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  • (Mais umas) Eleições Legislativas. Entrevista a Ricardo Costa

    Ricardo Costa é uma das vozes mais reconhecidas do jornalismo em Portugal. Com mais umas eleições legislativas à porta, O Discreto esteve à conversa com o antigo Diretor de Informação da SIC. Começávamos por lhe pedir um comentário a uma perceção nossa, e que parece geral, de um certo cansaço em relação à política: os temas, os políticos, o próprio comentário…   Há uma parte desse cansaço que vem por boas razões. Normalmente as pessoas interessam-se mais pelas coisas que não têm como garantidas, quando as democracias chegam a uma fase em que as pessoas a têm como garantido, tornam-se mais aborrecidas. Esta é a razão boa.   Depois, há um dado que é contraditório com essa sensação, perceção ou mesmo realidade, que é o facto de nas últimas e penúltimas eleições as pessoas terem votado muito mais. E se as pessoas não se interessassem, não votavam. Nestas últimas eleições votaram mais um milhão de pessoas do que nas anteriores e nas anteriores já tinham votado mais 300 ou 400 mil. Ou seja, de repente, nós tivemos muita gente a votar pela primeira vez, a sair da abstenção. E, portanto, este facto é contraditório com aquilo que estão a dizer, o que não significa que não seja verdade! Parece que são duas realidades paralelas.   O que pode levar à verdadeira explicação, que é que as pessoas se calhar interessam-se e depois não estão é interessadas em manter esse interesse durante quatro anos. E nestas eleições, uma das coisas mais interessantes a perceber é se a participação muito elevada de há um ano se vai manter ou não.   Tem-me feito alguma confusão esta questão de, em televisão, os políticos estarem sempre condicionados pelo tempo. Estão sempre a ser avisados que têm de terminar, muitas vezes sem conseguir passar a mensagem como desejariam.   Os meios condicionam os tempos, todos eles! Falando para a vossa geração, qual é o grande fator de sucesso atual no Youtube? São os Shorts  e os longforms . Os shorts foram promovidos por receio pelo Tiktok, mas não estavam minimamente à espera no Youtube que as pessoas estivessem disponíveis para ver videocasts de três horas, mas as pessoas vêm. Vêm porque o digital permite, a televisão não permite, nem nunca permitiu. Os meios condicionam! Mesmo quando um político dá uma entrevista a um jornal em papel e se sabe que naquelas páginas só vão caber 45000 caracteres, só cabem 45000 caracteres. Sempre foi assim!   Todos os meios têm as suas condicionantes, as suas vantagens e desvantagens. Qual é a desvantagem da televisão? É essa mesmo, têm tempo limitado. Mas qual é a grande vantagem? É que o debate deste ano chegou em simultâneo a 2.7 milhões de pessoas, mais nada faz isto. No Youtube isto até pode acontecer, mas não em simultâneo.   Mas se a televisão desse mais tempo para permitir aos políticos explicar bem as ideias, mesmo que isso significasse perder audiências…   Atualmente um político tem à sua disposição armas melhores do que tinha há quinze ou há vinte anos. Hoje um político tem o Youtube, podcasts. Pode variar, pode ir a um podcast mais à esquerda, a outro mais à direita. Um mais para jovens, outro menos. Pode fazer coisas em texto, em site, pode fazer trabalho em redes sociais. As redes sociais não têm sido determinantes em todas as eleições, mas em algumas têm tido um peso muito grande, depende muito de país para país.   Um candidato a primeiro-ministro vai a um debate em simultâneo na SIC, na TVI e na RTP, mas o mesmo candidato a primeiro-ministro também dá uma entrevista ao Geirinhas. Porque vai ter visualizações de pessoas que não o viram na televisão e vai falar de temas que não falou na televisão.   Quanto a estas eleições, não considera que houve, e há, uma ênfase desproporcional com a questão Spinumviva? Havendo muitos outros temas que afetam muito mais diretamente os portugueses.   Uma coisa são umas eleições regulares, outra coisa é quando há umas eleições antecipadas. Quer queiramos quer não, numas eleições antecipadas, acaba por ter de se discutir a razão da sua antecipação.   Imaginemos que tinha sido o ano passado por causa do orçamento de Estado não ter passado. Não tenho dúvidas de que grande parte das perguntas seriam à volta do orçamento. Neste caso, as eleições foram provocadas, na minha opinião, por vontade de dois partidos, mas que partiu de um caso muito pessoal e, portanto, acaba por condicionar o debate.   Mas, reparem, no debate entre os dois candidatos a primeiro-ministro isto foi uma coisa muita rápida, no debate com o Ventura nem sequer se falou.   O próprio governo utilizou as eleições como forma de relegitimação. Portanto, não dá para fugir totalmente a esta questão. O PS também, na minha opinião erradamente, enfiou-se neste tema. Fala de saúde, fala de educação, mas à terceira frase já tem de estar a falar da Spinumviva.   Claro que há 100 temas mais importantes, mas quando uma eleição é causada por um determinado assunto, é muito difícil evitá-lo.   Passando aqui para outro tema – parece existir uma maior noção à volta da Defesa, com guerras à porta e tudo mais. No entanto, mesmo com o paradigma mundial a mudar cada vez mais, com a cimeira da NATO em junho, não há ninguém que vote pela Defesa. Continua a ser um tema secundário em relação aos outros – porquê?   Para mim foi a coisa mais absurda do debate entre o Montenegro e Pedro Nuno Santos, não se ter falado de Defesa. Porque é que eu acho que é grave não se falar? Pelo tema em si e pelas consequências que o tema traz.   Ou seja, quando o Estado vai estar obrigado a gastar de forma permanente mais uns milhares de milhões de euros, por ano, em Defesa, é óbvio que isso vai ter consequências. Vão ter que se fazer escolhas.   Eu acho que tinha sido mais honesto, mais adulto, mais correto para com os eleitores se os partidos, todos os que aspiram a estar em governos, dissessem, “Atenção, tenho aqui uma série de ideias, mas, em função do que acontecer com as despesas em Defesa, nós talvez tenhamos de calibrar uma série de questões”.   O orçamento já é uma confusão…   Sem dúvida.   E isso vai acontecer. É uma das coisas que mais me preocupa nestas eleições. Estamos a falar de umas eleições em maio, o governo toma posse em junho, e há uma cimeira da NATO onde, de repente, o que sair de lá obriga a refazer o orçamento. E muitas pessoas podem se sentir depois enganadas.   E vão se sentir enganadas por quem? Pelos partidos de sempre, o clássico, os que estão lá há 50 anos.   Eu percebo que não seja muito popular falar do assunto, mas é um risco que tem de ser tomado pelo PS e PSD. E o Chega também, se tem 50 deputados, e quer um dia entrar no governo, também está na altura de ser adulto e começar a tratar as pessoas como adultos.   E eu prefiro ser tratado como adulto. Prefiro que ponham um asterisco, que me digam, “Olhe, há aqui um tema das pensões, ou dos salários, impostos que nós até queríamos baixar, mas não vamos poder fazer”.   Mas acha que os partidos não o fazem por medo de prejuízos eleitorais?   Os partidos têm dois bons argumentos, embora coxos. Um é de a decisão ainda não ter sido tomada, só vai ser em junho a cimeira. Portanto têm sempre essa safa, mas é uma perna curta.   O segundo é, “Apesar tudo Bruxelas está disponível para uma série de soluções orçamentais que não afetam o défice”. Mas quem percebe de economia percebe que uma coisa é não afetar o défice, outra é não termos de pagar a conta. Vamos ter de pagar a conta na mesma.   Isto tinha sido mais útil porque quando este tema acontecer, e é já em junho, as pessoas vão ficar surpreendidas. E os partidos vão dizer, “Ah, mas o quê, ficaram surpreendidas com uma coisa que já sabiam que ia acontecer?”.   Uma coisa é o Covid, ninguém esperava, ou a questão da Ucrânia, outra é a cimeira da NATO. É complicado, e temo que a reação do povo português não seja brilhante a seguir.   Voltando a um tema mais nacional, e para acabar, acha que Luís Montenegro se arrepende da forma com que fez a campanha em 2024, em relação ao Chega e às suas ideias? Penso na imigração, o ano passado, corrija-me se estiver enganado, não teve esta questão como bandeira – agora parece ter uma maior relevância.     Vamos ver se a AD ganha votos ao Chega.   É esse objetivo, ou não?   Isso é. No ano passado, a votação do Chega foi inesperada. Teve ainda mais do que as sondagens que davam 15-16%, e correu muito bem, etc. Claro que, para o PSD, isso levantou um tema muito sério, um tema até existencial. O PSD, não é a primeira vez, mas tem um partido à sua direita que quer disputar a sua hegemonia no espaço de centro-direita. Quer disputar, é uma ameaça.   O ano passado ganhou por muito pouco, com o CDS teve só mais dois que o PS, ninguém imaginava. Também ninguém imaginava que o Chega tivesse 50 deputados. Portanto eu percebo que no dia a seguir a formarem governo disseram, “Bem, como é que nós conseguimos conquistar espaço do PS, mas ao mesmo tempo fazer encolher o Chega?”. Isto foi uma preocupação do Governo.   Acho que um erro de termos ido a eleições tão cedo é que, se o PSD queria esta estratégia de pegar em vários temas, entre os quais a imigração, que convençam parte do eleitorado do Chega a voltar, precisava de mais tempo. Precisava de mais tempo, o tempo é curto. Tem pouco tempo para falar destes assuntos. O Chega já fala disto há muito tempo.   Outro ponto que para mim é a maior dúvida. Os partidos ditos moderados têm sempre alguma dificuldade nestes temas, quando há partidos à sua esquerda ou direita que são capazes de dizer coisas muito mais radicais, mais diretas e mais fáceis de perceber.   É mais fácil dizer, “Nem mais um imigrante!”, do que “Precisamos de x imigrantes…”. É sempre mais fácil dizer, “Expulsem os imigrantes!” do que “Só podemos expulsar os ilegais…”. Isso é um dilema para muitos países pelo mundo inteiro. Como lidar com certos temas quando outros dizem coisas a preto e branco.   Soluções simples para problemas complexos.   Exato.   E há ainda outra questão relacionada com a imigração – que o PSD sabe muito bem – que é o seguinte. O maior problema que Portugal tem é o problema demográfico. Totalmente indiscutível. Não é o único, há o Japão e a Coreia do Sul, mas tem uma população muito envelhecida e isso do ponto de vista económico é uma tragédia.   Ou temos uma economia super avançada do ponto de vista tecnológico, como a Coreia do Sul tenta ser, ou tem que se ter mais pessoas em idade ativa.   E isto só se consegue por duas vias. Uma, que demora muito tempo e ninguém sabe se funciona ou não, porque depende de vontades individuais, que é as pessoas terem mais filhos. A outra, é por imigração.   O tema dos apoios à natalidade, que é muito importante, espero que os governos deem todo o apoio possível, é que em muitos casos não funciona. O país com os maiores incentivos à natalidade é a Coreia do Sul – e aquilo não mexe. Na Europa é a Hungria, e aquilo não mexe. Continuam com uma taxa de fecundidade baixíssima. Está provado, por agora, que não funciona. Porque depende de uma série de questões e decisões, individuais e familiares.   É uma variável muito complexa e profunda.   E de longo prazo.   Sim, de longo prazo. Como é muito complicada, a variável de imigração é muito mais direta. Claro que isto levanta uma série de questões, mas qualquer pessoa que conheça a economia portuguesa percebe que, se de repente os imigrantes fossem embora, o país colapsava. Colapsava. Aliás o Paulo Portas, que é suspeito, diz que é uma loucura completa. Temos serviços, alguns deles dos mais prósperos da nossa economia, o setor do turismo, o agroindustrial a restauração, etc., que não funcionam sem imigração.   Portanto um partido como o PS ou PSD tem de ter muito cuidado em gerir esses temas. É um tema mesmo muito difícil. Difícil porque precisamos, e porque tem haver controle, limites e obviamente integração.   A política é complexa. As frases muito simples e curtas não respondem a maior parte dos desafios políticos. Uma parte da ascensão do Chega tem a ver com isso.   Há muitas pessoas que defendem que podia ser interessante ter o Chega no governo porque iria ser obrigado a lidar verdadeiramente com estes desafios. Aí o Ventura já não inventava coisas de ir buscar fundos comunitários para pagar pensões.

