top of page

O "funk" verdadeiro

  • Leonor Nogueira Pinto
  • Jan 11, 2025
  • 4 min read

Todos nós ouvimos música, todos gostamos de música de alguma maneira – uns mais, outros menos – mas é algo de que não dá para fugir ou ter uma posição agnóstica. E se há quem só oiça o que passa na rádio e viva bem assim, existe também quem oiça tudo: desde clássica a eletrónica; de soul a new wave; do heavy metal ao jazz, saltando ao sabor do impulso ou do acaso entre uma “Queixa” do Caetano Veloso, uns de “Echoes” dos Pink Floyd, uma “Temptation” para os New Order, no fundo, Jesus e etc., mas evangelizado pelos Wilco e qualquer outro grupo – do mais obscuro ao mais comercial – para ver a qual deles vai dar o privilégio de ser ouvido nesse dia, enfrentando sempre a possibilidade de um novo povo chegar à terra em disputa e juntar-se à batalha.

 

Cada um é como cada qual, e cada qual é como é (até deixar de ser). E eu, sendo muitas outras coisas, sou também uma fã de funk.

 

À data de hoje, podemos dividir a humanidade em três grupos: um primeiro grupo constituído pelas pessoas que adoram funk – e porque adoram, ouvem em qualquer situação, numa festa, num desgosto amoroso, em todas as estações. Um segundo formado pela oposição, composto por todos os que fogem do funk e de tudo o que lhes faça lembrá-lo, aproveitando-se de qualquer oportunidade para manifestarem este desprezo. E por fim os que passam ao lado e que pouco para aqui interessam.

 

No entanto, nestes três grupos há quem tenha em mente uma perceção específica do funk, que na realidade nada tem que ver com a original. O funk que gera todo este conflito é chamado “funk carioca”, também conhecido como “funk favela”. Acho que o nome fala por si, pelo que não serão precisas grandes introduções. É um estilo influenciado pelo hip-hop, nascido no Rio de Janeiro.

 

Não sou contra nem a favor, mas sou, e sempre serei uma defensora daquilo a que gosto de chamar de “real funk”.

 

O “real funk” é um género musical que nasceu nos anos 60, na comunidade afro-americana, e se tornou popular durante as décadas de 70 e 80. Um novo estilo cheio de improvisações, com um sentimento ousado e atrevido, um som rítmico e dançável que nasce da junção de elementos de vários géneros como soul, o R&B e o jazz, dando protagonismo a uma espécie de conversa entre linhas de baixo fortes e baterias, que resultam naquilo a que chamamos de grooves.

 

O funk era algo novo, original e, portanto, inovador. A maioria dos géneros musicais já estabelecidos e usuais apostava na melodia, na progressão de acordes e nos arranjos. O funk, termo que vem do inglês “funky” – sendo este usado para descrever algo fora da caixa, incomum ou único – musicalmente, é um estilo de música de dança, urbana, agressiva, que combina baixo, bateria e um grande número de instrumentos, muitos metais, todos trabalhando para um groove. O funk é uma forma mais extravagante de R&B, e os seus temas retratam a vida tal como ela é: por vezes doce e suave; na maior parte violenta e dura para as minorias negras, mas também esperançosa. O funk é a banda sonora alegre de uma realidade difícil.

 

James Brown, George Clinton e os Parliament/Funkadelic, Sly and The Family Stone, Prince, Kool and The Gang, são alguns dos grandes nomes da história do funk. Nas letras das suas músicas, tanto se abordavam temas sérios, tentando passar uma mensagem, como temas mais prosaicos e divertidos.

 

“Papa Was A Rollin’ Stone” (The Temptations) conta um diálogo entre um filho e a sua mãe, em que o filho relembra a ausência do pai em toda a sua vida, como nunca o viu e como sobre ele nunca ouviu nada se não coisas más. O filho refere-se ao pai com uma rolling stone: nunca ficava quieto num sítio, qualquer lugar onde pusesse o seu chapéu era a sua casa (logo, todos os sítios tornavam-se sua casa, todos menos a sua verdadeira casa com a sua família). É uma letra cultural e socialmente muito forte, pois era infelizmente comum dentro das comunidades afro-americanas os pais abandonarem as suas famílias. Durante os seus sete minutos, o filho interroga-se e elenca as falhas, atrocidades e imoralidades que ouviu acerca do seu pai, e concluiu, no final, que “All he left us was alone”.

 

“The Revolution Will Not Be Televised” (Gil Scott-Heron) é outro exemplo de crítica social, talvez mais um apelo, em que se incita os que querem fazer parte da revolução a mexerem-se, a envolverem-se e a reagirem porque, no final de contas, the revolution will not be televised. A verdadeira revolução é aquela que acontece na cabeça e nas ações de cada um, e não aquilo que aparece nas televisões.

 

“Ladies Night” (Kool & The Gang) descreve uma clássica noite de raparigas, onde tudo está bem, tudo é possível e mais nada interessa. “Oh, yes, it’s ladies’ night, and the feeling’s right (…) what a night”.

 

“I’m Your Boogie Man” (KC & The Sunshine Band) – mais uma vez, uma letra simples sem qualquer mensagem significativa, mas que graças ao ritmo do funk, da mistura harmoniosa dos sons de todos os instrumentos combinados, se torna num clássico que toma conta do nosso corpo e nos põe a dançar.

 

Enfim, complexos, manias e gostos de lado, a verdade é que, nos dias de hoje, a palavra “funk” é usada pela maioria das pessoas como algo muito mais circunscrito face ao que realmente é. Com o verdadeiro funk, sem nos apercebermos, estamos a dançar ao ritmo da batida que nos transporta imediatamente para os anos 70, onde as roupas, os cabelos e a atitude eram uma extensão da música. O verdadeiro funk é mem’bom.

 
 
 

Comments


bottom of page