam géneros musicais variados. Nascida em 1968, o grupo produziu oito álbuns de estúdio no espaço de dez anos (1969-1979). Com a inesgotável voz de Plant, os ilustres riffs  de Page e a potente secção rítmica de Bonham e Jones, a influência da banda é quase incomensurável, tendo inspirado muitos outros grupos de diferentes subgéneros do rock. Êxitos como “Immigrant Song”, “Whole Lotta Love” e, considerada um magnum opus não só deles, mas de toda a música, “Stairway To Heaven”, entre inúmeras outras, cimentam o legado dos Led Zeppelin como um dos mais glorificados e importantes de toda a história.   O rock já assistiu a muitos fenómenos, mas poucos se comparam ao talento que se agregou para formar os Led Zeppelin.

  • Inveja, Freud e Vómito

    Vivemos num mundo onde os carros se guiam sozinhos, onde os telemóveis e computadores pensam por nós, onde qualquer pensamento criativo pode ganhar vida com um clique, mas ironicamente, onde, o mesmo sentimento que matou Abel, pouco depois do princípio dos tempos, reina e governa uma parte significativa da nossa sociedade. Refiro-me à inveja, algo que nos corrói por dentro, mas que se tem banalizado como uma manifestação normal entre as pessoas. O que antes era impensável dizer ou fazer, estando num estado consciente, hoje não passa de uma mera trivialidade no âmbito das redes sociais. A procura de erros nos outros, e o posterior isolamento ideológico, tornando-se Deuses para si próprios, intocáveis, incriticáveis, tornou inegável a ideia de que a inveja não só nos influencia como nos governa. Começando como uma forma de comunicação, a evolução perversa e intrincada do que as redes sociais representavam levou a que estas se tornassem numa espécie de saco de vómito onde o nosso Id (fazendo a prometida ligação a Freud) se podia expressar sem amarras nem condicionamentos. Uma bolsa onde esta instância egoísta, impulsiva e irracional de cada um podia finalmente dizer tudo o que desejava. Com efeito, não são poucos os casos onde observamos qualquer uma destas três características (irracionalidade, egoísmo, impulsividade) numa publicação numa rede social. Desde comunidades Terra Planistas, a políticas de cancelamento, a diarreias ideológicas que duram 2 minutos pois, entretanto, já se viu um vídeo de um “ influencer ” espetacular que dizia o contrário, encontramos exemplos das três. Não é difícil arranjar justificação para esta segurança que se sente nas redes, para além do afastamento físico entre utilizadores, o anonimato (ou segunda personalidade) realçou a possibilidade de nos tornarmos autênticos animais reféns desta motivação primária. O uso das redes sociais para muitos foi uma forma de conter a bílis que não mais era do que a inveja que não podiam expressar em público. Mas de facto, e como um bom saco de vómito, as redes sociais limitavam-se a um recipiente fechado e selado onde alguns dos utilizadores se dirigiam para se aliviarem. Infelizmente, e com grande insatisfação constato que este saco está roto. Esta caixa de pandora foi aberta, com a pequena diferença da esperança ter sido claramente corroída pela acidez dos sucos gástricos da liberdade de se poder odiar, sem a culpa ou remorso habitual. Tudo o que disse até agora sobre as redes sociais aplicava-se até há uns anos, quando estas eram novidade, onde os seus utilizadores iam vomitar, sabendo, porém, que era um ato único, era algo fora do normal e da realidade do dia a dia. Tendo chegado aos dias de hoje, em que a geração que já não teve uma experiência pré-redes se começa a manifestar, e que, fruto dessa ausência, não consegue distinguir o saco de vómito da sua própria cama. Este novo grupo que se insurge demonstra claramente ter sido criado no hábito de que vomitar é o normal, consumidos e absorvidos pelo ideal de libertação desmedida destes malfadados meios de “descomunicação”. Com discurso preso por politicamente corretos e tabus, ou simplesmente feito de uma massa aforme sem estrutura lógica, esta geração incontinente não se retém de se manifestar com o mesmo desprezo e inveja pelo outro como faz nas redes sociais, criando políticas de ódio e de cancelamento. Políticas essas que não são mais do que partes do vómito lentamente a escorrer pela lateral do saco, chegando à sua extremidade, esperando pelo momento certo em que se lançam num voo que acabará na poça que se está a formar por baixo. Concluindo, eu, que o melhor a fazer é comprar galochas.

  • Eleições antecipadas? Então e o regime?

    Passados 11 meses de Governo da AD, tudo parece indicar que este irá cair na próxima semana com uma moção de confiança chumbada. O País olha para esta eventualidade sem grande entusiasmo.   Há muitas questões sobre o futuro, mas antes disso passarei por quatro pontos que já se conhecem ou se podem começar a adivinhar.   O primeiro é referente ao que já aconteceu até aqui: temos um Primeiro-Ministro há quase um ano, diretamente ligado à gestão de uma empresa que, por sua vez, presta serviços a outras empresas com contratos com o Estado e das quais recebe avenças. Independentemente da profundidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e/ou do escrutínio que venha a ser feito voluntaria ou involuntariamente, não será provável encontrar-se qualquer ilegalidade, mas sim algo já por todos compreendido – trata-se de uma grande mistura eticamente duvidosa de imprudência, ingenuidade e cinismo.   O segundo ponto tem a ver com algo que acabo de mencionar: uma CPI à qual será difícil escapar. Sábado passado, Pedro Nuno Santos anunciou que iria requerer uma CPI ao PM e, desde aí, esta intenção tem sido reforçada. Para além disso, vai-se percebendo que quer Montenegro seja reeleito, quer continue líder do PSD, ou ainda, quer a moção de confiança seja aprovada (altamente improvável), o atual chefe de governo terá de passar por uma morosa e penosa CPI. Só saindo da vida política, terá uma mais forte probabilidade de conseguir evitar este processo.   Terceiro ponto: daqui a três meses, já não estará na liderança do respetivo partido, ou Pedro Nuno Santos ou Luís Montenegro. Derrotado, qualquer um deles deixará quase inevitavelmente o seu cargo. Se houver já uma mudança de candidato do PSD às eleições, e uma derrota do PS, poderá ainda acontecer a ambos.   Por fim: parece evidente que vamos ter uma campanha desinteressante e fútil. Já começou a pré-campanha e é inevitável que o grande foco seja o caso do PM. Vamos passar os próximos dois meses a assistir a um deplorável jogo de arremesso da culpa da instabilidade política entre os dois maiores partidos, e os restantes, naturalmente, não facilitarão. No melhor dos casos, debater-se-á também, com mais algum interesse, a performance  até agora do atual Governo.   Passando agora às questões, a primeira que coloco é “quem quer eleições?”.   A vasta maioria dos Portugueses não quererá. Os partidos à esquerda do PS também não, dada a muito provável redução que irão sofrer. A IL é capaz de ser o partido que sai deste último ano com menos telhados de vidro partidos (fora Tiago Mayan), pelo que não se oporá muito a estas eleições. O Chega não se importará, mesmo com todos os seus recentes “casos e malinhas”, perante a oportunidade proporcionada pela matança que ocorre no centro político, mas já lá chego. A minha grande questão paira sobre as vontades sociais-democratas e socialistas.   Relativamente a Pedro Nuno Santos, considero que o seu objetivo principal seja pressionar e asfixiar o PSD, quer através de uma CPI que dure meses a fio e que condicione seriamente o Governo, quer através de uma campanha na qual se consiga afastar o máximo possível da responsabilidade daquilo que ocorre. Creio que a primeira situação seria a menos arriscada e mais favorável ao PS, mas é agora forçado a partir para a segunda e aparenta já ter começado a conseguir fazê-lo, trazendo ou não com isso resultados. A verdade é que, sem CPI e sem ter de esperar ainda muito tempo, esta seria a melhor altura para o PS para ir a eleições.   Já a vontade de Montenegro é mais clara: quer ir a eleições. No entanto, do mesmo modo que recebeu maus conselhos daqueles que o rodeiam ou do mesmo modo que foi ingénuo, pensando que seria possível esconder a Spinumviva, também isso poderá estar a acontecer agora. O que o PM calcularia, com as suas declarações do último sábado, que fosse acontecer seria:   1)     ou ver a moção de censura do PCP chumbada e continuar a governar sem necessidade de apresentar uma moção de confiança;   2)     ou, tendo de apresentá-la, vê-la:   a)      ou aprovada pelo PS por medo das culpas que teria de carregar,   b)     ou chumbada.   Este último cenário era o mais provável e é o que parece vir a acontecer, em grande parte porque Montenegro não quer passar por um inquérito longo e condicionante, e acha menos arriscado deixar os Portugueses irem às urnas. Julgo que poderá estar a arriscar mais do que pensa e quer. O problema é que a proposta do PS de uma CPI e a má gestão do caso, até agora, pelo PM, não parecem de modo nenhum atirar a culpa para os socialistas, mas sim (até agora!) deixar-lha. Montenegro estará possivelmente demasiado iludido de que repetirá o feito de Cavaco Silva em 1987 – embora sejam inúmeras as diferenças entre os dois líderes e contextos (destacando-se a seriedade do então PM, que de nada era suspeito aos olhos dos Portugueses).   Outra questão é saber se, apesar da sua fortíssima convicção atual, o líder da AD se irá manter no cargo. A estrutura do PSD aparenta estar unida em volta de Montenegro, mas, seguramente, muitas vozes dentro do partido apelarão por uma mudança, sonhada na forma de Passos Coelho ou de outros. Veremos.   A última questão que trago é “o que acontece na ressaca de umas próximas eleições?”.   Começando pelo caso em que o PS saia vitorioso, não se vê como conseguirá formar Governo. Dificilmente terá uma esquerda suficientemente forte para se apoiar ou até à qual se possa coligar e, depois da ferida agora aberta, será igualmente difícil ter o apoio do centro-direita. Ao que nos trará isso?   No caso em que a AD saia vitoriosa, ou de facto consegue uma maioria absoluta ou apoio da IL para tal, ou continua com uma fraca maioria, sendo possível que os socialistas, já muito fragmentados depois de uma segunda derrota consecutiva e agora com um novo líder, deixem este novo Governo entrar em funções. Ainda assim, a CPI continuará à espera de Montenegro.   Naturalmente, só há um vencedor com tudo isto, o Chega, que nesta crise nem precisa de fazer muito (fora uma moção de censura ao seu estilo, precipitada), apenas fica a ver o PS e o PSD a digladiarem-se enquanto atira lenha para a fogueira.   Não consigo olhar para tudo isto sem lembrar-me do que disse Sérgio Sousa Pinto há cerca de uma semana, em entrevista ao O Discreto , quando questionado acerca da qualidade decrescente dos nossos políticos:   A minha grande angústia é pensar que o regime foi feito por pessoas que eram aptas a geri-lo e a governá-lo e, portanto, passados os gigantes fundadores do regime, o regime já não consegue funcionar tão bem com uma geração que não teve a responsabilidade de o construir e que não teve a responsabilidade de cuidar que ele funcionava. Eu acho que esse é o grande risco, é as pessoas imaginarem que podem fazer tudo, que o regime aguenta. Enquanto aqueles que foram os fundadores do regime sabem muito bem que o regime é fácil e que é preciso protegê-lo. ( "A política é a História a ser feita" Entrevista a Sérgio Sousa Pinto )   Perante toda a guerrilha que o Chega vai fazendo ao regime, os partidos do bloco central não se parecem esforçar por salvá-lo a todo o custo, muito pelo contrário. Desde que tenho a pouca memória política que tenho, que se me evidencia esta falta de noção destes partidos quanto à necessidade de cuidar do regime – afinal, o “seu regime”, o seu ecossistema. Independentemente do que é constitucional ou não, os últimos anos mostraram que não há qualquer respeito nem cuidado com o regime, porque “podem fazer tudo, que o regime aguenta”.   Na última campanha, foi possível ignorar o Chega porque a AD acreditava ou fazia acreditar que por algum milagre a legislatura ia correr tão bem que os Portugueses não sentiriam qualquer necessidade e esquecer-se-iam da existência de um Chega no nosso quadro político. Há um ano, era muito fácil para a AD dizer que iria, passados 8 anos de socialismo, vingá-los e reformar o País. Agora, tendo o último Governo socialista acabado há um ano, torna-se mais difícil defender a tese, de ambos os lados do centro, de que a mudança e transformação ainda é lá que reside.   A solução pode não ser o Chega, mas trata-se de um partido que tem a sorte de ainda não ter tido qualquer experiência executiva, podendo distanciar-se dos que já a tiveram, e cuja base de revolta, que acredito ser esta que atrás evidenciei, é a que cada vez mais Portugueses compartilham e a que o faz crescer.   Torna-se cada vez mais difícil defender a ideia de que o regime não se está a encaminhar para uma morte lenta. Torna-se cada vez mais difícil defender que a causa da degradação do regime é só o atual assalto da extrema-direita à política, e não, o pouco compromisso dos políticos dos partidos de centro e fundadores do regime em comportarem-se como deveriam para que o mesmo não morra.   Enquanto em casa, a política é dedicada a discussões e distrações medíocres, lá fora, o mundo continua e agora a passos acelerados, levantando novos desafios, também para Portugal… Estará alguém atento?

