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A "Estupidez" do Mal em Arendt e Scorsese

  • Pedro Calado
  • Dec 12, 2023
  • 5 min read

Updated: Jan 12, 2024

Killers of the Flower Moon é a nova e obrigatória longa-metragem de Martin Scorsese. Aqui, o veterano cineasta volta a tocar num dos pontos transversais à sua filmografia: o Mal. Mas um tipo muito específico de Mal…


Vejamos. Em 1962, era condenado à morte em Israel Adolf Eichmann, o oficial alemão considerado um dos principais responsáveis pelo holocausto nazi. A responsável pela cobertura deste processo para o jornal The New Yorker foi Hannah Arendt, a qual ficou imortalizada pelo livro Eichmann em Jerusalém: Uma Reportagem Sobre A Banalidade do Mal, um fundamental tratado político-filosófico onde compilou os seus relatos de todo o processo. Em 1964, Arendt deu ainda uma entrevista a Joachim Fest para a SWR TV, igualmente decisiva para a consolidação das suas ideias, pela clarificação que fez da “banalidade do Mal”, um conceito por si introduzido. Apesar de central no seu Eichmann, este não tinha ficado definido de maneira precisa no mesmo, seja pelo tom jornalístico com que o escreveu, seja pela escola de pensamento heideggeriana de onde provinha e onde a ambiguidade em termos era preponderante.


Tendo-se referido em Eichmann em Jerusalém a esta “banalidade” como “uma realidade terrível, que se situa além daquilo que as palavras podem exprimir e o pensamento conceber (word-and-thought-defying)”, em conversa com Fest, comparou-a a uma “certa estupidez”, dizendo que “há algo de realmente escandaloso nesta estupidez (Dummheit). Eichmann era perfeitamente inteligente, mas a este respeito era estúpido. Era esta estupidez que era tão escandalosa. E foi isso que quis dizer com banalidade. Não tem nada de profundo – nada de demoníaco! É a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”.


Para a escritora, Eichmann representava um “novo tipo de criminoso” - “sem intenções criminosas” - que quisera apenas “seguir com o resto das pessoas”, que quisera poder dizer “nós”. “E este querer-poder-dizer-nós foi suficiente para cometer os maiores dos crimes possíveis.” Mas, para isso, Eichmann teve de “eliminar” da sua vida acções como “conversar sobre as coisas em conjunto, aceitar responsabilidade e pensar sobre o que se faz”. Assim, Eichmann, “tornou-se um cavalheiro extremamente perigoso”, para quem, como tantos outros, “a ideologia não desempenhava um grande papel”, mas sim a “obediência”. “Se lhes dissessem “Só és um de nós se cometeres homicídio connosco” – tudo bem. Se lhes dissessem “Só és um de nós se nunca cometeres homicídio” – tudo bem também.” Como consequência do dizer “nós” e não “eu” - julgar por si próprio", surgiu a “estupidez” de que fala Arendt, i.e., a perda de uma consciência moral. Perda esta, segundo diz, evidenciada pela falta de reconhecimento da responsabilidade sobre os atos que cometeu e pela falta de remorso demonstradas pelo oficial. Para Eichmann, estes não passavam de simples “cumprimento de ordens” e “tratamento de números”, sendo “o arrependimento, para as criancinhas”.


É agora possível olhar para a tradição das imagens em movimento e estabelecer uma analogia com as ideias de Arendt. No entanto, sendo muitos os filmes que reflectem sobre o carácter do Mal e das suas consequências, parece-me pertinente diferenciar três dos possíveis tipos de abordagens no contexto do Cinema Americano.


A primeira é a do vilão clássico da Era Dourada de Hollywood, que, como Phillip Vandamm em North By Northwest e Liberty Valance em The Man Who Shot Liberty Valance, é livre e conscientemente cruel do início ao fim, isto mesmo que o público não o saiba logo. A este chamaria Arendt “o delinquente que comete um crime por convicção”.


