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Portugal Mal-Educado

  • Maria Marim
  • Jan 22, 2024
  • 6 min read

Updated: Jan 31, 2024

A educação é o primeiro passo para o sucesso individual e coletivo, social e político. É essencial para uma mudança de estrutura económica e garante uma coesão enquanto comunidade, criando bases para o desenvolvimento económico sustentável de qualquer país. Sem uma aposta clara na educação, a sociedade estagna.

 

Os anos 90 viram um boom no que diz respeito à situação económica portuguesa, com a entrada na Europa comunitária. Contudo, vemos hoje o sistema de ensino em Portugal mergulhado numa enorme incerteza, para a qual não vemos qualquer resposta por parte dos nossos governantes. Com uma economia fraca, incapaz de atrair empresas qualificadas e investimento estrangeiro, e cada vez mais dependente do turismo e lazer e da mão-de-obra barata, Portugal vê os seus jovens licenciados a serem obrigados a emigrar.

 

Sendo um problema estrutural, a solução também não é obvia. Existindo uma falta clara de investimento na educação portuguesa, como é que se resolve, tendo em conta o estado da nossa economia e a constante instabilidade política? Irá um governo que procura manter popularidade gastar milhões de euros do orçamento de estado para injetar dinheiro no sistema educacional, ou irá usar esses recursos para aumentar o salário mínimo e as pensões? O problema aqui é fácil de identificar: alimenta uma dependência presente e futura no Estado e no governo. E para além desta dependência, não resolve o problema estrutural que condena o nosso país.

 

Mas será o estado da nossa educação resultado das dificuldades económicas do país, ou, pelo contrário, será o nosso fraco desenvolvimento económico consequência de um débil sistema educativo?

 

As duas opções são certamente verdadeiras. Tendo conseguido convergir para os patamares exigidos pela Europa, terá que haver uma clara aposta de todos os agentes que fazem parte da educação, nomeadamente do Estado, professores e famílias, para que Portugal possa atingir patamares ainda mais ambiciosos, comparáveis com países mais prósperos.

 

Para começar, o Estado deverá colocar a educação como prioridade, criando estabilidade no sistema de avaliação, investindo fortemente no ensino. O que assistimos é o contrário: constantes mudanças nos sistemas de avaliação dos alunos, falta de avaliações dos docentes e a discussão das políticas em sede de negociação com sindicatos, como se os alunos não fossem o mais importante. O governo tem como obrigação fornecer as bases para uma educação acessível, desafiante e completa, para que todos os portugueses consigam ter a oportunidade de desenvolver e descobrir o seu potencial. A insuficiência de investimento público tem sido notória, com uma diminuição de mais de 1% do PIB de 1992 para 2022 (Prodata). Esta falta de investimento verifica-se quer ao nível da degradação das infraestruturas das nossas escolas e universidades, como na diminuição dos salários reais dos professores, situação que leva à falta de incentivos para atrair profissionais motivados e competentes para o setor. O resultado é que muitos estudantes acabam a receber uma educação pública mais pobre e incompleta, em que existe pouca atenção individual ao desenvolvimento de cada aluno, e, portanto, um nível mais fraco de empenho escolar e por consequência, resultados mais fracos. Isto cria não só uma aceleração na disparidade de saídas universitárias de alunos de escolas públicas e privadas, mas também um possível aumento na discrepância de futuros rendimentos na economia portuguesa.

 

O Estado falha ainda na excessiva centralização do ensino e da pouca autonomia que dá às escolas e universidades.

 

Uma das consequências é uma falta de investimento em cursos não tradicionais como arte, cinema, moda, história, filosofia e geografia, entre outros. A falta de investimento nestes cursos, ditos “mais liberais”, posiciona Portugal atrás de outras economias avançadas, como Inglaterra, França, Itália, EUA, que procuram cada vez mais investir na diversificação da sua população e futura força de trabalho. Já não é plausível usar a desculpa que não existe saída de trabalho para estes cursos, pois, se estes cursos tivessem mais oferta, não só ajudaria a reter mais estudantes em Portugal, como diminuiria a competição pelos cursos e trabalhos em setores mais tradicionais como direito, economia, medicina e engenharias. Numa era em que a inovação é o polo diretor e dinamizador do sucesso económico, a falta de investimento nestes cursos afetará o futuro desenvolvimento do nosso país.

 

Outra consequência da centralização e da falta de ambição nota-se na ausência total de preparação dos alunos do liceu para a vida universitária. Para que serve o liceu senão para preparar e permitir o acesso à universidade?  Então, porque é que não existe uma prioridade de ensinar e dar a conhecer aos alunos do liceu todas as oportunidades que estão ao seu alcance – não só a nível nacional, como também internacional?