  • Presidenciais prometedoras: Pontapé de saída está dado

    Até agora, a tradição dominou. No primeiro mandato, o Presidente da República eleito à primeira volta procura a reeleição. No segundo mandato, procura um lugar na história. Os últimos três inquilinos de Belém foram assim, além de terem sido desde o princípio os favoritos a ocupar a “magistratura de influência”. Os dois primeiros foram exceções. A única semelhança entre si foi o estilo interventivo nas ações do governo. De resto, bastante diferentes. Ramalho Eanes foi o único a ter poderes diferentes dos sucessores (nomear e demitir o Primeiro-Ministro e tinha o Conselho da Revolução), além de ser general e ter uma perspetiva que privilegiava a vertente presidencial. Já Mário Soares foi o único a disputar uma segunda volta (com uma vitória escassa inferior a 139 mil votos), o primeiro Presidente civil a ter uma perspetiva que privilegiava a vertente parlamentar (mais no primeiro mandato, o segundo foi bem diferente).   Após trinta anos com um estilo muito semelhante no Palácio de Belém, sempre em decrescendo em termos de qualidade e com os sucessores naturais (Costa, Durão, Santana, Passos ou Portas), ricos em currículo a colocarem-se fora da corrida, resta mesmo pensar que podemos estar à beira de uma rutura. Uma rutura que além de ser de circunstâncias, aparenta ser de estilo. As últimas eleições legislativas e europeias, mostraram que o sistema político e social relacionado mudou. Os partidos de direita juntos têm mais eleitores que os de esquerda, o eleitorado de protesto já não se manifesta maioritariamente pela abstenção e o leque grande de opções de voto pode ter vindo para ficar. Três realidades que há menos de três anos não existiam, apesar de nas últimas presidenciais e legislativas anteriores já termos visto sinais. No que diz respeito a autárquicas, creio que as que estão para breve trarão mais respostas sobre esta definitividade do que as anteriores.   O único fator que se mantém é que o centro político é decisivo para determinar quem vence o ato eleitoral. A questão é que já não é o único que empurra a eleição para um lado. Diga-se que o estilo maquiavélico de António Costa e o estilo faroleiro de Marcelo Rebelo de Sousa, muito contribuíram para estas mudanças. Mas concentremo-nos no segundo. O Presidente da República atua como chefe de Estado com funções sobretudo cerimoniais, mas tem essencialmente dois poderes mais que reconhecidos notória e politicamente: influência política através da palavra e dissolver o Parlamento durante uma crise. Dois poderes que Marcelo usou demais e até acabou por abusar, no caso da palavra. Daí a sua (alguma) descida de popularidade e o desejo de uma fatia grande do eleitorado por algo mais que unificador nos órgãos de soberania: firmeza e ordem.   Uma candidatura forte precisa de 4 fatores para sair vencedora desta eleição: ter coesão e ser unificadora, não ter ativos tóxicos associados, ter currículo ou ser algo justificativo para tal cargo e ter sentido para concorrer. Falando apenas nas candidaturas já assumidas e mais prováveis, nunca ignorando as sondagens, pode-se verificar para já as realidades que as candidaturas vão ter de enfrentar e o que terão de fazer para as consolidar ou combater.   As candidaturas de Tim Vieira, Aristides Teixeira, Manuela Magno e Orlando Cruz serão um “voto perdido”, além de pouco notáveis, a desistência seria o melhor caminho.   A candidatura de André Pestana é da fação ligada ao BE, servirá unica e exclusivamente para um pequeno setor de votos à esquerda. Não alcançará nada de relevante, só eventualmente retirar ao grande candidato do centro-esquerda a tina eleitoral que lhe permitiria disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista.   Poderá ser um caso interessante de se acompanhar a candidatura de Joana Amaral Dias. Uma figura mediática, tanto na TV como nas redes sociais e sendo assim, dá-lhe relevância a passar as suas mensagens. Apesar de ser apoiada pelo ADN, tem claramente mais notoriedade que o partido, logo é diferente num boletim ter “Joana Amaral Dias” ou ter “ADN”. Poderá ser uma surpresa.   Mariana Leitão é a candidata da fação liberal. Se fizer uma campanha coerente e algo notável, aspirará a mais notoriedade no partido e a uma percentagem de 5% ou 6%. Poderá retirar a tina eleitoral suficiente para um candidato de centro-direita disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista. André Ventura além de ser o fenómeno que ilustra muita da mudança já mencionada, representa um setor importante do eleitorado atual e tem um histórico eleitoral sempre em crescendo - embora acredite que não chegará a PR e dificilmente chegará a uma segunda volta, pois enfrentará uma barreira de oposição muito grande por parte do centro no combate pela posição de 2º mais votado. Creio que o segredo na tentativa de esvaziar um pouco esta candidatura está em Gouveia e Melo e não em Marques Mendes. A candidatura de Luís Marques Mendes foi apresentada há poucos dias. Apesar de ser o candidato mais experiente e naturalmente o do governo, tem um peso a seu desfavor, que é aparentar ser o candidato da continuidade em relação ao trabalho de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de parecer mais formal. Mas sendo o candidato da fação centro-direita e estando o país mais polarizado e politizado do que há 10 anos, aparenta ser o candidato de continuidade cujo ambiente já não se verifica favorável. Terá dificuldade em disputar a posição de segundo mais votado com Ventura e creio só ter condições escassas de ser primeiro se Gouveia e Melo não avançar. Apesar de ainda se desconhecer se avança, é inevitável falar de Henrique Gouveia e Melo. É o favorito por agora. Lidera todas as sondagens e tem o capital de ter liderado o combate pela vacinação contra o Covid-19. Tem a imagem de homem que vai pôr em sentido toda a “classe política” e pô-la-á na ordem. No entanto, terá duas grandes dificuldades pela frente e ambas vão andar de mão dada do princípio ao fim da campanha. A primeira será quando começar a falar das suas ideias e começar a mostrar o seu conteúdo enquanto candidato, aí logo se verá a sua firmeza. A segunda é que sendo a candidatura favorita, bater-se-á com a difícil tarefa de manutenção da popularidade, ou seja, será aquela candidatura que poderá começar com 60% ou 70% das intenções de voto e que terá de segurar o suficiente delas para terminar acima dos 50% para vencer a corrida. Vai começar a descer com a afirmação dos outros candidatos e fica a dúvida se terá a tal firmeza e conteúdo para aguentar a vantagem até ao fim. Não crendo que António José Seguro seja a figura mais forte à esquerda, pela ausência de carisma e de aceitação interna, a bola está do lado de Pedro Nuno Santos. O líder do PS tendo colado Gouveia e Melo à direita, terá de apresentar um candidato agora. Não querendo ir para Seguro e o suicídio que seria Santos Silva, o segredo está na aceitação ou não de António Vitorino, que seria a meu ver mais forte e agregador que Marques Mendes e eventualmente disputaria uma segunda volta com Gouveia e Melo. Veremos os próximos capítulos que esta novela nos trará.

