Identidades na música: Manteau. Entrevista a João Carriço e Zé Salgado.
- O Discreto
- Dec 3, 2024
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Updated: Dec 6, 2024
Sempre em procura e a evoluir, os Manteau revelam-nos um estilo de música que facilmente se destaca dentro da música portuguesa. Expressam-se através de línguas e linguagens musicais diferentes, acompanhadas por melodias serenas e melancólicas. Composta por Zé Salgado (voz e guitarra), António Jordão (voz e guitarra), João “Janito” Carriço (bateria) e João Girbal (baixo), a banda pretende lançar o primeiro álbum em 2025, depois de dois EPs, Timequake (2022) e Farsa (2023).
Depois de assistirem ao concerto de dia 15 de novembro na Sala Lisa, Luís Rau Silva e Luís van Zeller foram recebidos por Zé Salgado e João Carriço no seu estúdio, para discutir percursos e objetivos, a dinâmica e a música da banda, entre outros assuntos.

Começo por perguntar se sempre quiseram pertencer a uma banda, se é um sonho desde sempre? Ou foi quando começaram a tocar juntos há uns anos que perceberam que havia um projeto que valia a pena desenvolver?
ZÉ SALGADO: Eu sempre quis fazer parte de uma banda. Se eu pensar no meu percurso desde que comecei a tocar guitarra, sempre fiz parte de uma banda de uma forma ou outra. Na escola foi com uns amigos, eu vivia na Suíça, e tocávamos para uma coisa que eram os “Talent Shows”; na universidade, havia um open mic e com um amigo fizemos alguns. Também fiz um Erasmus em que fui baixista durantes três concertos, depois expulsaram-me porque baldei-me a um concerto no dia antes.
Vim para Portugal viver em 2020 e tive uns meses sem banda e estava com uma urgência enorme, queria imenso tocar com malta. Foi aí que conheci o António [Jordão] e o [João] Girbal. Portanto, sim, diria que sempre precisei de tocar com uma banda.
JOÃO CARRIÇO: Eu acho que quando era puto não era bem um sonho. Não me imaginava a tocar numa banda, nem acho que seja muito natural para mim atuar. Comecei a tocar bateria por incentivo da minha irmã que tocava guitarra. Não era aqueles gajos que tocava nas panelas e isso, foi mais “Ya, pode ser”, e foi uma cena que fui apanhando o gosto. No início foi mais daquelas coisas onde os nossos pais nos inscrevem e não gostamos logo.
Fui ficando mais velho e comecei a gostar cada vez mais, mas ao contrário do Zé nunca tinha estado numa banda. Só depois do secundário, quando decidi estudar música profissionalmente, é que já queria estar numa banda. Entretanto fui para jazz na Lusíada, onde tive alguns projetos com colegas meus, mas não demos concertos nem nada. Depois decidi parar de estudar música, fui para uma escola de cinema, mas continuei a querer ter uma banda e depois surgiu esta oportunidade.
Porque não eras o baterista original.
JOÃO CARRIÇO: Não. Surgiu quando fui vê-los uma vez ao Cosmos.
ZÉ SALGADO: Hás de ter vindo nos ver em maio de 2022, e, entretanto, em agosto o nosso baterista original, o João Carvalho, tinha outros projetos e teve de cancelar dois concertos connosco. Nós queríamos arranjar alguém e lembrámo-nos do nosso amigo que foi quem levou o Janito ao concerto, sabíamos que era baterista. Por isso ele tocou connosco esses concertos.
JOÃO CARRIÇO: Na altura fiquei um bocado à toa porque nem me tinha apresentado como baterista, que foi um bocado estúpido. Mas foi mais forte que a minha inaptidão de me expor profissionalmente, e pronto, fizemos uns gigs e a cena resultou.
E vão agora lançar um álbum, em 2025, certo?
JOÃO CARRIÇO: A ideia é essa! Não está nada gravado.