  • Uma nova Alemanha, Europa e Mundo?

    Ao passado dia 23 de fevereiro, os alemães foram chamados às urnas para decidir o futuro político do país após a queda do governo “semáforo” (SPD, Verdes e FDP). O ambiente era claramente favorável a uma mudança para a direita, após três anos e meio cujo resultado não foi famoso: dois anos consecutivos de recessão e um crescimento anémico para este ano. Antes de tudo, há que saudar a participação histórica de 83% dos alemães recenseados, em subida desde 2013. De resto, a maioria das expectativas tornaram-se realidade. A CDU liderada por Friedrich Merz venceu de forma clara, na maioria das regiões do país, mas longe da maioria absoluta, o que obriga a entendimentos com um ou mais partidos para conseguir governar. A vitória dos democratas-cristãos enquadra-se no item mais antigo e problemático na altura de eleições: economia em crise e a necessidade de reformas. Um país que está em declínio há um certo tempo e que se reflete em problemas estruturais, tendo os seus principais exemplos na sua dependência altíssima do setor automobilístico, nos custos pesadíssimos do setor da energia e no excesso de burocracia. Embora seja muito difícil, esta mudança poderá trazer alguma esperança ao país e não só. Friedrich Merz sendo um homem pro-business, poderá virar a Alemanha para uma fase de algumas mudanças, de mais visão no que diz respeito ao mercado e a uma nova fase de industrialização. Se este caminho tiver sucesso, o mesmo poderá fazer a Europa e levá-la a uma estrada comum. O resultado mais impressionante da eleição foi indiscutivelmente da AfD, liderado por Alice Weidel, que chegou historicamente a segundo mais votado e liderando alguns setores no voto demográfico. O partido de direita radical populista, teve a franja de votos mais alta nas pessoas entre os 25 e 44 anos, pessoas com ensino secundário, trabalhadores de colarinho azul e pessoas cuja situação económica particular é mais desfavorável. Além de ter vencido nas duas regiões em que já tinha vencido há três anos e meio (Saxónia e Turíngia), tirou aos sociais-democratas outras três (Brandeburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxónia-Anhalt) da eleição de 2021. Um resultado que se explica por outros cinco problemas que estiveram na agenda deste ato eleitoral: políticas migratórias, custo de vida elevado, aumento da polarização política, fragmentação eleitoral por insatisfação com o centro e o impacto da política internacional na situação alemã. O SPD foi naturalmente o grande derrotado, obteve o pior resultado dos últimos 70 anos. Vencendo apenas nas duas regiões onde é mais forte (Bremen e Hamburgo) e tendo perdido cerca de 2 milhões e meio de votos para todos lados do espectro político, o partido do então Chanceler Olaf Scholz, arrisca-se agora a ser “muleta” da CDU e a ter uma longa travessia até voltar a ter um resultado robusto que lhe permita voltar a liderar um executivo. Nos partidos mais pequenos, naturalmente destacou-se a Die Linke que venceu em Berlim (as outras regiões não mencionadas foram vencidas pela CDU e CSU, no caso da Baviera), duplicou os seus resultados face a 2021 e teve a maioria de votos das pessoas entre 18 e 24 anos. Os Verdes perderam mais de trinta deputados, o que levou à saída do líder Robert Habeck. O FDP e a BSW obtiveram um cenário pior, pois não elegeram, mas no caso dos liberais a desfavorável circunstância de ser pela segunda vez na sua história (primeira em 2013). No que diz respeito a consequências deste resultado, tudo o que resultou do mesmo era inevitável. Não creio que houvesse margem para grandes surpresas até um novo ato eleitoral. Ou seja, um governo de maioria relativa da CDU/CSU, com acordos pontuais com os outros partidos, nomeadamente com o SPD. Acabou por se tornar realidade, mas numa coligação de governo. Podendo ser bom para o país em termos de funcionamento de executivo e para as reformas, poderá também ser um risco em termos políticos. Manter-se-ão vivos os “fantasmas” do centrão e poderá fortalecer ainda mais as franjas (AfD nomeadamente). Tem-se vindo a confirmar o que antecipei em países até há pouco governados pelas forças de centro-esquerda e com o populismo de direita a crescer: As forças de centro-direita vencem pelo desgaste das forças de centro-esquerda, conseguem constituir governo, mas vivem acossadas e assombradas pelas agendas de direita radical, constituídas por problemas reais que terão de se ir resolvendo, sob pena de ver a mesma direita radical crescer se esses não forem minimamente atenuados. Por fim, tudo isto reflete um momento decisivo na história. Considero que a agenda desta direita populista e radical, não só na Alemanha como por essa Europa e mundo fora, é perigosíssima e não representa uma solução. Além da sua postura que cheira a oportunismo. Com os devidos travões, pois temos a nossa identidade e valores a conservar, juntamente com a abertura, a tolerância e o respeito para com o diferente. Tudo isto deve prevalecer. Mas também considero há já imenso tempo que é um erro chamarmos extrema-direita e extrema-esquerda a tudo o que vemos em ambos os lados do espectro político que não gostamos e fazer logo comparações com Hitler e Stalin. Digo isto tanto em relação à direita (AfD, VOX, Frente Nacional, ala radical do Partido Republicano ou CHEGA), como para a esquerda (Die Linke, Sumar, Esquerda francesa, ala esquerda do Partido Democrata ou BE). No sentido mais profundo de ambas os franjas, a palavra de ordem à esquerda é “revolução” e à direita é “reação”. Os partidos, movimentos e personagens que surgiram durante a última década e meia, mais à direita e que viraram (do avesso) os xadrezes políticos em vários países, não surgiram do nada e apenas com uma agenda contra o sistema para virar tudo a seu favor, isto é uma verdade incompletíssima. Apesar de ser verdade que ambos os “extremos” têm em comum o ataque e combate político ao centro político e partidos tradicionais, pois têm a responsabilidade política das situações desfavoráveis que os países enfrentam, pois foram os que governaram e não outros, falta perceber outro fenómeno. Surgiram e ganharam mais e mais terreno, porque movimentos de esquerda populista e com um moralismo insuportável, já tinham transformado o debate político em algo quase irrespirável e com uma divisão da sociedade entre os “bons” e os “maus”. Logo, com o tempo muitas pessoas comuns, moderadas, nada conservadoras e por vezes até mais progressistas começaram a ser chamadas de “racistas”, “xenófobas”, “homofóbicas” ou “machistas”. A resposta a este ambiente era inevitável, agravou-se e está à vista.  A solução não passa por um ambiente insuportável criado e gerido pelos dois extremos, só a defender o que considera “oprimidos” e a desfazer tudo o que chama de “opressores”. Há lugar para todos numa democracia, com respeito pelo adversário, com compromisso, com agendas de esquerda e de direita e com partidos ao serviço dos interesses dos cidadãos. Se tudo isto funcionar, não há extremos com excesso de votação. A história teve períodos que demonstraram essa realidade. Uma realidade que serve não apenas para a Alemanha, mas para a Europa e para muitos países no mundo. A história não está condenada a repetir-se.

  • Circo de Perceções

    Nos últimos meses considero-me invejoso em relação às capacidades deste Governo. Percebo que esta afirmação possa causar algum espanto e, por isso, apelo a que me acompanhem na exposição do meu estado de espírito. Falo então de um poder telepático que parece capacitar o Governo com a habilidade de combater factos que não aconteceram, acrescentando à telepatia, uma certa futurologia. O Governo é capaz de ler a mente de todos os portugueses, ajudando-os a enfrentar os seus medos, aplicando políticas de combate às perceções dos mesmos. Parece um exercício complicado, mas Luís Montenegro parece torná-lo bastante simples, algo certamente invejável.   Há cerca de um mês a PSP cercou a zona do Martim Moniz com o objetivo de combater a imigração ilegal fruto da perceção de insegurança dos portugueses. As saídas do metro foram barricadas pela polícia de segurança pública e, principalmente, o centro comercial foi o grande foco da fiscalização, resultando num detido. Acerca desta situação muito tenho a dizer, contudo quero enunciar mais uma obra-prima do Primeiro-Ministro para depois expor tudo de uma vez, de forma desproporcional, tal como a atuação do Governo. No dia 19 de dezembro, foi levada a cabo mais uma operação da PSP, mas desta vez, de forma ainda mais excecional. Foram encostadas à parede todas as pessoas que se encontravam numa rua, na Mouraria, naquilo que foi uma rusga policial, novamente, com o objetivo de combater a sensação de insegurança dos portugueses assustadiços, resultando em dois detidos e na apreensão de uma arma branca. Este combate a perceções é algo absurdo e que não traz qualquer benefício. Associar criminalidade aos imigrantes é não só falso como perigoso, pois tem exatamente o efeito contrário ao que Luís Montenegro diz pretender. Qualquer uma destas ações não é dissuasora de coisa nenhuma, mas sim uma incitação ao ódio e uma perseguição “sem pés nem cabeça” a seres humanos que apenas tentam encontrar melhores condições de vida, num país pacífico como o nosso. Os imigrantes são essenciais para Portugal, tendo contribuído, de janeiro a agosto de 2024, com cerca de 2198 milhões de euros para a Segurança Social. Sendo assim, estas ações não são mais do que uma agenda política populista e, principalmente, perigosa e que põe em causa qualquer Estado de Direito. Existem cidadãos criminosos imigrantes tal como não imigrantes e, portanto, os casos devem ser tratados de igual forma. Instrumentalizar as forças policiais para meios de campanha própria ou da extrema-direita, não só é completamente inadmissível, como põe em causa a democracia e os direitos humanos. Um imigrante é um ser humano como qualquer outro e, portanto, até prova em contrário, é mandatório tratá-lo como uma pessoa respeitadora e honesta, e não como um criminoso. Assim, qualquer ação desproporcional como estas, sem qualquer suspeita, é inaceitável e indigna de uma democracia.   Termino mudando o meu estado de espírito, mostrando-me envergonhado. Envergonhado por viver num país onde se montam circos para satisfazer agendas políticas e combater perceções. Envergonhado por viver num país onde o Governo se preocupa mais com campanhas de marketing do que com os reais problemas do país. Mas principalmente envergonhado por viver num país onde seres humanos não são tratados de forma igual e justa, como todos merecem.  Somos uma democracia e não um estado policial, tenham maneiras.