  • Do Eco ao Extremismo: O Preço de Ouvir Uma Só Voz

    Se alguma vez me perguntassem como criar um grupo de extremistas alimentados por retóricas e narrativas ideológicas, eu diria para começar por instigar o medo, usar uma imagem forte, e provocar. O ideal, seria, porém, e aqui adoto as palavras que o economista Adam Smith disse – num contexto mais económico –, deixar as pessoas serem “guiadas pela mão invisível”, sem terem de chegar ao extremismo. Como o próprio Churchill disse: “confiem nas pessoas”.   Mas até que ponto? Até que ponto podemos deixar as pessoas serem guiadas por uma mão invisível, até que ponto podemos confiar nelas, quando nem elas sabem em que confiar? O mundo em que nos encontramos hoje é sinceramente um mundo assustador; a facilidade com que o que quer que seja se espalhe é algo de perturbador. A marosca que uma pessoa muito eloquente e quem sabe, bonitinha, nos pode meter na cabeça no que toca a uma certa ideologia é desconcertante. Passar pela Avenida da Liberdade, ouvir uma manifestação, um discurso emotivo, ficar convencido de que aquilo é a verdade, e rapidamente ser trabalhado por um fim específico, é uma realidade. O ponto aqui é ver o fácil que é convencer alguém de alguma coisa importante.   A ideia de um “tudo ou nada” é o grande problema das nossas sociedades. Pensar que é desta maneira e de nenhuma outra, que só há uma verdade, é errado, e estritamente antidemocrático. Não aceitar que há outra maneira de olhar para o mundo é uma praga, algo que acontece mais vezes do que devia nos dias de hoje. Isto deve-se em larga parte a um discurso centrado numa só racionalidade, criando facilmente uma certa câmara de eco. Com a ajuda dos algoritmos, uma figura autoritária e de alguma forma, extremista, cria com muita facilidade um exército de fanáticos, extremistas, radicais – chamem-no do que quiserem, mas que são excessivos naquilo que dizem e fazem , não há como o negar.   O que eu quero perceber mesmo, é como é que se chega a este ponto? Como é que as pessoas se tornam radicais, extremas, fanáticas? Será uma causa da falta de coesão social ou um produto de tal? Eu acho, sinceramente, que é os dois.   Vimos isto no Egito, por exemplo, durante a Primavera Árabe, quando as pessoas estavam tão frustradas que se deixaram manipular  por fins políticos e religiosos ao ponto de perpetuar ainda mais as instabilidades sociais no país pelo presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana. Ou até, e de maneira provocadora, relembro-vos dos acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021, onde um grupo de – vá chamemo-los pelo que são – extremistas, invadiram o capitólio após uma mensagem de Trump aos seus apoiantes – coincidência? Não sei, parece-me mais eloquência dele. Dando um exemplo nacional, a reação à morte de Odair Moniz em outubro de 2024 foi marcada por desacatos e manifestações por toda a Grande Lisboa. Qual a reação à rusga no Martim Moniz? Uma guerra política dos dois lados do espectro. Um é o Odair, e outro é Martim, mas não basta ter Moniz como último nome para aparecer nas notícias portuguesas e dar que falar aos dois lados do espectro político, desencadeando assim várias reações – muitas vezes violentas – a cada acontecimento. O problema é quando as reações passam de comentários – mesmo comentários de ódio – para ação, e ação violenta deixem-me adicionar.   A realidade é que as pessoas não sabem agir com controlo. Não há modos nas manifestações. Parece que a única maneira de responder a algum acontecimento polémico ou mensagem de autoridade é com pilhagem, violência e agressão. Não há como controlar as pessoas porque nem querem ser controladas. Os meios que são utilizados para nos passar informação parecem ser cada vez mais sedentos de confronto; tanto os mídia como estas figuras de autoridade se tornam um símbolo sadista que quer expor variadíssimos problemas sociais e como tal, prolongam os problemas de que se queixam inicialmente.   O extremismo, e com isso eu quero dizer as reações de que já falei, de acordo com o dicionário Priberam, é “a adoção de teorias político-sociais extremas”. As pessoas que são consideradas extremistas – que são cada vez mais – adotam estas posições porque assim o são influenciadas. Tanto a esquerda como a direita utilizam o medo da outra para desencadear o extremismo. É exatamente o medo do crescimento do outro lado do espetro político que faz com que reações extremistas comecem. E como dizia, são tanto os mídia como as figuras polémicas e fortes que pedem o extremismo como reação ao extremismo.   A extinção de outras opiniões políticas é o cúmulo do fim da democracia nos nossos países; ela impede o pluralismo, que é tão essencial para uma democracia funcional, mina a estabilidade e coesão social, e distrai o governo daquilo que realmente importa nos assuntos internos do país. As coisas tornam-se no que se tornam talvez porque os mídia assim o querem, assim o mostram, e assim o inspiram.   O absolutismo, esta ideia do “tudo ou nada”, impede que a paz prevaleça. Não pode haver democracia, estabilidade e segurança sem o tal pluralismo; mas isto é contando que o pluralismo seja respeitado e acolhido. Carl Schmitt, filósofo político, pede este dissenso para a permanência da democracia, mas há que haver condições para o dissenso. Não é a pilhar, a pegar fogo, a atacar, que se vai chamar atenção para uma questão aparentemente essencial. A minha mãe sempre me disse “quem grita numa discussão, perde logo a razão”, e quem diz gritar, também diz pilhar, pegar fogo e atacar.   Acho que a solução para esta revolta das pessoas, e a maneira como conduzem tal revolta, é responsabilidade dos líderes de cada país. Responsabilidade para conseguirem transmitir corretamente os seus pontos de vista, responsabilidade de manterem órgãos da comunicação que tenham a segurança e estabilidade como principal objetivo, e responsabilidade de educarem os seus sujeitos a saberem distinguir diferentes pontos de vista e a saber viver com eles sem passar para o extremo.   Voltando ao meu ponto inicial, há, sim, que deixar as pessoas serem guiadas pela mão invisível de Smith, e em cada democracia acolhedora, há que confiar nas pessoas. Mas também há que cultivar um ambiente propício á estabilidade social e política. Não é um trabalho fácil, mas tenho esperança de que as próximas gerações tragam isto à mesa – ou sujeito-me a ter essa esperança.

  • O que Vemos e o que não Vemos

    «Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.» - Eça de Queirós, As Farpas, 1871. Apenas cinco anos depois da sua fundação, o Chega consegue nestas eleições 18% dos votos e mais de um milhão de eleitores. Anunciou o “fim do bipartidarismo”, com o melhor resultado eleitoral de uma terceira força em democracia (o PRD conseguiu 17,9% em 1985, com menos 70 mil votos). Como já esperávamos, André Ventura será o kingmaker daqui em diante (ou o “fazedor de reis”, como foi horrendamente traduzido na comunicação social). Quem foi vendo os telejornais poderá ter estranhado. Embora não tenha ficado surpreendido – qualquer resultado do Chega, dos 13% aos 20%, seria compreendido –antecipava uma queda do Chega em relação às sondagens e uma vitória mais robusta da AD, talvez um mau resultado da IL, que seria secada pelo voto útil. Mas, mesmo com uma campanha fraca, senão desastrosa do Chega, ignorado pelos outros partidos senão pelo Bloco e um discurso a cada dia mais radical, procurando a atenção a que o habituaram, mas que desta vez não lhe foi concedida (recordou-me da imagem que Rui Rocha pintou de Ventura no debate entre ambos, da “criança que vai a um parque de diversões”), o Chega superou as expectativas otimistas daqueles que, como eu, esperavam um mais sereno discernimento do povo português. Em 1850, o filósofo Frédéric Bastiat escreveu um ensaio que intitulou de «Ce qu´on voit et ce qu´on ne voit pas», ou seja, O que Vemos e o que não Vemos. Residirá o problema naquilo que não vemos? Quem, como eu, ficou alarmado com o resultado do Chega ou não compreende a mobilização de que é capaz, estará a passar ao lado de qualquer coisa. E essa distância entre mim e o eleitor do Chega preocupa. Eu não vejo o que eles vêm nem eles vêm o que eu vejo. Seja no TikTok, no X, em grupos de WhatsApp ou noutras redes sociais, é claro que a campanha que me foi apresentada não foi a mesma que lhes foi apresentada a eles. Para esses eleitores, talvez a “campanha” no sentido tradicional já tenha deixado de fazer sentido. Sem entrar em aritméticas e previsões futuras acerca do curso da legislatura, é importante entender que o problema com que nos deparamos é mais amplo que conjuntural. É necessário, como disse, e bem, Pedro Nuno Santos, «ir ao encontro desse país que está descontente», e ver o que alguns, até aqui, ou não conseguiram, ou não quiseram ver. O líder do PS poderia estar-se a referir ao eleitorado descontente com o seu partido, mas a mesma reflexão é válida para os outros partidos, para todo o sistema e para o regime. Uma das críticas apontadas pelos antigos às democracias era a facilidade com que deslizam para a demagogia. Não deixemos que isso aconteça. Eça identificou o problema, cabe-nos agora a nós vê-lo também.

