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  • EUA: Navegar na incerteza. Entrevista a Miguel Morgado

    O Discreto sentou-se com Miguel Morgado, comentador político, professor e ex-deputado à Assembleia da República, para discutir e perceber melhor o cenário político norte-americano, a propósito das eleições do próximo dia 5 de Novembro. O que é que é o cargo do Presidente dos EUA, o que é que isso significa? O que é que simboliza esse cargo em 2024? Em 2024, significa que é ser Presidente no país que continua a ser, nos vetores mais decisivos do ponto de vista geopolítico, o país mais poderoso do mundo do ponto de vista militar, tecnológico, económico, do ponto de vista da formação de conteúdos culturais, da cultura popular dos povos. Pode vir a perder essa posição em primazia nos próximos tempos, nas próximas décadas, nos próximos séculos, com certeza, isso está sempre tudo em aberto, mas nós nunca nos podemos esquecer que o nascimento dos EUA no final do século XVIII é o nascimento da grande potência política do nosso tempo, dos últimos 200 anos, e que ainda continuará a ser por mais uns tempinhos, por maior que seja o declínio americano. Por isso ser o Presidente dos EUA é mesmo muito importante.   Tocando na geopolítica, quanto à Ucrânia e à guerra com a Rússia – gostava de perceber exatamente quais é que são as diferenças mais evidentes entre Kamala e Trump. Muito se tem dito que a eleição de Trump é um perigo para a Europa e que esta deve temer essa eleição. Queria perceber se este perigo realmente existe ou não.   Bem, sobre Kamala Harris, nós temos a dificuldade de não saber exatamente o que é que ela pretende em termos de políticas públicas em geral. Mas no caso da Ucrânia, nós podemos presumir não só pelas palavras dela, que também têm oscilado muito, mas enfim, por razões orgânicas digamos assim, que ela seguirá basicamente a política de Joe Biden. E a Europa deve a Joe Biden ter ficado ao lado da Ucrânia. Naquelas primeiras horas não era evidente que os países europeus iam querer ficar ao lado da decisão de Zelensky de resistir à invasão russa. Os alemães, o atual Chanceler Scholz, não queria ficar ao lado de Zelensky. Teria preferido a via de 2014, que era fechar os olhos. Essa foi a política alemã e seria a política alemã, não fosse a ameaça dos EUA. É verdade que, inicialmente, também nas primeiras horas, Joe Biden hesitou, mas depois de perceber a vontade e a decisão de Zelensky e do seu grupo de resistir, Biden não voltou a hesitar. E isso não é verdade para os governos europeus, que se demonstraram de uma fraqueza e de uma cobardia políticas a que nós, infelizmente, já estamos habituados.   Portanto, nós devemos a Joe Biden – e, para todos os efeitos a Kamala Harris, que não arriscou nada nesta coisa, mas que era Vice-Presidente, apesar de tudo, era – uma grande decisão política, que a julgar por aquilo que Trump tem dito, disse, e que muita gente à volta dele continua a dizer, não era evidente que essa decisão tivesse sido tomada. Para um europeu, independentemente dos defeitos das políticas de Joe Biden, e, sobretudo, dos defeitos da candidata Kamala Harris, a orientação estratégica de Biden é mais tranquilizante do que a de Trump. Sobre isso, não há qualquer dúvida. Trump tem feito muitas apostas e decisões e tomado posições absolutamente irresponsáveis. Trump, não me esqueço (porque vivi isso, ainda era deputado na altura, no processo do Brexit e, aliás, eu ainda estava no Governo quando o processo da ida para o referendo do Brexit começou, quando Cameron era Primeiro-Ministro), fez campanha deliberadamente, pelo Brexit. E isso é uma coisa completamente inaudita no comportamento de um Presidente dos Estados Unidos.   A Europa encontra-se numa posição de grande fragilidade, de grande fraqueza a vários títulos. E sem a parceria com os EUA, a Europa não tem qualquer espécie de futuro. Nenhum! É o que a Europa tem revelado não só nos últimos 20 anos, como nos últimos dois anos. É verdade que Trump também chamou à atenção os europeus dos contributos que tinham que passar a dar. As exigências que Trump passou a dar sobre o cumprimento das despesas da NATO foram mais do que justas e que, aliás, nem começaram com Trump, começaram com Obama. Eu fui daqueles poucos europeus que achou muito bem a repreensão que Trump fez aos dirigentes europeus, a começar pelos portugueses, que mentem à NATO e que mentem aos americanos sobre o nível das suas despesas a toda a hora. O último Governo português socialista, fez isso sem qualquer escrúpulo, como faz o Governo alemão, como fazem os outros governos. Desse ponto de vista, acho isso uma beleza. Mesmo aquelas afirmações mais monstruosas a dizer que os membros da NATO que não pagassem as suas contas, que ele os deixaria entregues a uma invasão da Rússia. Até isso podemos ver como uma espécie de expressão de força negocial, pois é impor uma decisão que os parceiros europeus não querem tomar. Mas do ponto de vista estratégico, não há qualquer dúvida que Trump tem funcionado como uma fonte de fragmentação na Europa e não como um baluarte da parceria transatlântica que, do ponto de vista europeu, continua a ser vital para nós.   Ainda nesta questão, o que é que o Professor acha que Vladimir Putin, no seu íntimo, deseja como resultado desta eleição?   Ah, isso eu não faço a mínima ideia. Eu acho que o Putin quer – e tem estado a fazer com governos europeus, com as sociedades europeias, e na América também – basicamente, que se perca a vontade de continuar a auxiliar a Ucrânia financeira e militarmente. Porque ele também já percebeu que não consegue vencer a Ucrânia enquanto o apoio ocidental continuar, portanto, ele quer operar todo o tipo de mudanças políticas, na Europa e nos Estados Unidos, que contribuam para esse abrandamento. Trump fala enigmaticamente do plano que tem, que em 24 horas traria a paz à Ucrânia, mas depois tem sido ambíguo relativamente ao que significa essa paz. É óbvio que se a Ucrânia se render amanhã e disser que Putin pode tomar conta de tudo aquilo, a guerra acaba amanhã.   Claro.   Se for esse o plano, não é particularmente interessante. Mas, também não estou a ver como é que ele convenceria Putin a regressar à posição anterior a 2014, mesmo que houvesse compromissos no Donbass ou houvesse compromissos na Crimeia. Enfim, mesmo que houvesse algum tipo de compromisso, não estou a ver como é que Trump em 24 horas conseguiria convencer Putin a cessar as hostilidades quando a morte de dezenas de milhares de soldados russos e a destruição da economia russa não têm sido suficientes para o parar. Tenho de presumir que as tais 24 horas é um possível Presidente Trump a dizer a Putin e a Zelensky, “Eu não vou continuar a auxiliar a Ucrânia se a Ucrânia não aceitar estas condições”. E essas condições são a Rússia ficar com a maior parte das coisas que quer.  Isso não parece que seja uma ideia muito interessante para a Europa. Por isso, se for isso que Trump tiver na cabeça, espero que Trump não seja eleito.   E quanto ao Médio Oriente, faz hoje um ano dos ataques de 7 de outubro. Trump diz que quer uma vitória rápida de Israel e que, sem ele, com Kamala, haverá uma “aniquilação total” do Estado de Israel. Até que ponto é que isto é plausível e o que é que isto significa relativamente às dimensões do apoio de Trump?   Ao contrário do que se passou na Rússia, Trump esteve à beira de ter um grande trunfo diplomático, que realmente ficaria na história. Era a consumação dos Acordos de Abraão. Se se tivesse conseguido levar isso por diante – e quer dizer, ele conseguiu um acordo diplomático, coisas extraordinárias: os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita aceitarem constituir relações diplomáticas com Israel, etc. Isso foram coisas absolutamente extraordinárias que ele conseguiu e o mérito é dele e da equipa dele. Claro que para abortar esses resultados é que também foram levados a cabo os ataques de 7 de outubro, não é? Para o Hamas e as organizações palestinianas garantirem que os palestinianos não ficariam isolados, que seria o resultado depois de um entendimento pacífico e de uma amizade política crescente entre Israel e, pelo menos, alguns dos seus vizinhos árabes, a juntar ao Egito e à Jordânia, se se juntassem a Arábia Saudita, os Emirados e mais alguns, então aí sim, pelo menos a variante radical da causa palestiniana, o Hamas, ficaria radicalmente comprometida. E a partir do momento em que o Hamas provoca esta guerra terrível, em que os governantes árabes são forçados a pronunciarem-se publicamente contra Israel, e a apoiarem cada vez mais as posições terroristas da Palestina, esses acordos (não foram desfeitos atenção, mas, enfim) foram, podemos dizer, razoavelmente suspensos ou abrandados.   