  • Finalmente os smartphones estão aborrecidos

    Desde a Segunda Guerra Mundial que estamos a viver numa época revolucionária de crescimento exponencial. Será que a mente humana e a sua imaginação existem num modelo exponencial? Ou será que estamos a chegar ao limite do que se pode criar e/ou inovar? Um excelente exemplo de produto que teve este crescimento e que aparenta agora ter apenas um desenvolvimento linear é o telemóvel. O telefone foi inventado no século XVII, mas o smartphone foi inventado em 2007. Qual a diferença entre um telefone e um smartphone ? Até 2007, os telefones faziam essencialmente duas coisas: comunicar com outra pessoa via voz e via mensagem, tendo já nos últimos anos integrado os e-mails. Claro que, a partir dos anos 2000, os telefones já tinham mais algumas capacidades, mas nunca bem integradas e, por isso, pouco usadas. Em 2007, a empresa de tecnologia conhecida na altura e, atualmente, afirmada por mudar o mercado dos computadores pessoais, decidiu lançar um telefone. Esta empresa não era nada mais nada menos que a Apple Inc., com Steve Jobs no coração da operação e Jony Ive com a mão no design. A Apple já tinha revolucionado o mundo com dois produtos: o Macintosh em 1984 e o iPod em 2001. Por volta de 2005, 50% da receita da Apple vinha do iPod e, então, a Apple, com medo de ter o seu império seguro só com um " golden goose ", decide começar a pensar quais seriam as maiores ameaças ao iPod e o que poderia ser “ the next best thing ”. Chegaram à conclusão de que os smartphones  eram essa ameaça. Sim, antes do iPhone, o título smartphone  já era usado, mas isso não significa que os telemóveis da altura eram realmente “ smart ”. Percebendo que os telemóveis, mais cedo ou mais tarde, iriam ter as capacidades para guardar e reproduzir música tão bem como o iPod, Steve Jobs decide que a Apple tem de criar o próprio produto que iria destruir o seu " golden goose ". O resto da história já é mais que conhecida: em 2007, o iPhone é lançado e realmente acaba por ser o produto da Apple que mais transformou o mundo. Em poucos meses, a indústria muda totalmente para a fórmula que a Apple tinha criado e as poucas empresas que hesitaram em mudar acabaram por morrer, nomeadamente a BlackBerry, que até à altura era uma, se não a maior, empresa de smartphones . Até agora, só vimos exemplos contrários ao que o título nos propôs e é verdade: a inovação e a revolução não pararam com o iPhone. Em 2010, tivemos o iPad; em 2014, o Apple Watch; em 2016, os AirPods; e agora, recentemente, em 2024, o Apple Vision Pro, que promete integrar o mundo real com o mundo virtual. Mas será que está mesmo a haver uma revolução com cada um destes produtos mencionados? Se avaliarmos cada um deles, talvez não encontremos assim tanto o fator ou efeito revolucionário que uma vez carregava a palavra.   É verdade que estes produtos atualmente fazem parte do nosso dia a dia, mas não possuindo um Apple Watch, AirPods, ou iPad, a vida prossegue, tendo todas as capacidades essenciais para funcionar exatamente da mesma maneira, e com igual eficiência, sem grandes repercussões.  O mesmo não podemos dizer se atualmente eu viver com um Nokia 3310, o clássico "pedra" que é conhecido por ser indestrutível. Na nossa vida pessoal ou de trabalho, é-nos esperado ter um smartphone , é-nos esperado que consigamos ver um vídeo que foi mandado no grupo de família, é-nos esperado já ter a nossa carta de condução, cartão de cidadão e outros documentos no nosso telemóvel. Não possuir um smartphone , não só dificulta a comunicação como terá outras dificuldades práticas no quotidiano . Na minha opinião, o ano em que a Apple parou de arriscar, prejudicando a sua fama de “inovadora”, foi 2014, depois do lançamento do iPhone 6. O mais fino e maior até à altura, é o terceiro telemóvel mais vendido do mundo. Com este feito, a Apple passou a jogar pelo seguro e a deixar a parte de arriscar para outras empresas, como a Samsung. Ao longo dos anos, os iPhones foram aumentando de tamanho e de espessura, mas sempre com pequenas melhorias, suficientes para uma pessoa que possua um iPhone de três gerações atrás querer mudar, mas não sendo aptas de convencer um que possua o iPhone do ano anterior a fazer esse upgrade . Embora tenha pena de já não existir esta Apple inovadora que nos metia num estado de antecipação e excitação quando ouvíamos nas keynotes  as palavras “one more thing”, o que nós hoje vemos é uma Apple acessível ao “average consumer”. Embora tenha mantido a imagem de exclusividade e de atribuir preços que o mostram, é uma Apple na qual podemos confiar que o preço se reflete na qualidade dos materiais e atenção ao consumidor.  O iPhone foi pioneiro em vários aspetos. Nomeadamente nas atualizações de software  por sete anos, enquanto a norma nas outras empresas, até há dois anos, eram três. Não é por acaso que vemos tantas pessoas a usar produtos da Apple com 7 anos e ainda serem perfeitamente usáveis – isto é conhecimento comum. Os produtos da Apple são os que mantêm melhor valor no mercado, enquanto o resto da indústria tende a desvalorizar significativamente. Ainda que seja muito criticada por estas decisões, outras empresas já começaram a implementar esta estratégia. A Samsung, conhecida por experimentar tecnologias e por não ter medo de arriscar no que toca a tecnologias experimentais, hoje joga pelo seguro. O exemplo mais recente que demonstra isto é o acabadinho de sair Samsung Galaxy S25 Ultra. A linha Ultra foi sempre feita com o objetivo de ser o pináculo do que a Samsung podia oferecer, tendo sempre um preço que mostrava também esse “pináculo”. Mas este ano foi diferente, a Samsung decidiu tirar mais coisas deste dispositivo do que adicionar em relação ao do ano anterior. Apesar de, e com grande pesar, não estarmos a ver as nossas empresas de seleção arriscarem mais, temos em troca telemóveis com uma segurança na sua qualidade e melhoramentos em aspetos internos que nos melhoram a vida (por exemplo, o tempo de bateria). Por vezes, é importante colocar a pergunta: preferimos a beleza que vem com o custo ou a estagnação na inovação que vem barata?

  • O conflito em que todos falharam

    A Guerra da Ucrânia é uma escalada de acontecimentos, que acabou por culminar num conflito enorme e que marca a nossa época. Embora envolva diretamente dois países, envolve as restantes potências, o outro continente mais desenvolvido e mais organizações. Um conflito em que todos falharam, a Rússia de forma racional e humana e os outros de forma estratégica.   Rússia   A invasão russa baseia-se em justificações que variam entre a paranoia e a distorção histórica. Um dos principais argumentos é que a expansão da NATO para leste ameaça a segurança da Rússia. Esta justificação não resiste a uma análise profunda: a NATO nunca planeou atacar a Rússia, e qualquer ameaça real era mínima. Esta visão reflete uma mentalidade passada, pois Vladimir Putin acredita que Ucrânia e Rússia pertencem à mesma nação histórica e cultural. Para Putin, a Ucrânia é um Estado artificial, criado a partir de territórios historicamente russos.   Esta não foi a primeira vez que usou justificações históricas questionáveis. Antes da pandemia, afirmou que a invasão da Polónia na Segunda Guerra Mundial também foi culpa dos polacos. Esta mentalidade revanchista e imperialista de Putin foi ignorada pelo Ocidente durante demasiado tempo, o que permitiu à Rússia agir sem uma oposição forte.   Outro argumento utilizado é uma suposta violação de um acordo entre os EUA e a URSS no final da Guerra Fria. Em 1990, o então secretário de Estado norte-americano, James Baker, terá assegurado a Gorbachev que a NATO não avançaria "nem uma polegada para leste" se a Alemanha fosse reunificada. Embora a Rússia se possa sentir traída moralmente, esse compromisso nunca foi formalizado em tratado. Além disso, impedir a adesão dos países ex-soviéticos à NATO poderia ser uma violação da vontade soberana desses Estados.   Ucrânia   No centro deste conflito está a Ucrânia, a principal vítima desta guerra brutal. Desde a anexação da Crimeia em 2014 até à invasão de 2022, os ucranianos enfrentam a destruição das suas cidades, a perda de milhares de vidas e o deslocamento de milhões de pessoas. Nada disto mereciam.   Volodymyr Zelensky está desgastado emocionalmente pelo arrastar deste conflito, além de querer o melhor para o seu povo. Naturalmente, esta é uma mistura que o deixa vulnerável à prática de erros táticos. Infelizmente, foi o que acabou por acontecer no encontro entre os líderes da Ucrânia e dos EUA na Casa Branca, em finais de fevereiro. Embora tivesse razão em aspetos fundamentais, o presidente ucraniano quase deitou tudo a perder através de um confronto e um desleixo neurolinguístico, semelhante ao do insolvente que confronta o principal credor.   Tendo-se já percebido que a Ucrânia nunca ganhará esta guerra, resta a diplomacia. Uma das chaves para o fim deste conflito e a paz subsequente, foi bem abordada por Zelensky em Washington: Putin cumpre ou não o cessar-fogo? O presidente ucraniano sabe do que fala e, infelizmente, não foi devidamente ouvido por Trump e JD Vance. Zelensky ganhou imenso arcabouço com este conflito e sabe que uma palavra de cessar-fogo por parte de Putin, vale pouco ou nada.   Sendo irónico recordar-se, que Zelensky nem era o candidato mais pró-europeu nas eleições presidenciais ucranianas de 2019, era Poroshenko. O presidente ucraniano entre 2014 e 2019, era fortemente defensor da adesão à UE e NATO (Zelensky menos); assinou o Acordo de Associação com a UE (Zelensky falou mais do combate à corrupção e de reformas internas); e tinha uma postura mais firme contra as ações russas em relação à Crimeia e ao Donbass (Zelensky defendia negociações para alcançar uma solução pacifista no conflito do Donbass).   Embora Zelensky não seja mais um candidato simpático para a Rússia numas eleições ucranianas, certamente o presidente ucraniano estará arrependido de não ter adotado uma posição mais pró-europeia e ocidental antes. Basta recordar que em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, tendo derrubado o presidente ucraniano pró-Rússia de então, Viktor Yanukovych.   EUA   A resposta norte-americana ao conflito seguiu inicialmente a linha tradicional da sua política externa: diplomacia, apoio ao regime democrático, oposição à opressão e, se necessário, intervenção militar. No entanto, à medida que o tempo passou e mesmo no início, este envolvimento tornou-se tema de debate interno, refletindo mudanças no espectro político do país.   Historicamente, os republicanos sempre foram mais agressivos no combate à influência russa, especialmente durante a Guerra Fria. Mas com Putin, que adotou um discurso mais nacionalista e conservador, setores da direita americana passaram a vê-lo com menos hostilidade. Antagonicamente, os democratas tornaram-se mais defensores de uma postura firme contra Moscovo, em parte devido à ascensão do pensamento neoconservador dentro do partido.   Um problema é que a linha que separa esta linha tradicional do neoconservadorismo, é muito ténue. O neoconservadorismo tem uma outra reputação, que faz despertar a ideia de belicismo, guerra e fraude. Basta recordar toda aquela administração (Bush) que arquitetou as guerras do Afeganistão e Iraque, como o fez e quem apoiou esta linha no passado, embora fosse adversário político interno (Biden por exemplo). Embora muitos se tenham afastado do partido republicano por não se reverem em Trump, a verdade é que a presença de alguns “ neocons ” nesta corrente política do partido democrata, faz a mesma não ser popular, além de passar a ideia de não querer a resolução diplomática deste conflito. Só esta virada mostra que Trump vence com isto e os democratas perdem.   É impossível não especular se a relação entre Trump e Putin poderá desempenhar um papel para a resolução deste conflito e se já não o terá desempenhado antes. Considero que se Trump tivesse feito o segundo mandato durante o tempo de Biden (algo que não defendi), esta guerra dificilmente teria acontecido. Entendo que a postura de um chefe de Estado é muito importante, não só em diplomacia, mas no geral da política externa de uma potência. Embora os EUA tenham uma política externa continuada, independentemente de quem ocupe o poder, a verdade é que a postura de alguém forte, energético, imperativo e algo imprevisível, desperta mais cuidado nos adversários do que alguém aparentemente fraco, debilitado, previsível e sem capacidade de se impor. Duas posturas opostas que marcaram, respetivamente, os dois mandatos em política externa. O resultado está à vista, o mundo era mais pacífico em 2021 do que agora.   Europa/EU   Por último, como tem estado neste processo, a Europa. Existe uma frase utilizada em relação a assuntos estratégicos de guerra: "Por objetivos secundários negoceia-se, por principais combate-se e por vitais morre-se”. Além de não se perceber se a Ucrânia é um objetivo principal ou secundário e de muitos países da União continuarem a depender de gás russo, a UE deixou descurar a vertente militar e de defesa ao longo dos anos. Embora supere em termos de orçamento militar e número de tropas, a verdade é que a Europa depende da NATO (EUA) e não tem a coordenação e estratégia da Rússia. Além de mobilização, materiais e capacidade nuclear. A capacidade frouxa da Europa para ajudar a resolver este conflito é o preço a pagar por anos de desleixo. Resta recompor a situação (que já vai tarde) e esperar que a nossa geração não tenha de passar pelo mesmo de há 86 anos.   Apesar de eventualmente este conflito se possa resolver até ao verão deste ano, a paz internacional poderá ainda não voltar para ficar definitivamente. Um ano, outro assunto pendente e outra potência estará no centro da preocupação global: 2027, Taiwan e China.