  • AVentura de Centro

    Foi há cerca de um mês apresentado o programa eleitoral do Chega, para os próximos quatro anos. Desta vez maior, até para contrapor as frugais nove páginas do documento de 2022. Depois de ter crescido 165 páginas, a tentativa de centralização do partido é evidente: “Criar uma contribuição extraordinária temporária sobre o sector bancário, aplicável aos lucros excedentários apurados nos períodos de tributação para efeitos do IRC que se iniciem nos anos de 2024 e 2025 e manter a Contribuição do Sector Bancário já existente e aumentá-la em 10%.” Um programa que se dizia liberal ou até mesmo libertário como o de 2022 defende, agora, uma taxa extraordinária para bancos e gasolineiras face aos lucros juntando-se assim à CDU e ao BE. Ainda à semelhança do BE, propõe que o salário mínimo, em dois anos, atinja os mil euros. Um partido “liberal”, como se autointitula, a querer aumentar salários por decreto? Nada de novo. A fórmula já nos tinha sido apresentada pela onda populista europeia. Primeiro ganha-se notoriedade com discursos polémicos, nostálgicos e fáceis, e depois avança-se para um discurso mais moderado. Aconteceu com Giorgia Meloni em Itália, Geert Wilders nos Países Baixos e está a acontecer em Portugal com André Ventura O Chega arranca, feroz, com uma proposta de castração química para os pedófilos e violadores, um tema disruptivo, cumprindo o propósito viral e hoje ocupa 20 palavrinhas do seu programa eleitoral. Deixou de ser uma das bandeiras do partido. Perdiam-se votos. Voltemos às questões económicas e aos exemplos europeus. Meloni, Primeira-Ministra italiana, apresentou uma proposta de taxação dos bancos, semelhante à do partido Chega. Com uma diferença, foi executada. As ações dos bancos registaram, obviamente, quedas generosas, obrigando o governo a recuar. A questão é: André Ventura tem conhecimento disto? Sabe que é, absolutamente, irresponsável taxar a banca desta maneira? Porque é que insiste então? Ventura o intrépido justiceiro. De Sherwood a Mem Martins, ninguém, nada e nenhuma noção o parará. Citando o manifesto político do partido Chega: “nasceu para reduzir o Estado às suas funções mínimas essenciais, com uma redução drástica da sua asfixiante presença na vida da República”. Em que é que ficamos? Tomemos apenas como exemplo o seguinte: Os 3.2 mil milhões gastos na reestruturação da TAP, tal como o PS, BE e CDU, Ventura não se opôs. Esta despesa daria para pagar 16 vezes os apoios às forças de segurança que Ventura diz defender. A labiríntica e incoerente retórica de André Ventura vem à superfície. Nas 176 páginas (acrescentadas), o sector privado aparece, reiteradamente colado ao setor público, em rota de colisão com o suposto princípio orientador e fundador do partido. Apresenta-nos reformas fantasiosas não conseguindo demonstrar-nos como pagar ou mesmo como pô-las em prática. O partido que queria diminuir a intervenção do Estado na vida das pessoas, parece, agora, querer asfixiá-las em restrições, burocracias e, inevitavelmente, impostos. É uma tentativa de catch all desastrosa. Um programa que quer agradar a todos e de qualquer maneira. Palavras falaciosas, promessas irresponsáveis e discursos de esperança (vã). Cheio de dúvidas com uma única certeza, a de uma banca rota. Faz-nos lembrar alguém - é pena que o Sócrates português tenha sido tão medíocre, porque o original saberia como lutar contra a demagogia deste sofista.

  • O "funk" verdadeiro

    Todos nós ouvimos música, todos gostamos de música de alguma maneira – uns mais, outros menos – mas é algo de que não dá para fugir ou ter uma posição agnóstica. E se há quem só oiça o que passa na rádio e viva bem assim, existe também quem oiça tudo: desde clássica a eletrónica; de soul a new wave ; do heavy metal  ao jazz , saltando ao sabor do impulso ou do acaso   entre uma “Queixa” do Caetano Veloso, uns de “Echoes” dos Pink Floyd, uma “Temptation” para os New Order, no fundo, Jesus e etc., mas evangelizado pelos Wilco e qualquer outro grupo – do mais obscuro ao mais comercial – para ver a qual deles vai dar o privilégio de ser ouvido nesse dia, enfrentando sempre a possibilidade de um novo povo chegar à terra em disputa e juntar-se à batalha.   Cada um é como cada qual, e cada qual é como é (até deixar de ser). E eu, sendo muitas outras coisas, sou também uma fã de funk .   À data de hoje, podemos dividir a humanidade em três grupos: um primeiro grupo constituído pelas pessoas que adoram funk – e porque adoram, ouvem em qualquer situação, numa festa, num desgosto amoroso, em todas as estações. Um segundo formado pela oposição, composto por todos os que fogem do funk e de tudo o que lhes faça lembrá-lo, aproveitando-se de qualquer oportunidade para manifestarem este desprezo. E por fim os que passam ao lado e que pouco para aqui interessam.   No entanto, nestes três grupos há quem tenha em mente uma perceção específica do funk, que na realidade nada tem que ver com a original. O funk que gera todo este conflito é chamado “funk carioca”, também conhecido como “funk favela”. Acho que o nome fala por si, pelo que não serão precisas grandes introduções. É um estilo influenciado pelo hip-hop , nascido no Rio de Janeiro.   Não sou contra nem a favor, mas sou, e sempre serei uma defensora daquilo a que gosto de chamar de “ real funk ”.   O “ real funk ” é um género musical que nasceu nos anos 60, na comunidade afro-americana, e se tornou popular durante as décadas de 70 e 80. Um novo estilo cheio de improvisações, com um sentimento ousado e atrevido, um som rítmico e dançável que nasce da junção de elementos de vários géneros como soul, o R&B e o jazz, dando protagonismo a uma espécie de conversa entre linhas de baixo fortes e baterias, que resultam naquilo a que chamamos de grooves .   O funk era algo novo, original e, portanto, inovador. A maioria dos géneros musicais já estabelecidos e usuais apostava na melodia, na progressão de acordes e nos arranjos. O funk, termo que vem do inglês “ funky ” – sendo este usado para descrever algo fora da caixa, incomum ou único – musicalmente, é um estilo de música de dança, urbana, agressiva, que combina baixo, bateria e um grande número de instrumentos, muitos metais, todos trabalhando para um groove . O funk é uma forma mais extravagante de R&B, e os seus temas retratam a vida tal como ela é: por vezes doce e suave; na maior parte violenta e dura para as minorias negras, mas também esperançosa. O funk é a banda sonora alegre de uma realidade difícil.   James Brown, George Clinton e os Parliament/Funkadelic, Sly and The Family Stone, Prince, Kool and The Gang, são alguns dos grandes nomes da história do funk. Nas letras das suas músicas, tanto se abordavam temas sérios, tentando passar uma mensagem, como temas mais prosaicos e divertidos.   “Papa Was A Rollin’ Stone” (The Temptations) conta um diálogo entre um filho e a sua mãe, em que o filho relembra a ausência do pai em toda a sua vida, como nunca o viu e como sobre ele nunca ouviu nada se não coisas más. O filho refere-se ao pai com uma rolling stone : nunca ficava quieto num sítio, qualquer lugar onde pusesse o seu chapéu era a sua casa (logo, todos os sítios tornavam-se sua casa, todos menos a sua verdadeira casa com a sua família). É uma letra cultural e socialmente muito forte, pois era infelizmente comum dentro das comunidades afro-americanas os pais abandonarem as suas famílias. Durante os seus sete minutos, o filho interroga-se e elenca as falhas, atrocidades e imoralidades que ouviu acerca do seu pai, e concluiu, no final, que “ All he left us was alone ”.   “The Revolution Will Not Be Televised”   (Gil Scott-Heron) é outro exemplo de crítica social, talvez mais um apelo, em que se incita os que querem fazer parte da revolução a mexerem-se, a envolverem-se e a reagirem porque, no final de contas, the revolution will not be televised . A verdadeira revolução é aquela que acontece na cabeça e nas ações de cada um, e não aquilo que aparece nas televisões.   “Ladies Night” (Kool & The Gang) descreve uma clássica noite de raparigas, onde tudo está bem, tudo é possível e mais nada interessa. “ Oh, yes, it’s ladies’ night, and the feeling’s right (…) what a night ”.   “I’m Your Boogie Man”   (KC & The Sunshine Band) – mais uma vez, uma letra simples sem qualquer mensagem significativa, mas que graças ao ritmo do funk, da mistura harmoniosa dos sons de todos os instrumentos combinados, se torna num clássico que toma conta do nosso corpo e nos põe a dançar.   Enfim, complexos, manias e gostos de lado, a verdade é que, nos dias de hoje, a palavra “funk” é usada pela maioria das pessoas como algo muito mais circunscrito face ao que realmente é. Com o verdadeiro funk, sem nos apercebermos, estamos a dançar ao ritmo da batida que nos transporta imediatamente para os anos 70, onde as roupas, os cabelos e a atitude eram uma extensão da música. O verdadeiro funk é mem’bom .

