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- Dois poemas de José Maria Jardim
José Maria Jardim é um saudosista, um romântico e um apaixonado. Nasceu no século errado e não se conseguiu adaptar às paixões de hoje em dia. Tem um forte instinto que está destinado à solidão e à desgraça, depois de tantas desilusões que foi tendo ao longo da sua vida. Se, quando eu morrer, olharem para o meu corpo, Naturalmente, verão a minha carne, mas não a minha alma. Fico descansado, pois a maravilha de tudo isso é que nada perdem. Na minha alma só se vê tristeza. Na minha alma não há vontade de viver. Na minha alma vê-se uma loucura incessante pela sua própria degradação. Que se dane a Igreja dos iludidos, Já não há pai nosso que valha para a ressuscitar… Ainda me recordo do dia em que a minha alma era alegre. O sorriso que não era meu alegrava-a e sustentava-a… Aí, era verdadeiramente feliz. Como tudo o resto na minha mísera vida, Esse sorriso desapareceu e, com ele… O amor, a alegria, a esperança e a vontade. Fui destinado a estar sozinho. Por isso, Se quiserem ver-me depois da minha morte, não vejam. Se quiserem pensar em mim depois da minha morte, não pensem. Basta que saibam que fui um preguiçoso infeliz. Ao menos, assim, deixei alguma verdade no mundo. José Maria Jardim Deambulo pela rua… Não sei, nem quero saber para onde vou, Apenas ando, e ando… e ando… Quero que a força do ar me bata na cara. Quero que me limpe as lágrimas reais, simplesmente reais. E, simultaneamente, quero que a chuva se misture e as agrave. Porque estou triste e cansado, com todo o direito a estar triste e cansado. Tenho sofrido meses a fio. Porque amar é outro universo. Tão diferente, que abalou tudo o que era meu e dos meus pensamentos. Agora, já não acredito em nada. Agora, já só quero ser nada. Agora, quero estar sozinho. José Maria Jardim
- Será que o "não" de Montenegro é o "não" da AD?
Montenegro reitera que "não é não", mas será também esta a resposta da AD como um todo? Em janeiro, o PSD coligou-se ao CDS e foi restabelecida a Aliança Democrática. Apesar da coligação à direita, Luís Montenegro, presidente do PSD, encabeçou um caminho de centralização do seu partido. No último domingo, a AD, em conjunto com a IL, não foi capaz de alcançar uma maioria de direita sem o Chega, voltando-se a colocar questões sobre um possível entendimento entre os dois partidos. Luís Montenegro disse mais do que uma vez que "não é não", mas vozes de senadores do seu partido, entre elas a de Pedro Passos Coelho, fizeram-se ouvir, argumentando que não se deveria desconsiderar um entendimento com o Chega. Estas opiniões surgem no contexto da história de um partido e, principalmente, de uma coligação, que não indica necessariamente a impossibilidade de um acordo com o partido de André Ventura. Depois do 25 de Abril de 1974, a expressão ‘fascismo nunca mais’ tornou-se uma parte emblemática do vocabulário político nacional e os políticos associados ao Estado Novo foram na sua maioria afastados do poder. Algumas personalidades políticas, no entanto, mantiveram-se ativas, apesar de quase sempre fora da atenção pública. Entre estas destaca-se Diogo Pacheco de Amorim, uma das principais figuras do partido Chega, que fez parte do MDLP, movimento paramilitar liderado por Spínola, na década de 70, e do MIRN, partido neo-salazarista, na década de 80, e que acima de tudo foi militante do CDS durante a maior parte da sua vida. Para além de se organizar esporadicamente em pequenos partidos, a extrema-direita portuguesa refugiou-se principalmente nas fileiras do CDS. Também Pedro Pinto e António Tânger Corrêa foram militantes do CDS, este último chegando a ser adjunto de Diogo Freitas do Amaral quando este foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro governo da Aliança Democrática. Para além de voltar a querer coligar-se com o CDS, partido historicamente ligado à extrema-direita e que não elegeu nenhum deputado ao Parlamento nas últimas eleições legislativas, o PSD de Luís Montenegro decidiu incluir também nesta nova AD, o PPM, que desde a saída de Gonçalo Ribeiro Telles, líder histórico do partido e admirado opositor ao Estado Novo, em 1993 se virou claramente para a direita. O PPM acabou mesmo por se coligar com o Chega para as eleições europeias de 2019. O atual presidente do PPM (que acabou por não ser eleito deputado), em entrevista à Antena 1, defendeu um entendimento com o Chega dois dias depois da ida a votos. Desde 1979, quando foi formada a primeira Aliança Democrática, que o PSD aceita a presença da extrema-direita nos seus governos. Não é nenhuma surpresa ser Pedro Passos Coelho a apelar a um acordo com o Chega, tendo ele próprio governado em coligação com o CDS de 2011 a 2015. Vale a pena relembrar também o ano de 2017, quando André Ventura era candidato pelo PSD nas autárquicas em Loures, em que Passos Coelho (ao contrário do CDS) nunca deixou de apoiar a sua candidatura, mesmo depois de uma série de comentários radicais. André Ventura militou 17 anos no PSD, tal como muitos outros líderes do seu partido. Os veteranos do partido de André Ventura, que foi fundado apenas em 2019, fizeram as carreiras como militantes do CDS e do PSD. Percebe-se, tendo em conta a sua história, que a Aliança Democrática se divida entre voltar a convidar a extrema-direita para o centro de decisão política e honrar as repetidas palavras do seu atual líder: "não é não". Será que a ala passista do partido deixará passar uma oportunidade para governar 4 anos, ou sairá Luís Montenegro vitorioso desta disputa interna?
- Este país não é para os jovens
No último domingo, ocorreram as eleições mais importantes dos últimos tempos. Com os últimos 8 anos de fiasco social e económico providenciados pela esquerda e pelo PS, este 10 de Março tinha tudo para correr bem à AD e à direita portuguesa. Com toda a corrupção do PS desmascarada, com todas as greves e descontentamento popular e com todas as crises criadas pela esquerda por resolver, Luís Montenegro estava num lugar intocável e com todas as condições para criar uma onda laranja (e um bocado de azul) pelo país inteiro. Contudo, os resultados ficaram longe do ótimo, pelo menos para a direita. Ainda com os deputados dos círculos da Europa e Fora da Europa por apurar, as projeções dão um resultado de vitória ao PSD. Uma vitória por dois deputados (80 – PSD/CDS-PP e 78 – PS), sendo uma derrota da AD-IL frente à esquerda. Como jovem com dificuldades de perceber o meu lugar em Portugal no futuro, vítima destas políticas de anti crescimento económico que resultaram no meu irmão ter que emigrar, não me cabe na cabeça como é que o PS ainda tem tanta força. Mesmo depois de, em 15 meses, 13 ministros do antigo Governo se demitirem por escândalos (sendo que um deles foi candidato a Primeiro-Ministro. Só acontece mesmo em Portugal!), depois de toda a corrupção do sistema feita pelo PS e de grande parte das famílias portuguesas verem os seus filhos obrigados a abandonar a pátria para ter uma vida decente e os que cá ficaram não verem um futuro à sua frente. Ao analisar os resultados destas eleições consigo perceber duas coisas mais que evidentes. A primeira é que Portugal não vai mudar e não vai crescer enquanto a geração de Abril cá estiver. Olhando para as idades médias dos eleitores de cada partido, é possível ver que o PS tem uma popularidade incomparável com os cidadãos mais velhos, que viveram parte da sua vida durante o Estado Novo e viram o Partido Socialista como herói da Revolução dos Cravos. Estes são os cidadãos que são incapazes de votar à direita e que veem Pedro Passos Coelho como o lobo mau. E é por causa destas pessoas que o PS tem estado nos últimos 28 anos, 21 a governar e, consequentemente, Portugal não ter mudado para melhor, ter-se tornado toxicodependente da União Europeia e dos seus fundos, sem políticas de crescimento económico. A outra é que houve uma enorme resistência ao PSD, resultando no aumento do Chega. Porque digo então que a direita perdeu com estas eleições se o Chega aumentou os votos? Existem duas razões. Primeiro, devido ao orgulho, soberba e teimosia do PSD um acordo com o Chega, pelo menos com Luís Montenegro na liderança, está fora de questão. Este já descartou, até mesmo depois dos resultados, o referido partido para integrar a solução do país. E se não conseguir formar governo neste momento, o que não consegue sem o Chega ou o PS, creio que não terá hipóteses de ganhar as eleições outra vez. Se nestas estava numa posição fácil para ganhar, então duvido que ganhe depois de criar instabilidade política ao país. Até vou longe o suficiente para dizer que o Chega é capaz de se fortalecer ainda mais, pelo crescente descontentamento que há pelo PSD e pelo bloco central. E para os mais céticos, apelo a que olhem para a Holanda, Itália, Hungria, Alemanha, Suécia, Finlândia, tudo países em que partidos controversos e pouco populares aquando da sua criação fazem agora parte do Governo, em alguns a liderar, noutros como segunda força política. A segunda razão pela qual digo que a direita não ganhou nestas eleições é pelo puro facto do voto no Chega não ser um voto na direita. Relembro que em termos económicos o Chega moderou-se tanto ao ponto das suas políticas serem comparadas às do Partido Socialista no debate com Rui Rocha. Para além disto, um voto no Chega para muitos é quase como um voto branco que funciona. Um voto de protesto que afirma que não estão contentes com o resto, daí defender a resistência que houve em votar AD. O PSD é um partido do passado com preocupações e soluções antigas que não refletem os portugueses. Por exemplo, acho inadmissível no programa da AD falar tão pouco e tão vagamente de políticas de imigração, sendo este um tópico que já mais de metade dos portugueses acha fulcral ser tratado. O resto ou é mais do mesmo ou são políticas de um PS moderado que não vão acrescentar assim tanto a Portugal e não vão fazer a mudança que é necessária. Com um futuro incerto pela frente para todos, posso dizer que estas eleições foram um dos maiores falhanços para a direita em Portugal, para os jovens portugueses, e para o futuro desta tão grande Nação. Fico dececionado. Pergunto-me quando é que os jovens terão lugar neste meu Portugal.