  • Common People

    Se me perguntarem qual é o truque, quais as técnicas ou os ângulos certos para uma fotografia ser uma boa fotografia, eu não saberei responder. Aliás, eu nem sei dizer o que é uma boa fotografia. A verdade é que não pode haver uma regra, uma fórmula ou categorias no que toca a estas coisas, como filmes, fotografias, canções, onde os bons estão numa caixa e os maus noutra. Quanto às minhas fotografias, não sei dizer se são boas ou não, mas sei que gosto muito delas. Não gosto por serem minhas – porque não são. E digo isto porque aquilo que me limito a fazer é ver, ter atenção, reparar em detalhes. O Cenário já está montado, eu limito-me a reparar nele. Assim, nesta seleção foquei-me num ambiente muito específico, a noite, festas onde as pessoas se mascaram tanto por fora como por dentro. Por algumas horas, esquecemo-nos da nossa personagem diária e somos pequenos adultos, pessoas que não somos, pessoas que queremos ser. Mesmo sem perceber, é isto que fazemos. E portanto, se tiver de responder à questão com que comecei este texto, arrisco dizer que são as pessoas ao nosso lado. Pessoas que Jack Kerouac descreve tal como eu as penso: “the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn”.

  • Led Zeppelin: Um "supergroup" em si

    O termo supergroup , neste caso, remete para uma banda constituída por artistas que já alcançaram um distinto grau de fama, noutras bandas ou a solo, antes de se juntarem para formar um novo grupo. A mais famosa banda de rock   que é tipicamente batizada como um supergroup são os Traveling Wilburys, o grupo composto pelos prestigiosos Bob Dylan (solo), George Harrison (Beatles), Tom Petty (Tom Petty and the Heartbreakers), Roy Orbinson (solo) e Jeff Lynne (Electric Light Orchestra). É evidente que esta combinação de estrelas não acontece apenas no mundo da arte musical, muitas vezes vemos grandes nomes a colaborar em filmes e, talvez mais frequentemente, no desporto. Como a denominada era dos Galácticos  do Real Madrid, que no início do século contavam com Ronaldo Nazário, Luís Figo, Zinédine Zidane, David Beckham, Roberto Carlos e outros célebres jogadores. Em 2010, o canal de televisão inglês BBC Two transmitiu uma série de pequenos documentários chamada “ I’m in a Rock’n’Roll Band!”. Recorda a história da música rock, focando-se também nos diferentes elementos que compõem uma banda tradicional de rock. Ao longo da série, são expostas votações para determinar quem é, dentro de cada função, o melhor artista de todos os tempos. Eleitos foram: Freddie Mercury (vocalista dos Queen); Jimmy Page (guitarrista dos Led Zeppelin); John Bonham (baterista dos Led Zeppelin); Flea (baixista dos Red Hot Chilli Peppers). Para além dos nomes lendários, salta também à vista o facto de metade deste supergroup  pertencer a uma só banda: aos Led Zeppelin. Isto é, dos Led Zeppelin, dois dos quatros membros foram votados os melhores de sempre nos seus respetivos papéis. Acrescento ainda que seria legítimo nomear Robert Plant, vocalista, e John Paul Jones, baixista, os melhores nestas mesmas condutas, também. Ou seja, não teria sido de maneira nenhuma absurdo ou impróprio terem ganho os quatro membros, porque todos o mereceriam. Assim, pode-se dizer que os Led Zeppelin por si mesmo representam um supergroup , algo de raro, senão único, na música. Cada um dos artistas foi essencial para definir o som icónico da banda como também do próprio hard rock , embora compreendam géneros musicais variados. Nascida em 1968, o grupo produziu oito álbuns de estúdio no espaço de dez anos (1969-1979). Com a inesgotável voz de Plant, os ilustres riffs  de Page e a potente secção rítmica de Bonham e Jones, a influência da banda é quase incomensurável, tendo inspirado muitos outros grupos de diferentes subgéneros do rock. Êxitos como “Immigrant Song”, “Whole Lotta Love” e, considerada um magnum opus não só deles, mas de toda a música, “Stairway To Heaven”, entre inúmeras outras, cimentam o legado dos Led Zeppelin como um dos mais glorificados e importantes de toda a história.   O rock já assistiu a muitos fenómenos, mas poucos se comparam ao talento que se agregou para formar os Led Zeppelin.

  • Inveja, Freud e Vómito

    Vivemos num mundo onde os carros se guiam sozinhos, onde os telemóveis e computadores pensam por nós, onde qualquer pensamento criativo pode ganhar vida com um clique, mas ironicamente, onde, o mesmo sentimento que matou Abel, pouco depois do princípio dos tempos, reina e governa uma parte significativa da nossa sociedade. Refiro-me à inveja, algo que nos corrói por dentro, mas que se tem banalizado como uma manifestação normal entre as pessoas. O que antes era impensável dizer ou fazer, estando num estado consciente, hoje não passa de uma mera trivialidade no âmbito das redes sociais. A procura de erros nos outros, e o posterior isolamento ideológico, tornando-se Deuses para si próprios, intocáveis, incriticáveis, tornou inegável a ideia de que a inveja não só nos influencia como nos governa. Começando como uma forma de comunicação, a evolução perversa e intrincada do que as redes sociais representavam levou a que estas se tornassem numa espécie de saco de vómito onde o nosso Id (fazendo a prometida ligação a Freud) se podia expressar sem amarras nem condicionamentos. Uma bolsa onde esta instância egoísta, impulsiva e irracional de cada um podia finalmente dizer tudo o que desejava. Com efeito, não são poucos os casos onde observamos qualquer uma destas três características (irracionalidade, egoísmo, impulsividade) numa publicação numa rede social. Desde comunidades Terra Planistas, a políticas de cancelamento, a diarreias ideológicas que duram 2 minutos pois, entretanto, já se viu um vídeo de um “ influencer ” espetacular que dizia o contrário, encontramos exemplos das três. Não é difícil arranjar justificação para esta segurança que se sente nas redes, para além do afastamento físico entre utilizadores, o anonimato (ou segunda personalidade) realçou a possibilidade de nos tornarmos autênticos animais reféns desta motivação primária. O uso das redes sociais para muitos foi uma forma de conter a bílis que não mais era do que a inveja que não podiam expressar em público. Mas de facto, e como um bom saco de vómito, as redes sociais limitavam-se a um recipiente fechado e selado onde alguns dos utilizadores se dirigiam para se aliviarem. Infelizmente, e com grande insatisfação constato que este saco está roto. Esta caixa de pandora foi aberta, com a pequena diferença da esperança ter sido claramente corroída pela acidez dos sucos gástricos da liberdade de se poder odiar, sem a culpa ou remorso habitual. Tudo o que disse até agora sobre as redes sociais aplicava-se até há uns anos, quando estas eram novidade, onde os seus utilizadores iam vomitar, sabendo, porém, que era um ato único, era algo fora do normal e da realidade do dia a dia. Tendo chegado aos dias de hoje, em que a geração que já não teve uma experiência pré-redes se começa a manifestar, e que, fruto dessa ausência, não consegue distinguir o saco de vómito da sua própria cama. Este novo grupo que se insurge demonstra claramente ter sido criado no hábito de que vomitar é o normal, consumidos e absorvidos pelo ideal de libertação desmedida destes malfadados meios de “descomunicação”. Com discurso preso por politicamente corretos e tabus, ou simplesmente feito de uma massa aforme sem estrutura lógica, esta geração incontinente não se retém de se manifestar com o mesmo desprezo e inveja pelo outro como faz nas redes sociais, criando políticas de ódio e de cancelamento. Políticas essas que não são mais do que partes do vómito lentamente a escorrer pela lateral do saco, chegando à sua extremidade, esperando pelo momento certo em que se lançam num voo que acabará na poça que se está a formar por baixo. Concluindo, eu, que o melhor a fazer é comprar galochas.

