top of page

Results found for empty search

  • O Voto Certo: Iniciativa Liberal

    Antes de discutir propostas políticas, parece-me importante fazer uma reflexão sobre a vida política do nosso país dos últimos anos. Recentemente temos assistido a taxas de abstenção altíssimas, “geringonças” pós-eleitorais e o apelo ao voto útil. Neste contexto, surge a dúvida se o nosso sistema eleitoral é o mais adequado e representativo para as necessidades de um povo, que já está há vários anos à espera de uma mudança real no que toca a decisões governamentais. O método de Hondt, o sistema utilizado para a contagem dos votos em Portugal, faz com que centenas de milhares de votos não sejam convertidos em mandatos para a Assembleia da República, centralizando o poder nas grandes cidades, Porto, Lisboa e Braga, prejudicando assim a liberdade de voto no resto do país, especialmente nos pequenos centros que têm muitos menos mandatos para atribuir à Assembleia do que as grandes cidades, facilitando assim o monopólio político do PS e PSD. Porém, no meio do vazio político da nossa história recente, surge um partido cuja prioridade é pôr os portugueses no centro do país: a Iniciativa Liberal. Promover habitação acessível, a reforma do sistema eleitoral, mais rigor na educação, ter mais opções, que não sejam listas de espera intermináveis, no que toca à saúde, reforma da função pública (100 mil novos funcionários públicos nos últimos 9 anos sem melhoria visível dos serviços) e priorizar o crescimento económico através da redução drástica dos impostos, aumentando assim os salários e viabilizando um mercado livre. Não há uma destas propostas que me pareça particularmente descabida, considerando o facto que já foram testadas, e com sucesso, em vários países europeus principalmente na península escandinava, que não por acaso é uma das zonas mais ricas da Europa. Aproximando-nos de uma data importante como a do quinquagésimo aniversário do 25 de abril e da consequência dos 50 anos da instauração da democracia em Portugal, é fulcral olhar para o futuro do nosso país. Nós como portugueses temos a fama de ficar sempre para trás no que toca a modernização, avanços tecnológicos e progresso no geral, mas 10 de março é dia de inverter esta tendência. Não nos podemos, e não nos devemos contentar com a mediocridade e ceder à vontade dos grandes partidos na esperança que eventualmente mudem alguma coisa. Acima de tudo, é pelas suas propostas que a Iniciativa Liberal é muito popular na faixa etária mais jovem. Está na altura de voltar a pôr os jovens portugueses no centro do país, de deixar de ser um ponto de partida, mas passar a ser também um ponto de chegada. Mesmo assim, muito provavelmente Rui Rocha não vai ser o próximo primeiro-ministro português, mas nem por isso deixa de ter um lugar privilegiado à “mesa dos grandes”. A possibilidade da direita voltar, através de uma coligação AD-IL, torna-se, a cada dia que passa, uma possibilidade concreta e uma oportunidade única para que a Iniciativa Liberal mostre com mais peso que é verdadeiramente capaz de transformar o país, na esperança de que um dia possa trazer a mudança que Portugal precisa. Para isto, o único voto útIL que interessa é o voto na Iniciativa Liberal.

  • O Voto Certo: Livre

    Após intensas semanas de debates e de horas intermináveis de comentário político acerca dos mesmos, a sensação é de que as moscas mudam…, mas existe uma força política que contraria esta tendência. Dito desta forma, não parece mais do que o clássico chavão político, contudo, pretendo demonstrar que Rui Tavares e o seu partido, o Livre, parece ter os pés e a cabeça necessária para responder à crise política causada por uma maioria absoluta degradada pelo poder. Depois desta introdução, admito que possam considerar que me encontro num delírio por ter a ousadia de acreditar que alguma vez o Livre será o partido mais votado nestas eleições. Desmistifiquemos. Obviamente Rui Tavares não virá da grande tempestade para se apresentar, vindo do encoberto, como primeiro-ministro. No entanto, considero que o Livre é uma parte crucial de uma possível coligação de esquerda, dadas as ideias e convicções que trazem para o país. Semana de quatro dias, que já foi experimentada em Portugal e que teve resultados muito positivos, o incentivo à inclusão política dos jovens, a eliminação de estágios não pagos e regulação do uso excessivo de contratos de trabalho temporário, a garantia de uma rede nacional de creches públicas, o reforço dos transportes públicos, o alcance de 10% de habitação pública, o suporte na primeira aquisição da primeira residência financiando a título de empréstimo até 30% do custo de mercado da mesma, a implementação de um imposto sobre heranças e doações de elevado valor, o reconhecimento da Palestina como um estado independente, a consolidação e reorganização do SNS, o combate à fuga, corrupção e offshores, o estabelecimento de um rácio entre o salário mais baixo e o salário mais alto em cada empresa ou ramo de atividade, o incentivo a que todos os países da União Europeia atinjam a neutralidade carbónica até 2040, entre outros. Esta extensa lista de medidas, pertencentes ao programa eleitoral do Livre, são apenas algumas das ideias que este partido apresenta para tornar Portugal num país mais ecológico, europeu, sustentável, respeitador dos direitos humanos e defensor do Estado Social. Esta lufada de ar fresco de uma esquerda revigorada vem dar força àqueles que possivelmente perderam alguma esperança face à lamentável prestação do Partido Socialista, que não foi competente na sua última governação solitária. Acredito na vontade do PS em tornar Portugal num país próspero e justo, porém, António Costa e seus “discípulos” não foram bem-sucedidos e, acredito que com ajuda desta esquerda moderna e europeia, distinguindo-se assim fortemente do PCP e BE respetivamente, Pedro Nuno Santos e Rui Tavares poderão tirar o cheiro a mofo dos dogmas da esquerda marxista e o caviar do seu “prato”, apresentando uma refeição muito mais agradável. Além disto, alerto para o perigo que uma coligação de direita apresenta para o país, visto que esta é impossível sem a inclusão do Chega, um partido oportunista, populista e que degrada o melhor sistema que temos nos nossos dias, a democracia! Lutem então contra a corrupção, desigualdade social, injustiça, elitismos e, no dia 10 de março, votem pela democracia e por um Portugal justo, próspero, sustentável, europeu e acolhedor. Votem pelo partido que garante uma resposta imediata aos problemas mais urgentes deste país: educação, habitação, economia e saúde, mas que nunca se esquece da cultura, agricultura, segurança, justiça e paz. De preferência, votem de forma Livre!

  • O Voto Certo: Aliança Democrática

    Mais do que discutir ideias e soluções, para aqueles que ainda não decidiram onde votar, parece-me importante fazer um trabalho de exclusão por partes. Vou, por isso, abster-me de discutir propostas concretas dos diferentes partidos (sem qulquer desconsideração pelas mesmas- são elemento central do processo de decisão). A chegar aos 50 anos de democracia, estas eleições têm uma particularidade que este meio século ainda não tinha conhecido. A disputa é feita por três setores e não dois, são estes: As esquerdas (lideradas pelo PS), a direita democrática (comandada pela AD) e o Chega (solitário e com quem ninguém quer conversar). O voto à esquerda é um voto na continuidade, como se percebe pelas listas do Partido Socialista (dezenas de ministros e secretários de estado dos sucessivos governos de António Costa no topo das listas). E, assumindo que quem não decidiu o que votar é porque está descontente com a governação da última década, não pode, de maneira alguma, votar nos mesmos, pois os resultados serão também os mesmos. Querendo uma mudança, restam dois blocos, ou se dá o voto à direita democrática (AD ou IL) ou se dá o voto ao Chega. Sabendo que uma coisa é absolutamente certa: O Chega só governa se eleger 116 deputados, porque ninguém se senta à mesa com eles. Sendo esta hipótese totalmente alienada da realidade, o voto no Chega serve, nada mais nada menos, para dar força às esquerdas. Cada voto no Chega é diminuir a probabilidade de haver um governo de direita, serve apenas para mostrar descontentamento, mas não muda nada. Posto isto, a mudança real e possível reside na direita democrática. Mas na IL ou na AD? Há duas razões práticas para confiar mais na AD do que na IL. A primeira é que a AD, e o PSD sozinho, têm provas dadas ao longo dos anos de capacidade governativa e de resposta a crises causadas por outros. E a segunda é que o sistema eleitoral, tal como está feito, pode trair os votantes liberais, não se traduzindo em deputados eleitos. Enquanto que o voto na AD não é garantidamente desperdiçado. E, em qualquer caso, para haver mudança, a AD tem que ter a maior força possível. Falo do caso de não haver maioria absoluta AD-IL: Que se desenganem os enganados pelo golpe da geringonça; é possível governar com maioria relativa, já se fez e pode voltar a fazer-se. E quem não deixar a AD governar com maioria relativa é porque põe o poder acima do país.