- O Voto Certo: CHEGA!
Nestas eleições, pela primeira vez em muitos anos, temos uma “guerra” em três frentes. À esquerda temos o Partido Socialista, ao centro-direita temos a Aliança Democrática e à direita temos o Chega. Num lado temos a incapacidade, o Partido Socialista, cujos últimos três primeiros-ministros saem do cargo por meio de uma demissão, onde temos ministros que gerem empresas por WhatsApp, onde o cargo de ministro não demonstra confiança aos portugueses… Teria de escrever um romance para enumerar todos os erros cometidos pelo Partido Socialista. No meio temos a hipocrisia e a incoerência, a Aliança Democrática. É constituída por três partidos PSD, CDS-PP, PPM, sendo o segundo seguidor da Doutrina Social da Igreja. Ao darem a hipótese de se coligarem com um partido como a Iniciativa Liberal, vão contra “tudo” aquilo que a Igreja Católica acredita! Devemos votar num partido que não é fiel aos seus próprios princípios? Dizem também que querem combater a corrupção, mas não parece. Do prório PSD assitimos desde o Caso Tutti-Frutti, até mais recentemente ao caso de Miguel Albuquerque, sendo que muitos dos envolvidos ainda desempenham cargos dentro do partido! Quanto à incoerência, esteve sempre muito presente durante a campanha eleitoral. Logo no início com declarações do presidente do CDS-PP, dizendo que viabilizaria um governo socialista, depois “corrigindo-se”. Na questão do aborto a AD contradiz-se: por um lado, o Vice-Presidente do CDS-PP afirma “logo que seja possível, procurar convocar um novo referendo no sentido de inverter esta lei”. Pouco depois, uma candidata a deputada pelo PSD, publicou com a AD nas redes sociais um vídeo a explicar que a AD em relação ao aborto, “jamais aceitaria andar para trás”. Por último, o candidato por Santarém da AD fez umas declarações dizendo que as alterações climáticas são “teorias da conspiração”, levando o presidente da AD a depois dizer que o candidato fez apenas “alertas”. Devemos então votar numa coligação que é hipócrita e incoerente? No outro lado temos o Chega, o partido que quer reformar a justiça, que mais apresentou propostas contra a corrupção, “apesar de não ter soluções”, segundo os restantes partidos… O partido que apresentou 501 propostas para o orçamento de estado, o partido que mais propostas fez! Mas não tem soluções, não é? O Chega quer dar mais àqueles que precisam e tirar aos que não precisam, implementando novos mecanismos de fiscalização no que toca ao RSI. Quer criar mais PPP’s, para que TODOS tenham um melhor acesso à saúde. Quer dar aos jovens a possibilidade de viver em Portugal com o restabelecimento do Crédito Jovem Bonificado com linhas de crédito específicas destinadas a jovens que desejam adquirir a sua primeira habitação. Quer isentar os jovens do pagamento de IMI, IMT e Imposto de Selo na compra da primeira habitação. Por fim pergunto, o que é ser português? Não estou a falar em alguém que possui apenas o cartão de cidadão português (pois isso hoje em dia arranja-se mais facilmente que um Calippo de Coca-Cola), estou a falar de ser português em valores e espírito! Alguém hoje em dia consegue responder a essa pergunta? O Chega quer mudar isso! Queremos voltar a ser um país próspero, com fronteiras, valores e identidade! O Chega quer reformar a lei da nacionalidade tornando-a mais restrita! Quer ser mais restrito à imigração, para que os imigrantes possam viver em condições dignas! Pois, infelizmente, o estado neste momento não consegue dar a tantos essa vida que merecem. O Chega quer transformar Portugal! E, para isso, não podes votar nos mesmos que governam há 50 anos! Dia 10 Vota por Portugal, e diz CHEGA aos do costume!
- O Voto Certo: Partido Socialista
No próximo domingo, somos chamados às urnas para escolher o futuro do país. Estas eleições acontecem no ano em que comemoramos os 50 anos do 25 de abril de 1974, da revolução que nos deu a liberdade, a democracia e o progresso, libertando todo um povo das amarras injustas de um regime fascista, promotor de um atraso estrutural do nosso país quando comparado às outras nações europeias, que muito difícil se mostrou de combater. A história do PS e a história das conquistas que a democracia e o 25 de abril trouxe a Portugal confundem-se. Foi abril que nos trouxe as liberdades e a democracia mas foi verdadeiramente o PS que desde a primeira hora se bateu para as manter e aprofundar quando muitos se queriam desviar deste caminho à esquerda e à direita. Há, então, um longo legado que o PS carrega consigo e que o valoriza. Desde a criação do SNS (com o voto contra do PSD), à luta pela liberdade sindical, passando pela garantia da escola pública e do direito ao aborto, há muito que é o partido que verdadeiramente se bate por um país mais desenvolvido e solidário, que não deixa ninguém para trás, e, pelo contrário, leva todos para a frente. Este legado pesa no meu voto, mas não só. Para dizer que o voto no PS é um bom voto temos necessariamente de olhar para os últimos oito anos de governação. Este exercício deve ser feito tendo em conta o país que havia em 2015, analisando o que se fez, mas não esquecendo que mais importante do que essa visão em retrospetiva, há naturalmente um futuro do país para o qual se tem de dar respostas. Enquanto jovem escolho olhar para o que fizeram pela minha geração e sei bem o que o PS fez por mim nestes últimos 8 anos: reduziu as propinas em mais de 360 €, tornou gratuito os passes para estudantes até aos 23 anos, tornou os manuais escolares gratuitos, criou o IRS Jovem, aumentou as bolsas de mestrado e garantiu no geral um aumento das bolsas de estudo no ensino superior, aumentou 78% o número de camas nos alojamentos universitários, criou a devolução do valor das propinas para os jovens que fiquem em Portugal, incentivando-me a mim e a todos a aqui ficarem, combatendo a emigração jovem que desceu consideravelmente desde 2015. Enumerar todos os avanços levar-me-ia a um texto sem fim. No entanto, não quero deixar de sublinhar as contas certas, reduzindo a dívida para um número abaixo dos 100% do PIB, número histórico e que reflete a competência de quem geriu o país, e, que, finalmente, ao contrário do que muitos diziam e consideravam impossível, se conseguiram valorizando os rendimentos das pessoas e nunca, mas nunca mesmo, cortando nos apoios sociais. Pelo contrário o Salário Mínimo Nacional cresceu como nunca antes visto, as pensões aumentaram, as exportações idem, o país cresceu, feito reconhecido internacionalmente. Mas não me chega! Quero mais e é exatamente, por isso, que confio no PS para continuar o trabalho mas também para dar este novo impulso necessário para a valorização do nosso tecido produtivo e dos salários. Confio no programa que o PS apresentou aos portugueses porque responde às principais áreas que é preciso responder. Na habitação com a criação do Serviço Nacional de Habitação, aumentando o parque público de habitação e criando uma garantia pública para os jovens e na saúde com a integração da saúde oral no SNS. Sei que votando no PS posso contar com um governo virado para o diálogo, responsável e com uma visão clara de país – um país do progresso, da valorização das pessoas e da solidariedade social. O voto no PS é um bom voto porque garante que qualquer problema será sempre respondido de forma fraterna e nunca deixando ninguém para trás. É um bom voto porque já deu provas de conseguir lidar com situações difíceis. É, também, o único voto que garante um Primeiro-Ministro com provas dadas e com experiência governativa. Voto no PS porque não quero deixar o trabalho deste governo a meio e porque acredito que é possível fazer ainda mais em várias áreas, mas que só o PS o pode fazer porque conhece os problemas, muitos já resolveu e outros ainda tem energia para solucionar com este novo impulso.