  • "A política é a História a ser feita" Entrevista a Sérgio Sousa Pinto

    Sérgio Sousa Pinto considera-se um "deputado livre", estando envolvido na política nacional desde muito cedo. O Discreto esteve com o antigo líder da Juventude Socialista e eurodeputado para discutir diversos temas, como a relação (ou não) dos jovens com a política, o regime português e o panorama internacional. Estudou Direito na Clássica, mas aos 21 anos já liderava a Juventude Socialista – tendo ingressado muito antes disso. Entretanto, foi eleito deputado, pela primeira vez em 1995, e depois várias outras vezes. Também foi eleito eurodeputado em 1999, entre outros cargos.   Foi uma decisão fácil dedicar-se à política?   Eu dediquei-me à política desde sempre. O primeiro cargo eletivo que exerci foi presidente da associação de estudantes do meu liceu, o Liceu Gil Vicente. Portanto fui eleito com 16 anos e nessa altura entrei também para a JS, que na altura era uma organização que praticamente não existia.   Não foi uma decisão difícil porque era aquilo que eu fazia desde sempre, fui eleito para a associação de estudantes tão cedo e sempre tive gosto pela política. Sempre fiz política por gosto, não houve um dia em que me sentei a refletir e pensei, “Bem, é isto que eu quero fazer”, não, as coisas foram acontecendo.   E acha que hoje em dia seria o mesmo processo de decisão ou poria outros fatores em causa?   Bem, eu não fiz grandes sacrifícios na medida em que não deixei de dar prioridade ao curso de Direito, essa era a minha prioridade fundamental, e, portanto, é difícil dizer o que é que eu faria. Sou hoje outra pessoa, os anos vão passando e nós transformamo-nos em pessoas diferentes, estamos sempre a mudar.   Eu tenho dificuldade em pôr-me na pele dos 16 anos de idade e saber o que é que eu faria hoje. Eu acho que hoje a política é uma atividade menos interessante do que se apresentava nos anos 80.   Então e, nesse caso, porque é que um jovem hoje deve dedicar-se à política?   Se tiver espírito de servir, gosto pela política. A política é uma vocação, quem gosta da política não faz muitos cálculos, faz aquilo para que nasceu. É como aquelas pessoas que desde cedo sabem que querem ser médicos, querem ser padres, é uma vocação. Quem tem esse gosto acaba sempre por fazer política de uma maneira ou de outra e há várias maneiras de fazer política. Há várias maneiras de estar na política e há vários tipos de compromissos que podemos fazer com a política.   E em termos dos fatores de que se falam muito hoje, por exemplo, do escrutínio mediático, do salário. Como é que esses fatores pesam na decisão de um jovem de ir para a política?   Pesam negativamente, como é evidente.   Nós estamos a caminhar para um sistema em que só pessoas com fortuna pessoal ou familiar é que se podem permitir a dedicar-se exclusivamente à política. A remuneração dos cargos públicos está completamente desatualizada e nem toda a gente tem condições económicas para sustentar a sua vida com esse tipo de remunerações. E isto vale desde os presidentes de Câmara ao Presidente da República.   Por outro lado, o grau de escrutínio e de devassa da vida das pessoas também atingiu um patamar intolerável e é natural que muita gente prefira viver tranquilamente na sua vida privada, em vez de se expor a este voyeurismo e a esta humilhação, que muitas vezes é.   Transversalmente a todas as áreas, o que é que considera fundamental para a formação de um jovem, em termos humanos, culturais, etc.?   No meu caso, o que me trouxe à política, foi o gosto pela História e pela filosofia, e a ideia de que a política é a História a ser feita. O fundamental para uma pessoa gostar de política é, do meu ponto de vista – acredito que há certamente outras maneiras de chegar à política – , o gosto e a curiosidade pela História, a necessidade sentida de ler sofregamente sobre a História, não só a nossa como a dos outros, o gosto pelos jornais, isso é absolutamente essencial.   Um político não é um especialista, o que se pede a um político é que seja um homem culto, com mundo, com capacidade de interpretar uma realidade complexa. O que não tem nada a ver com ser especialista num ramo, num seu objeto minúsculo de estudo. Não, tem de ser uma pessoa que tem que ter cultura, que tem que ter interesses diversos, alguns que parecem não ter nada a ver com a política, mas que têm sempre. Têm que ter interesses não só por tudo a ver com a política, com a História, mas com a cultura. Vocês estão a fazer um curso que parece uma autoestrada em direção à vida política [Filosofia, Política e Economia na UCP].   Sim, mas nesta questão de achar que não é preciso de ser-se especialista em nada, concorda também com essa ideia quando se trata de questões executivas?   Completamente. Vejam o caso inglês. Os políticos ingleses foram ministros de quatro, cinco pastas diferentes. Não têm de ser especialistas em nada, eles têm de se saber rodear dos melhores especialistas possíveis, mas eles próprios não têm de ser especialistas. Essa ideia de que nós estamos mais bem entregues se formos governados por especialistas é uma mistificação, é um erro.   Nós precisamos é de ter pessoas cujo bom senso, o discernimento, a adesão a determinado tipo de valores e de políticas mereçam a nossa confiança. Isso é o que importa, confiar na competência para gerir politicamente áreas de governação que são sempre difíceis porque requerem decisões e reformas. Essas decisões, que são as que contam, precisam de alguém que as explique ao país e alguém que mobilize o país para as aceitar, cumprir e ajudar. Um técnico não sabe fazer isso, não é esse o papel dele.   A política deve ser feita por políticos, e os políticos não podem dispensar dos melhores técnicos possíveis. O que também é cada vez mais difícil, porque o problema que se põe aos políticos também se põe aos técnicos, é que é difícil pagar no setor público aos melhores o que o setor privado lhes paga. Muitas vezes o Estado não tem os melhores ao seu lado.   Referiu a sua formação, quem é que eram as suas referências principais, políticas, mas não só?   No plano político, a minha referência desde cedo foi o Mário Soares, mas era também o Jorge Sampaio. Eram figuras importantes para mim. Tinha também uma referência pessoal muito importante que era a minha mãe. Nós também temos o direito a ter como referências pessoais pessoas da nossa família, não é verdade?   E devemos.   E devemos.   Já que menciona Mário Soares e Jorge Sampaio, essas referências grandes, muito se fala de uma diferença grande entre a classe política que fundou a democracia e a classe política de hoje. Pergunto-lhe se concorda com esta ideia de uma qualidade decrescente dos nossos políticos?   Sim, a minha grande angústia é pensar que o regime foi feito por pessoas que eram aptas a geri-lo e a governá-lo e, portanto, passados os gigantes fundadores do regime, o regime já não consegue funcionar tão bem com uma geração que não teve a responsabilidade de o construir e que não teve a responsabilidade de cuidar que ele funcionava.   Eu acho que esse é o grande risco, é as pessoas imaginarem que podem fazer tudo, que o regime aguenta. Enquanto aqueles que foram os fundadores do regime sabem muito bem que o regime é frágil e que é preciso protegê-lo. E vê algum sinal de potencial recuperação dessa qualidade? Ou acredita que vai continuar a decrescer?   Não, estou sempre a ver sinais positivos. Vocês, por exemplo, são um sinal positivo! O facto de acharem que esta manhã bem passada é aqui a falar comigo sobre estes temas – isso é um sinal muitíssimo positivo.   Explicou também no Geração 70 que, por causa do contexto, a sua geração estava “encharcada de política e de ideologia”. Comparando com os dias de hoje e com a nossa geração, o que espera dos futuros políticos portugueses?   A minha geração estava encharcada de ideologia porque é uma geração que ainda viveu muito o ambiente do pós 25 de Abril. Era um país onde realmente o nosso destino, até individual, era fortemente determinado pelo Estado. O peso do Estado na vida das pessoas era muito maior: existiam as nacionalizações e a maior parte da economia ainda era gerida pelo Estado; os jornais ainda estavam nacionalizados; só existia a televisão pública; a banca era nacionalizado. Era um mundo onde o Estado estava no centro de tudo, e as coisas mudaram.   As pessoas também estão menos politizadas e a política é vivida, em geral, com menos intensidade. Mas isso em si mesmo não é um problema, até é um sinal de normalização. Toda a gente deve procurar ter opiniões informadas sobre as grandes questões nacionais, e quem diz nacionais, diz também das juntas de freguesia, saber ter uma opinião válida. Mas não temos que viver todos num mundo a nadar em política, isso também é uma vida deprimente. Uma vida deprimente e pobre! Em todos os sentidos.   Mudando aqui o tema – muitas vezes, quando se pensa no Sérgio Sousa Pinto, à direita tem-se uma ideia talvez mistificada sua, como sendo uma “esquerda que dá jeito à direita”, muito por causa da sua posição contra a Geringonça. Mas também, no tempo de Guterres, era associado ao outro lado. Mais recentemente, apoio o Pedro Nuno Santos, que seria – teoricamente – o candidato mais à esquerda, comparado com o José Luís Carneiro.   Foi o Sérgio que se foi mudando, ou o PS, ou são meras perceções?   Eu mudei de certeza porque os anos passam e não ficamos a mesma pessoa. E o PS também mudou. Mas tanto eu, como o PS, vamos continuar a mudar. Essa é a ordem natural das coisas. O que me parece é que o país enfrentou outros problemas fundamentais, que acabam por me pôr nesta circunstância histórica ao lado de muitas pessoas com um pensamento mais liberal do que os socialistas. Mas julgo que possa haver uma convergência de pontos de vista.   Acho que nós temos um problema de confundir os grandes objetivos que um partido socialista deve ter, no sentido de criar uma sociedade mais decente e justa, com a estatização. Não há nenhuma razão para os socialistas serem estatistas, há um problema da cultura estatista na esquerda portuguesa. Depois há problemas também a que os socialistas devem ser sensíveis, mas que os liberais também são, que é o problema do corporativismo na sociedade portuguesa. Os interesses organizados são fortíssimos, e é muito difícil de fazermos prevalecer os interesses gerais a esses interesses organizados.   Antes do 25 de Abril vivíamos num Estado corporativo, quem mandava era o poder corporativo. E agora vivemos num estado democrático onde quem manda são as corporações. Temos de perceber estas dificuldades.   Estou a dizer isto para quê, para provar que há um caminho comum que os socialistas têm de fazer com os liberais. O papel dos socialistas é fazer com que a economia cresça e para que haja mais riqueza, mais prosperidade, mais bem-estar, mais receita fiscal e um Estado social mais generoso. O que não é possível é ter um discurso só orientado para a redistribuição, num país que continua a ser pobre. Portugal tem de deixar de ser um país pobre.   Disse também no Geração 70 : “É absurdo achar-se que sou um opositor dentro do PS, limito-me a ser um deputado livre”. Quanto a esta noção de “deputado livre”, acha que tem uma ideia de deputado diferente de grande parte das pessoas?   Eu acho que se os deputados não perceberem que foram eleitos para assumirem uma responsabilidade, de terem o seu pensamento, de se autodeterminarem, dentro de certos limites, o nosso sistema político e eleitoral vai entrar em crise. As pessoas vão exigir uma capacidade do sistema eleitoral que lhes dê mais poder para escolher o seu representante.   Porque se os deputados são todos iguais, só dizem o que partido diz, e só fazem o que o partido manda, a frustração com o sistema eleitoral vai ser cada vez maior.   