  • Perguntas Bónus com Sebastião Bugalho

    Na sequência da entrevista a Sebastião Bugalho, O Discreto fez ainda uma série de perguntas de resposta rápida: Trump ou Biden? Biden. Quais as eleições que gostarias de ter acompanhado? Gostava de ter feito: McCain vs. Obama; Clinton vs. Bush (Pai); as eleições do Brexit; Freitas vs. Soares; Soares Carneiro vs. Eanes. Debate preferido em televisão? Há um momento em que David Cameron vira-se, está na Câmara dos Comuns, ao Ed Miliband, que era na altura o líder da oposição, e diz: “Não é preciso ser Natal para perceber que estás sentado ao lado de um peru!”. Peru era o Ed Balls, o Ministro Sombra das Finanças. Esse debate é de chorar a rir. Tens saudades de estar em painel com a Joana Amaral Dias? Não tenho saudades de debater com ela, mas ela foi uma ótima colega. Tenho saudades talvez de conversar com ela fora do estúdio. No estúdio, não tenho. Banda sonora preferida? Eu oiço muitas bandas sonoras. Gosto muito do Ennio Morricone do Cinema Paraíso, é muito bonito. Gosto muito do ­­­­­­­­Einaudi­­­, também tem umas bandas sonoras, e de Max Richter que tem uma de um filme com o Christian Bale, não muito conhecido, chamado Hostis. Muito bonita, desafio-vos a ouvir. Realizador preferido? Gosto dos irmãos Coen. O Nolan é um tipo interessante, mas não todos os filmes, embora toda a gente goste do Nolan hoje em dia. Se tivesse de escolher um, talvez o John Cassavetes, do cinema independente americano. Mas também o Alejando Iñárritu, gosto muito dele. Gosto muito de cinema, gosto muito de filmes e desse mundo. Cinema ou Música? Música. Se tivesses outra profissão, qual seria? Chefe de cozinha. Prato que melhor cozinhas? Canelones. Figura histórica portuguesa preferida? Morta, o Duque de Palmela. Viva, o Passos Coelho. Qual o teu filósofo de referência? Michael J. Oakeshott. Livro da tua vida? Não tenho livro da minha vida. Tenho vários, mas não tenho um. Há uma biografia do Stalin, escrita por Martin Amis, chamada “Koba, o Terrível”. É por causa desse livro que sou anti-comunista. Deviam todos ler, é magnífico. Depois também gosto muito de um romance que se chama “Pensamentos Secretos”, que é sobre dois amantes. Ele fala para um gravador, enquanto ela vai à terapia, e no fundo temos acesso aos desabafos de dois tipos que andam a enganar os maridos e as mulheres, sem eles saberem que estão a ser escutados. Também gosto de um livro do Phillip Roth que se chama “O Engano”, que é mais ou menos a mesma história, mas são eles a conversarem um com o outro. O amor é uma coisa muito política. Aston Villa campeão da Premier League ou Benfica campeão da Champions League? Não há dúvida: Aston Villa! Aston Villa a ganhar a Premier e a Champions League – comentarei desporto pela primeira vez nesse dia! Preferias jantar com a Mariana Mortágua ou com o Paulo Raimundo? Paulo Raimundo. Eu dou-me bem com ele, ele é muito simpático. Não tenho nada contra a Mariana Mortágua, também é muito simpática, só que como ela é do Bloco de Esquerda provavelmente iria querer comer num daqueles sítio vegetarianos, e eu ia sair de lá com fome. Enquanto que o Paulo Raimundo provavelmente iria querer jantar na Festa do Avante, onde há sempre um ótimo bife. Portanto a minha escolha é meramente gastronómica e não política. Vou dizer três nomes, e para cada um descreves com uma palavra: António Costa: Hábil. Pedro Santana Lopes: Carismático. Pinto da Costa: Velho. Por fim, O Discreto ou O Expresso? Espero que um dia possa hesitar entre um e o outro.