- O Voto Certo: Iniciativa Liberal
Antes de discutir propostas políticas, parece-me importante fazer uma reflexão sobre a vida política do nosso país dos últimos anos. Recentemente temos assistido a taxas de abstenção altíssimas, “geringonças” pós-eleitorais e o apelo ao voto útil. Neste contexto, surge a dúvida se o nosso sistema eleitoral é o mais adequado e representativo para as necessidades de um povo, que já está há vários anos à espera de uma mudança real no que toca a decisões governamentais. O método de Hondt, o sistema utilizado para a contagem dos votos em Portugal, faz com que centenas de milhares de votos não sejam convertidos em mandatos para a Assembleia da República, centralizando o poder nas grandes cidades, Porto, Lisboa e Braga, prejudicando assim a liberdade de voto no resto do país, especialmente nos pequenos centros que têm muitos menos mandatos para atribuir à Assembleia do que as grandes cidades, facilitando assim o monopólio político do PS e PSD. Porém, no meio do vazio político da nossa história recente, surge um partido cuja prioridade é pôr os portugueses no centro do país: a Iniciativa Liberal. Promover habitação acessível, a reforma do sistema eleitoral, mais rigor na educação, ter mais opções, que não sejam listas de espera intermináveis, no que toca à saúde, reforma da função pública (100 mil novos funcionários públicos nos últimos 9 anos sem melhoria visível dos serviços) e priorizar o crescimento económico através da redução drástica dos impostos, aumentando assim os salários e viabilizando um mercado livre. Não há uma destas propostas que me pareça particularmente descabida, considerando o facto que já foram testadas, e com sucesso, em vários países europeus principalmente na península escandinava, que não por acaso é uma das zonas mais ricas da Europa. Aproximando-nos de uma data importante como a do quinquagésimo aniversário do 25 de abril e da consequência dos 50 anos da instauração da democracia em Portugal, é fulcral olhar para o futuro do nosso país. Nós como portugueses temos a fama de ficar sempre para trás no que toca a modernização, avanços tecnológicos e progresso no geral, mas 10 de março é dia de inverter esta tendência. Não nos podemos, e não nos devemos contentar com a mediocridade e ceder à vontade dos grandes partidos na esperança que eventualmente mudem alguma coisa. Acima de tudo, é pelas suas propostas que a Iniciativa Liberal é muito popular na faixa etária mais jovem. Está na altura de voltar a pôr os jovens portugueses no centro do país, de deixar de ser um ponto de partida, mas passar a ser também um ponto de chegada. Mesmo assim, muito provavelmente Rui Rocha não vai ser o próximo primeiro-ministro português, mas nem por isso deixa de ter um lugar privilegiado à “mesa dos grandes”. A possibilidade da direita voltar, através de uma coligação AD-IL, torna-se, a cada dia que passa, uma possibilidade concreta e uma oportunidade única para que a Iniciativa Liberal mostre com mais peso que é verdadeiramente capaz de transformar o país, na esperança de que um dia possa trazer a mudança que Portugal precisa. Para isto, o único voto útIL que interessa é o voto na Iniciativa Liberal.
- O Voto Certo: Livre
Após intensas semanas de debates e de horas intermináveis de comentário político acerca dos mesmos, a sensação é de que as moscas mudam…, mas existe uma força política que contraria esta tendência. Dito desta forma, não parece mais do que o clássico chavão político, contudo, pretendo demonstrar que Rui Tavares e o seu partido, o Livre, parece ter os pés e a cabeça necessária para responder à crise política causada por uma maioria absoluta degradada pelo poder. Depois desta introdução, admito que possam considerar que me encontro num delírio por ter a ousadia de acreditar que alguma vez o Livre será o partido mais votado nestas eleições. Desmistifiquemos. Obviamente Rui Tavares não virá da grande tempestade para se apresentar, vindo do encoberto, como primeiro-ministro. No entanto, considero que o Livre é uma parte crucial de uma possível coligação de esquerda, dadas as ideias e convicções que trazem para o país. Semana de quatro dias, que já foi experimentada em Portugal e que teve resultados muito positivos, o incentivo à inclusão política dos jovens, a eliminação de estágios não pagos e regulação do uso excessivo de contratos de trabalho temporário, a garantia de uma rede nacional de creches públicas, o reforço dos transportes públicos, o alcance de 10% de habitação pública, o suporte na primeira aquisição da primeira residência financiando a título de empréstimo até 30% do custo de mercado da mesma, a implementação de um imposto sobre heranças e doações de elevado valor, o reconhecimento da Palestina como um estado independente, a consolidação e reorganização do SNS, o combate à fuga, corrupção e offshores, o estabelecimento de um rácio entre o salário mais baixo e o salário mais alto em cada empresa ou ramo de atividade, o incentivo a que todos os países da União Europeia atinjam a neutralidade carbónica até 2040, entre outros. Esta extensa lista de medidas, pertencentes ao programa eleitoral do Livre, são apenas algumas das ideias que este partido apresenta para tornar Portugal num país mais ecológico, europeu, sustentável, respeitador dos direitos humanos e defensor do Estado Social. Esta lufada de ar fresco de uma esquerda revigorada vem dar força àqueles que possivelmente perderam alguma esperança face à lamentável prestação do Partido Socialista, que não foi competente na sua última governação solitária. Acredito na vontade do PS em tornar Portugal num país próspero e justo, porém, António Costa e seus “discípulos” não foram bem-sucedidos e, acredito que com ajuda desta esquerda moderna e europeia, distinguindo-se assim fortemente do PCP e BE respetivamente, Pedro Nuno Santos e Rui Tavares poderão tirar o cheiro a mofo dos dogmas da esquerda marxista e o caviar do seu “prato”, apresentando uma refeição muito mais agradável. Além disto, alerto para o perigo que uma coligação de direita apresenta para o país, visto que esta é impossível sem a inclusão do Chega, um partido oportunista, populista e que degrada o melhor sistema que temos nos nossos dias, a democracia! Lutem então contra a corrupção, desigualdade social, injustiça, elitismos e, no dia 10 de março, votem pela democracia e por um Portugal justo, próspero, sustentável, europeu e acolhedor. Votem pelo partido que garante uma resposta imediata aos problemas mais urgentes deste país: educação, habitação, economia e saúde, mas que nunca se esquece da cultura, agricultura, segurança, justiça e paz. De preferência, votem de forma Livre!
- Perguntas Bónus com Sebastião Bugalho
Na sequência da entrevista a Sebastião Bugalho, O Discreto fez ainda uma série de perguntas de resposta rápida: Trump ou Biden? Biden. Quais as eleições que gostarias de ter acompanhado? Gostava de ter feito: McCain vs. Obama; Clinton vs. Bush (Pai); as eleições do Brexit; Freitas vs. Soares; Soares Carneiro vs. Eanes. Debate preferido em televisão? Há um momento em que David Cameron vira-se, está na Câmara dos Comuns, ao Ed Miliband, que era na altura o líder da oposição, e diz: “Não é preciso ser Natal para perceber que estás sentado ao lado de um peru!”. Peru era o Ed Balls, o Ministro Sombra das Finanças. Esse debate é de chorar a rir. Tens saudades de estar em painel com a Joana Amaral Dias? Não tenho saudades de debater com ela, mas ela foi uma ótima colega. Tenho saudades talvez de conversar com ela fora do estúdio. No estúdio, não tenho. Banda sonora preferida? Eu oiço muitas bandas sonoras. Gosto muito do Ennio Morricone do Cinema Paraíso, é muito bonito. Gosto muito do Einaudi, também tem umas bandas sonoras, e de Max Richter que tem uma de um filme com o Christian Bale, não muito conhecido, chamado Hostis. Muito bonita, desafio-vos a ouvir. Realizador preferido? Gosto dos irmãos Coen. O Nolan é um tipo interessante, mas não todos os filmes, embora toda a gente goste do Nolan hoje em dia. Se tivesse de escolher um, talvez o John Cassavetes, do cinema independente americano. Mas também o Alejando Iñárritu, gosto muito dele. Gosto muito de cinema, gosto muito de filmes e desse mundo. Cinema ou Música? Música. Se tivesses outra profissão, qual seria? Chefe de cozinha. Prato que melhor cozinhas? Canelones. Figura histórica portuguesa preferida? Morta, o Duque de Palmela. Viva, o Passos Coelho. Qual o teu filósofo de referência? Michael J. Oakeshott. Livro da tua vida? Não tenho livro da minha vida. Tenho vários, mas não tenho um. Há uma biografia do Stalin, escrita por Martin Amis, chamada “Koba, o Terrível”. É por causa desse livro que sou anti-comunista. Deviam todos ler, é magnífico. Depois também gosto muito de um romance que se chama “Pensamentos Secretos”, que é sobre dois amantes. Ele fala para um gravador, enquanto ela vai à terapia, e no fundo temos acesso aos desabafos de dois tipos que andam a enganar os maridos e as mulheres, sem eles saberem que estão a ser escutados. Também gosto de um livro do Phillip Roth que se chama “O Engano”, que é mais ou menos a mesma história, mas são eles a conversarem um com o outro. O amor é uma coisa muito política. Aston Villa campeão da Premier League ou Benfica campeão da Champions League? Não há dúvida: Aston Villa! Aston Villa a ganhar a Premier e a Champions League – comentarei desporto pela primeira vez nesse dia! Preferias jantar com a Mariana Mortágua ou com o Paulo Raimundo? Paulo Raimundo. Eu dou-me bem com ele, ele é muito simpático. Não tenho nada contra a Mariana Mortágua, também é muito simpática, só que como ela é do Bloco de Esquerda provavelmente iria querer comer num daqueles sítio vegetarianos, e eu ia sair de lá com fome. Enquanto que o Paulo Raimundo provavelmente iria querer jantar na Festa do Avante, onde há sempre um ótimo bife. Portanto a minha escolha é meramente gastronómica e não política. Vou dizer três nomes, e para cada um descreves com uma palavra: António Costa: Hábil. Pedro Santana Lopes: Carismático. Pinto da Costa: Velho. Por fim, O Discreto ou O Expresso? Espero que um dia possa hesitar entre um e o outro.
