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"M": O Primeiro "Noir"

  • João Amaral
  • Jan 7, 2024
  • 4 min read

Updated: Jan 31, 2024

Em 1931, o cineasta alemão Fritz Lang decidiu explorar algumas das mais preturbadoras questões e realidades acerca do ser humano, num projeto incrivelmente ambicioso a tantos níveis, que nenhum texto como o que se seguirá lhe fará devida justiça. Vale a pena, no entanto, tentar.

 

Desde o enorme feito que foi alcançar uma eficaz conciliação entre a imagem e o som, numa altura de transição no cinema (do mudo para o sonoro), à criação de uma obra genial e da inconsciente fundação de um novo género cinematográfico – o “noir” – trata de uma obra-prima no mais puro significado da palavra, que se demonstra até hoje relevante.

 

A ação narrativa decorre através da descrição de uma caótica procura e perseguição a um assassino em série de crianças, por parte da população de uma cidade não-intitulada alemã. Somos colocados numa posição de empatia incondicional para com as mães e os pais da cidade que compartilham o luto parental. Lang conquista-nos o ódio e o desdém pela personagem representada por Hans Beckert (Peter Lorre), a personificação do mal: o assassino em série de crianças. Alguém que comete atos tão horrendos e desumanos que nos torna incapazes de questionar ideias como a existência de uma moralidade objetiva ou do poder que o indivíduo tem (ou falta desse) na tomada de decisões: o livre arbítrio.

 

Estas ideias aparentam-nos até certo ponto no filme como verdades absolutas e evidentes, uma vez que nos encontramos perante uma situação em que recusá-las seria sinónimo a participar numa autêntica apologia ou justificação dos crimes cometidos por Beckert.

 

Mas é precisamente ao questionar a veracidade destes conceitos que, no chamado “ato final”, o génio de Fritz Lang sobressai. O seu génio como realizador, autor, mas, acima de tudo, como estudante e observador do Homem, que nos relembra daquilo de mais poderoso que o cinema consegue oferecer: uma reflexão acerca dos temas que mais atormentam a mente humana.

 

Após ser capturado, não pela polícia, mas sim por um conjunto histérico de rebeldes e membros da sociedade, revoltados com a falta de eficácia do poder judicial e policial, o nosso antagonista é transportado para a cave de uma fábrica. Aqui, encontra-se, finalmente, confrontado com a população. Sente-se um puro, no entanto, estridente silêncio conjugado com um olhar fixo e infalivelmente direcionado a si. Pais, mães, tios, avós, amigos; um grupo de indivíduos unido pela sua lamentável situação de comum traumatismo psicológico proveniente dos crimes cometidos por este homem que se mostrava agora, de repente, perante tudo e todos, impotente e sem qualquer hipótese de fuga. É sentido pelo espetador, (através da sempre impecável performance de Peter Lorre) o olhar surpreso e o autêntico choque por parte de Beckert sob aquelas caras que lhe apareciam à frente. Entristecidas, taciturnamente ecoavam o trauma e dor nelas provocado, apenas com o poder do seu olhar coletivo: a encarnação de toda a miséria, dor e tristeza sentida naquela cidade.

 

Quando tudo parece estar decidido, a justiça exercida e Beckert destinado a uma sentença de morte, inicia um monólogo incapaz de ser ignorado, nem mesmo pelos mais desbocados e barulhentos, naquilo que é o clímax do enredo e que, consequentemente, eleva ao prestigioso rótulo de obra-prima.

 

O criminoso obtem o poder democrático da palavra e declara-se como uma vítima de si mesmo, de uma tal “voz que vem de dentro”, que o incansavelmente persegue, tortura e obriga a cometer crimes. O sofrimento é constante em todos os segundos, de todos os dias, ao longo de toda a sua vida. Descreve-se a si mesmo como agente fora do controlo daquele mal, daquela voz, daquele fogo, daquele tormento vindo de dentro de si próprio. É perseguido por fantasmas, fantasmas das mães cujos filhos foram levados para a morte através da sua autoria. Enquanto leva as mãos à cabeça, puxa os cabelos e abre os seus olhos esbugalhados em alienação total; declara não ter escapatória a esta sua inconcebivelmente aterrorizante condição a que está submetido: “sou forçado a agir…eu devo. Devo! Não quero! Devo! Não quero, mas sim, devo!”.

 

Aparece, como que do vazio, um homem que se oferece em nome da democracia e da justiça, para praticar a defesa de Hans Beckert. Incita o facto da incapacidade sobre o poder de agência por parte do acusado em relação a esta suposta força interior que o comanda, e dirige-se a Beckert como um doente mental que deveria ser entregue não a um carrasco, mas sim a um doutor. Defende que uma vez que um homem não pode ser considerado responsável pelas suas ações, seria injusto e contra os princípios éticos, que o Estado, ou quem fosse, matasse dito homem. Reivindica, como alternativa, a obrigação que a sociedade como um todo tem, assim, de reconhecê-lo como alguém que precisa de reabilitação, realçando a necessidade de ser estimulado o impulsionamento da recolocação do indíviduo na vida social. Trata-se, a final de contas, de um membro desta sociedade igual aos outros perante a justiça, uma vez estabelecida a falta de poder que tem sobre a responsabilidade dos seus atos.

 

Pouco convencidos, (compreensivelmente) condenados à ceguez perante as nuances do mundo, comandada pela vingança e desordem, a multidão prepara-se para matar o homem, algo que é evitado com o aparecimento da polícia. Tarde, mas ainda assim, suficientemente a tempo de travar a sentença, que acaba por levar consigo o assassino e os restantes criminosos que se encontravam no local. De seguida, um plano apresenta um painel de juízes, agora sim, legítimos, prestes a determinar o veredito no julgamento oficial de Hans Beckert.

 

Mas o pano não cai antes de uma última sequência: fora da sala de tribunal encontram-se três mães em luto que, em lágrimas e em desespero, preparam-se para aceitar o desfecho, seja este qual for. Ao chegarem à conclusão de que, independentemente do veredito, a justiça com base na entre-ajuda e salvaguarda de direitos fundamentais e universais de uma sociedade, sempre será ideal quando comparada à solução da sentença de morte, que, afinal de contas, nunca lhes devolverá as crianças de volta à vida.

 

“Em nome do povo, isto (sentença de morte) não nos trará de volta as nossas crianças. Nós, também, devemos manter um olhar mais atento sobre os nossos filhos."


Termina, assim, esta longa-metragem numa zona moral “cinzenta” ao não nos oferecer uma verdadeira resposta para o problema que é a justiça e os paradoxos que dela ascendem, uma vez que a tentamos analisar ou interpretar de maneira objetiva. Escolhe, pelo contrário: uma exploração da assustadora amplitude e profundezas tremendamente desconfortavéis da sociedade, da justiça, da interrelação entre as duas, da moralidade individual e da depravação humana.

 
 
 

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