Queria-vos ler aqui uma coisa que o João Girbal disse numa outra entrevista vossa, depois de lançarem o Farsa: “Ainda estamos a encontrar [o nosso som característico]. Como não tínhamos um portefólio muito grande, optámos por fazer um EP, porque sentíamos que estávamos à procura do nosso som, do que é que queríamos tocar, de onde é que nos inseríamos e de como é que nós os quatro nos conjugávamos melhor. E continuamos a fazer essa busca e espero que assim seja sempre, porque não conseguimos, nem queremos definir o som Manteau como algo específico.”
Acham que agora que já estão a gravar músicas para um álbum essa busca avançou mais?
ZÉ SALGADO: A busca é para sempre!
JOÃO CARRIÇO: Não é que eu não queira definir o som Manteau, mas a verdade é que nós vamos evoluindo como pessoas e a música vai evoluindo também.
ZÉ SALGADO: Até estou impressionado porque essa frase bate mesmo no ponto. Nós estamos sempre em procura, se calhar o nosso som já maturou, porque já tocámos mais juntos e já experimentámos mais coisas com composições, mas está sempre em desenvolvimento. Isto de fazer um álbum, sobretudo olhando para as coisas que já lançámos, dois EPs e um single, já temos trabalho para poder olhar e dizer: “Experimentámos isto, experimentámos aquilo, agora conseguimos focar e queremos fazer uma coisa com pés e cabeça, estamos prontos para fazer um álbum”. E sabendo que o som vai sempre mudar, acho que isso é a característica de qualquer músico no mundo, está sempre a evoluir e aprender, as influências vão mudando. A coisa está sempre em evolução, mas sinto que estamos com maturidade em conjunto e que está na altura de fazermos um álbum.
Portanto não se inserem em nenhum género musical? Já foram descritos como uma banda de “indie, rock, jazz” e “uma infusão de jazz com rock sensível”.
JOÃO CARRIÇO: Acho que de jazz claramente não somos, embora no início vocês quisessem ser. Acho que não é para aí que vamos.
ZÉ SALGADO: Há uns toques, sim. Se bem que também é dos géneros mais abrangentes, mas não diria que somos uma banda de jazz.
Mas os outros talvez. Indie, rock, rock sensível com uma infusão de jazz, parece-me tudo adequado. Considerando a instrumentação (guitarras elétricas, baixo e bateria) só isso mete-nos nessas categorias.
JOÃO CARRIÇO: Da música que eu oiço, eu não costumo organizar por género. Categorizar a nossa música só serve para marketing quase, é um bocado uma questão de logística. As pessoas quando ouvem sentem o que sentem, tentar encaixar é só mais uma cena que os humanos fazem. Para os festivais dá jeito, este precisa de uma banda indie, este é de jazz. Eu se pudesse, não chamava de nada.
ZÉ SALGADO: Mas fico satisfeito com esses três.
Já disseram também que têm backgrounds e linguagens muito diferentes. Quais é que são?
JOÃO CARRIÇO: Sim, eu venho do jazz. Quando se estuda música, ou se estuda jazz ou clássico. O rock não é bem estudado, não é académico.
ZÉ SALGADO: Eu não tive formação académica, portanto venho mais do rock, de pegar numa guitarra e aprender os acordes. Só mais recentemente é que comecei a ter interesse por ter uma formação mais formal. Umas aulas de jazz, de piano, recentemente fiz um curso de composição para cinema onde abordámos mais repertório clássico, e, portanto, sinto que estou encaminhado para o meu “life-long learning”. Estar sempre a aprender sobre música e explorar, e melhorar.
Como é que vocês, tendo pontos de vista e backgrounds diferentes, se conjugam? Qual é o processo criativo?