- Entrevista a Sebastião Bugalho
Sebastião Bugalho, aos 28 anos, é dos comentadores políticos mais populares em Portugal. O Discreto sentou-se com ele para discutir o seu percurso de vida, os seus ideais e as eleições legislativas que se aproximam. Qual foi o primeiro acontecimento político de que te lembras de ouvir falar ou ver na televisão, o primeiro a marcar-te? É uma boa questão. Lembro-me uma vez no Sheraton, no Porto, eu e a minha mãe tínhamos ido a um concerto, e estávamos lá alojados. Lembro-me de irmos tomar o pequeno-almoço no hotel, e por coincidência estava a haver um congresso do PS nesse fim de semana no Porto, e o José Sócrates estava nesse hotel. E então ele entrou na sala com Jorge Lacão, e os assessores, e era como se tivesse entrado a cavalaria. E depois tomaram todos o pequeno-almoço com os jornais em cima da cara, era como se vivessem numa aldeia à parte, como se tivessem num camarote intocável e nós que estávamos a tomar o pequeno-almoço éramos os comuns mortais. Essa é provavelmente a minha primeira memória política. Os teus pais são os dois jornalistas, desde cedo que estás em contacto com a política e com o mundo do jornalismo. Tu, durante a tua juventude, pensaste sempre em ser jornalista e seguir o ramo do comentário político, ou tinhas outras ideias? A tua juventude era à volta disso? Eu quando era jovem, era um jovem normal: gostava de futebol, miúdas, estar na noite, ter os meus amigos. Era um tipo normal, e ainda sou um tipo normal. Mas a minha juventude não teve nada de especial. Havia muitos livros em casa, mas vocês também têm livros em casa. Gostava das mesmas coisas que os rapazes da minha idade gostavam. Para já, eu nunca pensei em ser comentador, e também não olho para mim como comentador. Sou um jornalista político. Sempre tive um interesse em história, na história da política. Tinha mais a ver com os que já estavam mortos do que aqueles que estavam a minha frente. E isso acabou por me ajudar a ler a realidade política contemporânea, muito em paralelismo com aquela que eu estava a estudar e os livros de história que estava a ler. Portanto a minha análise política começa com paralelismos: “Isto é muito parecido com o que se passou com um determinado rei ou numa determinada invasão, ou guerra”. Por isso só fui impelido a olhar para o presente porque estava muito habituado a olhar para o passado. Os meus pais tiraram ambos História, tem que ver com isso. Então os jantares de família eram repletos de história e política? Sim, mas não só história, teoricamente ou cientificamente, falando. Também, do ponto vista cultural, víamos muitos filmes a preto e branco, os meus pais sempre me incutiram o prazer pelas coisas do antigamente, o jazz americano, das Big Bands da Segunda Guerra, os filmes da Audrey Hepburn e do Fred Astaire, não era só política antiga que eu gostava – era tudo do antigo. Acabei por ser, mesmo desde bebé, uma alma muito velha. És hoje, indiscutivelmente, um dos comentadores políticos da moda. Como é que se explica tamanha popularidade aos 28 anos de idade? Eu acho que não tem muito a ver com a minha qualidade, não que eu não ache que não tenha qualidade, não é esse o meu ponto. A questão é que eu sou um tipo muito novo, isso é raro, e sou um tipo muito novo que não diz banalidades, que ainda mais raro é. E depois, eu não tenho partido – toda a gente sabe que não sou socialista, que as minhas origens políticas são de direita – mas eu não tenho partido, não sou militante, não sou apoiante de nenhum líder partidário. Não tenho grande hesitação em tomar partido contra nenhum dirigente, seja de que partido for, seja ele o António Costa ou o Miguel Albuquerque. Portanto isso também me deu alguma credibilidade, acho eu. É o que eu sinto. Ainda há outra coisa que é: as pessoas são muito simpáticas comigo na rua. Eu acho que as pessoas, pelo menos há uma quantidade delas, que olha para mim e não vê nem um jornalista, nem um político, vêm só um miúdo, um menino. E isso faz com que olhem para mim não com autoridade, mas de modo puro. Descreves-te como um “intermédio confortável”. Sim, confiável. Confortável para mim, confiável para as pessoas. Presumo que tenha a ver com isso. Repara, eu tenho um enorme risco: para o ano faço dez anos de carreira, e tenho menos de trinta anos. Como é que eu vou fazer isto mais trinta anos sem que as pessoas se fartem de mim? É impossível. Quais é que foram as vantagens e desvantagens de, tal como dizes, seres tão jovem, comparativamente a pessoas de estatuto mais alto? Bem, ao princípio as pessoas até brincavam com isso. O Insónias em Carvão uma vez fez uma montagem que era eu na televisão com um bibe. Pronto, também não tenho barba, sou completamente imberbe – tenho o ar ainda mais jovem do que a minha idade. E vantagens? Sim, em princípio sim. Ou seja, “Ah tem graça, vamos pôr um miúdo!”. Mas isso só tem graça uma vez, ser um miúdo só é uma vantagem para te abrir a porta, não é uma vantagem para te sentares na cadeira. Por isso, estás lá há dez anos porque és bom? Sim, foram dez anos com altos e baixos, e com oportunidades muito distintas e diferentes. Depois as pessoas também vão avaliando o teu trabalho e vão-te conhecendo, e até agora tem corrido bem. Mas também tive uma grande vantagem que foi estar num meio, o jornalístico, onde não há muitas pessoas assumidamente de direita. Isto não foi nenhum pragmatismo da minha parte, eu sou mesmo de direita, não decidi ser de direita porque é conveniente do ponto de vista do mercado. O que é facto é que há pouca oferta e bastante procura. Portanto, isso talvez tenha sido uma vantagem maior, ou tão grande, como ser jovem. Escreves agora para o Expresso, já escreveste para o Observador e para o SOL, tendo escrito “centenas de textos de opinião”. Como é que nascem estes textos? Qual é o processo criativo por trás de um bom texto? A primeira coisa que um tipo que escreve um texto ou mais por semana há quase dez anos tem que mentalizar é que é impossível todos os textos serem bons. Tens de fazer um esforço enorme para não haver um texto muito mau, um texto que te envergonhe, e eu tenho alguns, claro. É normal. O processo criativo normalmente é: vem uma ideia e aponto logo para não me esquecer dela. E as ideias ou vêm do nada, e só mesmo o divino é que pode explicar, ou vêm das conversas com as pessoas. Por isso é que o primeiro privilégio de um analista político ou de um jornalista é a conversação, é o diálogo. É teres o privilégio de teres gente em quem confias, e que respeitas e admiras, que percam o seu tempo para conversar contigo. O meu maior luxo, na minha profissão, são os meus amigos. Falo todos os dias com uma série de políticos e jornalistas que pensam tão bem, ou muito melhor que eu, que têm mais memória e mais história, alguns mais criatividade. É graças a eles que os meus artigos existem. Nasces em 1995, no ano em que Cavaco Silva sai do poder. A partir daí, dos teus 28 anos, 22 são com governos socialistas. De que forma é que isto te moldou politicamente? Achas que as tuas convicções eram outras se os governos tivessem sido diferentes? Os socialistas não foram todos iguais. O Costa não foi igual ao Sócrates; o Sócrates não foi igual ao Guterres. O primeiro primeiro-ministro de quem eu tenho memória de ver na televisão foi o engenheiro Sócrates, portanto o facto de eu não ser socialista para mim é muito natural. Para mim, o socialismo é corrupção e bancarrota – se eu fosse socialista, era parvo. Nesse sentido, tem mais que ver com isto. Mas eu tenho respeito pela mensagem política do guterrismo, era um católico progressista, eu respeito os católicos progressistas. Depois veio o António Costa, que inverteu a tradição constitucional portuguesa de deixar governar o mais votado. Isto acabou com a tradição do voto útil em Portugal e fez com que as pessoas achassem que o voto útil, que era só nos partidos do centro, passasse a ser útil em todos os partidos, incluindo os radicais. Quando o Dr. António Costa chegou ao poder não havia extrema-direita, quando saiu, vai ter 20 ou 30 deputados – faz parte do legado dele. Disseste que, crescendo com o Sócrates, dificilmente eras socialista. Nesse caso, como é que explicas o facto de haver muitas pessoas da tua geração que votam no Partido Socialista? Bem, provavelmente não têm o mesmo sentido crítico que eu. Provavelmente têm uma leitura diferente daquilo que se passou. Estão no seu direito. Eu acho que as tentações do Sócrates, ou do socratismo enquanto programa político, roçaram o iliberalismo: tentativas descaradas de controlo de órgãos da comunicação social, intromissão descarada na autonomia do Ministério Público e na independência dos tribunais, promiscuidade na relação entre o Estado e empresas. Nada disto tem a ver com ser social-democrata, ou trabalhista, ou de centro-esquerda. Isto tem a ver com ser respeitador das instituições democráticas ou não. Eu, antes de qualquer ideologia, sou democrata. A minha prioridade é defender a democracia. É preservar as instituições da democracia. Eu não sou conservador porque sou católico, sou conservador porque acho que temos de defender as instituições. Claro que para mim, como católico, a Igreja é uma destas instituições, mas não é a única que eu pretendo defender. Falando das tuas convicções, disseste, enquanto conversavas com Sérgio Sousa Pinto, que te tinhas moderado desde 2015. Aliás, Sérgio Sousa Pinto até diz que és de esquerda. Eu acho que ele diz isso porque gosta muito de mim e porque é de esquerda – é uma declaração de amizade! Mas em que aspeto é que achas que te moderaste? No tom. Eu era um gladiador e agora sou um índio com um cachimbo da paz. E os tempos também mudaram. Acho que, quando eu comecei a fazer jornalismo, o regime estava relativamente salvaguardado: a presidência era uma coisa respeitável, o