  • Entrevista a Sebastião Bugalho

    Sebastião Bugalho, aos 28 anos, é dos comentadores políticos mais populares em Portugal. O Discreto sentou-se com ele para discutir o seu percurso de vida, os seus ideais e as eleições legislativas que se aproximam. Qual foi o primeiro acontecimento político de que te lembras de ouvir falar ou ver na televisão, o primeiro a marcar-te? É uma boa questão. Lembro-me uma vez no Sheraton, no Porto, eu e a minha mãe tínhamos ido a um concerto, e estávamos lá alojados. Lembro-me de irmos tomar o pequeno-almoço no hotel, e por coincidência estava a haver um congresso do PS nesse fim de semana no Porto, e o José Sócrates estava nesse hotel. E então ele entrou na sala com Jorge Lacão, e os assessores, e era como se tivesse entrado a cavalaria. E depois tomaram todos o pequeno-almoço com os jornais em cima da cara, era como se vivessem numa aldeia à parte, como se tivessem num camarote intocável e nós que estávamos a tomar o pequeno-almoço éramos os comuns mortais. Essa é provavelmente a minha primeira memória política. Os teus pais são os dois jornalistas, desde cedo que estás em contacto com a política e com o mundo do jornalismo. Tu, durante a tua juventude, pensaste sempre em ser jornalista e seguir o ramo do comentário político, ou tinhas outras ideias? A tua juventude era à volta disso? Eu quando era jovem, era um jovem normal: gostava de futebol, miúdas, estar na noite, ter os meus amigos. Era um tipo normal, e ainda sou um tipo normal. Mas a minha juventude não teve nada de especial. Havia muitos livros em casa, mas vocês também têm livros em casa. Gostava das mesmas coisas que os rapazes da minha idade gostavam. Para já, eu nunca pensei em ser comentador, e também não olho para mim como comentador. Sou um jornalista político. Sempre tive um interesse em história, na história da política. Tinha mais a ver com os que já estavam mortos do que aqueles que estavam a minha frente. E isso acabou por me ajudar a ler a realidade política contemporânea, muito em paralelismo com aquela que eu estava a estudar e os livros de história que estava a ler. Portanto a minha análise política começa com paralelismos: “Isto é muito parecido com o que se passou com um determinado rei ou numa determinada invasão, ou guerra”. Por isso só fui impelido a olhar para o presente porque estava muito habituado a olhar para o passado. Os meus pais tiraram ambos História, tem que ver com isso. Então os jantares de família eram repletos de história e política? Sim, mas não só história, teoricamente ou cientificamente, falando. Também, do ponto vista cultural, víamos muitos filmes a preto e branco, os meus pais sempre me incutiram o prazer pelas coisas do antigamente, o jazz americano, das Big Bands da Segunda Guerra, os filmes da Audrey Hepburn e do Fred Astaire, não era só política antiga que eu gostava – era tudo do antigo. Acabei por ser, mesmo desde bebé, uma alma muito velha. És hoje, indiscutivelmente, um dos comentadores políticos da moda. Como é que se explica tamanha popularidade aos 28 anos de idade? Eu acho que não tem muito a ver com a minha qualidade, não que eu não ache que não tenha qualidade, não é esse o meu ponto. A questão é que eu sou um tipo muito novo, isso é raro, e sou um tipo muito novo que não diz banalidades, que ainda mais raro é. E depois, eu não tenho partido – toda a gente sabe que não sou socialista, que as minhas origens políticas são de direita – mas eu não tenho partido, não sou militante, não sou apoiante de nenhum líder partidário. Não tenho grande hesitação em tomar partido contra nenhum dirigente, seja de que partido for, seja ele o António Costa ou o Miguel Albuquerque. Portanto isso também me deu alguma credibilidade, acho eu. É o que eu sinto. Ainda há outra coisa que é: as pessoas são muito simpáticas comigo na rua. Eu acho que as pessoas, pelo menos há uma quantidade delas, que olha para mim e não vê nem um jornalista, nem um político, vêm só um miúdo, um menino. E isso faz com que olhem para mim não com autoridade, mas de modo puro. Descreves-te como um “intermédio confortável”. Sim, confiável. Confortável para mim, confiável para as pessoas. Presumo que tenha a ver com isso. Repara, eu tenho um enorme risco: para o ano faço dez anos de carreira, e tenho menos de trinta anos. Como é que eu vou fazer isto mais trinta anos sem que as pessoas se fartem de mim? É impossível. Quais é que foram as vantagens e desvantagens de, tal como dizes, seres tão jovem, comparativamente a pessoas de estatuto mais alto? Bem, ao princípio as pessoas até brincavam com isso. O Insónias em Carvão uma vez fez uma montagem que era eu na televisão com um bibe. Pronto, também não tenho barba, sou completamente imberbe – tenho o ar ainda mais jovem do que a minha idade. E vantagens? Sim, em princípio sim. Ou seja, “Ah tem graça, vamos pôr um miúdo!”. Mas isso só tem graça uma vez, ser um miúdo só é uma vantagem para te abrir a porta, não é uma vantagem para te sentares na cadeira. Por isso, estás lá há dez anos porque és bom? Sim, foram dez anos com altos e baixos, e com oportunidades muito distintas e diferentes. Depois as pessoas também vão avaliando o teu trabalho e vão-te conhecendo, e até agora tem corrido bem. Mas também tive uma grande vantagem que foi estar num meio, o jornalístico, onde não há muitas pessoas assumidamente de direita. Isto não foi nenhum pragmatismo da minha parte, eu sou mesmo de direita, não decidi ser de direita porque é conveniente do ponto de vista do mercado. O que é facto é que há pouca oferta e bastante procura. Portanto, isso talvez tenha sido uma vantagem maior, ou tão grande, como ser jovem. Escreves agora para o Expresso, já escreveste para o Observador e para o SOL, tendo escrito “centenas de textos de opinião”. Como é que nascem estes textos? Qual é o processo criativo por trás de um bom texto? A primeira coisa que um tipo que escreve um texto ou mais por semana há quase dez anos tem que mentalizar é que é impossível todos os textos serem bons. Tens de fazer um esforço enorme para não haver um texto muito mau, um texto que te envergonhe, e eu tenho alguns, claro. É normal. O processo criativo normalmente é: vem uma ideia e aponto logo para não me esquecer dela. E as ideias ou vêm do nada, e só mesmo o divino é que pode explicar, ou vêm das conversas com as pessoas. Por isso é que o primeiro privilégio de um analista político ou de um jornalista é a conversação, é o diálogo. É teres o privilégio de teres gente em quem confias, e que respeitas e admiras, que percam o seu tempo para conversar contigo. O meu maior luxo, na minha profissão, são os meus amigos. Falo todos os dias com uma série de políticos e jornalistas que pensam tão bem, ou muito melhor que eu, que têm mais memória e mais história, alguns mais criatividade. É graças a eles que os meus artigos existem. Nasces em 1995, no ano em que Cavaco Silva sai do poder. A partir daí, dos teus 28 anos, 22 são com governos socialistas. De que forma é que isto te moldou politicamente? Achas que as tuas convicções eram outras se os governos tivessem sido diferentes? Os socialistas não foram todos iguais. O Costa não foi igual ao Sócrates; o Sócrates não foi igual ao Guterres. O primeiro primeiro-ministro de quem eu tenho memória de ver na televisão foi o engenheiro Sócrates, portanto o facto de eu não ser socialista para mim é muito natural. Para mim, o socialismo é corrupção e bancarrota – se eu fosse socialista, era parvo. Nesse sentido, tem mais que ver com isto. Mas eu tenho respeito pela mensagem política do guterrismo, era um católico progressista, eu respeito os católicos progressistas. Depois veio o António Costa, que inverteu a tradição constitucional portuguesa de deixar governar o mais votado. Isto acabou com a tradição do voto útil em Portugal e fez com que as pessoas achassem que o voto útil, que era só nos partidos do centro, passasse a ser útil em todos os partidos, incluindo os radicais. Quando o Dr. António Costa chegou ao poder não havia extrema-direita, quando saiu, vai ter 20 ou 30 deputados – faz parte do legado dele. Disseste que, crescendo com o Sócrates, dificilmente eras socialista. Nesse caso, como é que explicas o facto de haver muitas pessoas da tua geração que votam no Partido Socialista? Bem, provavelmente não têm o mesmo sentido crítico que eu. Provavelmente têm uma leitura diferente daquilo que se passou. Estão no seu direito. Eu acho que as tentações do Sócrates, ou do socratismo enquanto programa político, roçaram o iliberalismo: tentativas descaradas de controlo de órgãos da comunicação social, intromissão descarada na autonomia do Ministério Público e na independência dos tribunais, promiscuidade na relação entre o Estado e empresas. Nada disto tem a ver com ser social-democrata, ou trabalhista, ou de centro-esquerda. Isto tem a ver com ser respeitador das instituições democráticas ou não. Eu, antes de qualquer ideologia, sou democrata. A minha prioridade é defender a democracia. É preservar as instituições da democracia. Eu não sou conservador porque sou católico, sou conservador porque acho que temos de defender as instituições. Claro que para mim, como católico, a Igreja é uma destas instituições, mas não é a única que eu pretendo defender. Falando das tuas convicções, disseste, enquanto conversavas com Sérgio Sousa Pinto, que te tinhas moderado desde 2015. Aliás, Sérgio Sousa Pinto até diz que és de esquerda. Eu acho que ele diz isso porque gosta muito de mim e porque é de esquerda – é uma declaração de amizade! Mas em que aspeto é que achas que te moderaste? No tom. Eu era um gladiador e agora sou um índio com um cachimbo da paz. E os tempos também mudaram. Acho que, quando eu comecei a fazer jornalismo, o regime estava relativamente salvaguardado: a presidência era uma coisa respeitável, o Ministério Público era uma coisa confiável, os partidos políticos fundadores do regime democrático não estavam em perigo de vida – havia uma normalidade democrática na República. Hoje em dia, o meu instinto é preservar ao máximo a República. Quando eu comecei, não havia ministros a levarem com tinta verde, não havia primeiros-ministros a caírem em funções por suspeitas de corrupção. As coisas eram mais calmas. Hoje, a realidade é outra? Hoje, o verdadeiro desafio é a moderação, não é o combate. O combate está toda a gente a fazer, não precisa de mais. Agora dar dois passos atrás e tentar preservar aquilo que temos – isso é que vai ser difícil. O grande desafio do indivíduo que for primeiro-ministro este ano, depois do dia 10 de março, não é o que ele vai mudar em Portugal, é o que vai conseguir salvar. Pelo menos para mim, esse é que é o grande desafio. Tu em 2019 estavas nas listas do CDS (como independente) por Lisboa, e passado um ano a Ana Rita Bessa sai e és convidado por Telmo Correia a integrar o grupo parlamentar do CDS, convite que recusas por não te identificares com a direção da altura (de Chicão)... Atenção que eu não fui convidado, era o sucessor por lei. E eu não disse que não me identificava com o CDS do Chicão... O que eu disse foi: As circunstâncias alteraram-se; as minhas profissionais e as do CDS do ponto de vista político. A direção era outra, que não foi a que me convidou, como certamente não me convidaria, como certamente eu não aceitaria. E olhando para a história do CDS, qual o líder com que mais te identificas e em que terias gosto em representar? Eu sou amigo da Assunção Cristas, já era e continuei a ser, e acreditava e acredito no projeto dela de país, de Europa, de partido, de democracia cristã. E a visão dela é a correta, é a minha. Tenho uma grande admiração por ela. Posto isto, eu já gostava do CDS antes de Cristas (nunca fui militante) e isso tem a ver com a ideologia e não com os líderes. Passando a um tema distinto, hoje grande parte dos jovens vão buscar informação a meios alternativos, como o TikTok por exemplo, gerando desinformação e manipulação de ideias. Como é que isto se pode evitar? Em primeiro lugar, a culpa não é vossa (jovens). Não é só o André Ventura que tem acesso ao TikTok, os jornais se quiserem também têm TikTok, as televisões se quiserem também têm. Se há leitores e espectadores nas redes sociais, o trabalho da comunicação social tradicional é chegar-vos por essa via. Nós é que temos de procurar os leitores! O Expresso não deixa de ser o Expresso se em vez de vir em papel vier no TikTok. Essa é a minha opinião, nunca disse isso ao Dr. Balsemão, mas se ele me perguntasse era o que eu diria. A imprensa tradicional também tem que se reinventar e reequilibrar na oferta que dá. Para citar, e apenas neste contexto, o Sr. Primeiro-Ministro: “eu sou um otimista irritante”. Tem-se falado muito da facilidade com que se mancha a imagem dos políticos e das figuras públicas em geral. Como é que tu vês esta realidade? Mal. A vida pública em Portugal, neste momento, é a sensação do suicídio eminente. Somos tipo moscas à espera de ser esborrachadas pela turba a qualquer momento. Isso é a vida pública em Portugal. Mas também convém dizer que sempre foi assim, o Sá Carneiro foi atacado porque decidiu viver com a mulher de quem gostava e porque supostamente tinha uma dívida, e não pagava e afinal pagou. Acontece a todos os líderes. Um tipo ou tem ombros ou não tem. De vez em quando há um ombro que escorrega, até comigo que não sou líder de nada. Passando às legislativas, qual é que achas que vai ser o ponto ou assunto em que se vai ganhar as eleições? Os Açores, são já dia 4 de Fevereiro. Se o PS ganhar as eleições com maioria de esquerda, Pedro Nuno tem um boost porque pode reclamar que há esperança de reproduzir essa maioria a nível nacional. Se o PSD formar maioria de direita, que inclui o Chega nos Açores, então o PS vai poder dizer que é óbvio que o PSD se vai aliar à extrema-direita no continente. Os dois cenários são terríveis para Luís Montenegro. É como se o dia 10 de Março fosse uma segunda volta muito prejudicada pela primeira que é nos Açores. Os Açores vão ser decisivos! E os indecisos de que as sondagens dão conta, quem são? Os indecisos são um conjunto do eleitorado que deu uma maioria absoluta a António Costa ao fim de 7 anos de governação (o que é um grande feito). Há um conjunto de votantes que criaram uma fidelidade política à figura de António Costa, por causa da pandemia, por causa da inflação, por causa da sua longevidade no poder... E estas pessoas, de repente, estão perdidas na paisagem política portuguesa, porque perderam a sua figura de referência, perderam o seu representante político máximo que era António Costa. É como se fossem crianças perdidas num centro comercial à procura do pai. Os outros indecisos têm que ver com o facto de tanto Luís Montenegro como