JOÃO CARRIÇO: É um bocado democrático às vezes. Às vezes é literalmente votarmos se uma coisa é fixe ou não. Neste momento é mais alguém trazer uma ideia e nós tentamos “regá-la” e ver o que é que surge. Acho que nenhum de nós está num ponto de fazer músicas de início ao fim sozinho. No geral é isto, alguém traz uma ideia e vemos se ela vinga. Às vezes também as ideias morrem, ninguém luta por elas.
ZÉ SALGADO: Mas sinto que isso também já mudou. Ao início era muito à base de estarmos a tocar juntos em jam, a ver se surgia qualquer coisa aí. Hoje em dia, não é tanto assim. Até porque, falando pelos quatro, não somos instrumentistas de excelência, assim uma coisa maluca. Portanto quando estamos a tocar em jam, estamos dentro de um círculo, só conseguimos uma certa harmonia ou um certo tempo. É um bocado mais limitado.
Acho que já deixámos um bocado o compor à base de jams. Há partes que possam surgir assim, mas em geral começa com uma ideia.
Mencionaste há bocado a música que ouvias – queríamos saber quais é que são as vossas referências musicais? Passadas ou presentes, portuguesas ou estrangeiras, quem é que vos influenciou mais diretamente?
JOÃO CARRIÇO: Para aprender, uma grande escola são os Beatles, Pink Floyd, Arctic Monkeys, por aí. O que me influencia, eu curto muito de Radiohead, e os Smile, curto de música de cantautores, mas não sei como é que isso vem parar à banda. Enquanto baterista, tenho andado a curtir de Sonic Youth, a ver se puxo um bocado mais power para os Manteau. Quando estudava jazz, ouvia imensos bateristas de jazz, mas assim de repente é isto.
Ringo Starr acho muito underrated. É muito bom porque compunha partes para bateria que são simples, mas muito originais, serviam mesmo bem a música.
ZÉ SALGADO: Os meus têm vindo a mudar. Eu ao início, a minha razão de pegar numa guitarra aos 12 anos foi Jimi Hendrix.
Para fazer bandas, os Capitão Fausto acabaram por me influenciar muito, porque eu era emigrante e então agarrava-me à minha identidade portuguesa assim. Eles influenciaram-me a querer ter uma banda. Eu tenho também um grande amigo desses circuitos, o Gonçalo Bicudo [baixista dos Ganso], portanto estive sempre próximo de poder ter uma banda. Essa malta influenciou-me.
Hoje em dia já é diferente. Já tenho uma banda, e tenho ido pegar influências a outros sítios. Por exemplo, para o “Só Sei Dançar Assim”, uma banda que me influenciou muito foi os Black Country, New Road – é muito guitar-based, tem sido sempre uma grande influência na banda. E depois também gosto de cantautores, do Justin Vernon dos Bon Iver.
Mais recentemente estou-me a virar para música instrumental, que não tem tanta voz. Nomeadamente, hoje sou obcecado com o Steve Reich e a música minimalista. Estou a tentar perceber como é que isso se pode aplicar no contexto de uma banda de rock, mas eu sinto que só por ter isto na minha cabeça, trago coisas deste universo para a banda.
Comecei a explorar música de formas que antes não explorava. A música pode surgir de conceitos, e não só de estar a tocar e ir dizendo umas palavras. Não só de estar a experimentar coisas, pode vir de um conceito. No caso do minimalismo pode ser: uma música só vai ter um acorde, e vamos pegar aí.
Entre vocês qual é que escreve mais letras?
ZÉ SALGADO: Até agora, on record, sou eu. Em inglês e em francês, sou sempre eu.
Por teres vivido no estrangeiro. Queria de te perguntar sobre isso – é sem dúvida um fator que vos distingue doutras bandas, como é que te chega esse processo de escreveres em três línguas? Um dia chega-te uma letra em francês, outro uma em inglês…
ZÉ SALGADO: Isto começa de uma questão de identidade. Sou português, mas vivi maior parte da minha vida na Suíça, onde aprendi francês e estudei numa escola inglesa. Então é uma questão de identidade, vou usar as três línguas que eu conheço.