  • Orçamento Envelhecido

    Chegará 2025 e, surpreendentemente, o PSD ainda será o líder do governo. Não o digo em tom pejorativo, mas é de facto admirável como é que 80 deputados, apenas mais dois que o PS, edificaram um projeto político com um programa tão reformista como o da AD.   Infelizmente, a resposta é inteligível: o programa que fez da coligação PSD-CDS-PP-PPM vencedora em março de 2024 não é o mesmo programa que irá reger o projeto político do próximo ano. O IRS jovem prometido caiu, a redução do IRC prometida caiu, o salário mínimo prometido mudou, o programa de pensões mudou. Poderia escrever tanto mais sobre o que foi prometido e não se cumpriu.   Foi aprovado o Orçamento do Estado para 2025, depois de vários e insólitos dias de perseguição à aprovação do documento. Luís Montenegro conseguiu obter do líder da oposição uma mísera abstenção. Esta aproximação ao PS valeu o voto contra da Iniciativa Liberal.   É mais um Orçamento que responde (pobremente) com soluções de curto prazo. Uma navegação à vista. A promessa de uma reforma estrutural não passou de uma quimera. Aos jovens, foi-lhes vendida a proposta do IRS Jovem, com um teto máximo de 15% até ao penúltimo escalão. Bastante diferente daquela que foi apresentada no documento final.   Pensemos num jovem de 33 anos que esteja a cumprir o oitavo ano de descontos, e que ganhe 2500 euros brutos mensais – este jovem iria pagar menos 1.860 euros (aproximadamente) anuais de IRS. Isto, se a AD tivesse mantido a palavra que prometeu aos jovens. Quando Rui Rocha anunciou a intenção de voto da IL, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, respondeu às críticas do presidente dos liberais: “ Nós fazemos uma atualização dos escalões do IRS bem superior à inflação ”. Quem ouve esta declaração não imagina que estamos a falar de uma inflação nos 2,9% e uma atualização de 4,6%. Será então 4,6 “bem superior” a 2,9? É esta a reforma estrutural?   O sistema de pensões é outro dos muitos problemas que os jovens portugueses enfrentarão. Com a abstenção do partido Chega, o PS viu a sua proposta viabilizada. Um aumento permanente e praticamente transversal a todos os pensionistas de 1,25%. Uma medida que custará mais de mil milhões de euros até ao final da legislatura. Recordo que a média de despesa portuguesa, em prestações sociais como as pensões, encontra-se nos 17,6%.  Bastante acima da média da União Europeia de 12,9%. Bem sei que a meta deste governo é governar. E vai consegui-lo. Mas a que preço? A AD ganhou, com o nosso voto, o voto jovem. Os socialistas foram a força política cujos votos menos dependeram dos jovens. Apenas 10% do eleitorado PS tem menos de 34 anos.   A AD não aguentou a pressão. Cedeu em diminuições de impostos e aumentou apoios sociais. A equilibrar malabares no nariz assistimos ao espetáculo do insólito:  uma continuação dos últimos oito orçamentos do PS. Cujos quais o PSD votou, sempre, contra.   Numa só palavra, “desolador”. Votámos diferente, não estávamos à espera das mesmas soluções. Continuaremos a ser governados por medidas pró-pensionistas, ideias inflexíveis sobre o conceito de salário mínimo e sucessivos aumentos da despesa pública. Alterar o metabolismo basal instalado nas instituições, nos comportamentos e funcionamentos da função publica, é difícil. Não impossível.

  • O fardo de não saber ser em "The Worst Person in the World"

    Nunca se sabe bem quando irão as crises de identidade surgir para nos amedrontar e desregular a nossa homeostasia identitária. Afinal de contas, tanto podemos chegar ao fim de vida iludidos e magnetizados pelo espírito do prazer momentâneo, onde nunca o estado reflexivo sobre o verdadeiro eu surge, tal como podemos, num segundo da nossa jovem ainda vida, aperceber-nos que tudo está errado, que nada daquilo nos faz sentido: podemos perceber que não fazemos sentido, que o relógio se desregulou momentaneamente e eternamente do sentido do universo. A premissa de The Worst Person in the World (2021) é apresentar-nos a vida de Julie em doze capítulos, aos quais se juntam um prólogo e um epílogo: é uma jornada biográfica, em que acompanhamos a sua vida desde o início da vida adulta até aos seus trinta e poucos anos. O filme apresenta-nos a quotidianidade de alguém que se sente quase sempre infeliz, que quer sempre mais do que o que tem e que é questionada, pelas normas sociais, porque não quer o que deveria querer. The Worst Person in the World apresenta-nos uma história que poderia ser facilmente confundida com a nossa. O poderio argumentativo e introspetivo desta obra-prima está no facto de capturar o peso das escolhas e das não-escolhas, o fardo invisível do tempo que escorre pelas nossas mãos. Cada decisão que Julie toma – deixar Aksel, envolver-se com Eivind, adiar a maternidade – não é apenas um passo temporal em frente, mas também um corte com tudo o que poderia ter sido: trata-se da simultânea eliminação e criação de novos mundos possíveis. O filme desafia-nos a pensar naquilo que sacrificamos, consciente ou inconscientemente, em nome de uma felicidade que nunca chega a ser plena, mesmo quando julgávamos ser o êxtase perene. Entre sorrisos efémeros e momentos de perda devastadora, a narrativa convida à reflexão sobre o que se prioriza na instantaneidade da vida. Julie não é heroína nem vilã; é apenas alguém que, como todos nós, tenta encontrar sentido no caos, enquanto o mundo à sua volta insiste em exigir respostas que ela ainda não tem. Na complexidade simples da trama, é Julie o ponto de ligação entre as três personagens principais do filme: Aksel, ela mesma e Eivind. Mais do que uma relação amorosa com Julie como vértice comum, as três personagens sofrem da instabilidade de, um dia, querer sol na eira e, noutro, sol no nabal – os três, por muito diferentes que sejam, personificam a estável instabilidade da vida e uma vontade ofegante de ser feliz. A vida é o ecoar distorcido das imagens alucinogénias da própria mente e da nossa reflexão: é uma dupla reflexão, no sentido imagético e no sentido psíquico, em que cada um se vê obrigado a debruçar sobre a sua vida, sobre si mesmo, curvando-se pelo peso de querer ser tudo o que não é, para mais tarde querer ser o que foi. É por isso que também Proust procura o tempo que perdeu; é por isso que Aksel diz sentir muito mais do que nostalgia quando olha para o passado e pensa no apartamento da infância, nos seus primeiros contactos com a banda desenhada, nos tempos em que vivia com Julie: olhamos para trás quando a parede que defronte de nós surge nos parece intransponível e a ponte que ligava os dois lados do abismo ruiu. Admitimos que precisamos do conforto que antes tivemos. Recordamos os nossos primeiros amores ou recordamos os verdadeiros amores que entretanto não passavam da ilusão bonita de uma juventude que os viveu; lembramo-nos de um álbum que se ouviu, uma brincadeira que ficou. Enfim. Buscamos sempre o que o tempo nos tende a tirar, ou aquilo que julgamos para sempre perdido, porque os tempos de hoje são infinitamente diferentes dos tempos que foram, as tais realidades e mundos distintos que acabámos por criar. É por isso que o artista não quer viver na sua arte, nem o amado quer viver na memória do amor da sua vida: seja qual for a situação, cada um escolhe sempre viver, não na memória dos outros, mas sim no seu apartamento, com a sua família, com a mulher da sua vida. Queremos ser tudo aquilo que sempre desejamos e que julgávamos ser eterno; talvez num qualquer momento da nossa vida tenhamos julgado que aquele momento em particular ou aquele estado de coisas seria eterno; talvez desejássemos que o futuro fosse a repetição de um passado; talvez o que nós queremos não seja aquilo que realmente queremos, pois só queremos querer o que julgamos querer. Julie é a representação do devir, personificando a necessidade de fuga, a insegurança que a segurança nos dá quando julgamos estar estabelecidos enquanto pessoas. Nada nela é de infra-humano face a qualquer um de nós; muito menos a qualifica como pior. No desespero de viver entre a sua alma e o seu corpo, entre o seu coração e a sua pele, Julie personifica o que de mais normal há em nós: não sabermos o que queremos ser e o facto de isso provocar em nós uma reação visceral de terror. Assustamo-nos connosco mesmos, quando julgamos que os verdadeiros monstros estarão fora de nós, prontos a atacar na escuridão dos nossos quartos de infância. A verdadeira Julie dá-se quando invade um casamento e tem uma noite irrepetível com Eivind; quando reencontra Aksel, nesses caminhos desencontrados da vida, e passa o dia com ele; a verdadeira Julie aparece quando supera o medo da solidão; a verdadeira Julie, e por consequência a mais feliz, é quando se entrega ao acaso, quando o inesperado acontece no esperado. Talvez seja isso: os verdadeiros rasgos de felicidade que temos dão-se quando somos nós mesmos, quando efetivamente aceitamos o charme arrebatador e aterrador de sermos o que somos. Talvez seja o medo de sermos quem somos que faz de cada um ser a pior pessoa no mundo. Quem me dera um dia ser como Julie: quem me dera um dia deixar de ser a pior pessoa do mundo.

