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Quem é o novo líder do PS?

  • Miguel Pereira
  • Dec 20, 2023
  • 4 min read

Updated: Jan 31, 2024

Aos 11 anos, filho de empresário e neto de sapateiro, um rapaz oriundo de São João da Madeira fazia retiros espirituais no Seminário dos Carvalhos em Vila Nova de Gaia. Mas a devoção não durou. Por influência desse pai empresário, que tinha sido, paradoxalmente, líder de um grupo da esquerda radical, o jovem Pedro Nuno Santos filiou-se na Juventude Socialista com apenas 14 anos após a derrota de Jorge Sampaio para Aníbal Cavaco Silva nas legislativas de 1991.

 

Costuma dizer que “nasceu e cresceu no PS”. A verdade é que, entre a sua vida em São João e Lisboa, sempre esteve na vida partidária. Estudou Economia no ISEG, onde venceu a Associação de Estudantes a uma lista da JSD, e foi aí que conheceu Duarte Cordeiro, Ministro do Ambiente, na altura também da JS. Desde aí que profetizaram o futuro: “Tu conquistas a concelhia de Lisboa, eu vou à federação de Aveiro, depois vamos à JS nacional”. E foi isso mesmo que aconteceu. Em 2004, Pedro Nuno tornou-se secretário-geral da Juventude Socialista, e quem lhe sucedeu em 2008 foi o seu braço direito Duarte Cordeiro. Nos seus quatro anos como líder, foi eleito deputado em 2005, lutou pela despenalização do aborto e em 2008 foi o único deputado da bancada parlamentar do PS a desafiar a disciplina de voto ao defender o casamento das pessoas do mesmo sexo, que seria mais tarde aprovado com o voto dos socialistas.

 

Já fora da “jota”, em 2011, num jantar em Castelo de Paiva com membros do partido, PNS fez um discurso que até hoje lhe é relembrado. “Não pagamos a dívida! Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos!”. Tornar-se-ia célebre o seu grito: “as pernas dos banqueiros alemães até tremem!”. Num momento difícil para o país, e que se revelou ainda mais fatal para o Partido Socialista, PNS foi um ávido defensor da reestruturação da dívida face à severa austeridade. Assinou em 2014 o documento Um programa sustentável para a reestruturação da dívida, junto de figuras do Bloco de Esquerda, como Francisco Louçã, mas também de figuras próximas do CDS, nomeadamente o ex-ministro das Finanças, António Bagão Félix. Convicto e determinado como é, demitiu-se de vice-presidente da bancada parlamentar do PS em 2012 por causa de divergências com o então secretário-geral, António José Seguro, que apoiou nas primárias contra Francisco Assis (agora seu apoiante), quando lhe ordenaram “deixar passar” o Tratado Orçamental, que estipulava um limite de 0,5% ao défice orçamental.

 

Essas “divergências” com Seguro, partilhadas pelos seus amigos e camaradas Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves e João Galamba, levaram a que fossem apelidados de “jovens turcos”, pela sua oposição interna ao “segurismo”. Pedro Nuno Santos foi, aliás, o primeiro presidente de federação a apoiar António Costa quando este desafiou Seguro pela liderança do Partido.

 

Daí em diante, a história já é conhecida. Costa nomeou Pedro Nuno seu Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares depois das eleições de 2015 e foi um dos obreiros da “geringonça”. Nome que não gosta: diz que “aquilo de geringonça nada teve, funcionou bem”. A sua proximidade com a esquerda é bem conhecida. Note-se que, “quando Paulo Raimundo chega à liderança do PCP, Costa não se lembrava de algum dia se ter cruzado com ele, Pedro Nuno sim”, conta o Expresso em abril deste ano. Em 2019 foi promovido a Ministro das Infraestruturas e da Habitação. É sabido que a sua relação com o PM se deteriorou com o passar dos anos. No congresso de 2018, entusiasmado, “tomou o congresso do partido como seu”, diz o Expresso. Mas Costa não gostou, e veio dizer depois que “ainda não tinha metido os papéis para a reforma”.

 

Pedro Nuno Santos acumulou as pastas ministeriais que inflamaram quando se deu a pandemia. A crise levou a despedimentos e cortes salariais na TAP, e a um plano de reestruturação que PNS não queria levar ao parlamento, desafiando mais uma vez Costa, que o contrariou. Depois deu-se o episódio do despacho do aeroporto. Pedro Nuno Santos decidiu uma questão com 50 anos de forma repentina, emitindo numa manhã uma portaria que definia a localização do novo aeroporto em Alcochete. Levou um “puxão de orelhas” de Costa, que o obrigou a revogar a decisão. A última gota deu-se quando se soube indeminização da TAP a Alexandra Reis, de 500 mil euros, aprovada por PNS através do WhatsApp. Demitiu-se.

 

Ele próprio dizia que já tinha sido tudo no PS. Esteve em todos os órgãos, só lhe faltava mesmo ser secretário-geral. No mês passado – talvez precocemente – teve finalmente a sua oportunidade. A 9 de outubro começou uma rúbrica de comentário na SIC Notícias, e menos de um mês depois António Costa demitiu-se na sequência do Comunicado da Procuradoria-Geral da República. Pode ter tido “a carreira de comentário mais curta de sempre”, mas este fim de semana foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, trinta e dois anos depois de se ter juntado à JS, com 14 anos.

 

Temos três meses até às eleições legislativas. Pedro Nuno Santos, embora esteja, de acordo com as últimas sondagens, na liderança, terá uma campanha difícil. Terá de defender os seus erros no governo. Terá de alterar a imagem que criou de si próprio, moderando-se, dado que estas eleições ganhar-se-ão ao centro. Terá talvez de, não havendo maioria à esquerda, aguentar até esta legislatura acabar para governar. Tudo isto com a sombra de Costa sempre presente. Como disse, talvez a oportunidade tenha vindo em má altura para Pedro Nuno Santos. Veremos.

 
 
 

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