Aí, o Trump tinha trunfos para dizer que o seu legado era bastante mais positivo do que tinha sido o legado, por exemplo, de Obama. Obama tinha optado por posições muito erráticas, que se revelaram desastrosas, aquando da Primavera Árabe, e uma opção perante o cordão sanitário ao Irão que também não produziu os resultados que se esperava e, provavelmente, acelerou a trajetória do Irão para obter armas nucleares. Portanto, o legado dos partidos democratas no Médio Oriente não era famoso. E, se as coisas tivessem corrido de outra maneira e se os Acordos de Abraão tivessem produzido mais resultados, ele [Trump] estaria numa posição política de grande vantagem sobre os democratas.   Agora, também não é evidente perceber em Trump o que é que ele quer desta guerra. Biden, e Kamala supõe-se, quer agora navegar ali numa espécie de equilíbrio em que não se hostiliza totalmente o mundo árabe mas, não se deixa de apoiar Israel, que é um caminho muito difícil de percorrer no dia a dia. De Trump não se percebe exatamente, por exemplo, o que é que Trump pretende que Israel faça com a invasão do Líbano. Não é claro. Como quase nenhumas posições políticas públicas em Trump são claras. As de Kamala, infelizmente, também não, por isso é que temos de funcionar sempre com o precedente de o que é que o Biden fez e associar ao que ela faria. Por isso, estamos sempre aqui a navegar um bocadinho nesta incerteza. Passando a temas domésticos, Trump promete deportações em massa: é politicamente viável? Consegue reunir as condições necessárias, convencer o Congresso, os republicanos e ainda o público em geral? E mesmo conseguindo, resistirá à pressão internacional e mediática?     Vamos ver, programas de deportações nos EUA existem há muito tempo, W. Bush e Obama levaram a cabo grandes programas de deportação, portanto o que Trump está agora a dizer não é novo, apesar de ter havido, de facto, um abrandamento destes programas na administração Biden.     Mas o que significa isto da deportação em massa? Trump fala sempre por hipérboles, se ele for dizer que vai deportar centenas de milhares de pessoas, bem, Obama já fez isso e à luz dos números de imigração ilegal nos EUA, é inevitável que isso aconteça. De resto, como estamos a ver na Alemanha e noutros países europeus, estão a surgir, também, programas de deportações, portanto, o problema de imigração ilegal adquiriu proporções ao ponto de o surgimento de programas de deportação serem inevitáveis.    Agora, depende de que escala é que ele está a falar, se forem aqueles milhões de ilegais que estão nos EUA, que alguns calculam em 6 milhões, outros em 10 milhões, outros em 16 milhões, isso é impossível e ele não fará isso, até porque esses programas são muito cruéis se não forem muito cirúrgicos, e causam perturbações sociais enormes. Uma vez mais, é o ponte forte de Trump, já o era em 2016. Disse recentemente que acha que ganhou as eleições de 2016, embora ele também mude sempre de ideias, por causa da imigração já na altura, e por isso é que veio com a ideia de fazer o muro, por exemplo. Ele aí ganhou muitos pontos, porque, de facto, Biden e Kamala foram totalmente suicidas na questão da imigração e aperceberam-se desse suicídio político nestes últimos 15 meses do mandato de Biden, também por uma questão ideológica, porque queriam ser anti-trumpistas e pretendiam associar a imagem de Trump à construção do muro. Então tudo aquilo que estava a ser preparado, se não foi desmantelado, pelo menos foi refreado. Eu acho que todos os democratas se arrependem hoje disso, a imigração, como nós estamos a perceber, no mundo ocidental, passou a ser o principal problema político e nos EUA é certamente um dos principais.     Trump, curiosamente, em 2016 tinha muito mais novidades programáticas do que tem agora em 2024. Fala mais da imigração do que falava. Por um lado, pode dizer que é porque o problema se agravou. Sem dúvida, não posso dizer que não. Mas, apesar de tudo, ele tinha outras coisas que trouxe à campanha: na altura era drenar o pântano, como ele chamava, do deep state; tinha coisas mais interessantes como as relações com a China; a relação de hostilidade para com a China; o combate tecnológico com a China e conseguiu fazer com que o “ establishment ” americano adotasse como bom. Em 2016 parecia mais fresco, com mais ideias, agora está mais cansado. Não só porque envelheceu, o que é notável, mas também porque a plataforma dele também é: “Eu quero regressar a 2020”. Perdeu aquelas eleições, mas não o reconhece, foi arredado do poder e agora quer regressar porque aquilo que aconteceu não devia ter acontecido. E, do ponto de vista programático, bem, isto é curto. Mas, quer dizer, as políticas continuam lá, baixar os impostos, essas coisas todas.    E Kamala, o que é que defende ao certo na questão da imigração?  No que é que diverge de Trump?     Bem, Kamala Harris por um lado tem uma inclinação política que tem explorado a demonização do discurso da imigração, mas que agora já não pode levar tão extensivamente. Antes, o que faziam era jogar a cartada racista na campanha contra a candidatura de Trump, por causa da sua insistência, e isso depois coloca obstáculos àquilo que Kamala Harris pode fazer, para mudar a orientação da política que tinha sido levada a cabo por Biden.    Agora não nos podemos esquecer que a dada altura Biden mudou o curso das coisas e quis, de facto, trazer um reforço da vigilância, da tal construção do muro e do aparato tecnológico, da mudança do processo de aquisição do estatuto de refugiado e de asilo que, anteriormente, estava muito mais facilitado e esse processo legislativo começou ainda com Biden. Kamala pode dizer que é isso que quer fazer e que, na verdade, não foi adotado mais cedo porque houve um veto na Câmara dos Representantes e do Senado pelos deputados republicanos mais ligados a Trump que queriam a estagnação do problema para que ele se agravasse. Isso é verdade, os democratas podem alegar isso que é correspondente à verdade, Trump e os seus aliados mais próximos tinham ali uma minoria de bloqueio que foi suficientemente eficaz para arrastar, consideravelmente, aquela questão. E isso teve consequências muito más.    Mas, enfim, podemos esperar de uma administração Kamala Harris a continuação deste arrepiar de caminho feito por Biden, portanto, uma política mais restritiva à imigração, do que tinha sido o caso desde 2020, até ao final de 2022. Em concreto, é mais difícil saber, porque se os republicanos estão agora muito confortáveis numa posição muito agressiva no que diz respeito à imigração. Os democratas ainda têm um lastro ideológico que os impede de corrigirem com tanta facilidade o problema.     É um bocadinho como a esquerda portuguesa, que quando for preciso apertar e restringir políticas de imigração em Portugal, terá dificuldade em fazê-lo porque já disseram tanta coisa contra quem quis falar no problema, que ficarão com a imagem de hipócritas e oportunistas. E Kamala Harris também fez várias declarações que, provavelmente, se arrepende em relação à fronteira e à imigração que a obrigará a fazer as coisas com muito gradualismo. Mas, quer dizer, a campanha de Kamala é tentar dizer o mínimo sobre as coisas porque ela ainda não sabe tatear bem o chão que quer pisar, é uma candidata muito imatura, muito inexperiente, muito desconhecedora dos problemas reais e que, às vezes, fica-se com a ideia de que ainda não pensou muito a sério sobre os problemas. Trump também não, mas ao menos é marcado por algumas obsessões que depois permitem prever alguma consistência em algumas políticas públicas. Em Kamala é difícil adivinhar as suas políticas, principalmente porque ela tornou-se agora, como os americanos dizem, uma flip-flopper  em torno de tudo e mais alguma coisa.      Ser filha de imigrantes é uma desvantagem ou uma vantagem?     Bem, Trump também é descendente de imigrantes, na América a probabilidade é grande. Eu acho que tem mais que ver com o facto de Kamala estar mais ligada aos grupos políticos e de ação cívica pró-imigração do que a sua condição. Se ela quer ser Presidente dos EUA e se a maioria das pessoas forem favoráveis a medidas restritivas, ela pode ser filha de quem quiser, ela quer ganhar ou quer perder. Acho que neste caso é diferente, é o facto de ela depender política, ideológica e espiritualmente, no sentido mais lato do termo, do conforto desses grupos a quem repugna políticas de imigração muito restritivas, acho que é mais esse o ponto.    Passando a outro tema. Faz-me alguma confusão como é que o aborto é um tema tão central eleição após eleição nos EUA. Em Portugal ninguém vota pelo aborto, ou há uma pequena minoria que o faz. Como é que se explica esta diferença?     