Tento perceber o que é que a música pede. Também é muito difícil escapar o inglês, sei que muitas bandas portuguesas vão para o inglês porque a música feita assim em banda é em inglês. Por todas as influências.
E é uma coisa que eu quero continuar a fazer, gosto muito disso. As diferentes línguas soam diferente, é um instrumento diferente. Falo bem as três línguas e quero usar isso. Objetivamente escrevo melhor em inglês também, eu só leio em inglês. O português tem sido um desafio, mas com o “[Só Sei] Dançar [Assim]” já há uma evolução.
Há malta que não fala muito bem inglês e mais facilmente faz uma letra de porcaria em inglês. Eu quero evitar isso.
JOÃO CARRIÇO: Regra geral, tentamos forçar mais o português. Eu sinto alguma responsabilidade em escrevermos em português. Alguém tem que fazer música portuguesa!
Por falar em música portuguesa, em relação ao cenário musical cá, acham que tem evoluído em alguma direção? Por exemplo, o que acham da forte presença de indie na música portuguesa? É algo a alimentar, ou talvez de se afastar?
ZÉ SALGADO: Em termos de artistas, tem estado a crescer acho, isso é fixe de se ver. Acho que cada vez mais abandona-se aquilo que dizia de escrever em inglês. No dia em que isso deixar de acontecer, a identidade da música portuguesa vai estar consolidada.
Eu gosto de sempre fazer música que seja relevante e que mereça existir. Se for uma cópia do que já existe, não me interessa. Se calhar algumas músicas que nós fizemos não precisam de existir, mas agora fazem parte da nossa história.
JOÃO CARRIÇO: O rock morreu, não é, e o punk também acho eu. Certamente é bom não estarmos todos a fazer indie, mas indie também engloba muita coisa.
Cá em Portugal, que artistas é que acham que passam despercebidos, que mereça mais reconhecimento?
ZÉ SALGADO: É difícil perceber onde é que é a linha que separa o reconhecimento e o não-reconhecimento. Acho que se alguém merece e quiser muito trabalhar, consegue esse reconhecimento. Eu acredito nisso. Não quero dar assim de bandeja. Também há muitas pessoas que não querem reconhecimento, reconhecimento mediático.
Se temos o conhecimento de nós próprios é o mais importante. Eu achar que faço boa música interessa-me mais do que outra pessoa achar ou não.
JOÃO CARRIÇO: Vem-me agora um nome à cabeça, mas confesso que me desleixo um bocado em estar atento à cena portuguesa. Fui ver os MÁQUINA. que não é propriamente a minha cena, mas gostei muito. Vi também um que é o Prétu, um rapper, foi grande concerto e achei que era tipo o Kendrick Lamar português.
Há uns anos vocês abriram para os Ganso, como é que é a vossa relação com eles?
ZÉ SALGADO: Nós somos muito próximos do Gonçalo Bicudo, o baixista, foi um bocado o nosso padrinho no início da banda. Produziu os nossos dois EPs e eu conheço-o desde que tenho 10 anos ou assim. Foi através dele que conseguimos meter isso a acontecer.
Eles é que estão a crescer de uma forma impressionante. Abriram agora a terceira data para um concerto no B.Leza que é impressionante.
JOÃO CARRIÇO: No B.Leza? Isso é louco. Acho que tirando os Capitão Fausto não há nenhuma banda a fazer isso.
ZÉ SALGADO: Isso para nós é uma inspiração, e é mesmo com trabalho. O que mais me inspira do novo álbum é o trabalho, está mesmo a render, é o mais importante. Está a ter o tal merecido reconhecimento.
JOÃO CARRIÇO: É o craftsmanship deles, o artesanato, a maneira que as coisas são feitas e contruídas. Tem muito trabalho metido e isso nota-se.
