top of page

Fugir de mim / Reter-me em nós

  • Gonçalo Teixeira
  • Oct 23, 2024
  • 3 min read

Cheguei à conclusão que não quero mais ter amigos. Não quero; não preciso. São-me absolutamente dispensáveis, tal como dezenas, centenas e milhares de coisas da minha vida.  Cansei-me desta vivência verdadeira de os ter a meu lado, exigindo que seja o que sou, nem aquém, nem além.


Se hoje me perguntares o porquê de todo este desabafo, respondo-te somente desta forma: cansei-me de ter amigos. Basta.


Infelizmente, tenho muitos amigos: tenho-os como o sustentáculo que atrai a impossibilidade de me continuar a enganar a mim próprio, de continuar a dizer, a mim mesmo, que sou tudo e mais alguma coisa, quando não sou nada, nem um mísero nada. Infelizmente, tenho amigos que me dizem quando erro e ainda quando acerto. Infelizmente, tenho amigos que constroem o que sou, quando eu ando há dias, há meses, há anos, a tentar fugir de tudo isso. Infelizmente tenho amigos que me obrigam a ser melhor, com eles e comigo. Que altivez, que superioridade moral aberrante!


Como é que é possível que ninguém perceba que o meu errar não é errante, mas sim certeza, escapatória em vista a um irreal com desejos de realidade? Tudo o que faço não são manifestações da minha identidade, mas da minha tentativa de a eliminar, de a tornar numa anti-identidade. Deixem-me construir uma narrativa idílica do que não sou, dizer-me o melhor dos homens e o rei de todos os castelos de areia deste mundo! Deixem-me propagar aos sete ventos a honestidade desonesta de ser quem quero ser, mas efetivamente não sou!


Mas não… Os meus amigos fazem-me relembrar que não posso ser isso, porque o que sou é o que sou e não posso não ser eu.


Como podem eles gostar de algo, quando esse mesmo algo se abomina a si mesmo?


Todos me faziam um favor, se me deixassem ser o que não sou; se me deixassem viver a vida na ilusão de ser outro que não eu mesmo. Libertavam-me do peso que é estar obrigado a ser o que o homem é, quando nunca o pediu, nunca o desejou e jamais o desejaria. Mas afinal e no final das contas, estes sujeitos que se dizem meus amigos, sê-lo-ão, ou não passarão de meros inimigos?


A verdade nua e crua é que me cansei de ter amigos.


Por hoje e a partir de hoje, chega de amigos: deixem-me estar miseravelmente resoluto, nesta decisão de ser tudo o que não sou. Pois, só na constância da fuga a mim mesmo é que posso perceber o quão crápula e deselegante eu sou realmente. Só me vendo na dispersão de mim, é que posso objetivamente odiar-me.


E mesmo assim, enquanto vou fugindo de mim, todos os meus amigos me relembram do que deixei para trás, como se de um crime se tratasse fugir da carga que me assola. Não há como seguir nesta narrativa que inventei, pois a caneta com que me vou escrevendo está constantemente a ser roubada das minhas mãos, para que jamais me deixem dizer as falsas verdades acerca de mim mesmo.


E mesmo assim, sendo o pior homem de todos os homens, a besta das bestas, há algo que continua a perseguir-me e a fazer com que jamais me esqueça da verdade que em mim habita. Como um mísero recluso das galés, encareceram-me na prisão de ser eu e só eu. Odeio-me odiando-me e odeio-me na incapacidade de não poder ser um se não eu mesmo. Mas mesmo assim, os meus amigos continuam aqui, terminantemente comprometidos em demover-me do sonho de algo mais que não eu mesmo. Mesmo odiando-me a mim, eles são capazes de me amar: pelo que sou, não por aquilo que não serei.


Por mais que as pulsões de evasão e de migrar para um outro me dominem, os meus amigos persistem na estabilidade ontológica do eu, como se fossem guardiões indesejados de uma verdade, da minha verdade. E é essa insistência deles que me enerva: não me deixam mergulhar no conforto da ilusão, não me permitem viver na pele de alguém que não sou, no manto de um Imperador de um Império sem terras.


Talvez seja isso o que mais me assusta. Talvez, afinal, essas amizades, que tantas vezes me parecem uma prisão, sejam a única coisa que me mantém são, mesmo quando tudo em mim grita por evasão. No meio do berrar da minha alma, os meus amigos emprestam-me silêncio e põem fim à tempestade que destrói os barcos no alto dos oceanos…


Apesar de tudo o que sou e insisto não ser, ainda tenho os meus amigos. Talvez não seja assim tão mau. Mesmo sendo um homo horribilis, ainda tenho os meus amigos…

 
 
 

Comments


bottom of page