Ministério Público era uma coisa confiável, os partidos políticos fundadores do regime democrático não estavam em perigo de vida – havia uma normalidade democrática na República. Hoje em dia, o meu instinto é preservar ao máximo a República. Quando eu comecei, não havia ministros a levarem com tinta verde, não havia primeiros-ministros a caírem em funções por suspeitas de corrupção. As coisas eram mais calmas. Hoje, a realidade é outra? Hoje, o verdadeiro desafio é a moderação, não é o combate. O combate está toda a gente a fazer, não precisa de mais. Agora dar dois passos atrás e tentar preservar aquilo que temos – isso é que vai ser difícil. O grande desafio do indivíduo que for primeiro-ministro este ano, depois do dia 10 de março, não é o que ele vai mudar em Portugal, é o que vai conseguir salvar. Pelo menos para mim, esse é que é o grande desafio. Tu em 2019 estavas nas listas do CDS (como independente) por Lisboa, e passado um ano a Ana Rita Bessa sai e és convidado por Telmo Correia a integrar o grupo parlamentar do CDS, convite que recusas por não te identificares com a direção da altura (de Chicão)... Atenção que eu não fui convidado, era o sucessor por lei. E eu não disse que não me identificava com o CDS do Chicão... O que eu disse foi: As circunstâncias alteraram-se; as minhas profissionais e as do CDS do ponto de vista político. A direção era outra, que não foi a que me convidou, como certamente não me convidaria, como certamente eu não aceitaria. E olhando para a história do CDS, qual o líder com que mais te identificas e em que terias gosto em representar? Eu sou amigo da Assunção Cristas, já era e continuei a ser, e acreditava e acredito no projeto dela de país, de Europa, de partido, de democracia cristã. E a visão dela é a correta, é a minha. Tenho uma grande admiração por ela. Posto isto, eu já gostava do CDS antes de Cristas (nunca fui militante) e isso tem a ver com a ideologia e não com os líderes. Passando a um tema distinto, hoje grande parte dos jovens vão buscar informação a meios alternativos, como o TikTok por exemplo, gerando desinformação e manipulação de ideias. Como é que isto se pode evitar? Em primeiro lugar, a culpa não é vossa (jovens). Não é só o André Ventura que tem acesso ao TikTok, os jornais se quiserem também têm TikTok, as televisões se quiserem também têm. Se há leitores e espectadores nas redes sociais, o trabalho da comunicação social tradicional é chegar-vos por essa via. Nós é que temos de procurar os leitores! O Expresso não deixa de ser o Expresso se em vez de vir em papel vier no TikTok. Essa é a minha opinião, nunca disse isso ao Dr. Balsemão, mas se ele me perguntasse era o que eu diria. A imprensa tradicional também tem que se reinventar e reequilibrar na oferta que dá. Para citar, e apenas neste contexto, o Sr. Primeiro-Ministro: “eu sou um otimista irritante”. Tem-se falado muito da facilidade com que se mancha a imagem dos políticos e das figuras públicas em geral. Como é que tu vês esta realidade? Mal. A vida pública em Portugal, neste momento, é a sensação do suicídio eminente. Somos tipo moscas à espera de ser esborrachadas pela turba a qualquer momento. Isso é a vida pública em Portugal. Mas também convém dizer que sempre foi assim, o Sá Carneiro foi atacado porque decidiu viver com a mulher de quem gostava e porque supostamente tinha uma dívida, e não pagava e afinal pagou. Acontece a todos os líderes. Um tipo ou tem ombros ou não tem. De vez em quando há um ombro que escorrega, até comigo que não sou líder de nada. Passando às legislativas, qual é que achas que vai ser o ponto ou assunto em que se vai ganhar as eleições? Os Açores, são já dia 4 de Fevereiro. Se o PS ganhar as eleições com maioria de esquerda, Pedro Nuno tem um boost porque pode reclamar que há esperança de reproduzir essa maioria a nível nacional. Se o PSD formar maioria de direita, que inclui o Chega nos Açores, então o PS vai poder dizer que é óbvio que o PSD se vai aliar à extrema-direita no continente. Os dois cenários são terríveis para Luís Montenegro. É como se o dia 10 de Março fosse uma segunda volta muito prejudicada pela primeira que é nos Açores. Os Açores vão ser decisivos! E os indecisos de que as sondagens dão conta, quem são? Os indecisos são um conjunto do eleitorado que deu uma maioria absoluta a António Costa ao fim de 7 anos de governação (o que é um grande feito). Há um conjunto de votantes que criaram uma fidelidade política à figura de António Costa, por causa da pandemia, por causa da inflação, por causa da sua longevidade no poder... E estas pessoas, de repente, estão perdidas na paisagem política portuguesa, porque perderam a sua figura de referência, perderam o seu representante político máximo que era António Costa. É como se fossem crianças perdidas num centro comercial à procura do pai. Os outros indecisos têm que ver com o facto de tanto Luís Montenegro como Pedro Nuno Santos serem figuras relativamente desconhecidas fora da bolha política, ninguém os conhece. E aqueles que os conhecem não confiam neles. Provavelmente também há um conjunto de indecisos que já estão de tal forma desesperados e desiludidos com o regime, que estão indecisos porque não sabem se vão ou não votar em André Ventura. Falando em Luís Montenegro, que impacto achas que tem a união de antigos líderes do PSD à sua volta? Sendo que ainda não apareceram todos. Os que faltam aparecer são José Manuel Durão Barroso e Passos Coelho. Provavelmente acabarão por aparecer, imagino eu. Não tenho nenhuma informação, mas acho que será natural que assim seja. Mas acho que sim, Luís Montenegro nunca foi ministro ou secretário de estado, portanto, as pessoas que já foram ministros e primeiros-ministros aparecerem ao seu lado é um selo de credibilidade e competência, é um carimbo. Quem é que achas que vale mais pontos: Cavaco ou Passos? Depende do eleitorado. Para os pensionistas, é Aníbal Cavaco Silva que lhes deu o 14º mês. Para o eleitorado mais à direita, é Pedro Passos Coelho. O problema do PSD é que tem de conseguir ambos. A AD diz-se a única alternativa reformista. Acreditas neste reformismo ou vai ser um reformismo que só servirá para dar mais lugares ao Chega daqui a 4 anos? Eu acho que se o PS ficar no poder, aí sim o Chega vai ter um crescimento exponencial. Em relação ao reformismo, sim parece-me que o PSD está com vontade e condições de reformar, se chegar ao poder. Por duas ordens de razão: Primeiro porque estes senhores não fizeram nada, e sempre que tentaram fazer, fizeram mal. O PS olhou para as reformas como pensos rápidos; a reforma das florestas depois dos incêndios, a reforma do SNS depois da crise nas urgências de obstetrícia, o Mais Habitação. Estes senhores olham para as reformas não como prevenção, mas como resposta. E isso não é uma reforma, as reformas não resolvem problemas, evitam-nos a priori. E o PSD está com vontade de fazer antes e isso é correto. E depois porque nós vamos entrar num contexto que nos vai obrigar a reformar: Se o senhor Trump volta para a Casa Branca, se o esforço de guerra ucraniano e a NATO são desfinanciados, se as taxas de juro forem tão negativas como nos anos anteriores. Isso significa que será mais caro financiar a nossa dívida, financiar o nosso Estado social. O que quer dizer que vamos ter de fazer o mesmo, ou mais, com menos dinheiro. A única forma de fazer isso é reformando. O futuro é de complementaridade entre setor social, público e privado. E isto não é o PSD que diz, é o Ministro da Saúde, Manuel Pizarro, que não é de direita. Tu perguntas-me: “Eles vão reformar ou não vão reformar?” Eles não têm outra hipótese que não reformar, sejam de esquerda ou de direita. O mundo como nós o conhecemos acabou, vamos entrar num novo paradigma. E esse paradigma obrigará a olhar para o Estado de outra maneira, e quem não o fizer é um irresponsável. Portanto, esta conversa dos salários e das pensões é bom para ganhar eleições, mas para governar a conversa será outra. E, acerca deste novo futuro de que falas...António Costa fala de “uma necessidade de haver uma alternativa”, diz que o “PSD deixou de ser capaz de corporizar essa alternativa”, o que “tem vindo a fortalecer a direita radical e extremista”. Culpa assim o PSD de “ter deixado crescer o populismo à sua direita”. Achas que vamos entrar num novo panorama político em que passamos a ter um partido grande e dois médios, ou até três grandes? O que vai acontecer? Não, não há eleitorado suficiente para ter três partidos grandes. O crescimento do Chega será sempre feito à custa da manutenção do PSD, e também um bocadinho do PS e do resto da esquerda. Se o cenário for o que descreveste, o PS ser o partido de governação e a alternativa estar espartilhada e dividida entre vários partidos de direita, isto é, se a diferença entre o PSD e o Chega for mais curta do que a diferença entre o PSD e o PS, então não temos um sistema bipartido, nem um sistema bipolarizado. Temos um sistema unipolar em que o único polo é o PS. Isto, do ponto de vista democrático, é uma tragédia. É como se Portugal continental fosse transformado na Madeira do PS. Esse é que é o risco, é um risco democrático, é um risco para o escrutínio, é um risco para os checks and balances de uma democracia, é um risco pela razão que eu estava a dizer há pouco, quanto maior for o prolongamento não natural do PS no poder, maior será o crescimento da extrema-direita. E, depois, porque vai haver um dia, em que o PS, que está muito contente com a divisão da direita e com a ascensão do Chega porque está convencido que isso o perpetua no poder, pode não ser daqui a cinco, nem daqui a dez, nem daqui a quinze anos, mas vai haver um dia em que até o PS perde. Só que aí quem ganha já não é a direita moderada. Esse é que é o paradoxo deste sonho do PS de se querer perpetuar no poder, às