As razões são várias. Primeiro, o EUA demorou mais tempo a descristianizar-se do que as sociedades europeias, que se descristianizaram a seguir à segunda guerra mundial, muito rapidamente. Os EUA também é um país em vias de descristianização, mas esta tem-se revelado bastante mais lenta.     E, portanto, o conjunto de eleitores, de organizações cívicas, de dinheiro para financiar campanhas em torno de temas que digam respeito, neste caso ao aborto, nos EUA, são sempre politicamente muito mais relevantes, aí essa explicação é óbvia.     Depois, é preciso não esquecer como é que o aborto foi legalizado nos EUA. Ao contrário do que aconteceu nos países europeus, que essa legalização ocorreu por via legislativa, por consentimento dos representantes do povo, livremente eleitos. No caso dos EUA, ocorreu por um acórdão do Supremo Tribunal em 1973. Portanto, houve sempre muita gente que não se conciliou com o facto de, para todos os efeitos, a legalização do aborto ter sido feita por um órgão que não é eleito. Evidentemente que é um órgão republicano, constitucional, mas que não é eleito. Trump conseguiu nomear muitos juízes e criar uma maioria republicana ou conservadora no congresso que não existia há muito tempo. Trump conseguiu reverter a tendência de maioria liberal, no sentido americano do termo, mais esquerdista. Isto reflete o facto de se olhar para o órgão do Supremo Tribunal como incluído ou abrangido pela luta política. Isto fez com que o tema do aborto estivesse sempre presente nas eleições.    Entretanto, nestas eleições, o tema regressou com mais força, do que tinha sido o caso, nas três ou quatro eleições presidenciais anteriores, onde o tema tinha perdido algum vigor. Agora regressou porque houve um novo acórdão do Supremo Tribunal.    Com a revogação do acórdão de 1973 e, no fundo, tomando a decisão que é uma espécie de não decisão, que é dizer: cabe ao poder legislativo decidir o que quer fazer relativamente ao aborto, e isso é uma competência dos estados. Assim, os estados, que têm câmaras legislativas, parlamentos próprios, legislem sobre o aborto como quiserem. Não será o Supremo Tribunal a empurrá-los numa direção ou noutra. Claro que, imediatamente, os conservadores ficaram muito contentes com esta decisão.    Há muitos estados que disseram que, nesse caso, manter-se-ia legal o aborto e com um período em que o aborto é legal, de gestação, muito superior ao da lei portuguesa, que é bastante contida e razoável. Por outro lado, noutros estados legislou-se num sentido muito mais conservador e, portanto, imediatamente os grupos mais esquerdistas propuseram que o poder legislativo federal tem de incluir uma espécie de equivalente do acórdão de 73, que, entretanto, foi revogado na lei. E que seria uma proibição nacional da ilegalização do aborto a nível estadual, e é isso que está agora em cima da mesa na campanha.    No que toca à figura do candidato republicano, como é que se explica esta idolatria a Trump? O trumpismo nos EUA, na minha perspetiva, é muito mais forte que qualquer outro populismo na Europa.   E é! Também concordo, é mais forte.   Como é que esta filosofia do trumpismo surgiu e influencia tanto a vida dos americanos?   Não é fácil explicar porquê, agora, vejam que, nos EUA, o Partido Republicano é sempre um partido forte. Há países na Europa onde a direita pode estar numa posição de fragilidade política e eleitoral durante muito tempo. Os EUA não era assim há muito tempo. Se forem ver, no pós Segunda Guerra, há uma grande percentagem de presidentes republicanos e uma grande percentagem de maiorias republicanas no Congresso. Portanto, o partido é sempre muito forte. Trump aparece num momento de grande falência do Partido Republicano. Trump tem uma força própria, é inegável; uma força ligada à personalidade dele, à energia e à tenacidade dele, ao atrevimento dele. Mas, de facto, apanhou o Partido Republicano num estado decrépito.   Num momento em que precisava dele.   Num estado decrépito. Vejam, ele fez aquilo que toda a gente considerava ser impossível fazer. Ele venceu os poderes internos mais fortes do Partido Republicano, contra tudo e contra todos. Apareceu nas primárias em 2016. Venceu contra os meios de comunicação social conservadores. Ele venceu contra a rádio conservadora, que é muito forte na América, e contra a Fox , nas primárias. Claro, quando ele vence as primárias, todos esses meios de comunicação social ficam do lado dele. Mas para todos os efeitos, o que ele fez toda a gente dizia que era impossível. E em retrospectiva vê-se que era impossível porque o partido tinha ficado sem norte. Não era só o facto de os candidatos republicanos desse ano serem fracos, na altura Jeb Bush era considerado o candidato, enfim, favorito para ganhar. E em retrospectiva, à luz das coisas que ocorreram na América e na Europa, vemos que ele era um candidato fraco, apesar de ter sido governador da Flórida. Trump aparece com propostas que permitem revitalizar instantaneamente o Partido Republicano. Dou um exemplo, que para mim foi muito marcante quando vi o Trump aparecer. Os republicanos tinham ficado amarrados à questão das guerras no Médio-Oriente, com a decisão, fatídica a meu ver, tomada em 2003 pelo Governo Bush. E a partir daí, aquilo tornou-se uma ortodoxia, mesmo perante o desastre que aquilo tudo foi, a invasão do Iraque e tudo aquilo. Os republicanos cerraram fileiras e todos os candidatos podiam destoar de muita coisa, mas não destoavam daquilo. “Os americanos estavam em guerra por isso não podiam trair os soldados, não podiam fazer como no Vietname em que se contestava a política militar porque era uma espécie de traição aos soldados, etc.”. Os republicanos acharam que tinham de cerrar fileiras a todo o custo e havia muitos intelectuais americanos a justificarem aquilo, que era absolutamente injustificável, o aventureirismo americano no Médio-Oriente. Nem um candidato que eu apreciava muito, e que foi sempre o derrotado, chamado Mitt Romney, foi capaz de destoar disso. Ele tentou em 2008, e foi vencido por John McCain e depois não voltou a cometer o erro. O primeiro candidato que aparece a dizer, “tudo isto que os republicanos fizeram em matéria de política externa no Médio-Oriente foi um desastre! E comigo não volta a acontecer”. E dentro do Partido Republicano as pessoas pensaram, “Mas é possível dizer isto? Aquele gajo disse, se calhar é, e se calhar é uma posição muito mais razoável e muito mais popular no país do que nós estarmos a insistir num desastre”. E o Trump fez isso com duas ou três coisas e aquilo que parecia ser, “Bem, este tipo está a detonar o Partido Republicano”, na verdade foi uma espécie de última mão que se deu ao partido republicano, deu uma oportunidade ao partido de ter sobretudo posições isolacionistas. E isso foi obra de Trump, conseguiu fazer, não em 24 horas como diz que vai fazer na Ucrânia, mas em pouco menos de 24 horas porque basicamente ele apareceu no final de 2015 e disse “Comigo estas guerras acabam já e vou tirar os soldados todos de lá, e isto das guerras foram todas um desastre!”. Os outros todos ficaram à defesa. E o que separa do Partido Republicano e o torna a figura do conservadorismo?   Pois é isso, ele depois fez ali uma coligação estranha. Eu acho que houve muito oportunismo e cobardia nos republicanos, porque assim que os republicanos com o “choque Trump” nas primárias, perceberam que o país tinha mudado muito na relação com eles republicanos, todos quiseram dar o salto e ir a bordo daquele barco. Pensaram: “este Trump é um bocado labrego, é um espalha-brasas, nunca pensou muito sobre estes temas; mas precisamente por isso, nós, se calhar, podemos capturá-lo.” Vou-vos dar um exemplo para ser mais concreto: o Partido Republicano tinha ficado sob a esfera de influência, não totalmente, mas em parte, de grupos cívicos organizados do evangelismo cristão. E estes pensaram: “bem este tipo pelo seu historial de vida esteve-se sempre a marimbar para o cristianismo e para a ética cristã, mas nós vamos acompanhá-lo neste barco, que este tipo vai ganhar, e no caminho vamos tentar capturá-lo e fazer dele um candidato cristão". E eles tentaram fazer isso. E o Trump, que nós já vimos que é um tipo sem escrúpulos, teve de dizer umas certas mentiras e fingir que afinal até já acreditava em Deus, quando se esteve sempre a marimbar para o cristianismo, para Deus, para a Bíblia, mas fazia aquelas figuras ridículas com a Bíblia na mão e tal.   E assim agradava a todos.   