Pedro Nuno Santos serem figuras relativamente desconhecidas fora da bolha política, ninguém os conhece. E aqueles que os conhecem não confiam neles. Provavelmente também há um conjunto de indecisos que já estão de tal forma desesperados e desiludidos com o regime, que estão indecisos porque não sabem se vão ou não votar em André Ventura. Falando em Luís Montenegro, que impacto achas que tem a união de antigos líderes do PSD à sua volta? Sendo que ainda não apareceram todos. Os que faltam aparecer são José Manuel Durão Barroso e Passos Coelho. Provavelmente acabarão por aparecer, imagino eu. Não tenho nenhuma informação, mas acho que será natural que assim seja. Mas acho que sim, Luís Montenegro nunca foi ministro ou secretário de estado, portanto, as pessoas que já foram ministros e primeiros-ministros aparecerem ao seu lado é um selo de credibilidade e competência, é um carimbo. Quem é que achas que vale mais pontos: Cavaco ou Passos? Depende do eleitorado. Para os pensionistas, é Aníbal Cavaco Silva que lhes deu o 14º mês. Para o eleitorado mais à direita, é Pedro Passos Coelho. O problema do PSD é que tem de conseguir ambos. A AD diz-se a única alternativa reformista. Acreditas neste reformismo ou vai ser um reformismo que só servirá para dar mais lugares ao Chega daqui a 4 anos? Eu acho que se o PS ficar no poder, aí sim o Chega vai ter um crescimento exponencial. Em relação ao reformismo, sim parece-me que o PSD está com vontade e condições de reformar, se chegar ao poder. Por duas ordens de razão: Primeiro porque estes senhores não fizeram nada, e sempre que tentaram fazer, fizeram mal. O PS olhou para as reformas como pensos rápidos; a reforma das florestas depois dos incêndios, a reforma do SNS depois da crise nas urgências de obstetrícia, o Mais Habitação. Estes senhores olham para as reformas não como prevenção, mas como resposta. E isso não é uma reforma, as reformas não resolvem problemas, evitam-nos a priori. E o PSD está com vontade de fazer antes e isso é correto. E depois porque nós vamos entrar num contexto que nos vai obrigar a reformar: Se o senhor Trump volta para a Casa Branca, se o esforço de guerra ucraniano e a NATO são desfinanciados, se as taxas de juro forem tão negativas como nos anos anteriores. Isso significa que será mais caro financiar a nossa dívida, financiar o nosso Estado social. O que quer dizer que vamos ter de fazer o mesmo, ou mais, com menos dinheiro. A única forma de fazer isso é reformando. O futuro é de complementaridade entre setor social, público e privado. E isto não é o PSD que diz, é o Ministro da Saúde, Manuel Pizarro, que não é de direita. Tu perguntas-me: “Eles vão reformar ou não vão reformar?” Eles não têm outra hipótese que não reformar, sejam de esquerda ou de direita. O mundo como nós o conhecemos acabou, vamos entrar num novo paradigma. E esse paradigma obrigará a olhar para o Estado de outra maneira, e quem não o fizer é um irresponsável. Portanto, esta conversa dos salários e das pensões é bom para ganhar eleições, mas para governar a conversa será outra. E, acerca deste novo futuro de que falas...António Costa fala de “uma necessidade de haver uma alternativa”, diz que o “PSD deixou de ser capaz de corporizar essa alternativa”, o que “tem vindo a fortalecer a direita radical e extremista”. Culpa assim o PSD de “ter deixado crescer o populismo à sua direita”. Achas que vamos entrar num novo panorama político em que passamos a ter um partido grande e dois médios, ou até três grandes? O que vai acontecer? Não, não há eleitorado suficiente para ter três partidos grandes. O crescimento do Chega será sempre feito à custa da manutenção do PSD, e também um bocadinho do PS e do resto da esquerda. Se o cenário for o que descreveste, o PS ser o partido de governação e a alternativa estar espartilhada e dividida entre vários partidos de direita, isto é, se a diferença entre o PSD e o Chega for mais curta do que a diferença entre o PSD e o PS, então não temos um sistema bipartido, nem um sistema bipolarizado. Temos um sistema unipolar em que o único polo é o PS. Isto, do ponto de vista democrático, é uma tragédia. É como se Portugal continental fosse transformado na Madeira do PS. Esse é que é o risco, é um risco democrático, é um risco para o escrutínio, é um risco para os checks and balances de uma democracia, é um risco pela razão que eu estava a dizer há pouco, quanto maior for o prolongamento não natural do PS no poder, maior será o crescimento da extrema-direita. E, depois, porque vai haver um dia, em que o PS, que está muito contente com a divisão da direita e com a ascensão do Chega porque está convencido que isso o perpetua no poder, pode não ser daqui a cinco, nem daqui a dez, nem daqui a quinze anos, mas vai haver um dia em que até o PS perde. Só que aí quem ganha já não é a direita moderada. Esse é que é o paradoxo deste sonho do PS de se querer perpetuar no poder, às custas da alimentação do Chega: um dia o Chega ganha as eleições. E da alimentação contra eles, mesmo. Sim, é um espírito muito simplista e facilitista, e até um pouco cobarde esta ideia de “vamos alimentar o Chega até à morte do PSD para nós governarmos para sempre”, porque em democracia ninguém governa para sempre. E há um dia em que aqueles que eles alegadamente querem combater acabam por governar. E, nesse dia, ninguém se esquecerá das várias vezes em que o PS tentou confundir a direita democrática, o PSD, com a direita extremada, o Chega. Paulo Portas disse na Convenção da AD que “o PS deve ir para a oposição, será bom para Portugal e para o próprio PS ter uma cura de oposição”.  Será que o próprio PS está ciente desta necessidade de ir para a oposição? Algumas pessoas talvez, mas eu acho que não. O PS neste momento é uma máquina viciada no poder, incapaz de reconhecer erros, incapaz de pedir desculpa, incapaz de mudança, como aliás as listas de deputados mostram. As listas de deputados são a continuação do governo do Dr. António Costa. O Dr. Pedro Nuno Santos foi de crítico de António Costa a um clone de António Costa, à velocidade da convocatória das eleições. Portanto, se o PS tem noção de que não pode fazer igual ao que fez nos últimos anos, não está exatamente a transmiti-lo aos portugueses. Temos um Pedro Nuno Santos que se assume como candidato da continuidade, tendo como cabeças-de-lista José Luís Carneiro, Ana Catarina Mendes, Mariana Vieira da Silva, entre outros ministros dos sucessivos governos de António Costa. Como é que se explica que o SNS, a educação e a habitação estejam no estado em que estão, e mesmo assim as sondagens indiquem que a maioria vai votar nos responsáveis por isso? Têm medo da direita, têm medo da direita com a extrema-direita, têm medo da direita por causa da intervenção externa. Têm medo de perder um governo eleitoralista que vai sempre proteger aqueles que dependem do Estado, têm medo da mudança, que é uma coisa muito portuguesa. Portanto, ou votam em quem está ou não votam de todo, e não conhecem ainda Luís Montenegro. Portanto, para ser franco, também me faço a pergunta que me estás a fazer, que é, “Como é que eles continuam a ganhar as eleições?”. Em 2019, quando eu fui candidato, uma mulher grávida portuguesa também já não sabia se ia conseguir ter o seu bebé quando entrava no hospital público em Portugal. Passaram cinco anos e eles continuaram a ganhar as eleições. Estávamos a falar do Chega e, segundo as sondagens o Chega há de ter 20, 30, talvez até 40 deputados no Parlamento. No entanto, o Chega não tem a fama de ter quadros tão bons como os outros partidos e, portanto, pergunto-te se isto não se pode tornar no início do fim do Chega? No início do fim do Chega não, mas eu acho que o Chega está a ser muito amador na gestão que está a fazer do seu recrutamento. Um partido que tem falta de quadros ir buscar os medíocres do PSD não é exatamente uma ideia genial. Mas achas que isso vai, de alguma forma, ter consequências no eleitorado do Chega, daqui a quatro anos? Não, não teve nos últimos dois. Mas eram doze, agora se forem quarenta… Aquilo que me preocupa no futuro do quadro parlamentar é que acho que, pela primeira vez, nós poderemos ter violência no plenário. Não é uma piada, estou a falar muito a sério, aqueles vídeos que nós vemos às vezes de grandes sessões de pancadaria nos parlamentos no Leste da Europa, nós vamos ter esses vídeos aqui em São Bento. Vamos ter alguém que vai trocar uma chapada com alguém, é inevitável. Quando isto acontecer, e tiverem partilhado o vídeo, vão-se lembrar desta entrevista. Continuando no Chega, quem se lembra de André Ventura em 2021, nas presidenciais, naqueles famosos debates, era a 4ª República, era a castração química, era a prisão perpétua, era tudo. Já não é esse André Ventura que anda por aqui agora. O que é que isso quer dizer? Se calhar ele é o mesmo, se calhar já não diz é as mesmas coisas. Houve uma grande mudança. Fê-lo porque quer ser ministro, ou primeiro-ministro, no caso dele. A grande mudança que estás a descrever no Chega é que a agenda deixou de ser a mudança de regime, portanto da 3ª para a 4ª República, como tu muito bem disseste, para ser a mudança do regime. Ou seja, ele está a ser convidado para entrar dentro da casa e ele, em vez de lhe querer pegar fogo, quer sentar-se no sofá, essa é que é a grande diferença. Só que quer o sofá só para ele. Ele foi de ser um partido revolucionário de direita, de querer um novo 25 de abril, uma nova presidência, um novo Parlamento, uma nova Constituição, típico de um partido revolucionário, para querer subsídios iguais para as polícias, não financiar a ideologia de género e não financiar um museu de 35 milhões de euros em Angola. É exatamente aquilo que o CDS de Manuel Monteiro, e do princípio do Dr. Paulo Portas, estaria a dizer se ainda existisse em 2024 e no qual, diga-se de passagem, eu teria votado. Desviando agora do Ventura e do seu partido, tu, há uns tempos, usaste a seguinte expressão para descrever o futuro do Primeiro-Ministro: “Está livre como um passarinho e o passarinho não vai parar de cantar”. O que é que isto significa e, na tua opinião, onde cantará António Costa nos anos que se seguem? Tudo depende do processo, mas, pelos vistos, o PS continua a ser o partido de António Costa. Olhando para as listas de deputados, ele será o secretário-geral “sombra” do PS. Uma espécie de Papa Emérito, só que ele não vai para o Castelo Gandolfo e o Pedro Nuno Santos, definitivamente, não tem nada que ver com o Papa Francisco. Isto para dizer que não sei onde vai andar, mas se o processo dele não seguir para a frente, será o primeiro político desde o 25 de Abril a estar acima da justiça, terá um poder desmesurado. Poderá tentar influenciar o governo, poderá ser candidato a Presidente da República, poderá ser cabeça de lista às europeias e presidente do Parlamento Europeu, poderá ser presidente do Conselho Europeu, poderá ser secretário-geral da NATO. Ele pode ser o que quiser, desde que o processo seja arquivado. Deste ponto de vista, interessa a António Costa que o PS ganhe as eleições? Para ele interessa-lhe muito que o PS não tenha uma derrota clamorosa, porque ele seria inevitavelmente acusado de ser o culpado dessa derrota. Para ele, o sucesso de Pedro Nuno Santos é muito importante, não só do ponto de vista eleitoral, mas também porque será Pedro Nuno Santos que o convida para onde quer que Costa vá, exceto em Bruxelas, onde Pedro Nuno não tem muita coisa a dizer. Agora noutro campo. Quanto ao sistema eleitoral português, o método d’Hondt é algo controverso, por beneficiar os dois grandes partidos e fazer com que muitos votos não contem para nada. Está na altura de uma mudança no sistema eleitoral? Eu sou a favor do sistema misto. Com duas voltas – o círculo à açoriana, que depois dá uso dos votos perdidos, parece-me que faz sentido. Se faz sentido nos Açores, poderia ser transposto para cá e creio que até foi o PSD de Rui Rio, de quem eu fui bastante crítico, que tinha essa proposta numa revisão constitucional. Um pequeno parênteses: ontem José Silvano dizia que lhe tem dito muita gente que esta estaria a ser a hora de Rui Rio. Acreditas nisto? Sempre foste grande crítico de Rio. Não, foi líder do PSD quatro anos, perdeu quatro eleições, num país civilizado nunca teria passado da junta de freguesia. Retomando o sistema eleitoral... Sou a favor de uma barreira mínima para a eleição de deputados, que é o que acontece no Bundestag alemão, onde é preciso ter mais do que um mínimo de percentagem para ter representação parlamentar, diminuindo as hipóteses de haver deputados únicos. Não me parece que faça sentido Lisboa ser uma espécie de capital dos deputados únicos, quando, do ponto de vista nacional, não têm relevância e aproveitam para fazer campanha para entrarem na vereação da câmara. Mas caso André Ventura não tivesse sido eleito como deputado único, provavelmente não teríamos um novo partido na Assembleia com tanta influência... E a Iniciativa Liberal a mesma coisa, eu não sou contra novos partidos. Acho é que deve haver uma barreira mínima, como na Alemanha, para evitar protagonismos desmesurados. Podes dizer: “Bem, mas isso foi o que aconteceu com o Chega”, se calhar é verdade. Por fim, numa conversa com Maria João Avillez, falaste de uma perda de estatuto e de qualidade dos deputados e líderes do nosso país. Assim, questionei-me, e agora questiono-te a ti, como é que passámos de um Mário Soares e de um Sá Carneiro, para um Pedro Nuno Santos e um Luís Montenegro? Eu acho que eles não são assim tão maus. Em 1974, estávamos a lutar ou contra o fascismo, ou contra o comunismo. Estávamos a lutar por partidos políticos livres, estávamos a lutar contra a censura, contra a presidencialização do regime, estávamos a lutar pela Europa. Eram tudo causas nobres, grandes, eram grandes batalhas. Agora vamos lutar pelo quê? Não foram só as grandes personalidades que se foram embora, foram as grandes batalhas que já não estão aqui para serem travadas. Tu não podes ter grandes homens, se não tens grandes lutas. Com todo o respeito pela sua coragem e dimensão política, o que iria Mário Soares defender hoje? Neste momento, não há grandes causas para serem defendidas. Esse, aliás, é um problema que vai aparecer à esquerda. Já conseguiu o casamento gay, a adoção gay, a eutanásia e o aborto. Só lhes falta a legalização das drogas leves. Se conseguirem tudo isto, o que é que lhes resta defender? Vão ser contra os ricos? Já o são há cem anos. Qual é a agenda da esquerda se conseguirem todas estas causas? E qual é a agenda da direita senão lutar por reverter as causas da esquerda? A direita não pode ser só uma versão competente e tecnocrática da esquerda. Para isso, a democracia não é muito interessante.

