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Trump não vai ser ditador dos EUA

  • Ricardo Duarte
  • Dec 6, 2024
  • 5 min read

Nenhum presidente dos Estados Unidos da América está isolado do Congresso ou mesmo do seu próprio governo. O pessimismo omnipresente que sucedeu à vitória de Donald Trump ignora tanto o seu primeiro mandato entre 2017 e 2021, como um partido que teve 162 anos de história antes deste se tornar o seu candidato presidencial. A maior parte dos atuais senadores foram eleitos pela primeira vez antes da campanha presidencial do empresário em 2016. Foram estes que impediram que o presidente eleito se tornasse um ditador no passado e, se necessário, não hesitarão em voltar a assumir esse papel.

 

Há uma parte do Partido Republicano que não está alinhada com Donald Trump. A maioria destes republicanos mantiveram a sua lealdade ao partido, muito poucos arriscaram declarar o seu apoio a Kamala Harris, como fizeram Dick e Liz Cheney. No entanto, foram estes mesmos republicanos que votaram aos milhões em Nikki Haley nas primárias.

 

O anterior vice-presidente de Trump, Mike Pence, permitiu o reconhecimento dos resultados eleitorais que deram a vitória a Joe Biden, contrariando as ordens do presidente na altura. Vance é um político muito mais alinhado com o presidente eleito do que é Pence, no entanto, ainda não foram revelados todos os secretários que constituirão o governo. O primeiro secretário da defesa de Trump, o General Jim Mattis, discordou publicamente do presidente na carta em que anunciou a sua demissão em 2019. O secretário da defesa que lhe sucedeu, Mark Esper, tal como o próprio Mattis, Dick Cheney e todos os outros ex-secretários da defesa ainda vivos, publicaram uma carta aberta em que apelavam ao secretário da defesa interino e ao próprio presidente que não envolvessem o Departamento da Defesa em tentativas de reverter os resultados eleitorais. Não só nem todos os secretários eram inabalavelmente leais a Trump, como parte deles impediram exatamente que o empresário interviesse no normal funcionamento da Democracia.

 

Dos nomeados até à data destacam-se a advogada Pam Bondi para procuradora-geral e o comentador da Fox News, Pete Hegseth, para secretário da defesa, postos que poderão definir em parte a capacidade do presidente eleito para subverter as normas democráticas. Ambos são claríssimos apoiantes de Trump. Destacam-se também o senador Marco Rubio e o governador Doug Burgum. Os dois republicanos mantiveram-se distantes de Trump no passado (e Rubio confirmou a contagem do voto eleitoral em 2020), mas foram recentemente «convertidos» (ambos ambicionavam ser a escolha para vice-presidente).

 

Também o Congresso poderá limitar o poder do presidente eleito. Apenas cerca de 40 dos 220 atuais membros republicanos da Câmara dos Representantes integram o Freedom Caucus, o grupo parlamentar que defende mais claramente a linha política de Donald Trump. Em 2020, apesar da maioria dos membros republicanos da Câmara dos Representantes ter votado a favor da objeção à recontagem dos votos eleitorais do Arizona e da Pensilvânia, menos de 10 senadores acompanharam-nos. Mitch McConnell, senador republicano que era na altura líder da maioria, aconselhou o voto dos seus pares depois de reconhecer a vitória de Biden em dezembro de 2020. 10 U.S. representatives (Liz Cheney entre eles) e 7 senadores (incluindo Mitt Romney) votaram a favor do segundo impeachment de Trump.

 

Desta vez, foram eleitos vários senadores e U.S. representatives que foram endossados pelo presidente eleito, no entanto, e apesar de Mitt Romney se ter reformado, restam ainda vários senadores moderados, como Susan Collins do Maine ou Lisa Murkowski do Alasca.