Em relação à vossa música, o “Só Sei Dançar Assim” que lançaram em setembro, qual é que foi a inspiração por trás das imagens e das temáticas?
ZÉ SALGADO: Eu escrevi 60% ou 70% depois foi o Janito que escreveu o resto. Mas o videoclipe foi o Janito por isso devias ser tu a responder.
JOÃO CARRIÇO: Acho que a música não é necessariamente sobre a infância, pelo menos inicialmente. Depois foi ganhando umas cores mais infantis, não sei. Eu sempre imaginei uma cena de baile de finalistas, não sei porquê, mas foi a imagem que meti na cabeça. Talvez de termos usado um xilofone. Acho que há ali qualquer coisa que se pode aplicar a infância, ou pelo menos a criança dentro do adulto.
ZÉ SALGADO: As primeiras frases que surgiram foram o “só sei dançar assim” e o “olha só”, e foi a partir daí, do vulnerável, da insegurança, de ganhar confiança sem ter a opinião e o olhar dos outros. O “olha só” implica outra pessoa, também uma coisa interessante.
Também queríamos tocar na inspiração por trás do “Funny Hand”.
ZÉ SALGADO: O “Funny Hand” sinto que vem do mesmo sítio que o “Só Sei Dançar Assim”.
JOÃO CARRIÇO: É uma espécie de prequela. Foi um ato criativo espontâneo também.
ZÉ SALGADO: A letra inteira saiu-me em dois minutos. Tem a ver com o ser mais fácil escrever em inglês, mas vem do mesmo sítio, da mesma pessoa.
Num avião, a voltar para Portugal com a minha família, pouco depois do Covid quando toda a gente usava máscara, estava a ouvir precisamente uma música dos Black Country, New Road. O “Track X”, que está escrito em rimas AABB e estava tipo, “Bem, vou escrever aqui uma rima com isto”. Escrevi no meu telefone, olho para cima e vejo a hospedeira de bordo a inclinar-se e a tirar a máscara, portanto a primeira frase ficou “You pulled down the mask”.
Passado um ano, arranjámos um tempo que estava a fluir bem e precisávamos de uma letra, e saquei a letra do “Funny Hand”. De repente funcionou muito bem.
Agora em relação ao futuro, como já mencionámos, lançam o vosso primeiro álbum para o ano, o que esperam dele? O que é que nos podem contar em especial sobre o álbum?
JOÃO CARRIÇO: Uma coisa que vai ser diferente é que vamos tentar gravar num estúdio profissional. Isso acho que vai fazer uma grande diferença.
ZÉ SALGADO: Acho que também há um bocado aquela coisa dos Ganso, do craftsmanship¸ nós temos a música e a partir daí é trabalhá-las assim mais ao detalhe, tanto nos arranjos como no som, a mistura em geral.
Mas também nunca queremos chegar a um ponto extremo. Acho que se houver um pequeno erro na guitarra, não quero ir substituir esse mini erro. São mais os detalhes de adicionar outros instrumentos, ajustes na mistura, que requer tanto trabalho como se eu fosse corrigir o erro da guitarra.
JOÃO CARRIÇO: Não sei o que é que vai acontecer no próximo álbum. Já temos algumas músicas, mas ainda podem mudar, e vão mudar.
ZÉ SALGADO: Estamos numa fase de escrever as canções. Queremos chegar às 10 ou 15 músicas, para depois ir a um estúdio gravá-las. É esse o plano para o princípio de 2025.
Eu acredito que um álbum não deve demorar dois anos a fazer. Especialmente numa banda como a nossa, é trabalhar. A partir de ir para o estúdio, é trabalhar.
E objetivos mais a longo prazo? Algum sítio onde gostavam muito de tocar, algum alcance, meta?
JOÃO CARRIÇO: Paredes de Coura!
ZÉ SALGADO: Paredes do Coura é o clássico, o inevitável. Para o nosso estilo de música é um bocado tipo o Meca.