  • Portugal Mal-Educado

    A educação é o primeiro passo para o sucesso individual e coletivo, social e político. É essencial para uma mudança de estrutura económica e garante uma coesão enquanto comunidade, criando bases para o desenvolvimento económico sustentável de qualquer país. Sem uma aposta clara na educação, a sociedade estagna. Os anos 90 viram um boom no que diz respeito à situação económica portuguesa, com a entrada na Europa comunitária. Contudo, vemos hoje o sistema de ensino em Portugal mergulhado numa enorme incerteza, para a qual não vemos qualquer resposta por parte dos nossos governantes. Com uma economia fraca, incapaz de atrair empresas qualificadas e investimento estrangeiro, e cada vez mais dependente do turismo e lazer e da mão-de-obra barata, Portugal vê os seus jovens licenciados a serem obrigados a emigrar. Sendo um problema estrutural, a solução também não é obvia. Existindo uma falta clara de investimento na educação portuguesa, como é que se resolve, tendo em conta o estado da nossa economia e a constante instabilidade política? Irá um governo que procura manter popularidade gastar milhões de euros do orçamento de estado para injetar dinheiro no sistema educacional, ou irá usar esses recursos para aumentar o salário mínimo e as pensões? O problema aqui é fácil de identificar: alimenta uma dependência presente e futura no Estado e no governo. E para além desta dependência, não resolve o problema estrutural que condena o nosso país. Mas será o estado da nossa educação resultado das dificuldades económicas do país, ou, pelo contrário, será o nosso fraco desenvolvimento económico consequência de um débil sistema educativo? As duas opções são certamente verdadeiras. Tendo conseguido convergir para os patamares exigidos pela Europa, terá que haver uma clara aposta de todos os agentes que fazem parte da educação, nomeadamente do Estado, professores e famílias, para que Portugal possa atingir patamares ainda mais ambiciosos, comparáveis com países mais prósperos. Para começar, o Estado deverá colocar a educação como prioridade, criando estabilidade no sistema de avaliação, investindo fortemente no ensino. O que assistimos é o contrário: constantes mudanças nos sistemas de avaliação dos alunos, falta de avaliações dos docentes e a discussão das políticas em sede de negociação com sindicatos, como se os alunos não fossem o mais importante. O governo tem como obrigação fornecer as bases para uma educação acessível, desafiante e completa, para que todos os portugueses consigam ter a oportunidade de desenvolver e descobrir o seu potencial. A insuficiência de investimento público tem sido notória, com uma diminuição de mais de 1% do PIB de 1992 para 2022 (Prodata). Esta falta de investimento verifica-se quer ao nível da degradação das infraestruturas das nossas escolas e universidades, como na diminuição dos salários reais dos professores, situação que leva à falta de incentivos para atrair profissionais motivados e competentes para o setor. O resultado é que muitos estudantes acabam a receber uma educação pública mais pobre e incompleta, em que existe pouca atenção individual ao desenvolvimento de cada aluno, e, portanto, um nível mais fraco de empenho escolar e por consequência, resultados mais fracos. Isto cria não só uma aceleração na disparidade de saídas universitárias de alunos de escolas públicas e privadas, mas também um possível aumento na discrepância de futuros rendimentos na economia portuguesa. O Estado falha ainda na excessiva centralização do ensino e da pouca autonomia que dá às escolas e universidades. Uma das consequências é uma falta de investimento em cursos não tradicionais como arte, cinema, moda, história, filosofia e geografia, entre outros. A falta de investimento nestes cursos, ditos “mais liberais”, posiciona Portugal atrás de outras economias avançadas, como Inglaterra, França, Itália, EUA, que procuram cada vez mais investir na diversificação da sua população e futura força de trabalho. Já não é plausível usar a desculpa que não existe saída de trabalho para estes cursos, pois, se estes cursos tivessem mais oferta, não só ajudaria a reter mais estudantes em Portugal, como diminuiria a competição pelos cursos e trabalhos em setores mais tradicionais como direito, economia, medicina e engenharias. Numa era em que a inovação é o polo diretor e dinamizador do sucesso económico, a falta de investimento nestes cursos afetará o futuro desenvolvimento do nosso país. Outra consequência da centralização e da falta de ambição nota-se na ausência total de preparação dos alunos do liceu para a vida universitária. Para que serve o liceu senão para preparar e permitir o acesso à universidade?  Então, porque é que não existe uma prioridade de ensinar e dar a conhecer aos alunos do liceu todas as oportunidades que estão ao seu alcance – não só a nível nacional, como também internacional? O sistema educativo português falha todos os anos no incentivo e preparação dos estudantes para a vida e opções universitárias. Noutras economias ocidentais, os estudantes são incentivados e desafiados a prepararem-se para a universidade com anos de antecedência e a procurar oportunidades fora do seu país, não só para o aluno expandir o seu potencial, como para enriquecerem o seu país mais tarde. Portugal por sua vez, chora ao ver estudantes a procurar oportunidades no estrangeiro. É verdade que a falta de ambição das famílias e dos estudantes pode ser culpada, além da falta de incentivo nas escolas e liceus portugueses. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, um aluno é posto a pensar sobre a universidade quando acaba o décimo ano e tem de fazer a candidatura à universidade com um ano de antecedência. Nos Estados Unidos, a resposta das universidades é dada a meio do 12º ano. Na Holanda, as inscrições à Universidade encerram em Maio. Porque será que, em Portugal, os alunos só são postos a pensar nas opções universitárias no verão do décimo segundo ano? O segundo problema que identifico é a nossa cultura de ignorância. A falta de ambição do governo, espelha-se na maioria dos portugueses, tanto nos estudantes, como nos seus pais. Parece existir uma diferença na capacidade de sacrifício por parte das famílias de classe média do Norte da Europa, por exemplo, em relação às portuguesas, que abdicam facilmente de uma boa educação para os seus filhos. Esta falta de estímulo para o desenvolvimento próprio de cada aluno, dentro e fora do currículo, é o que matará o crescimento da economia portuguesa, porque os alunos não procuram prosperar por iniciativa própria, e ficam satisfeitos em tirar a nota mínima de entrada nos mesmos cursos que os pais tiraram há 30 anos. Mas então, o que fazer? Para o governo conseguir investir mais dinheiro no sistema de educação, teria que aumentar ainda mais os impostos ou a dívida, ou então cortar custos, como pensões, salários e investimentos, etc. Contudo, nenhuma destas medidas seria aconselhável neste momento, tendo em conta o enorme aumento do custo de vida, fruto da inflação e aumento das taxas de juros, que colocaram enormes dificuldades à maioria dos portugueses. A família portuguesa, que em média tem cerca de 1,5 filhos e um salário de 38.904€, iria ter dificuldade em investir na educação dos seus filhos, optando ainda mais por colocar os filhos no ensino público, onde se encontram já cerca de 85% dos estudantes em Portugal. Na educação privada, o salário médio não seria suficiente para pagar um aumento de propinas para enriquecer o ensino privado. Portanto, a falta de ajuda financeira do governo, o estado da nossa economia, e a degradação do sistema público condenarão Portugal se a estrutura educacional não for repensada rapidamente. Analisemos o sistema universitário inglês. Todas as universidades têm o mesmo custo anual para estudantes ingleses de £9250 (2023/24), seja qual for a universidade ou o curso. As propinas inglesas dão, portanto, uma injeção a cada universidade para constantemente melhorar o ensino, as infraestruturas e as oportunidades. Em termos de propinas, existem duas formas de pagar pelo ensino universitário inglês: pagar diretamente à universidade, ou arranjar um patrocinador. Cerca de 70% dos estudantes ingleses escolhem ser financiados pelo Student Finance UK, que oferece um seguro plano de pagamento. Quando o universitário acaba o ensino e começa a receber um salário acima de £27,295, 10% do salário será descontado diretamente para pagar as propinas, cujo valor é pago com juros. Se o estudante acabar por nunca trabalhar ou nunca receber acima deste valor, nunca pagará pelo seu curso, assumindo o estado esse custo. Este programa ajuda a tornar a educação universitária acessível a todos. Será que uma estrutura como esta resultaria em Portugal? Será que os estudantes portugueses se endividariam para conseguirem ir para a universidade? Acredito que seria difícil, pelo menos enquanto não for dada a devida importância à educação. Com isto, o que é que Portugal deveria fazer quanto ao seu sistema de educação? Onde e por quem é que a mudança devia começar? Talvez nos caiba a nós, estudantes, perceber o valor da educação e iniciarmos a necessária revolução educacional que eventualmente poderá redirecionar o futuro de Portugal.