 

Foram, em parte, Collins e Murkowski, para além de McConnell e o senador John Curtis do Utah (que substituirá Romney), que provocaram a desistência de Matt Gaetz, primeiro nomeado de Trump para procurador-geral. O voto destes 4 senadores seria o suficiente para impedir que o desmoderadamente America First U.S. representative fosse confirmado. O Senado definiu-se como a primeira barricada contra os radicalismos do presidente eleito, antes mesmo deste tomar posse.

 

Numerosos funcionários públicos e republicanos impediram que Trump contornasse as normas democráticas, particularmente no período após a sua derrota eleitoral em 2020. As tentativas menos claras de desmantelar a Democracia serão limitadas pelo facto de o empresário ser, acima de tudo, um populista. Se os restantes políticos e partidos reconhecem a complexidade dos problemas, os populistas simplificam-nos. As políticas resultantes deste processo são mais irresponsáveis do que limitadoras da Democracia. Várias das promessas feitas em campanha pelo presidente eleito, tanto este ano como em 2016 e 2020, são consensualmente consideradas impraticáveis.

 

Trump prometeu, por exemplo, voltar a decretar uma ordem executiva (foi decretada pela primeira vez no seu mandato anterior, mas nunca posta em prática) que implicaria que centenas de milhares de funcionários públicos passassem a ser nomeados pelo presidente, com o propósito de desmantelar completamente o «deep state» para se livrar de burocratas «incompetentes» e «corruptos». Se neste novo mandato for o mesmo Trump a tomar as decisões, a América verá mais cedo o caos administrativo do que a queda da Democracia. Os quase 3 milhões de funcionários públicos americanos, incluindo funcionários com décadas de carreira que trabalharam sob vários presidentes (incluindo Trump), não são todos dispensáveis, nem serão facilmente substituídos por “yes-men”.

 

A atitude dos democratas face a Donald Trump também não foi a mais acertada. O empresário é acusado de pretender usar os procuradores federais para perseguir opositores políticos, no entanto, foi durante o mandato de Biden que Trump foi acusado em dois casos federais iniciados pelo atual procurador-geral e num caso na Geórgia iniciado por uma procuradora democrata, todos relacionados com a sua conduta depois de ter sido derrotado em 2020. Os democratas decidiram que era oportuno tentar condenar Trump por crimes políticos, certamente com o propósito de desacreditar completamente o empresário. Na prática, os democratas tentaram dar a Trump, em quem 74 milhões de americanos tinham votado em 2020, o rótulo de antidemocrático.


Estes casos permitiram que Trump dinamizasse o seu discurso, desacreditando o próprio sistema, que aos olhos de uma parte importante do eleitorado estava a usar o aparelho do Estado para destruir um movimento político que contava factualmente com milhões de apoiantes. Os democratas contribuíram para polarizar ainda mais o eleitorado, sendo que esta questão se resumiu a um concurso de «é a minha palavra contra a tua», que nenhum dos lados poderia vencer.

 

Outro assunto prioritário nas campanhas democratas foram os direitos reprodutivos das mulheres. É inquestionável que é um tema fundamental, mas para além de muitas eleitoras não o terem considerado prioritário, mesmo as mulheres que alinhavam com o discurso democrata não votaram em massa como era esperado.

 

Em 2020, Biden venceu entre os eleitores com menores rendimentos em parte por ter estado sempre associado aos sindicatos e ao mundo industrial. Este ano, a vice-presidente perdeu a maioria dos votos da classe trabalhadora americana, porque não convenceu a mesma de que a sua estabilidade financeira era a sua maior prioridade.

 

Kamala Harris não defendeu como podia ter defendido o mandato de Biden, que incluiu medidas que melhoraram efetivamente a vida dos trabalhadores e que permitiram resistir e recuperar de crises económicas mundiais, nem convenceu o eleitorado de que a sua pouco comentada «opportunity economy» era a melhor alternativa.

 

O discurso da campanha democrata foi desmedidamente anti-Trump e politicamente pouco claro, para além de se ter concentrado demasiado nos direitos reprodutivos das mulheres. Faltou à vice-presidente apresentar uma visão da América futura que verdadeiramente inspirasse os americanos.

 
 
 

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