Foi uma combinação de conveniências: os cristãos estavam contentes porque ele ia lá pôr uns juízes que eles sabiam que eram contra o aborto e que, portanto, mais tarde ou mais cedo, ia acabar por revogar o aborto, embora soubessem que ele era um estaferme do ponto de vista da ética cristã. Os libertários, aqueles que queriam liberalizar a economia, fecharam um bocado os olhos àquelas coisas que ele dizia sobre introdução do controlo de preços, aumentar as tarifas aduaneiras, fechar a economia americana ao exterior: “bem nós fechamos os olhos desde que ele depois faça um orçamento em que reduza drasticamente a carga fiscal”, como depois acabou por fazer. Portanto, aquelas coligações que são sempre muito complexas nos Estados Unidos, ali tornou-se uma coligação totalmente bizarra, em que ele é o pivot completamente idiossincrático. E, de facto, ele tornou-se uma espécie de corporização de uma promessa de Renascimento americano, que é uma coisa que os americanos gostam muito. Não se esqueçam que o MAGA não é dele, é do Reagan. Mas ele foi lá buscar aquilo com a mesma promessa de uma maneira hiperagressiva, que refletia uma polarização que tinha crescido na sociedade americana e que ele em vez de agir para a moderar, decide acerá-la para seu proveito.   E conseguiu?   Conseguiu em 2016, levou demasiado longe em 2020 e é por isso que ele perde. Ele comete erros absurdos de polarização que eram completamente escusados, sobretudo a partir do Covid. Eu acho que ele até ao Covid ganharia as eleições. E depois no Covid, lá está por razões idiossincráticas daquela paixão que ele tem por agravar os conflitos políticos e a polarização, ele levou aquilo para um ponto em que já não conseguiu controlar. Ele agora voltou com esse objetivo de repolarizar aquilo já está totalmente polarizado. E não sei se depois do atentado na Pensilvânia ou depois do debate com Kamala Harris ou, que não podemos excluir, resultado do envelhecimento dele, fiquei com a impressão nestas últimas duas/três semanas que ele já não está a tentar esticar outra vez a polarização, ele agora já está a tentar conviver com a polarização que existe. Agora vamos ver, ele é daquelas pessoas que entende que a única lição que se deve recolher em política é nunca reconhecer um erro e que se disser uma coisa vezes suficientes com convicção suficientemente veemente, ela se torna verdadeira. Só que isso em política tem um preço que é passar a ser detestado pela maioria da população, podem ser amados pelos vossos partidários, mas há sempre um conjunto da população que nem vos ama nem vos odeia, aqueles mais ou menos indiferentes. E esses indiferentes inclinam-se ou para um lado ou para o outro, dependendo da circunstância. Se vocês se tornarem detestáveis aos indiferentes, não têm hipótese de ganhar. Se calhar vai ganhar um gajo que a malta acha que é um candidato da treta, fraquíssimo, mas que não é detestável. Isso acontece muito, na Europa, em Portugal e na América.   E vai acontecer?   Eu continuo a achar que o Trump vai perder, apesar das sondagens agora até me andarem a contradizer, mas já disse isto há tanto tempo. Não, eu achava que ele ia ganhar de caras contra Biden, mas depois quando eles meteram lá a Kamala, da maneira como a puseram, e o debate que ela fez, eu convenci-me que ele ia perder por esta razão, porque ele é muito mais detestável para os americanos do que ela. Ele até pode ser mais amado do que ela, Kamala é mais ou menos indiferente para os americanos, também é detestável para muitos, mas ao não ser tão detestável, eu acho que ela vai colher o encolher de ombros de uma parte maioritária dos indiferentes. Trump criou deliberadamente um capital de mobilização do voto contra ele. Eu tenho vários amigos americanos que acham que a Kamala é uma nulidade, que é o que ela é, mas acham que o Trump é detestável e vão votar na Kamala por ele ser detestável.   Também só há duas opções.   Só há duas, mas na Europa às vezes há mais e mesmo assim isso conta. Vocês vêm, por exemplo, isso acontecer em França com o Rassemblement National , da Marine Le Pen. Ela tornou-se detestável para uma grande parte da população francesa. E depois vem ao lado Itália, Meloni que percebeu esse risco. É verdade que chegou ao poder mais rápido, outro sistema eleitoral, foi tudo mais fácil para a Meloni. Mas a Meloni percebeu que não se podia tornar detestável e vai ter um futuro político muito mais risonho do que a Marine Le Pen. Portanto isto conta, vocês querem dar nas vistas, aparecer, ir de frente contra adversários políticos, bem é preciso medir como é que se vai contra os adversários para o capital de ódio não ser acumulado. É uma lição que aprendemos com Cícero e depois com Maquíavel: vocês podem fazer muita coisa, tornarem-se objetos de ódio é que não.   Hoje vemos que Donald Trump é quase maior que o Partido Republicano. Qual é o futuro do partido, tanto em caso de derrota como em caso de vitória, visto que acabaria o mandato com 82 anos? Acha que a escolha de J.D. Vance é para ser o seu sucessor?   Não, Trump nunca quereria escolher um sucessor. Trump detesta a ideia de sucessor. Trump quer que a eleição, e uma possível presidência, seja sobre ele, ele é o protagonista. É o clássico egomaníaco. Não é o único atenção, todos os políticos têm de ser um bocadinho. Ele é a figura clássica do egomaníaco demagogo, que também aprendemos na filosofia política desde a antiguidade. Mas sucessores ele não quer e vai-se estar nas tintas para isso. Mas o partido não. Mas as coisas mudam muito. Eu julgo que DeSantis mostrou que não será sucessor, que não tem dimensão nacional. Os Estados Unidos é um país continental, portanto não é fácil ser um candidato nacional. Podes ser um grande governador da Flórida que não é a mesma coisa, apesar da Flórida ser maior que Portugal. Agora, J.D. Vance que parecia, por aquela razão da detestabilidade, uma má escolha, mostrou que é um tipo superiormente inteligente e percebeu que tem de se reconstruir já imediatamente. Ele fez um debate com o Tim Walz nos antípodas do debate de Trump. E aquilo que ele disse sobre Trump foi o mínimo dos mínimos para ser leal, numa candidatura que é liderada por Trump e teria que ser leal sempre. No resto ele foi um líder conservador tão ardente nas suas posições quanto Trump, mais fundamentado até, mas que ao mesmo tempo percebe o risco do capital de ódio. Portanto ele foi muito conciliador. Raparem, ele disse montes de vezes uma coisa que Trump nunca diria, que é que estava de acordo com Tim Walz. Eu li o livro dele e fiquei muito bem impressionado. Porque na altura a malta pensava que ele era um tipo que ia dar ali a volta entre os esquerdistas ou então os republicanos mais ao centro. Mas não, ele revelou-se um conservador até bastante integral, digamos assim. Ele é muito inteligente como dá para perceber. Eu acho que ele claramente está a construir uma candidatura de sucessão a Trump. Ele claramente apaixonou-se pela ideia de ser candidato a presidentes do EUA. Ele é muito novo, tem muito dinheiro, é muito inteligente, tem muitos contactos. E isso é importante. Não tem nenhuma experiência política, para além de ter sido eleito para o Congresso, mas se fosse Vice-Presidente ficaria a tê-la com certeza. Eu julgo que ele não deixará de abdicar daqui por quatro anos de se candidatar. Agora não sabemos quem é que vai aparecer, é muito difícil dizer o que é que vai acontecer, sobretudo se houver uma presença de Trump, quer dizer, isso é tudo indeterminado.   E quanto aos democratas, em caso de nova administração, há algum setor em que nós saibamos que vai haver uma mudança clara?   Não sabemos.   Como?   Kamala Harris é uma candidata muito fraca. Que também já se viu que está disposta a engolir as convicções, que andou a agitar durante anos e anos. E isso lançou uma grande dose de incerteza. Ela quer ficar com a equipa do Biden? Eu não sei, nós não sabemos. Para já ela ficou com uma grande parte da equipa do Biden, mas por razões até de logística. Os democratas atiraram-na para a candidatura sem tempo para nada, portanto não havia outra equipa. Mas é isso que seria uma equipa na Casa Branca dela? Eu sinceramente não sei. A resposta mais fácil é dizer que haverá uma grande continuidade das políticas do Biden. Isto significa uma grande aposta na digitalização, a inteligência artificial, a continuação de concorrência tecnológica com a China, presumivelmente uma maior restrição das políticas de imigração. Mas quer dizer, isto é porque como nós não sabemos nada sobre Kamala Harris, a única coisa que temos do Partido Democrata é o que é que Biden estava a fazer e o que é que ele prometia fazer a seguir. Se é isso que Kamala vai fazer? Nós não sabemos. E Trump, em grande medida nós também não sabemos que é que vai fazer. À exceção da imigração e da China, mesmo na questão da concorrência tecnológica e económica, ele também oscila entre levar essa concorrência à Europa.   