O que Vemos e o que não Vemos
- Miguel Pereira
- Mar 13, 2024
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Updated: Jan 24, 2025
«Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.» - Eça de Queirós, As Farpas, 1871.
Apenas cinco anos depois da sua fundação, o Chega consegue nestas eleições 18% dos votos e mais de um milhão de eleitores. Anunciou o “fim do bipartidarismo”, com o melhor resultado eleitoral de uma terceira força em democracia (o PRD conseguiu 17,9% em 1985, com menos 70 mil votos). Como já esperávamos, André Ventura será o kingmaker daqui em diante (ou o “fazedor de reis”, como foi horrendamente traduzido na comunicação social).
Quem foi vendo os telejornais poderá ter estranhado. Embora não tenha ficado surpreendido – qualquer resultado do Chega, dos 13% aos 20%, seria compreendido –antecipava uma queda do Chega em relação às sondagens e uma vitória mais robusta da AD, talvez um mau resultado da IL, que seria secada pelo voto útil. Mas, mesmo com uma campanha fraca, senão desastrosa do Chega, ignorado pelos outros partidos senão pelo Bloco e um discurso a cada dia mais radical, procurando a atenção a que o habituaram, mas que desta vez não lhe foi concedida (recordou-me da imagem que Rui Rocha pintou de Ventura no debate entre ambos, da “criança que vai a um parque de diversões”), o Chega superou as expectativas otimistas daqueles que, como eu, esperavam um mais sereno discernimento do povo português.
Em 1850, o filósofo Frédéric Bastiat escreveu um ensaio que intitulou de «Ce qu´on voit et ce qu´on ne voit pas», ou seja, O que Vemos e o que não Vemos. Residirá o problema naquilo que não vemos? Quem, como eu, ficou alarmado com o resultado do Chega ou não compreende a mobilização de que é capaz, estará a passar ao lado de qualquer coisa. E essa distância entre mim e o eleitor do Chega preocupa. Eu não vejo o que eles vêm nem eles vêm o que eu vejo. Seja no TikTok, no X, em grupos de WhatsApp ou noutras redes sociais, é claro que a campanha que me foi apresentada não foi a mesma que lhes foi apresentada a eles. Para esses eleitores, talvez a “campanha” no sentido tradicional já tenha deixado de fazer sentido.
Sem entrar em aritméticas e previsões futuras acerca do curso da legislatura, é importante entender que o problema com que nos deparamos é mais amplo que conjuntural. É necessário, como disse, e bem, Pedro Nuno Santos, «ir ao encontro desse país que está descontente», e ver o que alguns, até aqui, ou não conseguiram, ou não quiseram ver. O líder do PS poderia estar-se a referir ao eleitorado descontente com o seu partido, mas a mesma reflexão é válida para os outros partidos, para todo o sistema e para o regime. Uma das críticas apontadas pelos antigos às democracias era a facilidade com que deslizam para a demagogia. Não deixemos que isso aconteça.
Eça identificou o problema, cabe-nos agora a nós vê-lo também.



Foi exactamente isso que o NYT disse depois da vitória do Trump em 2016, mas tal como lá, cá também não aprendemos.