  • Trump não vai ser ditador dos EUA

    Nenhum presidente dos Estados Unidos da América está isolado do Congresso ou mesmo do seu próprio governo. O pessimismo omnipresente que sucedeu à vitória de Donald Trump ignora tanto o seu primeiro mandato entre 2017 e 2021, como um partido que teve 162 anos de história antes deste se tornar o seu candidato presidencial. A maior parte dos atuais senadores foram eleitos pela primeira vez antes da campanha presidencial do empresário em 2016. Foram estes que impediram que o presidente eleito se tornasse um ditador no passado e, se necessário, não hesitarão em voltar a assumir esse papel.   Há uma parte do Partido Republicano que não está alinhada com Donald Trump. A maioria destes republicanos mantiveram a sua lealdade ao partido, muito poucos arriscaram declarar o seu apoio a Kamala Harris, como fizeram Dick e Liz Cheney. No entanto, foram estes mesmos republicanos que votaram aos milhões em Nikki Haley nas primárias.   O anterior vice-presidente de Trump, Mike Pence, permitiu o reconhecimento dos resultados eleitorais que deram a vitória a Joe Biden, contrariando as ordens do presidente na altura. Vance é um político muito mais alinhado com o presidente eleito do que é Pence, no entanto, ainda não foram revelados todos os secretários que constituirão o governo. O primeiro secretário da defesa de Trump, o General Jim Mattis, discordou publicamente do presidente na carta em que anunciou a sua demissão em 2019. O secretário da defesa que lhe sucedeu, Mark Esper, tal como o próprio Mattis, Dick Cheney e todos os outros ex-secretários da defesa ainda vivos, publicaram uma carta aberta em que apelavam ao secretário da defesa interino e ao próprio presidente que não envolvessem o Departamento da Defesa em tentativas de reverter os resultados eleitorais. Não só nem todos os secretários eram inabalavelmente leais a Trump, como parte deles impediram exatamente que o empresário interviesse no normal funcionamento da Democracia.   Dos nomeados até à data destacam-se a advogada Pam Bondi para procuradora-geral e o comentador da Fox News, Pete Hegseth, para secretário da defesa, postos que poderão definir em parte a capacidade do presidente eleito para subverter as normas democráticas. Ambos são claríssimos apoiantes de Trump. Destacam-se também o senador Marco Rubio e o governador Doug Burgum. Os dois republicanos mantiveram-se distantes de Trump no passado (e Rubio confirmou a contagem do voto eleitoral em 2020), mas foram recentemente «convertidos» (ambos ambicionavam ser a escolha para vice-presidente).   Também o Congresso poderá limitar o poder do presidente eleito. Apenas cerca de 40 dos 220 atuais membros republicanos da Câmara dos Representantes integram o Freedom Caucus , o grupo parlamentar que defende mais claramente a linha política de Donald Trump. Em 2020, apesar da maioria dos membros republicanos da Câmara dos Representantes ter votado a favor da objeção à recontagem dos votos eleitorais do Arizona e da Pensilvânia, menos de 10 senadores acompanharam-nos. Mitch McConnell, senador republicano que era na altura líder da maioria, aconselhou o voto dos seus pares depois de reconhecer a vitória de Biden em dezembro de 2020. 10 U.S. representatives (Liz Cheney entre eles) e 7 senadores (incluindo Mitt Romney) votaram a favor do segundo impeachment  de Trump.   Desta vez, foram eleitos vários senadores e U.S. representatives  que foram endossados pelo presidente eleito, no entanto, e apesar de Mitt Romney se ter reformado, restam ainda vários senadores moderados, como Susan Collins do Maine ou Lisa Murkowski do Alasca.   Foram, em parte, Collins e Murkowski, para além de McConnell e o senador John Curtis do Utah (que substituirá Romney), que provocaram a desistência de Matt Gaetz, primeiro nomeado de Trump para procurador-geral. O voto destes 4 senadores seria o suficiente para impedir que o desmoderadamente America First U.S. representative  fosse confirmado. O Senado definiu-se como a primeira barricada contra os radicalismos do presidente eleito, antes mesmo deste tomar posse.   Numerosos funcionários públicos e republicanos impediram que Trump contornasse as normas democráticas, particularmente no período após a sua derrota eleitoral em 2020. As tentativas menos claras de desmantelar a Democracia serão limitadas pelo facto de o empresário ser, acima de tudo, um populista. Se os restantes políticos e partidos reconhecem a complexidade dos problemas, os populistas simplificam-nos. As políticas resultantes deste processo são mais irresponsáveis do que limitadoras da Democracia. Várias das promessas feitas em campanha pelo presidente eleito, tanto este ano como em 2016 e 2020, são consensualmente consideradas impraticáveis.   Trump prometeu, por exemplo, voltar a decretar uma ordem executiva (foi decretada pela primeira vez no seu mandato anterior, mas nunca posta em prática) que implicaria que centenas de milhares de funcionários públicos passassem a ser nomeados pelo presidente, com o propósito de desmantelar completamente o « deep state » para se livrar de burocratas «incompetentes» e «corruptos». Se neste novo mandato for o mesmo Trump a tomar as decisões, a América verá mais cedo o caos administrativo do que a queda da Democracia. Os quase 3 milhões de funcionários públicos americanos, incluindo funcionários com décadas de carreira que trabalharam sob vários presidentes (incluindo Trump), não são todos dispensáveis, nem serão facilmente substituídos por “ yes-men ”.   A atitude dos democratas face a Donald Trump também não foi a mais acertada. O empresário é acusado de pretender usar os procuradores federais para perseguir opositores políticos, no entanto, foi durante o mandato de Biden que Trump foi acusado em dois casos federais iniciados pelo atual procurador-geral e num caso na Geórgia iniciado por uma procuradora democrata, todos relacionados com a sua conduta depois de ter sido derrotado em 2020. Os democratas decidiram que era oportuno tentar condenar Trump por crimes políticos, certamente com o propósito de desacreditar completamente o empresário. Na prática, os democratas tentaram dar a Trump, em quem 74 milhões de americanos tinham votado em 2020, o rótulo de antidemocrático. Estes casos permitiram que Trump dinamizasse o seu discurso, desacreditando o próprio sistema, que aos olhos de uma parte importante do eleitorado estava a usar o aparelho do Estado para destruir um movimento político que contava factualmente com milhões de apoiantes. Os democratas contribuíram para polarizar ainda mais o eleitorado, sendo que esta questão se resumiu a um concurso de «é a minha palavra contra a tua», que nenhum dos lados poderia vencer.   Outro assunto prioritário nas campanhas democratas foram os direitos reprodutivos das mulheres. É inquestionável que é um tema fundamental, mas para além de muitas eleitoras não o terem considerado prioritário, mesmo as mulheres que alinhavam com o discurso democrata não votaram em massa como era esperado.   Em 2020, Biden venceu entre os eleitores com menores rendimentos em parte por ter estado sempre associado aos sindicatos e ao mundo industrial. Este ano, a vice-presidente perdeu a maioria dos votos da classe trabalhadora americana, porque não convenceu a mesma de que a sua estabilidade financeira era a sua maior prioridade.   Kamala Harris não defendeu como podia ter defendido o mandato de Biden, que incluiu medidas que melhoraram efetivamente a vida dos trabalhadores e que permitiram resistir e recuperar de crises económicas mundiais, nem convenceu o eleitorado de que a sua pouco comentada « opportunity economy » era a melhor alternativa.   O discurso da campanha democrata foi desmedidamente anti-Trump e politicamente pouco claro, para além de se ter concentrado demasiado nos direitos reprodutivos das mulheres. Faltou à vice-presidente apresentar uma visão da América futura que verdadeiramente inspirasse os americanos.

  • Identidades na música: Manteau. Entrevista a João Carriço e Zé Salgado.