  • Ao final da tarde quando já estiver cansado

    Mais uma vez acordei E ainda estava de noite Já via, no entanto, a minha sombra Sentada, apertando suas botas, e pegando na foice. Vivo numa noite cerrada Habitada num pleno dia Vendo a plana luminosidade Da minha alma escura e sombria. Logo me apeguei às páginas, Tentando despertar minha alma Mas a noite permanece, dura e tentadora, Deitando meu espírito num lago de calma. A foice trata-me mal Tanto aos braços como à mente Pois neste ingénuo meu Portugal A noite é a única coisa quente. Ao final da tarde, quando nascer o dia E mais não vir calçar de botas numa sombra, Aí é que os campos me deixam ceifar Quando o sol que torra a minha foice se encerra na penumbra E ao final do dia, quando já estiver cansado Quando o amanhã de ontem for o hoje de amanhã O sol voltar-me-á a pesar, desinteressante e aliviado E eu deitar-me-ei, dorido da foice, na charca sombria da manhã.

  • "M": O Primeiro "Noir"

    Em 1931, o cineasta alemão Fritz Lang decidiu explorar algumas das mais preturbadoras questões e realidades acerca do ser humano, num projeto incrivelmente ambicioso a tantos níveis, que nenhum texto como o que se seguirá lhe fará devida justiça. Vale a pena, no entanto, tentar. Desde o enorme feito que foi alcançar uma eficaz conciliação entre a imagem e o som, numa altura de transição no cinema (do mudo para o sonoro), à criação de uma obra genial e da inconsciente fundação de um novo género cinematográfico – o “noir” – M trata de uma obra-prima no mais puro significado da palavra, que se demonstra até hoje relevante. A ação narrativa decorre através da descrição de uma caótica procura e perseguição a um assassino em série de crianças, por parte da população de uma cidade não-intitulada alemã. Somos colocados numa posição de empatia incondicional para com as mães e os pais da cidade que compartilham o luto parental. Lang conquista-nos o ódio e o desdém pela personagem representada por Hans Beckert (Peter Lorre), a personificação do mal: o assassino em série de crianças. Alguém que comete atos tão horrendos e desumanos que nos torna incapazes de questionar ideias como a existência de uma moralidade objetiva ou do poder que o indivíduo tem (ou falta desse) na tomada de decisões: o livre arbítrio. Estas ideias aparentam-nos até certo ponto no filme como verdades absolutas e evidentes, uma vez que nos encontramos perante uma situação em que recusá-las seria sinónimo a participar numa autêntica apologia ou justificação dos crimes cometidos por Beckert. Mas é precisamente ao questionar a veracidade destes conceitos que, no chamado “ato final”, o génio de Fritz Lang sobressai. O seu génio como realizador, autor, mas, acima de tudo, como estudante e observador do Homem, que nos relembra daquilo de mais poderoso que o cinema consegue oferecer: uma reflexão acerca dos temas que mais atormentam a mente humana. Após ser capturado, não pela polícia, mas sim por um conjunto histérico de rebeldes e membros da sociedade, revoltados com a falta de eficácia do poder judicial e policial, o nosso antagonista é transportado para a cave de uma fábrica. Aqui, encontra-se, finalmente, confrontado com a população. Sente-se um puro, no entanto, estridente silêncio conjugado com um olhar fixo e infalivelmente direcionado a si. Pais, mães, tios, avós, amigos; um grupo de indivíduos unido pela sua lamentável situação de comum traumatismo psicológico proveniente dos crimes cometidos por este homem que se mostrava agora, de repente, perante tudo e todos, impotente e sem qualquer hipótese de fuga. É sentido pelo espetador, (através da sempre impecável performance de Peter Lorre) o olhar surpreso e o autêntico choque por parte de Beckert sob aquelas caras que lhe apareciam à frente. Entristecidas, taciturnamente ecoavam o trauma e dor nelas provocado, apenas com o poder do seu olhar coletivo: a encarnação de toda a miséria, dor e tristeza sentida naquela cidade. Quando tudo parece estar decidido, a justiça exercida e Beckert destinado a uma sentença de morte, inicia um monólogo incapaz de ser ignorado, nem mesmo pelos mais desbocados e barulhentos, naquilo que é o clímax do enredo e que, consequentemente, eleva M ao prestigioso rótulo de obra-prima. O criminoso obtem o poder democrático da palavra e declara-se como uma vítima de si mesmo, de uma tal “voz que vem de dentro”, que o incansavelmente persegue, tortura e obriga a cometer crimes. O sofrimento é constante em todos os segundos, de todos os dias, ao longo de toda a sua vida. Descreve-se a si mesmo como agente fora do controlo daquele mal, daquela voz, daquele fogo, daquele tormento vindo de dentro de si próprio. É perseguido por fantasmas, fantasmas das mães cujos filhos foram levados para a morte através da sua autoria. Enquanto leva as mãos à cabeça, puxa os cabelos e abre os seus olhos esbugalhados em alienação total; declara não ter escapatória a esta sua inconcebivelmente aterrorizante condição a que está submetido: “sou forçado a agir…eu devo. Devo! Não quero! Devo! Não quero, mas sim, devo!”. Aparece, como que do vazio, um homem que se oferece em nome da democracia e da justiça, para praticar a defesa de Hans Beckert. Incita o facto da incapacidade sobre o poder de agência por parte do acusado em relação a esta suposta força interior que o comanda, e dirige-se a Beckert como um doente mental que deveria ser entregue não a um carrasco, mas sim a um doutor. Defende que uma vez que um homem não pode ser considerado responsável pelas suas ações, seria injusto e contra os princípios éticos, que o Estado, ou quem fosse, matasse dito homem. Reivindica, como alternativa, a obrigação que a sociedade como um todo tem, assim, de reconhecê-lo como alguém que precisa de reabilitação, realçando a necessidade de ser estimulado o impulsionamento da recolocação do indíviduo na vida social. Trata-se, a final de contas, de um membro desta sociedade igual aos outros perante a justiça, uma vez estabelecida a falta de poder que tem sobre a responsabilidade dos seus atos. Pouco convencidos, (compreensivelmente) condenados à ceguez perante as nuances do mundo, comandada pela vingança e desordem, a multidão prepara-se para matar o homem, algo que é evitado com o aparecimento da polícia. Tarde, mas ainda assim, suficientemente a tempo de travar a sentença, que acaba por levar consigo o assassino e os restantes criminosos que se encontravam no local. De seguida, um plano apresenta um painel de juízes, agora sim, legítimos, prestes a determinar o veredito no julgamento oficial de Hans Beckert. Mas o pano não cai antes de uma última sequência: fora da sala de tribunal encontram-se três mães em luto que, em lágrimas e em desespero, preparam-se para aceitar o desfecho, seja este qual for. Ao chegarem à conclusão de que, independentemente do veredito, a justiça com base na entre-ajuda e salvaguarda de direitos fundamentais e universais de uma sociedade, sempre será ideal quando comparada à solução da sentença de morte, que, afinal de contas, nunca lhes devolverá as crianças de volta à vida. “Em nome do povo, isto (sentença de morte) não nos trará de volta as nossas crianças. Nós, também, devemos manter um olhar mais atento sobre os nossos filhos." Termina, assim, esta longa-metragem numa zona moral “cinzenta” ao não nos oferecer uma verdadeira resposta para o problema que é a justiça e os paradoxos que dela ascendem, uma vez que a tentamos analisar ou interpretar de maneira objetiva. Escolhe, pelo contrário: uma exploração da assustadora amplitude e profundezas tremendamente desconfortavéis da sociedade, da justiça, da interrelação entre as duas, da moralidade individual e da depravação humana.

  • Tiago Bettencourt: "Acorda Portugal!"