Sabemos pouco dos dois então.   Estas eleições são muito bizarras. Porque às vezes há um candidato que é imprevisível, mas aqui são os dois. Eu diria, no entanto, que do ponto de vista europeu, e só do ponto de vista puramente egoísta de um europeu, Kamala é menos imprevisível do que Trump.   Professor, por fim, se tivesse de escolher entre Donald Trump e Kamala Harris, conseguia escolher?   Não façam essas infantilidades de levar as pessoas a querer escolher! Eu dou graças a Deus de não ser americano nesta fase e de não ter de escolher nenhum deles. Os americanos saberão o que é que é melhor para eles. Eu falo do ponto de vista europeu e já vos disse que desse ponto de vista Kamala Harris é menos imprevisível do que Trump e, portanto, menos arriscada do que Trump. Agora, as loucuras e a imprevisibilidade de Trump não me levam, como muita gente aqui em Portugal, a fechar os olhos às carências gravíssimas de Kamala Harris e do facto de ela também ter sido sempre uma líder política do wokismo. Portanto eu não tenho de escolher nenhum deles e espero que os americanos não se venham cá meter quando eu quiser escolher quem são os líderes portugueses que eu achar melhores e piores. Já é tão difícil às vezes, em certas situações, eu ter de escolher o meu futuro primeiro-ministro e tem havido várias ocasiões onde me é muito difícil escolher, quanto mais a posição americana. Deixem lá isso, vocês não se preocupem com essas coisas.

  • Momentos Analógicos

    Os meus pais estão-me sempre a perguntar porque que é que eu uso uma máquina de fotografia analógica e, de facto, a pergunta é válida. Com os altos preços da revelação e os dos rolos a subirem a cada mês e até o facto de não conseguirmos ver imediatamente as fotografias podem para alguns estragar a experiência analógica, mas para mim são exatamente estas razões que me fazem querer tirar mais e mais fotografias. Estes três pontos fazem com que cada fotografia tenha mais importância do que uma mera fotografia digital que no mesmo instante nos é entregue nas mãos. Importância esta que nos obriga a ter um olhar muito mais atento e específico do espaço que nos rodeia. A fotografia analógica desafia-nos a encontrar o momento ideal para a fotografia perfeita. Dou por mim, muitas vezes, a reparar em coisas que em tempos me pareciam tão banais mas que agora são arte, simplesmente porque reconheço o valor de cada fotografia. Ainda estou longe de ser profissional nesta matéria, mas aqui se seguem algumas fotografias tiradas por um simples homem que com a sua simples máquina analógica foi aprendendo a ter uma visão diferente do que o rodeia.

  • Eleições Negativas

    O Reino Unido. Monarcas, grandes líderes, guerras e batalhas, autores, filósofos, músicos e artistas, o maior império de sempre e quase mil anos de tradição. Foi o primeiro e único país a sair da União Europeia, circula uma moeda que mais ninguém usa, guia-se do lado esquerdo e ainda tem o seu próprio tipo de tomada elétrica. Os britânicos não conseguem ter êxito nos seus próprios desportos, adoram jardins, animais e chá e parece que, dia 4 de julho, são chamados mais uma vez às urnas. O cenário político no Reino Unido é de uma enorme desconfiança. Nos últimos oito anos, o país viu cinco primeiros-ministros diferentes, algo de inédito na sua democracia, e é quase certo que em julho seja eleito o sexto. Com o resultado do referendo do Brexit, demitiu-se David Cameron, sucedendo Theresa May, que em 2017 ganhou as eleições gerais sem maioria. Derrotada pelo fardo de executar o Brexit, May sai em 2019, subindo ao cargo Boris Johnson, que nesse mesmo ano, recupera uma maioria absoluta, a maior desde Thatcher em 1987. Abalado pela pandemia, o Reino Unido viu em 2022 a demissão de um Johnson envolto em escândalos, introduzindo-se Liz Truss, que não durou mais do que 50 dias. No meio de todo este tumulto surge Rishi Sunak, o antigo Chanceler do Tesouro, que desde outubro de 2022 tem batalhado para tentar redinamizar uma débil nação. As tendências e os temas debatidos são os mesmos que em muitos países europeus. Discutem-se as políticas fiscais, o resgate dos serviços públicos e do serviço nacional de saúde, a inflação, a imigração e as crises de habitação e de energia. E a tendência, como sabemos, é de polarização. A população vai perdendo esperança nos partidos mais moderados e institucionais, o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, que estão no poder há muito tempo, dando espaço às forças mais extremistas. Existe, em particular, a amplificação da voz e da influência da direita “populista” (conceito de que tanto ouvimos falar nos dias de hoje) de Nigel Farage e do seu partido Reform UK. O Reino Unido encontra-se perante um contexto muito negativo e umas eleições históricas. Pelo estado fragilizado do país, pelo ceticismo que existe acerca de quem governou, quem governa e quem governará, e porque não haverá nenhum vencedor, apenas um Partido Conservador vencido e possivelmente humilhado. As sondagens mais recentes da BBC dão 41% ao Partido Trabalhista de Sir Keir Starmer, 21% aos Conservadores e 16% ao Reform UK - um resultado trágico para Rishi Sunak. Estas eleições veem uma população britânica que não está a votar para um novo governo, mas sim para tirar de lá o atual. Acredito que grande parte dos votos nos Trabalhistas não é ideológico; o programa do partido consiste em reformas económicas e sociais, reforçando a ideia de mudança. Mesmo com as muitas críticas de Sunak à ausência de um plano pragmático de Starmer para governar, não parece haver esperança para os Tories. É importante notar que o sistema eleitoral britânico é um de “first-past-the-post”: a população não elege diretamente um primeiro-ministro, mas sim um membro representante de cada um dos 650 círculos eleitorais, vencendo o candidato local que tiver o maior número de votos. O partido que eleger o maior número de candidatos é desta forma convidado pelo monarca a formar governo. Assim, a presença desestabilizadora de Nigel Farage tornar-se-á fatal para Sunak. É inevitável que o Reform UK roube votos à direita. Podem não ser muitos, mas serão o suficiente para garantir que muitos dos candidatos Conservadores não sejam eleitos. Ainda que se assemelhe aos outros líderes da direita europeia, é de se reforçar que Farage destaca-se, não só pela sua inteligência e eloquência, mas pela sua extensa reputação política. Foi membro fundador da UK Independence Party em 1993, que sob a sua liderança ainda teve 24 lugares no parlamento, foi eurodeputado de 1999 a 2014, onde teve muita influência, e a sua maior conquista, conseguiu convencer, quase sozinho, 52% do Reino Unido a sair da União Europeia. Ao longo dos últimos 21 anos, foi lhe rejeitado um lugar em Westminster sete vezes em seis círculos diferentes. Mas isto não afeta de forma nenhuma a confiança de Farage, nem o seu fiel eleitorado. Tem puxado há anos pelo tema da imigração como também pela ineficácia dos Conservadores e dos Trabalhistas. O colunista do Wall Street Journal, Joseph C. Sternberg, num artigo intitulado “We Know Who’ll Win the UK Election, but Why?”, descreve também a situação política da Grã-Bretanha. Evidencia o facto de o Partido Conservador estar no poder há 14 anos: “That’s too long in a democracy. The Tories have exhausted their talent and whatever ideas they brought in when David Cameron first became prime minister in 2010.”, explica Sternberg. É o início de um novo ciclo. Os Conservadores já estiveram tempo o suficiente, o país está a precisar de mudança e, a partir de julho, será o Sir Keir Starmer e o seu futuro governo a proporcioná-la. Os líderes estão se a deslocar pelo país em campanha, os programas mais relevantes já foram todos apresentados e os debates concluem-se na próxima semana. Falta apenas o resultado para assinalar o começo de uma nova era no Reino Unido, seguramente marcada por incerteza, considerando tanto as questões domésticas como a atual instabilidade geopolítica. As condições são pouco favoráveis a Sunak: as consequências do Brexit, a pandemia, a insegurança internacional e ainda o desgaste democrático. Em termos de lugares no parlamento, a última projeção da YouGov prevê 425 candidatos eleitos para os Trabalhistas e 108 para os Conservadores. O número mais baixo de lugares na história do Partido Conservador (que tem 190 anos). É pouco provável, mas nunca impossível, que consiga resgatar um resultado suficientemente forte para fazer oposição a Starmer. Mas, por enquanto, uma coisa é certa: a prioridade é o regresso de um próspero Reino Unido.