JOÃO CARRIÇO: Para mim é especial também porque cresci a ir lá e foi onde conheci música nova. Para a banda acho que é o melhor festival cá em Portugal onde podíamos tocar, é uma meta fixe.
ZÉ SALGADO: Nós queremos, acho que antes disso, tocar mais concertos fora de Lisboa. Isso implica tocar em salas para três pessoas, para depois no ano seguinte virem 150. É o trabalho que temos de fazer. Sinto que é fácil chegar a um certo nível onde se toca salas em Lisboa, depois o difícil é entrar no circuito nacional dos festivais. Em Lisboa, temos crescido.
JOÃO CARRIÇO: Há um ano, estávamos um bocado, “Fogo, porque é que não estamos a tocar no Paredes”, e isso, mas ainda bem que não, que terrível ideia. Se fôssemos tocar ao Paredes seria péssimo, ainda não estamos lá. Ainda não merecemos.
Com o álbum podem vir a merecer?
JOÃO CARRIÇO: Uma coisa é o álbum, outra coisa é o concerto. Acho que podermos ir a festivais, os nossos concertos têm de ser uma cena que ainda não são, em termos de consistência. O álbum só vai ajudar, é importante. É o portefólio, mas a realidade são os concertos.
ZÉ SALGADO: Hoje em dia fazem-se álbuns para tocar concertos. É fácil dizermos que podemos tocar no Paredes, mas temos de olhar para e nós e perguntar, “Podemos mesmo?”.
Uma questão para vocês: O que é que sentem em relação às nossas coisas gravadas e o concerto que vocês viram?
Isto aplica-se a todos os artistas, não só vocês, mas acho que prefiro muito mais ao vivo.
ZÉ SALGADO: Mas sentiram alguma diferença na essência, ou na emoção?
Na emoção talvez, mas viver a música eleva muito a experiência. Depois de um concerto, passo a gostar muito mais de músicas que talvez não gostava tanto. Relaciono-me muito mais por ter ouvido em concerto.
ZÉ SALGADO: Pois, já se sabe de onde é que vem.
JOÃO CARRIÇO: Se eu tivesse de escolher só gravar músicas ou só tocar ao vivo para o resto da minha vida, acho que para a banda pelo menos, escolhia só tocar ao vivo. Também vem um bocado do rock.
ZÉ SALGADO: Eu acho que tenho um bocado mais orgulho nos nossos concertos, que as pessoas venham, do que no nosso corpo de trabalho. E gostava de poder ter um grande orgulho neste primeiro álbum.

Acabando aqui com umas perguntas de resposta rápida, não precisam de elaborar:
Qual o vosso álbum de eleição?
JOÃO CARRIÇO: O primeiro que me vem à cabeça é o A Love Supreme, John Coltrane, um de jazz.
ZÉ SALGADO: Bon Iver, Bon Iver, o segundo álbum dos Bon Iver.
Melhor concerto que já deram?
JOÃO CARRIÇO e ZÉ SALGADO: Gliding Barnacles 2024!
Uma música vossa underrated, que vocês achem que mereça mais atenção?
ZÉ SALGADO: Diria o “Só Sei Dançar Assim”, por enquanto.
Um concerto onde gostavam de ter estado?
ZÉ SALGADO: Os Queen, Wembley 1985. Ou o Keith Jarrett Köln Concert.
JOÃO CARRIÇO: Não sei, talvez o Woodstock.
Se pudessem colaborar com algum artista, qual seria?
ZÉ SALGADO: Rick Rubin.
É válido!
JOÃO CARRIÇO: Nós tínhamos um bocado a ideia de trabalhar com o Bruno Pernadas, podia ser interessante.
ZÉ SALGADO: Também estamos sempre a imaginar trabalhar com uma voz feminina portuguesa.
JOÃO CARRIÇO: Sim ainda hoje falámos da A Sul, gostei da voz e do timbre dela.




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