custas da alimentação do Chega: um dia o Chega ganha as eleições. E da alimentação contra eles, mesmo. Sim, é um espírito muito simplista e facilitista, e até um pouco cobarde esta ideia de “vamos alimentar o Chega até à morte do PSD para nós governarmos para sempre”, porque em democracia ninguém governa para sempre. E há um dia em que aqueles que eles alegadamente querem combater acabam por governar. E, nesse dia, ninguém se esquecerá das várias vezes em que o PS tentou confundir a direita democrática, o PSD, com a direita extremada, o Chega. Paulo Portas disse na Convenção da AD que “o PS deve ir para a oposição, será bom para Portugal e para o próprio PS ter uma cura de oposição”. Será que o próprio PS está ciente desta necessidade de ir para a oposição? Algumas pessoas talvez, mas eu acho que não. O PS neste momento é uma máquina viciada no poder, incapaz de reconhecer erros, incapaz de pedir desculpa, incapaz de mudança, como aliás as listas de deputados mostram. As listas de deputados são a continuação do governo do Dr. António Costa. O Dr. Pedro Nuno Santos foi de crítico de António Costa a um clone de António Costa, à velocidade da convocatória das eleições. Portanto, se o PS tem noção de que não pode fazer igual ao que fez nos últimos anos, não está exatamente a transmiti-lo aos portugueses. Temos um Pedro Nuno Santos que se assume como candidato da continuidade, tendo como cabeças-de-lista José Luís Carneiro, Ana Catarina Mendes, Mariana Vieira da Silva, entre outros ministros dos sucessivos governos de António Costa. Como é que se explica que o SNS, a educação e a habitação estejam no estado em que estão, e mesmo assim as sondagens indiquem que a maioria vai votar nos responsáveis por isso? Têm medo da direita, têm medo da direita com a extrema-direita, têm medo da direita por causa da intervenção externa. Têm medo de perder um governo eleitoralista que vai sempre proteger aqueles que dependem do Estado, têm medo da mudança, que é uma coisa muito portuguesa. Portanto, ou votam em quem está ou não votam de todo, e não conhecem ainda Luís Montenegro. Portanto, para ser franco, também me faço a pergunta que me estás a fazer, que é, “Como é que eles continuam a ganhar as eleições?”. Em 2019, quando eu fui candidato, uma mulher grávida portuguesa também já não sabia se ia conseguir ter o seu bebé quando entrava no hospital público em Portugal. Passaram cinco anos e eles continuaram a ganhar as eleições. Estávamos a falar do Chega e, segundo as sondagens o Chega há de ter 20, 30, talvez até 40 deputados no Parlamento. No entanto, o Chega não tem a fama de ter quadros tão bons como os outros partidos e, portanto, pergunto-te se isto não se pode tornar no início do fim do Chega? No início do fim do Chega não, mas eu acho que o Chega está a ser muito amador na gestão que está a fazer do seu recrutamento. Um partido que tem falta de quadros ir buscar os medíocres do PSD não é exatamente uma ideia genial. Mas achas que isso vai, de alguma forma, ter consequências no eleitorado do Chega, daqui a quatro anos? Não, não teve nos últimos dois. Mas eram doze, agora se forem quarenta… Aquilo que me preocupa no futuro do quadro parlamentar é que acho que, pela primeira vez, nós poderemos ter violência no plenário. Não é uma piada, estou a falar muito a sério, aqueles vídeos que nós vemos às vezes de grandes sessões de pancadaria nos parlamentos no Leste da Europa, nós vamos ter esses vídeos aqui em São Bento. Vamos ter alguém que vai trocar uma chapada com alguém, é inevitável. Quando isto acontecer, e tiverem partilhado o vídeo, vão-se lembrar desta entrevista. Continuando no Chega, quem se lembra de André Ventura em 2021, nas presidenciais, naqueles famosos debates, era a 4ª República, era a castração química, era a prisão perpétua, era tudo. Já não é esse André Ventura que anda por aqui agora. O que é que isso quer dizer? Se calhar ele é o mesmo, se calhar já não diz é as mesmas coisas. Houve uma grande mudança. Fê-lo porque quer ser ministro, ou primeiro-ministro, no caso dele. A grande mudança que estás a descrever no Chega é que a agenda deixou de ser a mudança de regime, portanto da 3ª para a 4ª República, como tu muito bem disseste, para ser a mudança do regime. Ou seja, ele está a ser convidado para entrar dentro da casa e ele, em vez de lhe querer pegar fogo, quer sentar-se no sofá, essa é que é a grande diferença. Só que quer o sofá só para ele. Ele foi de ser um partido revolucionário de direita, de querer um novo 25 de abril, uma nova presidência, um novo Parlamento, uma nova Constituição, típico de um partido revolucionário, para querer subsídios iguais para as polícias, não financiar a ideologia de género e não financiar um museu de 35 milhões de euros em Angola. É exatamente aquilo que o CDS de Manuel Monteiro, e do princípio do Dr. Paulo Portas, estaria a dizer se ainda existisse em 2024 e no qual, diga-se de passagem, eu teria votado. Desviando agora do Ventura e do seu partido, tu, há uns tempos, usaste a seguinte expressão para descrever o futuro do Primeiro-Ministro: “Está livre como um passarinho e o passarinho não vai parar de cantar”. O que é que isto significa e, na tua opinião, onde cantará António Costa nos anos que se seguem? Tudo depende do processo, mas, pelos vistos, o PS continua a ser o partido de António Costa. Olhando para as listas de deputados, ele será o secretário-geral “sombra” do PS. Uma espécie de Papa Emérito, só que ele não vai para o Castelo Gandolfo e o Pedro Nuno Santos, definitivamente, não tem nada que ver com o Papa Francisco. Isto para dizer que não sei onde vai andar, mas se o processo dele não seguir para a frente, será o primeiro político desde o 25 de Abril a estar acima da justiça, terá um poder desmesurado. Poderá tentar influenciar o governo, poderá ser candidato a Presidente da República, poderá ser cabeça de lista às europeias e presidente do Parlamento Europeu, poderá ser presidente do Conselho Europeu, poderá ser secretário-geral da NATO. Ele pode ser o que quiser, desde que o processo seja arquivado. Deste ponto de vista, interessa a António Costa que o PS ganhe as eleições? Para ele interessa-lhe muito que o PS não tenha uma derrota clamorosa, porque ele seria inevitavelmente acusado de ser o culpado dessa derrota. Para ele, o sucesso de Pedro Nuno Santos é muito importante, não só do ponto de vista eleitoral, mas também porque será Pedro Nuno Santos que o convida para onde quer que Costa vá, exceto em Bruxelas, onde Pedro Nuno não tem muita coisa a dizer. Agora noutro campo. Quanto ao sistema eleitoral português, o método d’Hondt é algo controverso, por beneficiar os dois grandes partidos e fazer com que muitos votos não contem para nada. Está na altura de uma mudança no sistema eleitoral? Eu sou a favor do sistema misto. Com duas voltas – o círculo à açoriana, que depois dá uso dos votos perdidos, parece-me que faz sentido. Se faz sentido nos Açores, poderia ser transposto para cá e creio que até foi o PSD de Rui Rio, de quem eu fui bastante crítico, que tinha essa proposta numa revisão constitucional. Um pequeno parênteses: ontem José Silvano dizia que lhe tem dito muita gente que esta estaria a ser a hora de Rui Rio. Acreditas nisto? Sempre foste grande crítico de Rio. Não, foi líder do PSD quatro anos, perdeu quatro eleições, num país civilizado nunca teria passado da junta de freguesia. Retomando o sistema eleitoral... Sou a favor de uma barreira mínima para a eleição de deputados, que é o que acontece no Bundestag alemão, onde é preciso ter mais do que um mínimo de percentagem para ter representação parlamentar, diminuindo as hipóteses de haver deputados únicos. Não me parece que faça sentido Lisboa ser uma espécie de capital dos deputados únicos, quando, do ponto de vista nacional, não têm relevância e aproveitam para fazer campanha para entrarem na vereação da câmara. Mas caso André Ventura não tivesse sido eleito como deputado único, provavelmente não teríamos um novo partido na Assembleia com tanta influência... E a Iniciativa Liberal a mesma coisa, eu não sou contra novos partidos. Acho é que deve haver uma barreira mínima, como na Alemanha, para evitar protagonismos desmesurados. Podes dizer: “Bem, mas isso foi o que aconteceu com o Chega”, se calhar é verdade. Por fim, numa conversa com Maria João Avillez, falaste de uma perda de estatuto e de qualidade dos deputados e líderes do nosso país. Assim, questionei-me, e agora questiono-te a ti, como é que passámos de um Mário Soares e de um Sá Carneiro, para um Pedro Nuno Santos e um Luís Montenegro? Eu acho que eles não são assim tão maus. Em 1974, estávamos a lutar ou contra o fascismo, ou contra o comunismo. Estávamos a lutar por partidos políticos livres, estávamos a lutar contra a censura, contra a presidencialização do regime, estávamos a lutar pela Europa. Eram tudo causas nobres, grandes, eram grandes batalhas. Agora vamos lutar pelo quê? Não foram só as grandes personalidades que se foram embora, foram as grandes batalhas que já não estão aqui para serem travadas. Tu não podes ter grandes homens, se não tens grandes lutas. Com todo o respeito pela sua coragem e dimensão política, o que iria Mário Soares defender hoje? Neste momento, não há grandes causas para serem defendidas. Esse, aliás, é um problema que vai aparecer à esquerda. Já conseguiu o casamento gay, a adoção gay, a eutanásia e o aborto. Só lhes falta a legalização das drogas leves. Se conseguirem tudo isto, o que é que lhes resta defender? Vão ser contra os ricos? Já o são há cem anos. Qual é a agenda da esquerda se conseguirem todas estas causas? E qual é a agenda da direita senão lutar por reverter as causas da esquerda? A direita não pode ser só uma versão competente e tecnocrática da esquerda. Para isso, a democracia não é muito interessante.