  • "In A Silent Way" - A reinvenção da música (pela terceira vez)

    Sempre que me deparo com uma situação que consiste em escolher um único disco de Miles Davis, dou uma resposta diferente. E desta vez, ao decidir que escreveria acerca um deles, a decisão foi, como de costume, dolorosa. Há, no entanto (como em todos os outros) uma, ou melhor dizendo, várias razões que justificam a opção escolhida ter sido In A Silent Way. Nesta marcante obra-prima da mais estimada lenda do jazz, identificamos as características que lhe são mais frequentemente atribuídas e que, por consequência, explicam a sua colocação como um dos músicos mais importantes do século XX. Uma exibição de absoluto talento e destemor, que simboliza todos os seus trunfos condensados num só projeto capaz de nos questionar os limites da música. De modo a não ser obrigado a escrever uma autêntica dissertação de dezenas de páginas, resumir-me-ei a desenvolver apenas três das principais particularidades de Davis e o esplendor com que são demonstradas neste disco. Primeiramente, há que ser assinalada a sua capacidade de orquestrar uma banda. Reconhecido por ser um dos mais célebres líderes de grupos de jazz, destacam-se o Primeiro Grande Quinteto (1955-1958) e Segundo Grande Quinteto (1964-1968), nos quais contava, entre outros, com o saxofonista John Coltrane e o contrabaixista Paul Chambers no primeiro, e com Ron Carter no contrabaixo e Herbie Hancock no teclado no segundo. Este prestígio que lhe é atribuído não se justifica apenas pela incrível química musical entre os instrumentalistas por ele encabeçada, como a capacidade de impulsionar os seus jovens colaboradores a iniciarem mais tarde a sua carreira a solo (exemplo de Coltrane). À data em que In A Silent Way foi lançado, em 1969, o Segundo Quinteto já tinha “tecnicamente” terminado. No entanto, ao verificarmos os créditos do disco encontram-se os dois últimos anteriormente mencionados e os restantes membros do quinteto da década de sessenta (o baterista Tony Williams e Wayne Shorter no saxofone soprano). Contudo, conta também John McLaughlin na guitarra elétrica, dois pianistas para além de Hancock com Chick Corea e Joe McLaughlin e, por fim Dave Holland no contrabaixo. Tratava-se, então de uma banda de 8 membros. E entre eles a química é inquestionável. Ao longo das duas faixas de 18:14 e 19:42 minutos, respetivamente, dão-se transições de impressionante fluidez e solos memoráveis. Cada membro um génio totalmente dominante do seu instrumento. Em sequências musicais caóticas e simultaneamente belíssimas, é criado um ambiente frio e quase alienígena, tendo como maestro o “Mr. Cool himself” no trompete, Miles Davis. Em segundo lugar, o estilo de tocar do compositor e trompetista encontra-se aqui no seu estado mais puro e idiossincrático. É sabido que Davis não é um virtuoso ou um mestre do trompete no sentido técnico do termo, no que toca à sua capacidade de tocar o máximo de notas possível num minuto ou em seguir um ritmo convencional. Opondo-se a Coltrane, sempre optou por capitalizar nas melodias e na emoção que estas transportavam através do seu sopro no trompete. Ao invés de se sentir obrigado a tocar uma nota no sítio certo, a cumprir a pauta à regra ou a desatar a improvisar com uma velocidade implacável, priorizava a sua tremenda criatividade e sensibilidade melódica. E talvez não haja melhor exemplo de tal do que em In A Silent Way. Aqui, liberta-se de quaisquer regras da teoria musical e metaforicamente rasga as insuficientes e limitadoras pautas. Nunca em qualquer outro disco até então alguém soou tão livre dos limites habitualmente impostos aos músicos de jazz. O resultado é simplesmente brilhante. Sempre complementado pelos restantes membros, existe uma espécie de ecossistema sonoro onde este álbum existe que é inteiramente único de qualquer rótulo ou simplificação estilística. Um ambiente algo calmo, mas dinâmico ao mesmo tempo. É constante e sensível ao ouvido uma espécie de revestimento superficial onde o ritmo marcado pelo contrabaixo persiste, mantendo a coerência e a conexão entre todos os outros instrumentos, enquanto estes se soltam a cada segundo, dando lugar a uma camada obscura em constante e exponencial inquietação. Uma tensão que nunca chega realmente a quebrar de modo satisfatório e que nos deixa sempre a desejar mais cada vez que o ouvimos. Mas é essa angústia, essa incerteza nas notas que são tocadas, que são a grande dádiva do disco e que o tornam como nada mais no mundo do jazz. Isto é, até aquela altura. Pois, por fim, como terceiro motivo pelo qual merece ser relembrado como um momento único na história da música é o facto de ser um álbum especialmente relevante na evolução artística pessoal de Miles Davis e na do jazz como um todo. Representa não só uma transição do seu período acústico para o elétrico, dando lugar a pianos e guitarra elétrica, assim como sendo o seu primeiro disco de “fusão”, marcando assim uma nova etapa não só nos seus seguintes trabalhos de estúdio como performances ao vivo. Ora, sendo pioneiro como sempre foi ao longo de toda a carreira, In A Silent Way marca, por isso, não só um ponto de viragem na sua carreira como do restante panorama sonoro do jazz e mais ainda (com alcance até ao rock). Enquanto anteriormente já teria dado a conhecer ao mundo o “cool jazz” em Birth of the Cool, ao “modal jazz” no magnífico Kind Of Blue, seria agora a vez de introduzir o “fusion jazz” (“Well, I’ve changed music five or six times”, confessou a Nancy Reagen, ex-primeira dama dos EUA, quando esta lhe perguntou a razão pela qual ele estava presente num jantar na Casa Branca). Esta vertente seria mais tarde desenvolvida pelo próprio, incluindo no famoso Bitches Brew e pelos seus contemporâneos. O nível de experimentação foi de tal maneira inesperado e audaz que fez com que o disco fosse, à época, relativamente mal recebido. Ninguém sabia o que fazer com aquilo. Havia quem nem o considerasse jazz. E quem somos nós, privilegiados ouvintes do futuro para os julgar? Não havia nada que se lhe comparasse, nem sítio por onde se pegar. Soava diferente e vindo do futuro. Agora, com o passar do tempo e depois de se mostrar incrivelmente influente na cena musical do início da década de 70, apesar de continuar excêntrico e futurista, é seguro afirmar que é não só à frente do seu tempo como um dos eternos clássicos do jazz.

