O fardo de não saber ser em "The Worst Person in the World"
- Gonçalo Teixeira
- Dec 13, 2024
- 4 min read
Nunca se sabe bem quando irão as crises de identidade surgir para nos amedrontar e desregular a nossa homeostasia identitária. Afinal de contas, tanto podemos chegar ao fim de vida iludidos e magnetizados pelo espírito do prazer momentâneo, onde nunca o estado reflexivo sobre o verdadeiro eu surge, tal como podemos, num segundo da nossa jovem ainda vida, aperceber-nos que tudo está errado, que nada daquilo nos faz sentido: podemos perceber que não fazemos sentido, que o relógio se desregulou momentaneamente e eternamente do sentido do universo.
A premissa de The Worst Person in the World (2021) é apresentar-nos a vida de Julie em doze capítulos, aos quais se juntam um prólogo e um epílogo: é uma jornada biográfica, em que acompanhamos a sua vida desde o início da vida adulta até aos seus trinta e poucos anos. O filme apresenta-nos a quotidianidade de alguém que se sente quase sempre infeliz, que quer sempre mais do que o que tem e que é questionada, pelas normas sociais, porque não quer o que deveria querer.
The Worst Person in the World apresenta-nos uma história que poderia ser facilmente confundida com a nossa.
O poderio argumentativo e introspetivo desta obra-prima está no facto de capturar o peso das escolhas e das não-escolhas, o fardo invisível do tempo que escorre pelas nossas mãos. Cada decisão que Julie toma – deixar Aksel, envolver-se com Eivind, adiar a maternidade – não é apenas um passo temporal em frente, mas também um corte com tudo o que poderia ter sido: trata-se da simultânea eliminação e criação de novos mundos possíveis. O filme desafia-nos a pensar naquilo que sacrificamos, consciente ou inconscientemente, em nome de uma felicidade que nunca chega a ser plena, mesmo quando julgávamos ser o êxtase perene.
Entre sorrisos efémeros e momentos de perda devastadora, a narrativa convida à reflexão sobre o que se prioriza na instantaneidade da vida. Julie não é heroína nem vilã; é apenas alguém que, como todos nós, tenta encontrar sentido no caos, enquanto o mundo à sua volta insiste em exigir respostas que ela ainda não tem.
Na complexidade simples da trama, é Julie o ponto de ligação entre as três personagens principais do filme: Aksel, ela mesma e Eivind. Mais do que uma relação amorosa com Julie como vértice comum, as três personagens sofrem da instabilidade de, um dia, querer sol na eira e, noutro, sol no nabal – os três, por muito diferentes que sejam, personificam a estável instabilidade da vida e uma vontade ofegante de ser feliz.
A vida é o ecoar distorcido das imagens alucinogénias da própria mente e da nossa reflexão: é uma dupla reflexão, no sentido imagético e no sentido psíquico, em que cada um se vê obrigado a debruçar sobre a sua vida, sobre si mesmo, curvando-se pelo peso de querer ser tudo o que não é, para mais tarde querer ser o que foi.
É por isso que também Proust procura o tempo que perdeu; é por isso que Aksel diz sentir muito mais do que nostalgia quando olha para o passado e pensa no apartamento da infância, nos seus primeiros contactos com a banda desenhada, nos tempos em que vivia com Julie: olhamos para trás quando a parede que defronte de nós surge nos parece intransponível e a ponte que ligava os dois lados do abismo ruiu. Admitimos que precisamos do conforto que antes tivemos.
Recordamos os nossos primeiros amores ou recordamos os verdadeiros amores que entretanto não passavam da ilusão bonita de uma juventude que os viveu; lembramo-nos de um álbum que se ouviu, uma brincadeira que ficou. Enfim. Buscamos sempre o que o tempo nos tende a tirar, ou aquilo que julgamos para sempre perdido, porque os tempos de hoje são infinitamente diferentes dos tempos que foram, as tais realidades e mundos distintos que acabámos por criar.
É por isso que o artista não quer viver na sua arte, nem o amado quer viver na memória do amor da sua vida: seja qual for a situação, cada um escolhe sempre viver, não na memória dos outros, mas sim no seu apartamento, com a sua família, com a mulher da sua vida. Queremos ser tudo aquilo que sempre desejamos e que julgávamos ser eterno; talvez num qualquer momento da nossa vida tenhamos julgado que aquele momento em particular ou aquele estado de coisas seria eterno; talvez desejássemos que o futuro fosse a repetição de um passado; talvez o que nós queremos não seja aquilo que realmente queremos, pois só queremos querer o que julgamos querer.
Julie é a representação do devir, personificando a necessidade de fuga, a insegurança que a segurança nos dá quando julgamos estar estabelecidos enquanto pessoas. Nada nela é de infra-humano face a qualquer um de nós; muito menos a qualifica como pior. No desespero de viver entre a sua alma e o seu corpo, entre o seu coração e a sua pele, Julie personifica o que de mais normal há em nós: não sabermos o que queremos ser e o facto de isso provocar em nós uma reação visceral de terror. Assustamo-nos connosco mesmos, quando julgamos que os verdadeiros monstros estarão fora de nós, prontos a atacar na escuridão dos nossos quartos de infância.
A verdadeira Julie dá-se quando invade um casamento e tem uma noite irrepetível com Eivind; quando reencontra Aksel, nesses caminhos desencontrados da vida, e passa o dia com ele; a verdadeira Julie aparece quando supera o medo da solidão; a verdadeira Julie, e por consequência a mais feliz, é quando se entrega ao acaso, quando o inesperado acontece no esperado.
Talvez seja isso: os verdadeiros rasgos de felicidade que temos dão-se quando somos nós mesmos, quando efetivamente aceitamos o charme arrebatador e aterrador de sermos o que somos. Talvez seja o medo de sermos quem somos que faz de cada um ser a pior pessoa no mundo.
Quem me dera um dia ser como Julie: quem me dera um dia deixar de ser a pior pessoa do mundo.



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