- Portugal Mal-Educado
A educação é o primeiro passo para o sucesso individual e coletivo, social e político. É essencial para uma mudança de estrutura económica e garante uma coesão enquanto comunidade, criando bases para o desenvolvimento económico sustentável de qualquer país. Sem uma aposta clara na educação, a sociedade estagna. Os anos 90 viram um boom no que diz respeito à situação económica portuguesa, com a entrada na Europa comunitária. Contudo, vemos hoje o sistema de ensino em Portugal mergulhado numa enorme incerteza, para a qual não vemos qualquer resposta por parte dos nossos governantes. Com uma economia fraca, incapaz de atrair empresas qualificadas e investimento estrangeiro, e cada vez mais dependente do turismo e lazer e da mão-de-obra barata, Portugal vê os seus jovens licenciados a serem obrigados a emigrar. Sendo um problema estrutural, a solução também não é obvia. Existindo uma falta clara de investimento na educação portuguesa, como é que se resolve, tendo em conta o estado da nossa economia e a constante instabilidade política? Irá um governo que procura manter popularidade gastar milhões de euros do orçamento de estado para injetar dinheiro no sistema educacional, ou irá usar esses recursos para aumentar o salário mínimo e as pensões? O problema aqui é fácil de identificar: alimenta uma dependência presente e futura no Estado e no governo. E para além desta dependência, não resolve o problema estrutural que condena o nosso país. Mas será o estado da nossa educação resultado das dificuldades económicas do país, ou, pelo contrário, será o nosso fraco desenvolvimento económico consequência de um débil sistema educativo? As duas opções são certamente verdadeiras. Tendo conseguido convergir para os patamares exigidos pela Europa, terá que haver uma clara aposta de todos os agentes que fazem parte da educação, nomeadamente do Estado, professores e famílias, para que Portugal possa atingir patamares ainda mais ambiciosos, comparáveis com países mais prósperos. Para começar, o Estado deverá colocar a educação como prioridade, criando estabilidade no sistema de avaliação, investindo fortemente no ensino. O que assistimos é o contrário: constantes mudanças nos sistemas de avaliação dos alunos, falta de avaliações dos docentes e a discussão das políticas em sede de negociação com sindicatos, como se os alunos não fossem o mais importante. O governo tem como obrigação fornecer as bases para uma educação acessível, desafiante e completa, para que todos os portugueses consigam ter a oportunidade de desenvolver e descobrir o seu potencial. A insuficiência de investimento público tem sido notória, com uma diminuição de mais de 1% do PIB de 1992 para 2022 (Prodata). Esta falta de investimento verifica-se quer ao nível da degradação das infraestruturas das nossas escolas e universidades, como na diminuição dos salários reais dos professores, situação que leva à falta de incentivos para atrair profissionais motivados e competentes para o setor. O resultado é que muitos estudantes acabam a receber uma educação pública mais pobre e incompleta, em que existe pouca atenção individual ao desenvolvimento de cada aluno, e, portanto, um nível mais fraco de empenho escolar e por consequência, resultados mais fracos. Isto cria não só uma aceleração na disparidade de saídas universitárias de alunos de escolas públicas e privadas, mas também um possível aumento na discrepância de futuros rendimentos na economia portuguesa. O Estado falha ainda na excessiva centralização do ensino e da pouca autonomia que dá às escolas e universidades. Uma das consequências é uma falta de investimento em cursos não tradicionais como arte, cinema, moda, história, filosofia e geografia, entre outros. A falta de investimento nestes cursos, ditos “mais liberais”, posiciona Portugal atrás de outras economias avançadas, como Inglaterra, França, Itália, EUA, que procuram cada vez mais investir na diversificação da sua população e futura força de trabalho. Já não é plausível usar a desculpa que não existe saída de trabalho para estes cursos, pois, se estes cursos tivessem mais oferta, não só ajudaria a reter mais estudantes em Portugal, como diminuiria a competição pelos cursos e trabalhos em setores mais tradicionais como direito, economia, medicina e engenharias. Numa era em que a inovação é o polo diretor e dinamizador do sucesso económico, a falta de investimento nestes cursos afetará o futuro desenvolvimento do nosso país. Outra consequência da centralização e da falta de ambição nota-se na ausência total de preparação dos alunos do liceu para a vida universitária. Para que serve o liceu senão para preparar e permitir o acesso à universidade? Então, porque é que não existe uma prioridade de ensinar e dar a conhecer aos alunos do liceu todas as oportunidades que estão ao seu alcance – não só a nível nacional, como também internacional? O sistema educativo português falha todos os anos no incentivo e preparação dos estudantes para a vida e opções universitárias. Noutras economias ocidentais, os estudantes são incentivados e desafiados a prepararem-se para a universidade com anos de antecedência e a procurar oportunidades fora do seu país, não só para o aluno expandir o seu potencial, como para enriquecerem o seu país mais tarde. Portugal por sua vez, chora ao ver estudantes a procurar oportunidades no estrangeiro. É verdade que a falta de ambição das famílias e dos estudantes pode ser culpada, além da falta de incentivo nas escolas e liceus portugueses. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, um aluno é posto a pensar sobre a universidade quando acaba o décimo ano e tem de fazer a candidatura à universidade com um ano de antecedência. Nos Estados Unidos, a resposta das universidades é dada a meio do 12º ano. Na Holanda, as inscrições à Universidade encerram em Maio. Porque será que, em Portugal, os alunos só são postos a pensar nas opções universitárias no verão do décimo segundo ano? O segundo problema que identifico é a nossa cultura de ignorância. A falta de ambição do governo, espelha-se na maioria dos portugueses, tanto nos estudantes, como nos seus pais. Parece existir uma diferença na capacidade de sacrifício por parte das famílias de classe média do Norte da Europa, por exemplo, em relação às portuguesas, que abdicam facilmente de uma boa educação para os seus filhos. Esta falta de estímulo para o desenvolvimento próprio de cada aluno, dentro e fora do currículo, é o que matará o crescimento da economia portuguesa, porque os alunos não procuram prosperar por iniciativa própria, e ficam satisfeitos em tirar a nota mínima de entrada nos mesmos cursos que os pais tiraram há 30 anos. Mas então, o que fazer? Para o governo conseguir investir mais dinheiro no sistema de educação, teria que aumentar ainda mais os impostos ou a dívida, ou então cortar custos, como pensões, salários e investimentos, etc. Contudo, nenhuma destas medidas seria aconselhável neste momento, tendo em conta o enorme aumento do custo de vida, fruto da inflação e aumento das taxas de juros, que colocaram enormes dificuldades à maioria dos portugueses. A família portuguesa, que em média tem cerca de 1,5 filhos e um salário de 38.904€, iria ter dificuldade em investir na educação dos seus filhos, optando ainda mais por colocar os filhos no ensino público, onde se encontram já cerca de 85% dos estudantes em Portugal. Na educação privada, o salário médio não seria suficiente para pagar um aumento de propinas para enriquecer o ensino privado. Portanto, a falta de ajuda financeira do governo, o estado da nossa economia, e a degradação do sistema público condenarão Portugal se a estrutura educacional não for repensada rapidamente. Analisemos o sistema universitário inglês. Todas as universidades têm o mesmo custo anual para estudantes ingleses de £9250 (2023/24), seja qual for a universidade ou o curso. As propinas inglesas dão, portanto, uma injeção a cada universidade para constantemente melhorar o ensino, as infraestruturas e as oportunidades. Em termos de propinas, existem duas formas de pagar pelo ensino universitário inglês: pagar diretamente à universidade, ou arranjar um patrocinador. Cerca de 70% dos estudantes ingleses escolhem ser financiados pelo Student Finance UK, que oferece um seguro plano de pagamento. Quando o universitário acaba o ensino e começa a receber um salário acima de £27,295, 10% do salário será descontado diretamente para pagar as propinas, cujo valor é pago com juros. Se o estudante acabar por nunca trabalhar ou nunca receber acima deste valor, nunca pagará pelo seu curso, assumindo o estado esse custo. Este programa ajuda a tornar a educação universitária acessível a todos. Será que uma estrutura como esta resultaria em Portugal? Será que os estudantes portugueses se endividariam para conseguirem ir para a universidade? Acredito que seria difícil, pelo menos enquanto não for dada a devida importância à educação. Com isto, o que é que Portugal deveria fazer quanto ao seu sistema de educação? Onde e por quem é que a mudança devia começar? Talvez nos caiba a nós, estudantes, perceber o valor da educação e iniciarmos a necessária revolução educacional que eventualmente poderá redirecionar o futuro de Portugal.