    Sempre em procura e a evoluir, os Manteau revelam-nos um estilo de música que facilmente se destaca dentro da música portuguesa. Expressam-se através de línguas e linguagens musicais diferentes, acompanhadas por melodias serenas e melancólicas. Composta por Zé Salgado (voz e guitarra), António Jordão (voz e guitarra), João “Janito” Carriço (bateria) e João Girbal (baixo), a banda pretende lançar o primeiro álbum em 2025, depois de dois EPs, Timequake  (2022) e Farsa  (2023). Depois de assistirem ao concerto de dia 15 de novembro na Sala Lisa, Luís Rau Silva e Luís van Zeller foram recebidos por Zé Salgado e João Carriço no seu estúdio, para discutir percursos e objetivos, a dinâmica e a música da banda, entre outros assuntos. Começo por perguntar se sempre quiseram pertencer a uma banda, se é um sonho desde sempre? Ou foi quando começaram a tocar juntos há uns anos que perceberam que havia um projeto que valia a pena desenvolver? ZÉ SALGADO: Eu sempre quis fazer parte de uma banda. Se eu pensar no meu percurso desde que comecei a tocar guitarra, sempre fiz parte de uma banda de uma forma ou outra. Na escola foi com uns amigos, eu vivia na Suíça, e tocávamos para uma coisa que eram os “Talent Shows”; na universidade, havia um open mic  e com um amigo fizemos alguns. Também fiz um Erasmus em que fui baixista durantes três concertos, depois expulsaram-me porque baldei-me a um concerto no dia antes. Vim para Portugal viver em 2020 e tive uns meses sem banda e estava com uma urgência enorme, queria imenso tocar com malta. Foi aí que conheci o António [Jordão] e o [João] Girbal. Portanto, sim, diria que sempre precisei de tocar com uma banda. JOÃO CARRIÇO: Eu acho que quando era puto não era bem um sonho. Não me imaginava a tocar numa banda, nem acho que seja muito natural para mim atuar. Comecei a tocar bateria por incentivo da minha irmã que tocava guitarra. Não era aqueles gajos que tocava nas panelas e isso, foi mais “Ya, pode ser”, e foi uma cena que fui apanhando o gosto. No início foi mais daquelas coisas onde os nossos pais nos inscrevem e não gostamos logo. Fui ficando mais velho e comecei a gostar cada vez mais, mas ao contrário do Zé nunca tinha estado numa banda. Só depois do secundário, quando decidi estudar música profissionalmente, é que já queria estar numa banda. Entretanto fui para jazz na Lusíada, onde tive alguns projetos com colegas meus, mas não demos concertos nem nada. Depois decidi parar de estudar música, fui para uma escola de cinema, mas continuei a querer ter uma banda e depois surgiu esta oportunidade. Porque não eras o baterista original. JOÃO CARRIÇO: Não. Surgiu quando fui vê-los uma vez ao Cosmos. ZÉ SALGADO: Hás de ter vindo nos ver em maio de 2022, e, entretanto, em agosto o nosso baterista original, o João Carvalho, tinha outros projetos e teve de cancelar dois concertos connosco. Nós queríamos arranjar alguém e lembrámo-nos do nosso amigo que foi quem levou o Janito ao concerto, sabíamos que era baterista. Por isso ele tocou connosco esses concertos. JOÃO CARRIÇO: Na altura fiquei um bocado à toa porque nem me tinha apresentado como baterista, que foi um bocado estúpido. Mas foi mais forte que a minha inaptidão de me expor profissionalmente, e pronto, fizemos uns gigs e a cena resultou. E vão agora lançar um álbum, em 2025, certo? JOÃO CARRIÇO: A ideia é essa! Não está nada gravado. Queria-vos ler aqui uma coisa que o João Girbal disse numa outra entrevista vossa, depois de lançarem o Farsa : “Ainda estamos a encontrar [o nosso som característico]. Como não tínhamos um portefólio muito grande, optámos por fazer um EP, porque sentíamos que estávamos à procura do nosso som, do que é que queríamos tocar, de onde é que nos inseríamos e de como é que nós os quatro nos conjugávamos melhor. E continuamos a fazer essa busca e espero que assim seja sempre, porque não conseguimos, nem queremos definir o som Manteau como algo específico.”   Acham que agora que já estão a gravar músicas para um álbum essa busca avançou mais? ZÉ SALGADO: A busca é para sempre! JOÃO CARRIÇO: Não é que eu não queira definir o som Manteau, mas a verdade é que nós vamos evoluindo como pessoas e a música vai evoluindo também. ZÉ SALGADO: Até estou impressionado porque essa frase bate mesmo no ponto. Nós estamos sempre em procura, se calhar o nosso som já maturou, porque já tocámos mais juntos e já experimentámos mais coisas com composições, mas está sempre em desenvolvimento. Isto de fazer um álbum, sobretudo olhando para as coisas que já lançámos, dois EPs e um single, já temos trabalho para poder olhar e dizer: “Experimentámos isto, experimentámos aquilo, agora conseguimos focar e queremos fazer uma coisa com pés e cabeça, estamos prontos para fazer um álbum”. E sabendo que o som vai sempre mudar, acho que isso é a característica de qualquer músico no mundo, está sempre a evoluir e aprender, as influências vão mudando. A coisa está sempre em evolução, mas sinto que estamos com maturidade em conjunto e que está na altura de fazermos um álbum. Portanto não se inserem em nenhum género musical? Já foram descritos como uma banda de “indie, rock, jazz” e “uma infusão de jazz com rock sensível”. JOÃO CARRIÇO: Acho que de jazz claramente não somos, embora no início vocês quisessem ser. Acho que não é para aí que vamos. ZÉ SALGADO: Há uns toques, sim. Se bem que também é dos géneros mais abrangentes, mas não diria que somos uma banda de jazz. Mas os outros talvez. Indie, rock, rock sensível com uma infusão de jazz, parece-me tudo adequado. Considerando a instrumentação (guitarras elétricas, baixo e bateria) só isso mete-nos nessas categorias. JOÃO CARRIÇO: Da música que eu oiço, eu não costumo organizar por género. Categorizar a nossa música só serve para marketing quase, é um bocado uma questão de logística. As pessoas quando ouvem sentem o que sentem, tentar encaixar é só mais uma cena que os humanos fazem. Para os festivais dá jeito, este precisa de uma banda indie, este é de jazz. Eu se pudesse, não chamava de nada. ZÉ SALGADO: Mas fico satisfeito com esses três. Já disseram também que têm backgrounds e linguagens muito diferentes. Quais é que são? JOÃO CARRIÇO: Sim, eu venho do jazz. Quando se estuda música, ou se estuda jazz ou clássico. O rock não é bem estudado, não é académico. ZÉ SALGADO: Eu não tive formação académica, portanto venho mais do rock, de pegar numa guitarra e aprender os acordes. Só mais recentemente é que comecei a ter interesse por ter uma formação mais formal. Umas aulas de jazz, de piano, recentemente fiz um curso de composição para cinema onde abordámos mais repertório clássico, e, portanto, sinto que estou encaminhado para o meu “ life-long learning ”. Estar sempre a aprender sobre música e explorar, e melhorar. Como é que vocês, tendo pontos de vista e backgrounds diferentes, se conjugam? Qual é o processo criativo? JOÃO CARRIÇO: É um bocado democrático às vezes. Às vezes é literalmente votarmos se uma coisa é fixe ou não. Neste momento é mais alguém trazer uma ideia e nós tentamos “regá-la” e ver o que é que surge. Acho que nenhum de nós está num ponto de fazer músicas de início ao fim sozinho. No geral é isto, alguém traz uma ideia e vemos se ela vinga. Às vezes também as ideias morrem, ninguém luta por elas. ZÉ SALGADO: Mas sinto que isso também já mudou. Ao início era muito à base de estarmos a tocar juntos em jam , a ver se surgia qualquer coisa aí. Hoje em dia, não é tanto assim. Até porque, falando pelos quatro, não somos instrumentistas de excelência, assim uma coisa maluca. Portanto quando estamos a tocar em jam , estamos dentro de um círculo, só conseguimos uma certa harmonia ou um certo tempo. É um bocado mais limitado. Acho que já deixámos um bocado o compor à base de jams . Há partes que possam surgir assim, mas em geral começa com uma ideia. Mencionaste há bocado a música que ouvias – queríamos saber quais é que são as vossas referências musicais? Passadas ou presentes, portuguesas ou estrangeiras, quem é que vos influenciou mais diretamente? JOÃO CARRIÇO:   Para aprender, uma grande escola são os Beatles, Pink Floyd, Arctic Monkeys, por aí. O que me influencia, eu curto muito de Radiohead, e os Smile, curto de música de cantautores, mas não sei como é que isso vem parar à banda. Enquanto baterista, tenho andado a curtir de Sonic Youth, a ver se puxo um bocado mais power para os Manteau. Quando estudava jazz, ouvia imensos bateristas de jazz, mas assim de repente é isto. Ringo Starr acho muito underrated.  É muito bom porque compunha partes para bateria que são simples, mas muito originais, serviam mesmo bem a música. ZÉ SALGADO: Os meus têm vindo a mudar. Eu ao início, a minha razão de pegar numa guitarra aos 12 anos foi Jimi Hendrix. Para fazer bandas, os Capitão Fausto acabaram por me influenciar muito, porque eu era emigrante e então agarrava-me à minha identidade portuguesa assim. Eles influenciaram-me a querer ter uma banda. Eu tenho também um grande amigo desses circuitos, o Gonçalo Bicudo [baixista dos Ganso], portanto estive sempre próximo de poder ter uma banda. Essa malta influenciou-me. Hoje em dia já é diferente. Já tenho uma banda, e tenho ido pegar influências a outros sítios. Por exemplo, para o “Só Sei Dançar Assim”, uma banda que me influenciou muito foi os Black Country, New Road – é muito guitar-based , tem sido sempre uma grande influência na banda. E depois também gosto de cantautores, do Justin Vernon dos Bon Iver. Mais recentemente estou-me a virar para música instrumental, que não tem tanta voz. Nomeadamente, hoje sou obcecado com o Steve Reich e a música minimalista. Estou a tentar perceber como é que isso se pode aplicar no contexto de uma banda de rock, mas eu sinto que só por ter isto na minha cabeça, trago coisas deste universo para a banda. Comecei a explorar música de formas que antes não explorava. A música pode surgir de conceitos, e não só de estar a tocar e ir dizendo umas palavras. Não só de estar a experimentar coisas, pode vir de um conceito. No caso do minimalismo pode ser: uma música só vai ter um acorde, e vamos pegar aí. Entre vocês qual é que escreve mais letras? ZÉ SALGADO: Até agora, on record , sou eu. Em inglês e em francês, sou sempre eu. Por teres vivido no estrangeiro. Queria de te perguntar sobre isso – é sem dúvida um fator que vos distingue doutras bandas, como é que te chega esse processo de escreveres em três línguas? Um dia