  • O populismo de esquerda por dentro

    O populismo de esquerda apareceu entre a última parte da década de noventa e o início do século e, no sul da Europa, obteve os seus melhores resultados durante os tempos da austeridade. Os partidos do populismo de esquerda são produto de histórias variadas, que quase desapareceram da memória coletiva, particularmente em Portugal. O SYRIZA nasceu em 2004, baseando-se em vários partidos da esquerda que ou se opunham ou derivavam do Partido Comunista Grego. Em 2015 apresentou-se com sucesso como a alternativa contra a austeridade imposta pelos partidos do centro, que governavam a Grécia desde a década de setenta. Apesar disto, o governo de Aléxis Tsípras mostrou pouco radicalismo, mantendo a maior parte das políticas de austeridade que tinha anteriormente criticado. Em 2018, o Bloco de Esquerda e o Podemos decidem abandonar o Partido da Esquerda Europeia (que inclui o SYRIZA) e criar o movimento Agora o Povo, como forma de protestar contra a conduta do governo grego. O abandono da política radical consolidou-se ainda mais em 2023, quando Stéfanos Kasselákis, um centrista assumido, se tornou líder do partido. O resultado foi a saída de parte dos militantes que acabaram por criar o Nova Esquerda, claramente mais esquerdista e alinhado com o Agora o Povo. Enquanto principal partido do governo grego, o SYRIZA assumiu rapidamente um posicionamento mais centrista, o que causou o aparecimento de um novo partido à sua esquerda (diminuindo o número de representantes no Parlamento Helénico) e a perda da enorme popularidade de outrora. O movimento contra a austeridade em Espanha teve como resultado político o aparecimento do Podemos. O partido foi a votos pela primeira vez em 2015, onde elegeu 49 deputados, o seu melhor resultado. Entre 2016 e 2019, esteve inserido na Unidas Podemos, que incluía tanto a Esquerda Unida como o Podemos, sendo claramente liderada pelo partido de Pablo Iglesias. Depois dos maus resultados nas municipais e regionais espanholas e da demissão de Pablo Iglesias, o Podemos acabou por aceitar tornar-se parte da Sumar, liderada pelo Movimento Sumar, o novo partido de Yolanda Díaz, que tinha sido anteriormente a coordenadora da Esquerda Unida galega e que permanece membro do Partido Comunista Espanhol. O momento que determinou derradeiramente o desaparecimento do Podemos da cena política espanhola foi quando em 2023, depois de lhe terem sido recusados quaisquer ministérios no terceiro governo de Pedro Sánchez, saiu da Sumar, limitando-se apenas a 4 deputados. O Podemos perdeu completamente o seu anterior ímpeto, criando a oportunidade para o Movimento Sumar, sucessor informal da Esquerda Unida, se tornar o partido determinante da esquerda espanhola. Resta-nos o Bloco. Foi criado na última metade da década de noventa, produto de um acordo entre a UDP hoxhaísta, o PSR trotskista e o Política XXI, constituído por dissidentes do PCP. Destes, o PXXI representava a esquerda mais moderada. É relevante constatar que o movimento abandonou o BE em 2014, consequentemente, os membros desta ala mais moderada, como o atual comentador Daniel Oliveira e Ana Drago abandonaram também o partido (o histórico líder do PXXI, Miguel Portas, faleceu em 2012). O PSR e a UDP não se constituem como correntes internas do Bloco desde 2013, apesar disto, os seus principais líderes, Francisco Louçã e Luís Fazenda respetivamente, patrocinaram as novas correntes que se tornaram dominantes no partido. Catarina Martins torna-se co-coordenadora nesta altura, em 2012, representando este novo período da vida do partido (a sua candidatura foi também apoiada, ou mesmo proposta, pelo seu antecessor). Neste sentido, o Bloco acaba por contrastar com outros partidos equivalentes na Europa. Yolanda Díaz, líder do Sumar em Espanha, abandonou publicamente a Esquerda Unida em 2019. Apesar de muitas disputas internas, a corrente dominante do SYRIZA, os «renovadores» vindos do Synaspismós, tinha abandonado o comunismo do KKE (Partido Comunista Grego) depois da queda da União Soviética no início da década de noventa. Destes, o Bloco é o único no qual a corrente mais radical, associada inicialmente à UDP e ao PSR, acabou por vencer a disputa pelo controlo partidário. Desde a sua entrada na política nacional que o Bloco é considerado encontrar-se entre o Partido Socialista e o comunismo mais «tradicional» do PCP, mas não é possível apontar nenhum momento claro de quebra com o radicalismo dos partidos que o constituíram. O próprio posicionamento do partido não se tem revelado propriamente constante, tendo mudado claramente na última década relativamente a temas centrais, como a moeda única. Resta questionar se abandonou mesmo o radicalismo, acompanhando outros equivalentes na Europa, ou se será o que resta da perspetiva revolucionária que determinará o seu posicionamento. Por enquanto o mistério mantém-se, o Bloco é o partido mais imprevisível da esquerda portuguesa. Mariana Mortágua tornou-se coordenadora nacional há cerca de um ano e tinha apenas 12 anos quando foi fundado o BE. Representa bloquistas que estão cada vez mais distantes das nuances políticas que marcaram o início de vida do partido que lidera. O próprio Bloco fez 25 anos este ano e, admitindo que na política os movimentos internos dos partidos os moldam tanto como o próprio eleitorado, é possível que Mortágua encaminhe o partido a assumir as políticas que os eleitores esperam. O mandato desta coordenadora nacional vai ser verdadeiramente importante, tendo esta a oportunidade de adaptar o Bloco ao seu tempo e à Europa, e quebrar com o discurso constantemente protestativo, que tem limitado consideravelmente o possível eleitorado do partido.

  • Europa, mudei a casa

    Corre no Parlamento Europeu um velho ditado que diz que o primeiro mandato de eurodeputado serve para perceber como tudo funciona, o segundo para o deputado se afirmar e o terceiro para preparar a chegada da geração seguinte. Ser eurodeputado requer experiência. Surpreende então que Portugal seja o estado-membro com as listas mais remodeladas em 2024, depois de cinco anos em que a delegação portuguesa foi a terceira com mais influência no PE, de acordo com o EU Matrix. No cenário mais “otimista”, só dois dos atuais vinte e um eurodeputados serão reeleitos. E isto deve-se a vários fatores, como o facto de quatro dos seis eurodeputados do PSD terem sido chamados a integrar o novo governo, o que também aconteceu com o eurodeputado único do CDS-PP, agora Ministro da Defesa, Nuno Melo. Mas a necessidade de “refrescar” as listas tem uma primeira causa central: combater a abstenção. De 1987 (ano das primeiras europeias) a 2019 (ano das últimas), fomos dos 30% de abstenção a pouco mais de 30% de participação. Não seria escusado falar aqui de uma “maioria silenciosa”, que representa quase 70% dos eleitores, mas cuja voz não é ouvida em Bruxelas. Por isso se renovam as listas. As eleições europeias são ganhas por quem consegue “levar” mais gente a votar. E os cabeça-de-lista do PS e da AD deste ano são um testemunho disso. O PSD em 2019 elegeu seis deputados, menos três que o PS, que ganhou as eleições. O atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, foi o cabeça-de-lista, e que acabou o seu terceiro mandato como o 15º deputado mais influente do PE. Desta vez, o rumo tomado não poderia ter sido mais diferente. Luís Montenegro escolheu Sebastião Bugalho, agora ex-comentador político, de vinte e oito anos, cuja única experiência política anterior fora um quinto lugar na lista do CDS por Lisboa. Mas se a experiência foi negligenciada, pelo menos comparando a 2019, o mediatismo foi privilegiado – numas eleições que não se disputam somente no plano do combate à abstenção, como referi acima, mas que têm sido encaradas como uma segunda volta das legislativas, ou melhor, uma primeira volta das próximas. 9 de junho será o barómetro através do qual os partidos – nomeadamente o PS e o Chega - avaliarão a confiança dos portugueses no Governo e a margem que terão para o derrubar na votação do Orçamento de Estado. A estratégia do PS não terá sido muito diferente da AD. Os portugueses conhecem bem Marta Temido dos tempos da pandemia, altura em que foi Ministra da Saúde, e se acusam Bugalho de só ser conhecido na “bolha” mediática, sem dúvida que a projeção de Marta Temido é maior. Isto numas eleições que se seguem à derrota do Partido Socialista nas legislativas: duas derrotas eleitorais seguidas não seriam um bom começo para o consulado de Pedro Nuno Santos como secretário-geral do PS, que se depara com fraturas internas que o enfraquecerão caso não consiga um bom resultado. A preferência pelo mediatismo e a necessidade que tem o PS de não perder estas eleições explicam o porquê do segundo e terceiro candidatos na lista dos socialistas, Ana Catarina Mendes e Francisco Assis, serem, de longe, figuras com mais experiência política, nacional e europeia, que Marta Temido, mas que talvez não dessem tantos frutos nas urnas. As escolhas do resto dos partidos apontam no mesmo sentido. O BE optou pela ex-líder Catarina Martins, que substitui a agora deputada Marisa Matias como cabeça-de-lista, e a IL anunciou já em novembro outro ex-líder, João Cotrim de Figueiredo. Mais uma cara conhecida, para somar a um comentador, uma ex-ministra, e à última coordenadora do Bloco. Depois há o caso do Chega, que não deixou de me surpreender. Aos olhos do que ocorre na Itália (e na Croácia), onde três líderes partidários, inclusive a primeira-ministra Georgia Meloni, concorrem como cabeça-de-lista às europeias sem intenção de ir para Estrasburgo, não seria de espantar que um partido unipessoal como o Chega, cujo sucesso assenta – assim como acontece com todos os partidos da direita populista – no líder carismático, o colocasse a disputar as europeias. Se não Ventura, talvez Rita Matias, que viaja várias vezes a Bruxelas em encontros do ID (Identidade e Democracia), o grupo parlamentar a que pertence o Chega e no qual estão representados os partidos Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, e a Liga Italiana, de Matteo Salvini. Face ao que verificamos noutros partidos, António Tânger Correia está longe de integrar o perfil mediático preponderante, e é de alguma ironia o facto de ser o Chega a fugir à regra. Nestes próximos cinco anos em que se decidirá muito do futuro da Europa e do mundo, em que se assistirá a uma viragem à direita no PE que terá um grande impacto na União, com a guerra na Ucrânia e a necessidade renovada de uma aposta europeia em defesa, em que se decidirão os alargamentos a leste e o futuro da coesão, e o desenvolvimento da questão climática (alterações ou emergência, como lhe queiram chamar), os eurodeputados portugueses estarão no estágio de «perceber como tudo funciona», como diz o ditado parlamentar. É certo que há muita experiência, e acima de tudo competência, mas, será que a total renovação será remotamente positiva? Creio que não. Talvez Lídia Pereira, quinta na lista da AD, e que será eleita para o seu segundo mandato, possa acompanhar todos os vinte e um eurodeputados da delegação portuguesa e mostrar-lhes os cantos da casa.