- Ao final da tarde quando já estiver cansado
Mais uma vez acordei E ainda estava de noite Já via, no entanto, a minha sombra Sentada, apertando suas botas, e pegando na foice. Vivo numa noite cerrada Habitada num pleno dia Vendo a plana luminosidade Da minha alma escura e sombria. Logo me apeguei às páginas, Tentando despertar minha alma Mas a noite permanece, dura e tentadora, Deitando meu espírito num lago de calma. A foice trata-me mal Tanto aos braços como à mente Pois neste ingénuo meu Portugal A noite é a única coisa quente. Ao final da tarde, quando nascer o dia E mais não vir calçar de botas numa sombra, Aí é que os campos me deixam ceifar Quando o sol que torra a minha foice se encerra na penumbra E ao final do dia, quando já estiver cansado Quando o amanhã de ontem for o hoje de amanhã O sol voltar-me-á a pesar, desinteressante e aliviado E eu deitar-me-ei, dorido da foice, na charca sombria da manhã.
- "M": O Primeiro "Noir"
Em 1931, o cineasta alemão Fritz Lang decidiu explorar algumas das mais preturbadoras questões e realidades acerca do ser humano, num projeto incrivelmente ambicioso a tantos níveis, que nenhum texto como o que se seguirá lhe fará devida justiça. Vale a pena, no entanto, tentar. Desde o enorme feito que foi alcançar uma eficaz conciliação entre a imagem e o som, numa altura de transição no cinema (do mudo para o sonoro), à criação de uma obra genial e da inconsciente fundação de um novo género cinematográfico – o “noir” – M trata de uma obra-prima no mais puro significado da palavra, que se demonstra até hoje relevante. A ação narrativa decorre através da descrição de uma caótica procura e perseguição a um assassino em série de crianças, por parte da população de uma cidade não-intitulada alemã. Somos colocados numa posição de empatia incondicional para com as mães e os pais da cidade que compartilham o luto parental. Lang conquista-nos o ódio e o desdém pela personagem representada por Hans Beckert (Peter Lorre), a personificação do mal: o assassino em série de crianças. Alguém que comete atos tão horrendos e desumanos que nos torna incapazes de questionar ideias como a existência de uma moralidade objetiva ou do poder que o indivíduo tem (ou falta desse) na tomada de decisões: o livre arbítrio. Estas ideias aparentam-nos até certo ponto no filme como verdades absolutas e evidentes, uma vez que nos encontramos perante uma situação em que recusá-las seria sinónimo a participar numa autêntica apologia ou justificação dos crimes cometidos por Beckert. Mas é precisamente ao questionar a veracidade destes conceitos que, no chamado “ato final”, o génio de Fritz Lang sobressai. O seu génio como realizador, autor, mas, acima de tudo, como estudante e observador do Homem, que nos relembra daquilo de mais poderoso que o cinema consegue oferecer: uma reflexão acerca dos temas que mais atormentam a mente humana. Após ser capturado, não pela polícia, mas sim por um conjunto histérico de rebeldes e membros da sociedade, revoltados com a falta de eficácia do poder judicial e policial, o nosso antagonista é transportado para a cave de uma fábrica. Aqui, encontra-se, finalmente, confrontado com a população. Sente-se um puro, no entanto, estridente silêncio conjugado com um olhar fixo e infalivelmente direcionado a si. Pais, mães, tios, avós, amigos; um grupo de indivíduos unido pela sua lamentável situação de comum traumatismo psicológico proveniente dos crimes cometidos por este homem que se mostrava agora, de repente, perante tudo e todos, impotente e sem qualquer hipótese de fuga. É sentido pelo espetador, (através da sempre impecável performance de Peter Lorre) o olhar surpreso e o autêntico choque por parte de Beckert sob aquelas caras que lhe apareciam à frente. Entristecidas, taciturnamente ecoavam o trauma e dor nelas provocado, apenas com o poder do seu olhar coletivo: a encarnação de toda a miséria, dor e tristeza sentida naquela cidade. Quando tudo parece estar decidido, a justiça exercida e Beckert destinado a uma sentença de morte, inicia um monólogo incapaz de ser ignorado, nem mesmo pelos mais desbocados e barulhentos, naquilo que é o clímax do enredo e que, consequentemente, eleva M ao prestigioso rótulo de obra-prima. O criminoso obtem o poder democrático da palavra e declara-se como uma vítima de si mesmo, de uma tal “voz que vem de dentro”, que o incansavelmente persegue, tortura e obriga a cometer crimes. O sofrimento é constante em todos os segundos, de todos os dias, ao longo de toda a sua vida. Descreve-se a si mesmo como agente fora do controlo daquele mal, daquela voz, daquele fogo, daquele tormento vindo de dentro de si próprio. É perseguido por fantasmas, fantasmas das mães cujos filhos foram levados para a morte através da sua autoria. Enquanto leva as mãos à cabeça, puxa os cabelos e abre os seus olhos esbugalhados em alienação total; declara não ter escapatória a esta sua inconcebivelmente aterrorizante condição a que está submetido: “sou forçado a agir…eu devo. Devo! Não quero! Devo! Não quero, mas sim, devo!”. Aparece, como que do vazio, um homem que se oferece em nome da democracia e da justiça, para praticar a defesa de Hans Beckert. Incita o facto da incapacidade sobre o poder de agência por parte do acusado em relação a esta suposta força interior que o comanda, e dirige-se a Beckert como um doente mental que deveria ser entregue não a um carrasco, mas sim a um doutor. Defende que uma vez que um homem não pode ser considerado responsável pelas suas ações, seria injusto e contra os princípios éticos, que o Estado, ou quem fosse, matasse dito homem. Reivindica, como alternativa, a obrigação que a sociedade como um todo tem, assim, de reconhecê-lo como alguém que precisa de reabilitação, realçando a necessidade de ser estimulado o impulsionamento da recolocação do indíviduo na vida social. Trata-se, a final de contas, de um membro desta sociedade igual aos outros perante a justiça, uma vez estabelecida a falta de poder que tem sobre a responsabilidade dos seus atos. Pouco convencidos, (compreensivelmente) condenados à ceguez perante as nuances do mundo, comandada pela vingança e desordem, a multidão prepara-se para matar o homem, algo que é evitado com o aparecimento da polícia. Tarde, mas ainda assim, suficientemente a tempo de travar a sentença, que acaba por levar consigo o assassino e os restantes criminosos que se encontravam no local. De seguida, um plano apresenta um painel de juízes, agora sim, legítimos, prestes a determinar o veredito no julgamento oficial de Hans Beckert. Mas o pano não cai antes de uma última sequência: fora da sala de tribunal encontram-se três mães em luto que, em lágrimas e em desespero, preparam-se para aceitar o desfecho, seja este qual for. Ao chegarem à conclusão de que, independentemente do veredito, a justiça com base na entre-ajuda e salvaguarda de direitos fundamentais e universais de uma sociedade, sempre será ideal quando comparada à solução da sentença de morte, que, afinal de contas, nunca lhes devolverá as crianças de volta à vida. “Em nome do povo, isto (sentença de morte) não nos trará de volta as nossas crianças. Nós, também, devemos manter um olhar mais atento sobre os nossos filhos." Termina, assim, esta longa-metragem numa zona moral “cinzenta” ao não nos oferecer uma verdadeira resposta para o problema que é a justiça e os paradoxos que dela ascendem, uma vez que a tentamos analisar ou interpretar de maneira objetiva. Escolhe, pelo contrário: uma exploração da assustadora amplitude e profundezas tremendamente desconfortavéis da sociedade, da justiça, da interrelação entre as duas, da moralidade individual e da depravação humana.