    Foi a 13 de dezembro que Tiago Bettencourt pisou o palco do Coliseu dos Recreios em Lisboa e nos brindou, novamente, com canções que se destacam entre as demais pela ausência de uma aparente simplicidade literária que me parece ter vindo a vitimar a música portuguesa nos últimos tempos. Tiago Bettencourt é, então, uma lufada de ar fresco para as gerações que cresceram ao som de Amália e que hoje procuram mais para além de sons agradáveis e familiares que enchem o silêncio. “Fim de Festa” foi um concerto que deu voz à vontade do artista de levar o público numa viagem pelas suas memórias. Num tom informal e desprendido de quaisquer cerimónias, Tiago Bettencourt traçou a sua história de autodescoberta e de compreensão do mundo que o rodeia, que teve início, como o mesmo afirma, na guitarra enquanto meio de expressão e combate à timidez. No alinhamento da busca incessante pela verdade que acompanha o artista, surge uma necessidade presente nas suas letras de estabelecer um caminho paralelo às grandes massas de artistas que se deixam mover pelas tendências vigentes.  Na música “Lança”, escreve “Não és do rebanho. Não queres ser do rebanho”, condenando a postura daqueles que em nada procuram ser autênticos; na música “Dança” critica os artistas que vivem dominados por fenómenos de moda e também os seus ouvintes que acabam por se contentar com esta falta de individualidade. “Ficam as imitações, esquecem os originais. (…) Segue o barco da corrente. (…) Quando sentes a cópia do artista da moda. Mas se é para dançar, dança.” As canções de Tiago Bettencourt são então objeto de exposição de sentimentos e conceções cultivadas pelo artista que ganham uma nova beleza ao serem acompanhadas de uma melodia singular. Piano, guitarra acústica, guitarra elétrica – de todos estes se serve Tiago Bettencourt para produzir estas melodias que acompanham esta voz que grita a alma descontente. É para mim impossível não destacar um momento particular do concerto em que Tiago Bettencourt introduz a seguinte problemática: “Ficava surpreendido e confuso quando aqui em Portugal me perguntavam porque é que cantava em português. No meu país parecia não haver incentivo. Porque é que éramos assim como povo? Que falta de amor próprio é este? Porque é que a música portuguesa não é usada como bandeira?” O artista assim revela um descontentamento acompanhado de uma tristeza para com o seu país. Queixa-se da falta de incentivo àqueles que cantam a língua materna e procura perceber a origem deste fenómeno que o leva a desejar a evasão. Desejo este que se concretiza, como o mesmo declarou em palco, na aceitação de que a viagem é realmente uma forma de desprendimento da realidade que aflige o artista. Foi nas suas viagens que Tiago Bettencourt teve espaço para escrever muitas das suas canções e meditar acerca da razão por detrás deste desejo de evasão. Na sua canção “Viagem” canta a beleza da viagem enquanto meio de descoberta e com “Eu Esperei” exterioriza a expetativa de uma mudança para Portugal, exortando a restauração de uma obsoleta grandiosidade através dos seguintes versos que silenciaram o Coliseu dos Recreios no dia 13 de dezembro: “Eu esperei mas o dia não se fez melhor. Mas o sujo não se quis limpar. (…) A mentira não se fez verdade. A justiça não se fez mulher. A revolta não se faz vontade. Braços novos sem educação. Sangue velho chora de saudade! (…) Mão no peito mas não é amar. Cavaleiro mas já sem moral. (…) Mas o povo dorme de ilusão! E a tristeza é forma de sinal. Liberdade pode ser prisão. Meu Deus, livra-nos do mal. E acorda Portugal!” "Acorda Portugal!", grita Tiago Bettencourt, e gritam também aqueles que perseguem o “Caminho De Voltar”, “um sítio onde a estrada te deixou por onde tens que ir se te queres libertar”.

  • Quem é o novo líder do PS?

    Aos 11 anos, filho de empresário e neto de sapateiro, um rapaz oriundo de São João da Madeira fazia retiros espirituais no Seminário dos Carvalhos em Vila Nova de Gaia. Mas a devoção não durou. Por influência desse pai empresário, que tinha sido, paradoxalmente, líder de um grupo da esquerda radical, o jovem Pedro Nuno Santos filiou-se na Juventude Socialista com apenas 14 anos após a derrota de Jorge Sampaio para Aníbal Cavaco Silva nas legislativas de 1991. Costuma dizer que “nasceu e cresceu no PS”. A verdade é que, entre a sua vida em São João e Lisboa, sempre esteve na vida partidária. Estudou Economia no ISEG, onde venceu a Associação de Estudantes a uma lista da JSD, e foi aí que conheceu Duarte Cordeiro, Ministro do Ambiente, na altura também da JS. Desde aí que profetizaram o futuro: “Tu conquistas a concelhia de Lisboa, eu vou à federação de Aveiro, depois vamos à JS nacional”. E foi isso mesmo que aconteceu. Em 2004, Pedro Nuno tornou-se secretário-geral da Juventude Socialista, e quem lhe sucedeu em 2008 foi o seu braço direito Duarte Cordeiro. Nos seus quatro anos como líder, foi eleito deputado em 2005, lutou pela despenalização do aborto e em 2008 foi o único deputado da bancada parlamentar do PS a desafiar a disciplina de voto ao defender o casamento das pessoas do mesmo sexo, que seria mais tarde aprovado com o voto dos socialistas. Já fora da “jota”, em 2011, num jantar em Castelo de Paiva com membros do partido, PNS fez um discurso que até hoje lhe é relembrado. “Não pagamos a dívida! Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos!”. Tornar-se-ia célebre o seu grito: “as pernas dos banqueiros alemães até tremem!”. Num momento difícil para o país, e que se revelou ainda mais fatal para o Partido Socialista, PNS foi um ávido defensor da reestruturação da dívida face à severa austeridade. Assinou em 2014 o documento Um programa sustentável para a reestruturação da dívida, junto de figuras do Bloco de Esquerda, como Francisco Louçã, mas também de figuras próximas do CDS, nomeadamente o ex-ministro das Finanças, António Bagão Félix. Convicto e determinado como é, demitiu-se de vice-presidente da bancada parlamentar do PS em 2012 por causa de divergências com o então secretário-geral, António José Seguro, que apoiou nas primárias contra Francisco Assis (agora seu apoiante), quando lhe ordenaram “deixar passar” o Tratado Orçamental, que estipulava um limite de 0,5% ao défice orçamental. Essas “divergências” com Seguro, partilhadas pelos seus amigos e camaradas Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves e João Galamba, levaram a que fossem apelidados de “jovens turcos”, pela sua oposição interna ao “segurismo”. Pedro Nuno Santos foi, aliás, o primeiro presidente de federação a apoiar António Costa quando este desafiou Seguro pela liderança do Partido. Daí em diante, a história já é conhecida. Costa nomeou Pedro Nuno seu Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares depois das eleições de 2015 e foi um dos obreiros da “geringonça”. Nome que não gosta: diz que “aquilo de geringonça nada teve, funcionou bem”. A sua proximidade com a esquerda é bem conhecida. Note-se que, “quando Paulo Raimundo chega à liderança do PCP, Costa não se lembrava de algum dia se ter cruzado com ele, Pedro Nuno sim”, conta o Expresso em abril deste ano. Em 2019 foi promovido a Ministro das Infraestruturas e da Habitação. É sabido que a sua relação com o PM se deteriorou com o passar dos anos. No congresso de 2018, entusiasmado, “tomou o congresso do partido como seu”, diz o Expresso. Mas Costa não gostou, e veio dizer depois que “ainda não tinha metido os papéis para a reforma”. Pedro Nuno Santos acumulou as pastas ministeriais que inflamaram quando se deu a pandemia. A crise levou a despedimentos e cortes salariais na TAP, e a um plano de reestruturação que PNS não queria levar ao parlamento, desafiando mais uma vez Costa, que o contrariou. Depois deu-se o episódio do despacho do aeroporto. Pedro Nuno Santos decidiu uma questão com 50 anos de forma repentina, emitindo numa manhã uma portaria que definia a localização do novo aeroporto em Alcochete. Levou um “puxão de orelhas” de Costa, que o obrigou a revogar a decisão. A última gota deu-se quando se soube indeminização da TAP a Alexandra Reis, de 500 mil euros, aprovada por PNS através do WhatsApp. Demitiu-se. Ele próprio dizia que já tinha sido tudo no PS. Esteve em todos os órgãos, só lhe faltava mesmo ser secretário-geral. No mês passado – talvez precocemente – teve finalmente a sua oportunidade. A 9 de outubro começou uma rúbrica de comentário na SIC Notícias, e menos de um mês depois António Costa demitiu-se na sequência do Comunicado da Procuradoria-Geral da República. Pode ter tido “a carreira de comentário mais curta de sempre”, mas este fim de semana foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, trinta e dois anos depois de se ter juntado à JS, com 14 anos. Temos três meses até às eleições legislativas. Pedro Nuno Santos, embora esteja, de acordo com as últimas sondagens, na liderança, terá uma campanha difícil. Terá de defender os seus erros no governo. Terá de alterar a imagem que criou de si próprio, moderando-se, dado que estas eleições ganhar-se-ão ao centro. Terá talvez de, não havendo maioria à esquerda, aguentar até esta legislatura acabar para governar. Tudo isto com a sombra de Costa sempre presente. Como disse, talvez a oportunidade tenha vindo em má altura para Pedro Nuno Santos. Veremos.

