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Tiago Bettencourt: "Acorda Portugal!"

  • Madalena Seabra
  • Dec 27, 2023
  • 3 min read

Updated: Jan 31, 2024

Foi a 13 de dezembro que Tiago Bettencourt pisou o palco do Coliseu dos Recreios em Lisboa e nos brindou, novamente, com canções que se destacam entre as demais pela ausência de uma aparente simplicidade literária que me parece ter vindo a vitimar a música portuguesa nos últimos tempos. Tiago Bettencourt é, então, uma lufada de ar fresco para as gerações que cresceram ao som de Amália e que hoje procuram mais para além de sons agradáveis e familiares que enchem o silêncio.

 

“Fim de Festa” foi um concerto que deu voz à vontade do artista de levar o público numa viagem pelas suas memórias. Num tom informal e desprendido de quaisquer cerimónias, Tiago Bettencourt traçou a sua história de autodescoberta e de compreensão do mundo que o rodeia, que teve início, como o mesmo afirma, na guitarra enquanto meio de expressão e combate à timidez.

 

No alinhamento da busca incessante pela verdade que acompanha o artista, surge uma necessidade presente nas suas letras de estabelecer um caminho paralelo às grandes massas de artistas que se deixam mover pelas tendências vigentes.  Na música “Lança”, escreve “Não és do rebanho. Não queres ser do rebanho”, condenando a postura daqueles que em nada procuram ser autênticos; na música “Dança” critica os artistas que vivem dominados por fenómenos de moda e também os seus ouvintes que acabam por se contentar com esta falta de individualidade. “Ficam as imitações, esquecem os originais. (…) Segue o barco da corrente. (…) Quando sentes a cópia do artista da moda. Mas se é para dançar, dança.”

 

As canções de Tiago Bettencourt são então objeto de exposição de sentimentos e conceções cultivadas pelo artista que ganham uma nova beleza ao serem acompanhadas de uma melodia singular. Piano, guitarra acústica, guitarra elétrica – de todos estes se serve Tiago Bettencourt para produzir estas melodias que acompanham esta voz que grita a alma descontente.

 

É para mim impossível não destacar um momento particular do concerto em que Tiago Bettencourt introduz a seguinte problemática:


“Ficava surpreendido e confuso quando aqui em Portugal me perguntavam porque é que cantava em português. No meu país parecia não haver incentivo. Porque é que éramos assim como povo? Que falta de amor próprio é este? Porque é que a música portuguesa não é usada como bandeira?”


O artista assim revela um descontentamento acompanhado de uma tristeza para com o seu país. Queixa-se da falta de incentivo àqueles que cantam a língua materna e procura perceber a origem deste fenómeno que o leva a desejar a evasão. Desejo este que se concretiza, como o mesmo declarou em palco, na aceitação de que a viagem é realmente uma forma de desprendimento da realidade que aflige o artista. Foi nas suas viagens que Tiago Bettencourt teve espaço para escrever muitas das suas canções e meditar acerca da razão por detrás deste desejo de evasão.

 

Na sua canção “Viagem” canta a beleza da viagem enquanto meio de descoberta e com “Eu Esperei” exterioriza a expetativa de uma mudança para Portugal, exortando a restauração de uma obsoleta grandiosidade através dos seguintes versos que silenciaram o Coliseu dos Recreios no dia 13 de dezembro:

 

“Eu esperei mas o dia não se fez melhor. Mas o sujo não se quis limpar. (…) A mentira não se fez verdade. A justiça não se fez mulher. A revolta não se faz vontade. Braços novos sem educação. Sangue velho chora de saudade! (…) Mão no peito mas não é amar. Cavaleiro mas já sem moral. (…) Mas o povo dorme de ilusão! E a tristeza é forma de sinal. Liberdade pode ser prisão. Meu Deus, livra-nos do mal. E acorda Portugal!”

 

"Acorda Portugal!", grita Tiago Bettencourt, e gritam também aqueles que perseguem o “Caminho De Voltar”, “um sítio onde a estrada te deixou por onde tens que ir se te queres libertar”.

 
 
 

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