Mas se os deputados demonstrarem que reconhecem que um mandato não é só do partido, também é deles, e que eles não são bonecos, que eles têm uma responsabilidade que não podem alienar, nem sequer no próprio partido, exercerem o mandato com liberdade e autonomia, aí as pessoas vão reconciliar-se com o sistema.   Apesar de tudo, nós elegemos indivíduos com autonomia, personalidade, com convicções e liberdade. Se não, acham que estão a eleger bonecos, que não tem o menor interesse.   Acredita que os atuais deputados seguem mais a voz do partido, ou usam mais a própria voz?   Eu tenho verificado nos últimos anos que a tendência geral é dos deputados terem menos voz própria, quando o papel que se exige, é justamente terem uma voz própria. Têm que ter uma voz própria. E isso é preocupante, do ponto de vista do sistema.   Mas isso também tem a ver com a capacidade de recrutamento dos partidos. Ao contrário do que as pessoas pensam, que os partidos estão fechados à sociedade, os partidos têm muita dificuldade em encontrar pessoas para integrarem as listas, nomeadamente para a Assembleia da República.   Porquê?   Porque não é uma vida especialmente desejável. As pessoas têm de prejudicar a sua trajetória pessoal e profissional na qual vão causar danos, alguns dos quais irreparáveis, para estarem ali durante um período tempo, que também não sabem quanto vai durar (a Assembleia pode ser dissolvida a qualquer momento). Receberem aquele ordenado, pago pelo Estado, exporem-se a um escrutínio a que ninguém está exposto … enfim, não é propriamente uma decisão que se tome de ânimo leve.   Isto também para as autárquicas. Quantas pessoas são convidadas para serem candidatas a presidente de câmara, e depois percebem que não têm condições económicas para exercer um mandato por causa dos salários. Estas pessoas têm uma responsabilidade gigantesca, gerem dezenas de milhões e depois recebem um ordenado, enfim, incompatível com a competência exigida a esse nível de responsabilidade.   Gostávamos de falar agora sobre o PS. Referiu Mário Soares como a sua grande referência, privou muito com ele – considera que o legado de Soares ainda está muito presente no PS, que ainda é “a esquerda da liberdade”, a esquerda de Soares?   O PS ainda é a esquerda da liberdade, até porque não existe mais nenhuma esquerda verdadeiramente da liberdade. Por exclusão de partes, é o Partido Socialista. É um partido onde as pessoas são livres.   Mas por exclusão de partes?   Também, mas não só. O PCP nunca representou o epítome da liberdade. Toda a gente percebe que o PCP é um partido submetido àquelas regras de centralismo democrático em que as pessoas geralmente não tentam destacar-se do rebanho. No PS não existe essa cultura, existe uma cultura de liberdade e de tolerância.   Portanto continua a ser um partido que convive perfeitamente com a democracia liberal e representativa. Não acha que seja um sistema democrático inferior a outros, outras fantasias, utopias, que a História já testou e sabe que não funcionam, e que não são democráticas sequer. O PS é um partido que defende a economia de mercado, nunca ninguém acusou o PS de agir, ou contra as instituições democráticas, ou liberais, ou contra a separação de poderes, a prosperidade económica e o papel dos empresários no desenvolvimento do país. O PS não é isso, tudo isso distingue o PS do resto da esquerda.   Vê ainda no PS de hoje o PS que encontrou pela primeira vez?   O PS que encontrei eu julgo que era menos ideológico. Era menos ideológico. Teve de enfrentar um país e uma realidade difíceis, sobretudo nos primeiros governos, ainda durante o Bloco Central. Esse era um PS que tinha de lidar com a realidade. E a realidade corrige todas as fantasias. O PS não quis governar para aplicar um programa de convergência com o Fundo Monetário Internacional em 1977, nem 1983, mas foi o que teve de fazer porque as circunstâncias eram essas.   Portanto foram anos difíceis, anos de austeridade. O PS tentou que o país recuperasse figuras importantes da nossa vida empresarial que eram indispensáveis para fazer o país andar para a frente. O PS era um partido com grande sentido prático – um partido pragmático. Não estava prisioneiro de ideologia e achava que quem governar em nome da ideologia contra a realidade, acaba derrotado. A realidade prevalece sempre.   Nesse sentido era um PS mais confortável. Hoje parece-me um bocado amarrado a certas ideias, das quais vai ter que se desligar progressivamente, correndo o risco de se converter num museu como é o PCP. O PS não tem nada a ver com o PCP, mas é o caso paradigmático de um partido que não fez as pazes com a realidade e ainda vive em 1917. O ideal é não viver em 1917!   Amarrado a que ideias, por exemplo?   Um exemplo prático. Se é melhor para o país que o Serviço Nacional de Saúde tenha hospitais geridos em parecerias público-privadas, porque é que, por razões ideológicas, não podemos ter parecerias público-privadas? Para mim é um mistério absoluto.   Portanto não concordo com a política saída do Governo contrária, por razões ideológicas, às parecerias público-privadas. Provaram ser boas para os utentes do SNS e boas para as finanças públicas.   E sendo assim, qual é o papel, ou o futuro, da esquerda hoje em Portugal, mas também na Europa? Em particular, face ao avanço da direita europeia.   Bem, há várias direitas. Para já, não confundam as direitas, elas são muito diferentes. Há a direita democrática, que é indispensável a qualquer regime democrático: qualquer sistema político onde vocês não vejam uma direita, já sabem que não é democrático, porque alguma coisa se está a passar. Tem de haver sempre uma direita democrática. Nós temos uma direita democrática e não podia ser de outra maneira.   Depois temos uma direita não democrática, que é um sintoma, uma patologia: o regime é um organismo, o organismo está doente, aparecem coisas como partidos de direita ou de esquerda, que não são democráticos. Neste momento nós temos um partido de direita, que é especialmente perigoso, porque não esconde o seu objetivo de roubar o regime e constituir outro, que estima ser melhor, mas que será infinitamente pior, e que não vai resolver os problemas nacionais.   E então o papel da esquerda?   Uma sociedade sem uma esquerda forte enfrenta grandes problemas. Porque pode melhorar em muitos aspetos do seu funcionamento e da sua vida, da vida social, da vida económica, do crescimento do produto. E tal como a esquerda, não há nenhuma razão para que a direita não faça o mesmo.   Mas socialmente não há nenhuma sociedade que vá progredir. Porque essa ideia que as sociedades progridem porque aqueles que estão numa posição de poder, ou porque têm mais recursos, recursos de todo o tipo, patrimoniais, económicos, culturais, vão derramá-los sobre o resto da sociedade porque são pessoas muito bem formadas, generosas e dadas a partilhar, isso não existe! Isso é uma conversa para tolos. O progresso social só foi possível porque houve quem combatesse por ele.   E, portanto, não existe progresso social sem uma esquerda forte, isso, para mim, é uma evidência. Portanto, pobres de nós e pobre da sociedade portuguesa, se não existir uma sociedade que procure sempre aprofundar a igualdade de oportunidades, aprofundar a justiça social, ou como diria Karl Popper: “Em tempos que são difíceis de aperfeiçoar, que não cuide dos menos afortunados, dos menos dotados e dos menos implacáveis.”   Recuando um pouco no tempo, o Sérgio dizia em 2017, em entrevista ao Observador , dois anos depois de constituída a geringonça, que esta teria consequências “na evolução do nosso modelo político, do nosso sistema de partidos, nas consequências para o país de um quadro governativo condicionado por um determinado perfil de apoio parlamentar.”   Parece que previu bem, pelo menos é isso que temos vindo a constatar. Pergunto-lhe então como é que olha para este novo quadro, e se acha que mina a democracia? O quadro que saiu da geringonça, é o seguinte: existe um grande bloco, com grandes afinidades entre si, chamado esquerda, e um grande bloco, com grandes afinidades entre si, chamado direita. E isto é uma falsificação da realidade, porque esta não é a realidade. Porque o PS está mais próximo do PSD do que dos outros partidos de esquerda, assim como o PSD está mais próximo do PS do que está do Chega, esta é que é a verdade! E o regime para funcionar precisa de colaboração entre os dois grandes partidos, que são os pilares do sistema, que é o PS e o PSD. Precisa que sejam capazes de negociar, precisa que sejam capazes de estabelecer compromissos, que sejam leais, e que reconheçam que quem ganhou as eleições deve ter uma oportunidade de governar. É por isso que eu fui contra a geringonça.   Para terminar, passemos ao panorama internacional. No que diz respeito às últimas notícias dos EUA, à posição de Trump face à guerra, ao seu encontro com Macron, qual deverá ser a postura do Governo português perante o atual cenário?   Nós vivíamos num mundo em que fazíamos parte do chamado bloco dos países ocidentais, fazemos parte do Ocidente. E construímos um modelo político, económico e militar geneticamente ligado aos EUA. E esse modelo que tem sido um bem-sucedido, isso acabou!   Nós agora somos um continente envelhecido, relativamente desarmado. E, de um lado, temos um bloco que é os EUA e, do outro lado, temos um bloco que é a Rússia. Nós todos assistimos à extorsão dos minerais que o Sr. Trump fez em relação à Ucrânia, como país que está em estado de necessidade e tem de aceitar a cor dos injustos, porque está em estado de necessidade.   Ora, está a ser abusado por um país mais poderoso. Se nós vivemos num mundo em que o que prevalece nas relações entre os estados são, outra vez, as relações de força, e se já não somos os mais poderosos, ou já não constituímos ao lado dos EUA o bloco mais poderoso, então nós só temos dois caminhos. Ou vamos ser vassalos dos EUA e da Rússia, ou de ambos, ou primeiro de um e depois de outro, ou vamos ser capazes de proteger os nossos interesses dentro das nossas fronteiras e fora das nossas fronteiras. Para isso nós temos de transformar profundamente a política externa da Europa e transformar a sua capacidade militar.   Então, os EUA são nossos “antigos aliados”, como dizia o Presidente Marcelo há dias?   A política externa é um sistema anárquico de autoajuda, em que só conta os interesses dos estados. E uma adesão idealista, que também é a minha, a uma ordem internacional regulada pelo direito, que é o mundo ideal, em que os fortes e os fracos nos seus conflitos, prevalece aquele que tem o direito do seu lado. Esse mundo está em falência, agora prevalece quem tem a força.   Num mundo anárquico e perigoso, nós temos de ter a força do nosso lado. Porquê? Porque pensamos que vai haver uma guerra, porque pensamos que ela é inevitável? Porque, no limite da loucura, desejamos a guerra? Nada disso! Nós temos de nos rearmar, porque a única coisa que impede uma agressão é a dissuasão. Nós precisamos de reconstituir, nós europeus sozinhos, uma capacidade militar dissuasora suficientemente forte para nunca ninguém pôr em causa os interesses europeus. Hoje é notória, todos assistimos a esta situação de desamparo em que se encontra a Europa.   Sobre os EUA, há dados que mudaram e que provavelmente nunca mais serão recuperados. A confiança no Artigo 5º, ou seja, o princípio de que um ataque a um membro da NATO constitui um ataque a todos os membros da NATO, e que todos agem em defesa do atacado, incluindo os EUA – essa convicção está em crise. E isso é grave, porque uma das consequências disso, provavelmente, vai ser o aparecimento de mais países com armas nucleares.