chega-te uma letra em francês, outro uma em inglês… ZÉ SALGADO: Isto começa de uma questão de identidade. Sou português, mas vivi maior parte da minha vida na Suíça, onde aprendi francês e estudei numa escola inglesa. Então é uma questão de identidade, vou usar as três línguas que eu conheço. Tento perceber o que é que a música pede. Também é muito difícil escapar o inglês, sei que muitas bandas portuguesas vão para o inglês porque a música feita assim em banda é em inglês. Por todas as influências. E é uma coisa que eu quero continuar a fazer, gosto muito disso. As diferentes línguas soam diferente, é um instrumento diferente. Falo bem as três línguas e quero usar isso. Objetivamente escrevo melhor em inglês também, eu só leio em inglês. O português tem sido um desafio, mas com o “[Só Sei] Dançar [Assim]” já há uma evolução. Há malta que não fala muito bem inglês e mais facilmente faz uma letra de porcaria em inglês. Eu quero evitar isso. JOÃO CARRIÇO: Regra geral, tentamos forçar mais o português. Eu sinto alguma responsabilidade em escrevermos em português. Alguém tem que fazer música portuguesa! Por falar em música portuguesa, em relação ao cenário musical cá, acham que tem evoluído em alguma direção? Por exemplo, o que acham da forte presença de indie na música portuguesa? É algo a alimentar, ou talvez de se afastar? ZÉ SALGADO: Em termos de artistas, tem estado a crescer acho, isso é fixe de se ver. Acho que cada vez mais abandona-se aquilo que dizia de escrever em inglês. No dia em que isso deixar de acontecer, a identidade da música portuguesa vai estar consolidada. Eu gosto de sempre fazer música que seja relevante e que mereça existir. Se for uma cópia do que já existe, não me interessa. Se calhar algumas músicas que nós fizemos não precisam de existir, mas agora fazem parte da nossa história. JOÃO CARRIÇO: O rock morreu, não é, e o punk também acho eu. Certamente é bom não estarmos todos a fazer indie, mas indie também engloba muita coisa. Cá em Portugal, que artistas é que acham que passam despercebidos, que mereça mais reconhecimento? ZÉ SALGADO: É difícil perceber onde é que é a linha que separa o reconhecimento e o não-reconhecimento. Acho que se alguém merece e quiser muito trabalhar, consegue esse reconhecimento. Eu acredito nisso. Não quero dar assim de bandeja. Também há muitas pessoas que não querem reconhecimento, reconhecimento mediático. Se temos o conhecimento de nós próprios é o mais importante. Eu achar que faço boa música interessa-me mais do que outra pessoa achar ou não. JOÃO CARRIÇO: Vem-me agora um nome à cabeça, mas confesso que me desleixo um bocado em estar atento à cena portuguesa. Fui ver os MÁQUINA. que não é propriamente a minha cena, mas gostei muito. Vi também um que é o Prétu, um rapper, foi grande concerto e achei que era tipo o Kendrick Lamar português. Há uns anos vocês abriram para os Ganso, como é que é a vossa relação com eles? ZÉ SALGADO: Nós somos muito próximos do Gonçalo Bicudo, o baixista, foi um bocado o nosso padrinho no início da banda. Produziu os nossos dois EPs e eu conheço-o desde que tenho 10 anos ou assim. Foi através dele que conseguimos meter isso a acontecer. Eles é que estão a crescer de uma forma impressionante. Abriram agora a terceira data para um concerto no B.Leza que é impressionante. JOÃO CARRIÇO: No B.Leza? Isso é louco. Acho que tirando os Capitão Fausto não há nenhuma banda a fazer isso. ZÉ SALGADO: Isso para nós é uma inspiração, e é mesmo com trabalho. O que mais me inspira do novo álbum é o trabalho, está mesmo a render, é o mais importante. Está a ter o tal merecido reconhecimento. JOÃO CARRIÇO: É o craftsmanship  deles, o artesanato, a maneira que as coisas são feitas e contruídas. Tem muito trabalho metido e isso nota-se. Em relação à vossa música, o “Só Sei Dançar Assim” que lançaram em setembro, qual é que foi a inspiração por trás das imagens e das temáticas? ZÉ SALGADO: Eu escrevi 60% ou 70% depois foi o Janito que escreveu o resto. Mas o videoclipe foi o Janito por isso devias ser tu a responder. JOÃO CARRIÇO: Acho que a música não é necessariamente sobre a infância, pelo menos inicialmente. Depois foi ganhando umas cores mais infantis, não sei. Eu sempre imaginei uma cena de baile de finalistas, não sei porquê, mas foi a imagem que meti na cabeça. Talvez de termos usado um xilofone. Acho que há ali qualquer coisa que se pode aplicar a infância, ou pelo menos a criança dentro do adulto. ZÉ SALGADO: As primeiras frases que surgiram foram o “só sei dançar assim” e o “olha só”, e foi a partir daí, do vulnerável, da insegurança, de ganhar confiança sem ter a opinião e o olhar dos outros. O “olha só” implica outra pessoa, também uma coisa interessante. Também queríamos tocar na inspiração por trás do “Funny Hand”. ZÉ SALGADO: O “Funny Hand”   sinto que vem do mesmo sítio que o “Só Sei Dançar Assim”. JOÃO CARRIÇO: É uma espécie de prequela. Foi um ato criativo espontâneo também. ZÉ SALGADO: A letra inteira saiu-me em dois minutos. Tem a ver com o ser mais fácil escrever em inglês, mas vem do mesmo sítio, da mesma pessoa. Num avião, a voltar para Portugal com a minha família, pouco depois do Covid quando toda a gente usava máscara, estava a ouvir precisamente uma música dos Black Country, New Road. O “Track X”, que está escrito em rimas AABB e estava tipo, “Bem, vou escrever aqui uma rima com isto”. Escrevi no meu telefone, olho para cima e vejo a hospedeira de bordo a inclinar-se e a tirar a máscara, portanto a primeira frase ficou “You pulled down the mask”. Passado um ano, arranjámos um tempo que estava a fluir bem e precisávamos de uma letra, e saquei a letra do “Funny Hand”. De repente funcionou muito bem. Agora em relação ao futuro, como já mencionámos, lançam o vosso primeiro álbum para o ano, o que esperam dele? O que é que nos podem contar em especial sobre o álbum? JOÃO CARRIÇO: Uma coisa que vai ser diferente é que vamos tentar gravar num estúdio profissional. Isso acho que vai fazer uma grande diferença. ZÉ SALGADO: Acho que também há um bocado aquela coisa dos Ganso, do craftsmanship ¸ nós temos a música e a partir daí é trabalhá-las assim mais ao detalhe, tanto nos arranjos como no som, a mistura em geral. Mas também nunca queremos chegar a um ponto extremo. Acho que se houver um pequeno erro na guitarra, não quero ir substituir esse mini erro. São mais os detalhes de adicionar outros instrumentos, ajustes na mistura, que requer tanto trabalho como se eu fosse corrigir o erro da guitarra. JOÃO CARRIÇO: Não sei o que é que vai acontecer no próximo álbum. Já temos algumas músicas, mas ainda podem mudar, e vão mudar. ZÉ SALGADO: Estamos numa fase de escrever as canções. Queremos chegar às 10 ou 15 músicas, para depois ir a um estúdio gravá-las. É esse o plano para o princípio de 2025. Eu acredito que um álbum não deve demorar dois anos a fazer. Especialmente numa banda como a nossa, é trabalhar. A partir de ir para o estúdio, é trabalhar. E objetivos mais a longo prazo? Algum sítio onde gostavam muito de tocar, algum alcance, meta? JOÃO CARRIÇO: Paredes de Coura! ZÉ SALGADO: Paredes do Coura é o clássico, o inevitável. Para o nosso estilo de música é um bocado tipo o Meca. JOÃO CARRIÇO: Para mim é especial também porque cresci a ir lá e foi onde conheci música nova. Para a banda acho que é o melhor festival cá em Portugal onde podíamos tocar, é uma meta fixe. ZÉ SALGADO: Nós queremos, acho que antes disso, tocar mais concertos fora de Lisboa. Isso implica tocar em salas para três pessoas, para depois no ano seguinte virem 150. É o trabalho que temos de fazer. Sinto que é fácil chegar a um certo nível onde se toca salas em Lisboa, depois o difícil é entrar no circuito nacional dos festivais. Em Lisboa, temos crescido. JOÃO CARRIÇO: Há um ano, estávamos um bocado, “Fogo, porque é que não estamos a tocar no Paredes”, e isso, mas ainda bem que não, que terrível ideia. Se fôssemos tocar ao Paredes seria péssimo, ainda não estamos lá. Ainda não merecemos. Com o álbum podem vir a merecer? JOÃO CARRIÇO: Uma coisa é o álbum, outra coisa é o concerto. Acho que podermos ir a festivais, os nossos concertos têm de ser uma cena que ainda não são, em termos de consistência. O álbum só vai ajudar, é importante. É o portefólio, mas a realidade são os concertos. ZÉ SALGADO: Hoje em dia fazem-se álbuns para tocar concertos. É fácil dizermos que podemos tocar no Paredes, mas temos de olhar para e nós e perguntar, “Podemos mesmo?”. Uma questão para vocês: O que é que sentem em relação às nossas coisas gravadas e o concerto que vocês viram? Isto aplica-se a todos os artistas, não só vocês, mas acho que prefiro muito mais ao vivo. ZÉ SALGADO: Mas sentiram alguma diferença na essência, ou na emoção? Na emoção talvez, mas viver a música eleva muito a experiência. Depois de um concerto, passo a gostar muito mais de músicas que talvez não gostava tanto. Relaciono-me muito mais por ter ouvido em concerto. ZÉ SALGADO: Pois, já se sabe de onde é que vem. JOÃO CARRIÇO: Se eu tivesse de escolher só gravar músicas ou só tocar ao vivo para o resto da minha vida, acho que para a banda pelo menos, escolhia só tocar ao vivo. Também vem um bocado do rock. ZÉ SALGADO: Eu acho que tenho um bocado mais orgulho nos nossos concertos, que as pessoas venham, do que no nosso corpo de trabalho. E gostava de poder ter um grande orgulho neste primeiro álbum. Acabando aqui com umas perguntas de resposta rápida, não precisam de elaborar: Qual o vosso álbum de eleição? JOÃO CARRIÇO: O primeiro que me vem à cabeça é o A Love Supreme , John Coltrane, um de jazz. ZÉ SALGADO: Bon Iver, Bon Iver , o   segundo álbum dos Bon Iver. Melhor concerto que já deram? JOÃO CARRIÇO e ZÉ SALGADO: Gliding Barnacles 2024! Uma música vossa underrated , que vocês achem que mereça mais atenção? ZÉ SALGADO: Diria o “Só Sei Dançar Assim”, por enquanto. Um concerto onde gostavam de ter estado? ZÉ SALGADO: Os Queen, Wembley 1985. Ou o Keith Jarrett Köln Concert. JOÃO CARRIÇO: Não sei, talvez o Woodstock. Se pudessem colaborar com algum artista, qual seria? ZÉ SALGADO: Rick Rubin. É válido! JOÃO CARRIÇO: Nós tínhamos um bocado a ideia de trabalhar com o Bruno Pernadas, podia ser interessante. ZÉ SALGADO: Também estamos sempre a imaginar trabalhar com uma voz feminina portuguesa. JOÃO CARRIÇO: Sim ainda hoje falámos da A Sul, gostei da voz e do timbre dela.

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