 

O sistema educativo português falha todos os anos no incentivo e preparação dos estudantes para a vida e opções universitárias. Noutras economias ocidentais, os estudantes são incentivados e desafiados a prepararem-se para a universidade com anos de antecedência e a procurar oportunidades fora do seu país, não só para o aluno expandir o seu potencial, como para enriquecerem o seu país mais tarde. Portugal por sua vez, chora ao ver estudantes a procurar oportunidades no estrangeiro. 

 

É verdade que a falta de ambição das famílias e dos estudantes pode ser culpada, além da falta de incentivo nas escolas e liceus portugueses. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, um aluno é posto a pensar sobre a universidade quando acaba o décimo ano e tem de fazer a candidatura à universidade com um ano de antecedência. Nos Estados Unidos, a resposta das universidades é dada a meio do 12º ano. Na Holanda, as inscrições à Universidade encerram em Maio. Porque será que, em Portugal, os alunos só são postos a pensar nas opções universitárias no verão do décimo segundo ano?

 

O segundo problema que identifico é a nossa cultura de ignorância. A falta de ambição do governo, espelha-se na maioria dos portugueses, tanto nos estudantes, como nos seus pais. Parece existir uma diferença na capacidade de sacrifício por parte das famílias de classe média do Norte da Europa, por exemplo, em relação às portuguesas, que abdicam facilmente de uma boa educação para os seus filhos. Esta falta de estímulo para o desenvolvimento próprio de cada aluno, dentro e fora do currículo, é o que matará o crescimento da economia portuguesa, porque os alunos não procuram prosperar por iniciativa própria, e ficam satisfeitos em tirar a nota mínima de entrada nos mesmos cursos que os pais tiraram há 30 anos.

 

Mas então, o que fazer?

 

Para o governo conseguir investir mais dinheiro no sistema de educação, teria que aumentar ainda mais os impostos ou a dívida, ou então cortar custos, como pensões, salários e investimentos, etc. Contudo, nenhuma destas medidas seria aconselhável neste momento, tendo em conta o enorme aumento do custo de vida, fruto da inflação e aumento das taxas de juros, que colocaram enormes dificuldades à maioria dos portugueses. A família portuguesa, que em média tem cerca de 1,5 filhos e um salário de 38.904€, iria ter dificuldade em investir na educação dos seus filhos, optando ainda mais por colocar os filhos no ensino público, onde se encontram já cerca de 85% dos estudantes em Portugal. Na educação privada, o salário médio não seria suficiente para pagar um aumento de propinas para enriquecer o ensino privado. Portanto, a falta de ajuda financeira do governo, o estado da nossa economia, e a degradação do sistema público condenarão Portugal se a estrutura educacional não for repensada rapidamente.

 

Analisemos o sistema universitário inglês. Todas as universidades têm o mesmo custo anual para estudantes ingleses de £9250 (2023/24), seja qual for a universidade ou o curso. As propinas inglesas dão, portanto, uma injeção a cada universidade para constantemente melhorar o ensino, as infraestruturas e as oportunidades. Em termos de propinas, existem duas formas de pagar pelo ensino universitário inglês: pagar diretamente à universidade, ou arranjar um patrocinador. Cerca de 70% dos estudantes ingleses escolhem ser financiados pelo Student Finance UK, que oferece um seguro plano de pagamento. Quando o universitário acaba o ensino e começa a receber um salário acima de £27,295, 10% do salário será descontado diretamente para pagar as propinas, cujo valor é pago com juros. Se o estudante acabar por nunca trabalhar ou nunca receber acima deste valor, nunca pagará pelo seu curso, assumindo o estado esse custo. Este programa ajuda a tornar a educação universitária acessível a todos. Será que uma estrutura como esta resultaria em Portugal? Será que os estudantes portugueses se endividariam para conseguirem ir para a universidade? Acredito que seria difícil, pelo menos enquanto não for dada a devida importância à educação.

 

Com isto, o que é que Portugal deveria fazer quanto ao seu sistema de educação? Onde e por quem é que a mudança devia começar? Talvez nos caiba a nós, estudantes, perceber o valor da educação e iniciarmos a necessária revolução educacional que eventualmente poderá redirecionar o futuro de Portugal.

 
 
 

2 Comments


Guest
Jan 22, 2024

Me faz refletir

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Guest
Jan 22, 2024

Damn!!

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