  • Eleições antecipadas? Então e o regime?

    Passados 11 meses de Governo da AD, tudo parece indicar que este irá cair na próxima semana com uma moção de confiança chumbada. O País olha para esta eventualidade sem grande entusiasmo.   Há muitas questões sobre o futuro, mas antes disso passarei por quatro pontos que já se conhecem ou se podem começar a adivinhar.   O primeiro é referente ao que já aconteceu até aqui: temos um Primeiro-Ministro há quase um ano, diretamente ligado à gestão de uma empresa que, por sua vez, presta serviços a outras empresas com contratos com o Estado e das quais recebe avenças. Independentemente da profundidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e/ou do escrutínio que venha a ser feito voluntaria ou involuntariamente, não será provável encontrar-se qualquer ilegalidade, mas sim algo já por todos compreendido – trata-se de uma grande mistura eticamente duvidosa de imprudência, ingenuidade e cinismo.   O segundo ponto tem a ver com algo que acabo de mencionar: uma CPI à qual será difícil escapar. Sábado passado, Pedro Nuno Santos anunciou que iria requerer uma CPI ao PM e, desde aí, esta intenção tem sido reforçada. Para além disso, vai-se percebendo que quer Montenegro seja reeleito, quer continue líder do PSD, ou ainda, quer a moção de confiança seja aprovada (altamente improvável), o atual chefe de governo terá de passar por uma morosa e penosa CPI. Só saindo da vida política, terá uma mais forte probabilidade de conseguir evitar este processo.   Terceiro ponto: daqui a três meses, já não estará na liderança do respetivo partido, ou Pedro Nuno Santos ou Luís Montenegro. Derrotado, qualquer um deles deixará quase inevitavelmente o seu cargo. Se houver já uma mudança de candidato do PSD às eleições, e uma derrota do PS, poderá ainda acontecer a ambos.   Por fim: parece evidente que vamos ter uma campanha desinteressante e fútil. Já começou a pré-campanha e é inevitável que o grande foco seja o caso do PM. Vamos passar os próximos dois meses a assistir a um deplorável jogo de arremesso da culpa da instabilidade política entre os dois maiores partidos, e os restantes, naturalmente, não facilitarão. No melhor dos casos, debater-se-á também, com mais algum interesse, a performance  até agora do atual Governo.   Passando agora às questões, a primeira que coloco é “quem quer eleições?”.   A vasta maioria dos Portugueses não quererá. Os partidos à esquerda do PS também não, dada a muito provável redução que irão sofrer. A IL é capaz de ser o partido que sai deste último ano com menos telhados de vidro partidos (fora Tiago Mayan), pelo que não se oporá muito a estas eleições. O Chega não se importará, mesmo com todos os seus recentes “casos e malinhas”, perante a oportunidade proporcionada pela matança que ocorre no centro político, mas já lá chego. A minha grande questão paira sobre as vontades sociais-democratas e socialistas.   Relativamente a Pedro Nuno Santos, considero que o seu objetivo principal seja pressionar e asfixiar o PSD, quer através de uma CPI que dure meses a fio e que condicione seriamente o Governo, quer através de uma campanha na qual se consiga afastar o máximo possível da responsabilidade daquilo que ocorre. Creio que a primeira situação seria a menos arriscada e mais favorável ao PS, mas é agora forçado a partir para a segunda e aparenta já ter começado a conseguir fazê-lo, trazendo ou não com isso resultados. A verdade é que, sem CPI e sem ter de esperar ainda muito tempo, esta seria a melhor altura para o PS para ir a eleições.   Já a vontade de Montenegro é mais clara: quer ir a eleições. No entanto, do mesmo modo que recebeu maus conselhos daqueles que o rodeiam ou do mesmo modo que foi ingénuo, pensando que seria possível esconder a Spinumviva, também isso poderá estar a acontecer agora. O que o PM calcularia, com as suas declarações do último sábado, que fosse acontecer seria:   1)     ou ver a moção de censura do PCP chumbada e continuar a governar sem necessidade de apresentar uma moção de confiança;   2)     ou, tendo de apresentá-la, vê-la:   a)      ou aprovada pelo PS por medo das culpas que teria de carregar,   b)     ou chumbada.   Este último cenário era o mais provável e é o que parece vir a acontecer, em grande parte porque Montenegro não quer passar por um inquérito longo e condicionante, e acha menos arriscado deixar os Portugueses irem às urnas. Julgo que poderá estar a arriscar mais do que pensa e quer. O problema é que a proposta do PS de uma CPI e a má gestão do caso, até agora, pelo PM, não parecem de modo nenhum atirar a culpa para os socialistas, mas sim (até agora!) deixar-lha. Montenegro estará possivelmente demasiado iludido de que repetirá o feito de Cavaco Silva em 1987 – embora sejam inúmeras as diferenças entre os dois líderes e contextos (destacando-se a seriedade do então PM, que de nada era suspeito aos olhos dos Portugueses).   Outra questão é saber se, apesar da sua fortíssima convicção atual, o líder da AD se irá manter no cargo. A estrutura do PSD aparenta estar unida em volta de Montenegro, mas, seguramente, muitas vozes dentro do partido apelarão por uma mudança, sonhada na forma de Passos Coelho ou de outros. Veremos.   A última questão que trago é “o que acontece na ressaca de umas próximas eleições?”.   Começando pelo caso em que o PS saia vitorioso, não se vê como conseguirá formar Governo. Dificilmente terá uma esquerda suficientemente forte para se apoiar ou até à qual se possa coligar e, depois da ferida agora aberta, será igualmente difícil ter o apoio do centro-direita. Ao que nos trará isso?   No caso em que a AD saia vitoriosa, ou de facto consegue uma maioria absoluta ou apoio da IL para tal, ou continua com uma fraca maioria, sendo possível que os socialistas, já muito fragmentados depois de uma segunda derrota consecutiva e agora com um novo líder, deixem este novo Governo entrar em funções. Ainda assim, a CPI continuará à espera de Montenegro.   Naturalmente, só há um vencedor com tudo isto, o Chega, que nesta crise nem precisa de fazer muito (fora uma moção de censura ao seu estilo, precipitada), apenas fica a ver o PS e o PSD a digladiarem-se enquanto atira lenha para a fogueira.   Não consigo olhar para tudo isto sem lembrar-me do que disse Sérgio Sousa Pinto há cerca de uma semana, em entrevista ao O Discreto , quando questionado acerca da qualidade decrescente dos nossos políticos:   A minha grande angústia é pensar que o regime foi feito por pessoas que eram aptas a geri-lo e a governá-lo e, portanto, passados os gigantes fundadores do regime, o regime já não consegue funcionar tão bem com uma geração que não teve a responsabilidade de o construir e que não teve a responsabilidade de cuidar que ele funcionava. Eu acho que esse é o grande risco, é as pessoas imaginarem que podem fazer tudo, que o regime aguenta. Enquanto aqueles que foram os fundadores do regime sabem muito bem que o regime é fácil e que é preciso protegê-lo. ( "A política é a História a ser feita" Entrevista a Sérgio Sousa Pinto )   Perante toda a guerrilha que o Chega vai fazendo ao regime, os partidos do bloco central não se parecem esforçar por salvá-lo a todo o custo, muito pelo contrário. Desde que tenho a pouca memória política que tenho, que se me evidencia esta falta de noção destes partidos quanto à necessidade de cuidar do regime – afinal, o “seu regime”, o seu ecossistema. Independentemente do que é constitucional ou não, os últimos anos mostraram que não há qualquer respeito nem cuidado com o regime, porque “podem fazer tudo, que o regime aguenta”.   Na última campanha, foi possível ignorar o Chega porque a AD acreditava ou fazia acreditar que por algum milagre a legislatura ia correr tão bem que os Portugueses não sentiriam qualquer necessidade e esquecer-se-iam da existência de um Chega no nosso quadro político. Há um ano, era muito fácil para a AD dizer que iria, passados 8 anos de socialismo, vingá-los e reformar o País. Agora, tendo o último Governo socialista acabado há um ano, torna-se mais difícil defender a tese, de ambos os lados do centro, de que a mudança e transformação ainda é lá que reside.   A solução pode não ser o Chega, mas trata-se de um partido que tem a sorte de ainda não ter tido qualquer experiência executiva, podendo distanciar-se dos que já a tiveram, e cuja base de revolta, que acredito ser esta que atrás evidenciei, é a que cada vez mais Portugueses compartilham e a que o faz crescer.   Torna-se cada vez mais difícil defender a ideia de que o regime não se está a encaminhar para uma morte lenta. Torna-se cada vez mais difícil defender que a causa da degradação do regime é só o atual assalto da extrema-direita à política, e não, o pouco compromisso dos políticos dos partidos de centro e fundadores do regime em comportarem-se como deveriam para que o mesmo não morra.   Enquanto em casa, a política é dedicada a discussões e distrações medíocres, lá fora, o mundo continua e agora a passos acelerados, levantando novos desafios, também para Portugal… Estará alguém atento?