A segunda abordagem é a da exploração da decadência do ser humano através do estudo de personagem. Esta está presente em obras-primas da Nova Hollywood, de onde surgiu Scorsese, como Dog Day Afternoon, de Sidney Lumet e The Godfather de Francis Ford Coppola. Aqui, os personagens são apresentados em plena metamorfose, numa dualidade extrema e num realismo visceral. Percebemo-los como imperfeitos, apreensivos, mas empáticos e não raras vezes com princípios éticos bem definidos, como evidenciado na famosa fala de Michael Corleone “Esta é a minha família, não sou eu”, quando inquirido sobre as actividades criminosas da família, em The Godfather. Acontece que, quando forçados a uma decisão, optam de seu interesse e livre vontade por desafiar todas as normas da rectidão humana, perdendo sensibilidade moral e, num fatalismo quase grego, arruinando as suas vidas. Isto vê-se também em Michael quando, algum tempo depois, na tentativa de justificar um assassinato, afirma que “não é nada de pessoal, são apenas negócios”.


Mas, presente em Killers, está a terceira abordagem da minha enumeração. Esta é aliás muitíssimo comum em Scorsese, desde The Irishman e The Wolf of Wall Street Goodfellas. E, apesar deste realizador raramente escrever os seus filmes, os guiões que escolhe, a maneira como dirige os atores e as decisões que toma na rodagem dos mesmos demonstram a intencionalidade que tem em retratá-la.


Em todos eles, vemos gente verdadeiramente “banal”. Têm família e amigos, divertem-se e trabalham. Têm sonhos e paixões - alguns até, fortuna – e a este ponto têm-nos a nós, espectadores. É então que, delito após delito, deitam tudo a perder. Autênticos monstros, espancam, roubam, drogam e matam. E como não é apenas o carácter bestial das suas acções que ignoram, mas também as próprias consequências, acabam na desgraça. Nesse momento, apercebemo-nos, caso ainda não o tivéssemos feito, como as suas aparentes simpatia, simplicidade e naturalidade se tratavam na verdade de gritantes superficialidade e cegueira moral, baseadas na falta de reflexão e num profundo desconhecimento da natureza do Homem.


O que realmente diferencia estes personagens dos outros dois tipos acima referidos é a ausência de uma tomada de consciência. Por outras palavras, a “estupidez” ética adquirida nuns, nestes parece existir à partida e apenas estar à espera da oportunidade para se revelar – são, desde o início, “cavalheiros extremamente perigosos”. Numa carta a Gershom Scholem, Hannah Arendt caracteriza o Mal como “sempre só extremo, mas nunca radical, não possui nenhuma profundidade, espalha-se como um fungo parasita na superfície” – é precisamente isto que aqui sucede. A minha tese é assim a de que não apenas, e como diz Arendt, o Mal torna as pessoas estúpidas, mas a ingenuidade pode tornar as pessoas más.


Por fim, Hannah Arendt conta a Fest que “há uma expressão inglesa: "Stop and think”. Ninguém pode pensar se não parar. Se se forçar uma pessoa a uma actividade implacável, ou se ela se deixar forçar a fazê-lo, verificar-se-á sempre que uma consciência de responsabilidade não se pode desenvolver. Esta só se pode desenvolver no momento em que a pessoa reflectir.” Nessa medida, considerando que os personagens da terceira categoria são também, sem excepção, homens de acção, e se está certa a velha máxima segundo a qual os mais pensativos dos homens são raramente os mais activos - que o diga Hamlet, o intelectual por excelência! - e vice-versa; se para o mais famoso mas também perspicaz dos heróis de Shakespeare a hybris está em pensar de mais (“conscience doth makes cowards of us all”), para os demais, pelo contrário, está em não parar e pensar duas vezes – “a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”. Uns pecam por escolher o mal, outros pecam por não considerarem sequer a existência de uma escolha.


 
 
 

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