  • A Revolta Argentina

    Javier Milei tomou posse como Presidente da Argentina no passado dia 10 de dezembro, após ter sido eleito com 55,7% dos votos. Depois de uma surpreendente primeira volta, Milei e o partido La Libertad Avanza, com apenas dois anos de vida política, dois deputados e nenhum senador ou ministro, venceram as eleições argentinas. Derrotando, assim, o Peronista Sérgio Massas, ministro da economia da passada legislatura. O irreverente economista, anarco-capitalista, conservador, tem estado na boca do mundo e com ele, a Argentina. Com propostas como o fim do banco central, um mercado livre de venda de órgãos humanos, a substituição do peso argentino pelo Dólar, etc., Milei promete recuperar economicamente um país que nos últimos 42 anos apresenta uma taxa média de inflação anual a rondar os 206%.  O ano de 2023 não foi diferente - a Argentina viu a inflação escalar os 142%, números que deixam qualquer povo intimidado. Com cerca de 40% da população a viver no limiar da pobreza, a Argentina necessitava, evidentemente, de uma mudança rápida. Milei exibe-se como motor da mudança, um “salvador” de uma população cansada. O seu adversário foi, nada mais nada menos, que o ministro da economia de um governo falhado, discípulo de governos que trouxeram a Argentina a uma decadência histórica. No ranking do índice de liberdade económica, a Argentina ocupa o lugar 144 de 177, estando atrás de países como o Quénia, a Serra Leoa, o Bangladesh, entre outros. Não deixa de ser curioso pensar como é que o centro-esquerda não conseguiu escolher ninguém melhor que o ministro da economia. Um ministro de uma economia falida para combater o discurso de Milei.  O anarco-capitalista, obviamente, usou isso a seu favor e fez da agenda económica a sua principal bandeira. A população, ouviu-o e, desesperada, acabou por usar a lógica do ex-candidato brasileiro Tiririca: “pior do que está não fica”. O cabelo e a quantidade de palavrões que usa corporizaram uma série de propostas “revolucionárias” que, bem ou mal, diferem das convencionais. Com todas as dúvidas que Milei possa trazer, não deixa de ser um obcecado pela economia Argentina. Parece-me que as medidas que quer pôr em prática são, diria, excessivas e pouco realistas. Desde logo, porque, ao longo dos anos, o governo argentino implementou diferentes programas de assistência e de subsídios para ajudar a população mais desfavorecida. Cortar este tipo de apoios de um momento para o outro, pode trazer um grave abalo à estrutura social da Argentina. Irresponsável ou temerário? Desde a redemocratização da Argentina, apenas 3 dos 11 presidentes não eram peronistas. Milei será o quarto e, não tendo maioria no congresso, vai necessitar do apoio dos moderados. E, após as eleições, tem de facto moderado o seu discurso, tornando-o mais realista e pragmático. As alianças com o partido de Maurício Macri (ex-presidente) e com os peronistas de Córdoba têm tornado evidente que Milei precisa de um discurso mais frugal para conseguir governar e dar estabilidade política à Argentina, que tanto precisa. Só o futuro poderá ditar o sucesso ou insucesso da direita na Argentina. Com um Milei mais moderado algumas das propostas podem mesmo vingar. O descontentamento dos sucessivos governos peronistas fez-se sentir nas urnas e poderá ser um ponto de viragem, não só na Argentina, mas também na América do sul.

  • A "Estupidez" do Mal em Arendt e Scorsese

    Killers of the Flower Moon é a nova e obrigatória longa-metragem de Martin Scorsese. Aqui, o veterano cineasta volta a tocar num dos pontos transversais à sua filmografia: o Mal. Mas um tipo muito específico de Mal… Vejamos. Em 1962, era condenado à morte em Israel Adolf Eichmann, o oficial alemão considerado um dos principais responsáveis pelo holocausto nazi. A responsável pela cobertura deste processo para o jornal The New Yorker foi Hannah Arendt, a qual ficou imortalizada pelo livro Eichmann em Jerusalém: Uma Reportagem Sobre A Banalidade do Mal, um fundamental tratado político-filosófico onde compilou os seus relatos de todo o processo. Em 1964, Arendt deu ainda uma entrevista a Joachim Fest para a SWR TV, igualmente decisiva para a consolidação das suas ideias, pela clarificação que fez da “banalidade do Mal”, um conceito por si introduzido. Apesar de central no seu Eichmann, este não tinha ficado definido de maneira precisa no mesmo, seja pelo tom jornalístico com que o escreveu, seja pela escola de pensamento heideggeriana de onde provinha e onde a ambiguidade em termos era preponderante. Tendo-se referido em Eichmann em Jerusalém a esta “banalidade” como “uma realidade terrível, que se situa além daquilo que as palavras podem exprimir e o pensamento conceber (word-and-thought-defying)”, em conversa com Fest, comparou-a a uma “certa estupidez”, dizendo que “há algo de realmente escandaloso nesta estupidez (Dummheit). Eichmann era perfeitamente inteligente, mas a este respeito era estúpido. Era esta estupidez que era tão escandalosa. E foi isso que quis dizer com banalidade. Não tem nada de profundo – nada de demoníaco! É a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”. Para a escritora, Eichmann representava um “novo tipo de criminoso” - “sem intenções criminosas” - que quisera apenas “seguir com o resto das pessoas”, que quisera poder dizer “nós”. “E este querer-poder-dizer-nós foi suficiente para cometer os maiores dos crimes possíveis.” Mas, para isso, Eichmann teve de “eliminar” da sua vida acções como “conversar sobre as coisas em conjunto, aceitar responsabilidade e pensar sobre o que se faz”. Assim, Eichmann, “tornou-se um cavalheiro extremamente perigoso”, para quem, como tantos outros, “a ideologia não desempenhava um grande papel”, mas sim a “obediência”. “Se lhes dissessem “Só és um de nós se cometeres homicídio connosco” – tudo bem. Se lhes dissessem “Só és um de nós se nunca cometeres homicídio” – tudo bem também.” Como consequência do “dizer “nós” e não “eu” - julgar por si próprio", surgiu a “estupidez” de que fala Arendt, i.e., a perda de uma consciência moral. Perda esta, segundo diz, evidenciada pela falta de reconhecimento da responsabilidade sobre os atos que cometeu e pela falta de remorso demonstradas pelo oficial. Para Eichmann, estes não passavam de simples “cumprimento de ordens” e “tratamento de números”, sendo “o arrependimento, para as criancinhas”. É agora possível olhar para a tradição das imagens em movimento e estabelecer uma analogia com as ideias de Arendt. No entanto, sendo muitos os filmes que reflectem sobre o carácter do Mal e das suas consequências, parece-me pertinente diferenciar três dos possíveis tipos de abordagens no contexto do Cinema Americano. A primeira é a do vilão clássico da Era Dourada de Hollywood, que, como Phillip Vandamm em North By Northwest e Liberty Valance em The Man Who Shot Liberty Valance, é livre e conscientemente cruel do início ao fim, isto mesmo que o público não o saiba logo. A este chamaria Arendt “o delinquente que comete um crime por convicção”. A segunda abordagem é a da exploração da decadência do ser humano através do estudo de personagem. Esta está presente em obras-primas da Nova Hollywood, de onde surgiu Scorsese, como Dog Day Afternoon, de Sidney Lumet e The Godfather de Francis Ford Coppola. Aqui, os personagens são apresentados em plena metamorfose, numa dualidade extrema e num realismo visceral. Percebemo-los como imperfeitos, apreensivos, mas empáticos e não raras vezes com princípios éticos bem definidos, como evidenciado na famosa fala de Michael Corleone “Esta é a minha família, não sou eu”, quando inquirido sobre as actividades criminosas da família, em The Godfather. Acontece que, quando forçados a uma decisão, optam de seu interesse e livre vontade por desafiar todas as normas da rectidão humana, perdendo sensibilidade moral e, num fatalismo quase grego, arruinando as suas vidas. Isto vê-se também em Michael quando, algum tempo depois, na tentativa de justificar um assassinato, afirma que “não é nada de pessoal, são apenas negócios”. Mas, presente em Killers, está a terceira abordagem da minha enumeração. Esta é aliás muitíssimo comum em Scorsese, desde The Irishman e The Wolf of Wall Street a Goodfellas. E, apesar deste realizador raramente escrever os seus filmes, os guiões que escolhe, a maneira como dirige os atores e as decisões que toma na rodagem dos mesmos demonstram a intencionalidade que tem em retratá-la. Em todos eles, vemos gente verdadeiramente “banal”. Têm família e amigos, divertem-se e trabalham. Têm sonhos e paixões - alguns até, fortuna – e a este ponto têm-nos a nós, espectadores. É então que, delito após delito, deitam tudo a perder. Autênticos monstros, espancam, roubam, drogam e matam. E como não é apenas o carácter bestial das suas acções que ignoram, mas também as próprias consequências, acabam na desgraça. Nesse momento, apercebemo-nos, caso ainda não o tivéssemos feito, como as suas aparentes simpatia, simplicidade e naturalidade se tratavam na verdade de gritantes superficialidade e cegueira moral, baseadas na falta de reflexão e num profundo desconhecimento da natureza do Homem. O que realmente diferencia estes personagens dos outros dois tipos acima referidos é a ausência de uma tomada de consciência. Por outras palavras, a “estupidez” ética adquirida nuns, nestes parece existir à partida e apenas estar à espera da oportunidade para se revelar – são, desde o início, “cavalheiros extremamente perigosos”. Numa carta a Gershom Scholem, Hannah Arendt caracteriza o Mal como “sempre só extremo, mas nunca radical, não possui nenhuma profundidade, espalha-se como um fungo parasita na superfície” – é precisamente isto que aqui sucede. A minha tese é assim a de que não apenas, e como diz Arendt, o Mal torna as pessoas estúpidas, mas a ingenuidade pode tornar as pessoas más. Por fim, Hannah Arendt conta a Fest que “há uma expressão inglesa: "Stop and think”. Ninguém pode pensar se não parar. Se se forçar uma pessoa a uma actividade implacável, ou se ela se deixar forçar a fazê-lo, verificar-se-á sempre que uma consciência de responsabilidade não se pode desenvolver. Esta só se pode desenvolver no momento em que a pessoa reflectir.” Nessa medida, considerando que os personagens da terceira categoria são também, sem excepção, homens de acção, e se está certa a velha máxima segundo a qual os mais pensativos dos homens são raramente os mais activos - que o diga Hamlet, o intelectual por excelência! - e vice-versa; se para o mais famoso mas também perspicaz dos heróis de Shakespeare a hybris está em pensar de mais (“conscience doth makes cowards of us all”), para os demais, pelo contrário, está em não parar e pensar duas vezes – “a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”. Uns pecam por escolher o mal, outros pecam por não considerarem sequer a existência de uma escolha.

bottom of page