  • Presidenciais prometedoras: Pontapé de saída está dado

    Até agora, a tradição dominou. No primeiro mandato, o Presidente da República eleito à primeira volta procura a reeleição. No segundo mandato, procura um lugar na história. Os últimos três inquilinos de Belém foram assim, além de terem sido desde o princípio os favoritos a ocupar a “magistratura de influência”. Os dois primeiros foram exceções. A única semelhança entre si foi o estilo interventivo nas ações do governo. De resto, bastante diferentes. Ramalho Eanes foi o único a ter poderes diferentes dos sucessores (nomear e demitir o Primeiro-Ministro e tinha o Conselho da Revolução), além de ser general e ter uma perspetiva que privilegiava a vertente presidencial. Já Mário Soares foi o único a disputar uma segunda volta (com uma vitória escassa inferior a 139 mil votos), o primeiro Presidente civil a ter uma perspetiva que privilegiava a vertente parlamentar (mais no primeiro mandato, o segundo foi bem diferente).   Após trinta anos com um estilo muito semelhante no Palácio de Belém, sempre em decrescendo em termos de qualidade e com os sucessores naturais (Costa, Durão, Santana, Passos ou Portas), ricos em currículo a colocarem-se fora da corrida, resta mesmo pensar que podemos estar à beira de uma rutura. Uma rutura que além de ser de circunstâncias, aparenta ser de estilo. As últimas eleições legislativas e europeias, mostraram que o sistema político e social relacionado mudou. Os partidos de direita juntos têm mais eleitores que os de esquerda, o eleitorado de protesto já não se manifesta maioritariamente pela abstenção e o leque grande de opções de voto pode ter vindo para ficar. Três realidades que há menos de três anos não existiam, apesar de nas últimas presidenciais e legislativas anteriores já termos visto sinais. No que diz respeito a autárquicas, creio que as que estão para breve trarão mais respostas sobre esta definitividade do que as anteriores.   O único fator que se mantém é que o centro político é decisivo para determinar quem vence o ato eleitoral. A questão é que já não é o único que empurra a eleição para um lado. Diga-se que o estilo maquiavélico de António Costa e o estilo faroleiro de Marcelo Rebelo de Sousa, muito contribuíram para estas mudanças. Mas concentremo-nos no segundo. O Presidente da República atua como chefe de Estado com funções sobretudo cerimoniais, mas tem essencialmente dois poderes mais que reconhecidos notória e politicamente: influência política através da palavra e dissolver o Parlamento durante uma crise. Dois poderes que Marcelo usou demais e até acabou por abusar, no caso da palavra. Daí a sua (alguma) descida de popularidade e o desejo de uma fatia grande do eleitorado por algo mais que unificador nos órgãos de soberania: firmeza e ordem.   Uma candidatura forte precisa de 4 fatores para sair vencedora desta eleição: ter coesão e ser unificadora, não ter ativos tóxicos associados, ter currículo ou ser algo justificativo para tal cargo e ter sentido para concorrer. Falando apenas nas candidaturas já assumidas e mais prováveis, nunca ignorando as sondagens, pode-se verificar para já as realidades que as candidaturas vão ter de enfrentar e o que terão de fazer para as consolidar ou combater.   As candidaturas de Tim Vieira, Aristides Teixeira, Manuela Magno e Orlando Cruz serão um “voto perdido”, além de pouco notáveis, a desistência seria o melhor caminho.   A candidatura de André Pestana é da fação ligada ao BE, servirá unica e exclusivamente para um pequeno setor de votos à esquerda. Não alcançará nada de relevante, só eventualmente retirar ao grande candidato do centro-esquerda a tina eleitoral que lhe permitiria disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista.   Poderá ser um caso interessante de se acompanhar a candidatura de Joana Amaral Dias. Uma figura mediática, tanto na TV como nas redes sociais e sendo assim, dá-lhe relevância a passar as suas mensagens. Apesar de ser apoiada pelo ADN, tem claramente mais notoriedade que o partido, logo é diferente num boletim ter “Joana Amaral Dias” ou ter “ADN”. Poderá ser uma surpresa.   Mariana Leitão é a candidata da fação liberal. Se fizer uma campanha coerente e algo notável, aspirará a mais notoriedade no partido e a uma percentagem de 5% ou 6%. Poderá retirar a tina eleitoral suficiente para um candidato de centro-direita disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista. André Ventura além de ser o fenómeno que ilustra muita da mudança já mencionada, representa um setor importante do eleitorado atual e tem um histórico eleitoral sempre em crescendo - embora acredite que não chegará a PR e dificilmente chegará a uma segunda volta, pois enfrentará uma barreira de oposição muito grande por parte do centro no combate pela posição de 2º mais votado. Creio que o segredo na tentativa de esvaziar um pouco esta candidatura está em Gouveia e Melo e não em Marques Mendes. A candidatura de Luís Marques Mendes foi apresentada há poucos dias. Apesar de ser o candidato mais experiente e naturalmente o do governo, tem um peso a seu desfavor, que é aparentar ser o candidato da continuidade em relação ao trabalho de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de parecer mais formal. Mas sendo o candidato da fação centro-direita e estando o país mais polarizado e politizado do que há 10 anos, aparenta ser o candidato de continuidade cujo ambiente já não se verifica favorável. Terá dificuldade em disputar a posição de segundo mais votado com Ventura e creio só ter condições escassas de ser primeiro se Gouveia e Melo não avançar. Apesar de ainda se desconhecer se avança, é inevitável falar de Henrique Gouveia e Melo. É o favorito por agora. Lidera todas as sondagens e tem o capital de ter liderado o combate pela vacinação contra o Covid-19. Tem a imagem de homem que vai pôr em sentido toda a “classe política” e pô-la-á na ordem. No entanto, terá duas grandes dificuldades pela frente e ambas vão andar de mão dada do princípio ao fim da campanha. A primeira será quando começar a falar das suas ideias e começar a mostrar o seu conteúdo enquanto candidato, aí logo se verá a sua firmeza. A segunda é que sendo a candidatura favorita, bater-se-á com a difícil tarefa de manutenção da popularidade, ou seja, será aquela candidatura que poderá começar com 60% ou 70% das intenções de voto e que terá de segurar o suficiente delas para terminar acima dos 50% para vencer a corrida. Vai começar a descer com a afirmação dos outros candidatos e fica a dúvida se terá a tal firmeza e conteúdo para aguentar a vantagem até ao fim. Não crendo que António José Seguro seja a figura mais forte à esquerda, pela ausência de carisma e de aceitação interna, a bola está do lado de Pedro Nuno Santos. O líder do PS tendo colado Gouveia e Melo à direita, terá de apresentar um candidato agora. Não querendo ir para Seguro e o suicídio que seria Santos Silva, o segredo está na aceitação ou não de António Vitorino, que seria a meu ver mais forte e agregador que Marques Mendes e eventualmente disputaria uma segunda volta com Gouveia e Melo. Veremos os próximos capítulos que esta novela nos trará.

  • Do Eco ao Extremismo: O Preço de Ouvir Uma Só Voz

    Se alguma vez me perguntassem como criar um grupo de extremistas alimentados por retóricas e narrativas ideológicas, eu diria para começar por instigar o medo, usar uma imagem forte, e provocar. O ideal, seria, porém, e aqui adoto as palavras que o economista Adam Smith disse – num contexto mais económico –, deixar as pessoas serem “guiadas pela mão invisível”, sem terem de chegar ao extremismo. Como o próprio Churchill disse: “confiem nas pessoas”.   Mas até que ponto? Até que ponto podemos deixar as pessoas serem guiadas por uma mão invisível, até que ponto podemos confiar nelas, quando nem elas sabem em que confiar? O mundo em que nos encontramos hoje é sinceramente um mundo assustador; a facilidade com que o que quer que seja se espalhe é algo de perturbador. A marosca que uma pessoa muito eloquente e quem sabe, bonitinha, nos pode meter na cabeça no que toca a uma certa ideologia é desconcertante. Passar pela Avenida da Liberdade, ouvir uma manifestação, um discurso emotivo, ficar convencido de que aquilo é a verdade, e rapidamente ser trabalhado por um fim específico, é uma realidade. O ponto aqui é ver o fácil que é convencer alguém de alguma coisa importante.   A ideia de um “tudo ou nada” é o grande problema das nossas sociedades. Pensar que é desta maneira e de nenhuma outra, que só há uma verdade, é errado, e estritamente antidemocrático. Não aceitar que há outra maneira de olhar para o mundo é uma praga, algo que acontece mais vezes do que devia nos dias de hoje. Isto deve-se em larga parte a um discurso centrado numa só racionalidade, criando facilmente uma certa câmara de eco. Com a ajuda dos algoritmos, uma figura autoritária e de alguma forma, extremista, cria com muita facilidade um exército de fanáticos, extremistas, radicais – chamem-no do que quiserem, mas que são excessivos naquilo que dizem e fazem , não há como o negar.   O que eu quero perceber mesmo, é como é que se chega a este ponto? Como é que as pessoas se tornam radicais, extremas, fanáticas? Será uma causa da falta de coesão social ou um produto de tal? Eu acho, sinceramente, que é os dois.   Vimos isto no Egito, por exemplo, durante a Primavera Árabe, quando as pessoas estavam tão frustradas que se deixaram manipular  por fins políticos e religiosos ao ponto de perpetuar ainda mais as instabilidades sociais no país pelo presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana. Ou até, e de maneira provocadora, relembro-vos dos acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021, onde um grupo de – vá chamemo-los pelo que são – extremistas, invadiram o capitólio após uma mensagem de Trump aos seus apoiantes – coincidência? Não sei, parece-me mais eloquência dele. Dando um exemplo nacional, a reação à morte de Odair Moniz em outubro de 2024 foi marcada por desacatos e manifestações por toda a Grande Lisboa. Qual a reação à rusga no Martim Moniz? Uma guerra política dos dois lados do espectro. Um é o Odair, e outro é Martim, mas não basta ter Moniz como último nome para aparecer nas notícias portuguesas e dar que falar aos dois lados do espectro político, desencadeando assim várias reações – muitas vezes violentas – a cada acontecimento. O problema é quando as reações passam de comentários – mesmo comentários de ódio – para ação, e ação violenta deixem-me adicionar.   A realidade é que as pessoas não sabem agir com controlo. Não há modos nas manifestações. Parece que a única maneira de responder a algum acontecimento polémico ou mensagem de autoridade é com pilhagem, violência e agressão. Não há como controlar as pessoas porque nem querem ser controladas. Os meios que são utilizados para nos passar informação parecem ser cada vez mais sedentos de confronto; tanto os mídia como estas figuras de autoridade se tornam um símbolo sadista que quer expor variadíssimos problemas sociais e como tal, prolongam os problemas de que se queixam inicialmente.   O extremismo, e com isso eu quero dizer as reações de que já falei, de acordo com o dicionário Priberam, é “a adoção de teorias político-sociais extremas”. As pessoas que são consideradas extremistas – que são cada vez mais – adotam estas posições porque assim o são influenciadas. Tanto a esquerda como a direita utilizam o medo da outra para desencadear o extremismo. É exatamente o medo do crescimento do outro lado do espetro político que faz com que reações extremistas comecem. E como dizia, são tanto os mídia como as figuras polémicas e fortes que pedem o extremismo como reação ao extremismo.   A extinção de outras opiniões políticas é o cúmulo do fim da democracia nos nossos países; ela impede o pluralismo, que é tão essencial para uma democracia funcional, mina a estabilidade e coesão social, e distrai o governo daquilo que realmente importa nos assuntos internos do país. As coisas tornam-se no que se tornam talvez porque os mídia assim o querem, assim o mostram, e assim o inspiram.   O absolutismo, esta ideia do “tudo ou nada”, impede que a paz prevaleça. Não pode haver democracia, estabilidade e segurança sem o tal pluralismo; mas isto é contando que o pluralismo seja respeitado e acolhido. Carl Schmitt, filósofo político, pede este dissenso para a permanência da democracia, mas há que haver condições para o dissenso. Não é a pilhar, a pegar fogo, a atacar, que se vai chamar atenção para uma questão aparentemente essencial. A minha mãe sempre me disse “quem grita numa discussão, perde logo a razão”, e quem diz gritar, também diz pilhar, pegar fogo e atacar.   Acho que a solução para esta revolta das pessoas, e a maneira como conduzem tal revolta, é responsabilidade dos líderes de cada país. Responsabilidade para conseguirem transmitir corretamente os seus pontos de vista, responsabilidade de manterem órgãos da comunicação que tenham a segurança e estabilidade como principal objetivo, e responsabilidade de educarem os seus sujeitos a saberem distinguir diferentes pontos de vista e a saber viver com eles sem passar para o extremo.   Voltando ao meu ponto inicial, há, sim, que deixar as pessoas serem guiadas pela mão invisível de Smith, e em cada democracia acolhedora, há que confiar nas pessoas. Mas também há que cultivar um ambiente propício á estabilidade social e política. Não é um trabalho fácil, mas tenho esperança de que as próximas gerações tragam isto à mesa – ou sujeito-me a ter essa esperança.

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