  • Da Ruína à Glória

    Corria o ano de 2019. Era Marcel Keizer quem comandava os Leões, depois da saída de Peseiro, em Novembro de 2018. Lembro-me bem de estar sentado no meu lugar em Alvalade e ouvir, inicialmente vindo apenas das bancadas sul, o famoso cântico que perguntava a Varandas o que ali fazia e dizia que a “presidência não é lugar” para ele. Mas rapidamente, de jogo para jogo, o cântico passou a ser entoado um pouco por todos os setores. De repente, o Presidente eleito há apenas um ano com 42% dos votos dos sócios do Sporting era agora odiado por quase todos. (Tenho bem guardada nas minhas memórias de infância a agressividade com que se pedia a demissão a Godinho Lopes, mas agora tudo era diferente.) Lembro-me de estar nesse, até hoje, meu lugar, olhar à volta, e pensar que clube era aquele. Tinham sido 14 anos de devoção ao Sporting, sem praticamente ganhar títulos. O clube tinha estado à beira da guerra civil, mas tinha aguentado, e elegeu um Presidente que eu acreditava ser capaz de inverter o rumo da história, mas as coisas não pareciam estar a andar para a frente. Tinha como lema de campanha: Unir o Sporting. Mas que união? Um estádio inteiro a pedir-lhe a demissão e constantes confrontos nas bancadas entre brunistas e não brunistas? Era difícil perceber como é que ia unir um clube assim, mas Varandas lá sabia. Tinha bem pensada uma verdadeira revolução silenciosa. Antes de mais, precisava de limpar a herança que recebeu. Importa perceber o que encontrou Frederico Varandas em Setembro de 2018. Será que tinha obrigação de começar em grande? 2018 foi para o Sporting como 1945 foi para a Alemanha, era preciso recomeçar. A tensão entre jogadores, staff e dirigentes era um problema grave e nunca visto naquela escala. Mas a questão financeira, poucas vezes vincada, foi um dos grandes fatores que contribuiu para o falso arranque de Frederico Varandas. Antes de ganhar era preciso equilibrar contas, aliás, só equilibrando as contas seria possível ganhar. No dia das eleições de 2018, Sousa Cintra anunciava as contas do ano do Sporting, que mereceram o seguinte título da Sapo: “As contas vermelhas do Sporting”. Eram 19.9 milhões de prejuízo e um Sporting em falência técnica. Para além disto, à data das eleições, o clube detinha apenas 66% da SAD (e as previsões eram que viesse a perder a maioria). Foi esta a herança financeira de Bruno de Carvalho. Outra questão muito importante da herança 2018, que se confunde entre a tensão dentro da estrutura e o declínio financeiro, é a questão das rescisões. Foram nove os jogadores do plantel principal do Sporting que rescindiram contrato após o fatídico 15 de Maio, invocando justa causa. Sendo que três acabaram por regressar, Bas Dost, Bruno Fernandes e Battaglia. (Nenhum Sportinguista se esquece da imagem de Bas Dost no Jamor perdido de 2018, e esse é para mim o retrato mais simbólico da herança Bruno de Carvalho.)  Dois negociaram a saída, William e Rui Patrício. E outros quatro tiveram, ou têm ainda, processos mais complicados: Gelson Martins, Podence, Rafael Leão e Ruben Ribeiro. É importante referir que Rafael Leão poderia, porventura, ter vindo a ser a maior venda de sempre do Sporting, maior do que qualquer indeminização que o Sporting recebeu ou venha a receber por ele. Leão era ouro para o Sporting.  E o ouro desperdiçado é também parte da herança Bruno de Carvalho. O ápice da herança Bruno de Carvalho é o ataque à academia, a 15 de Maio de 2018. (Não estou com isto a dizer que Bruno de Carvalho tem envolvimento direto no caso, mas apenas que a invasão é o culminar de uma série de situações de que Bruno de Carvalho é responsável). E Frederico Varandas é eleito na madrugada de 9 de Setembro do mesmo ano. Algum sócio do Sporting, no pleno das suas capacidades, poderia achar que um Presidente eleito 115 dias depois do dia mais negro da história do clube tem obrigação de apresentar resultados nos primeiros meses ou mesmo anos? A razoabilidade diria que não, mas, como vimos, eram muitos os que desafiavam a razão. É verdade que a gestão do futebol no primeiro ano e meio de mandato parecia ser absolutamente danosa, mas quem era o treinador que queria treinar aquele Sporting? Varandas tinha “desculpa” para a aparente má gestão desportiva do início de mandato. E por mais amor que se tenha ao Sporting e, consequentemente, exigência com a estrutura dirigente, não se vai do péssimo ao ótimo em meio mandato, não há milagres na gestão do futebol e nenhum sócio do Sporting tinha o direito de o exigir. E a verdade é que, no meio deste 2019 tão turbulento, o Sporting ganha a Taça da Liga e a Taça de Portugal. Desta forma, Frederico Varandas, até no seu ano de “gestão danosa”, consegue ter o dobro dos títulos do que Bruno de Carvalho desde 2016 até ao seu fim. O dia D de Frederico Varandas é o 5 de Março de 2020, dia em que Ruben Amorim é apresentado como treinador principal do Sporting. Um muito jovem treinador, que dava nas vistas em Braga pelos bons resultados frente aos grandes, em que Varandas decide investir dez milhões de euros. À data, ouvi acusar Varandas de tudo: era porque não tinha experiência, era porque tinha um passado no grande rival, era porque não se paga nunca dez milhões por qualquer treinador. Muitos consideraram ser um tiro no escuro, talvez os mesmos que hoje dizem que foi um mero “golpe de sorte”, e que Varandas cai no dia em que deixar cair Amorim. Ou seja, em 2019 o Sporting estava mal e a culpa era só do Presidente e agora o Sporting está bem e o mérito é só do treinador? Felizmente são cada vez menos a pensar assim. Frederico Varandas marca-se pela descrição, mas os seus resultados falam por si. Desde que chegou tem sete títulos de futebol masculino, dos quais dois campeonatos e uma final para jogar este domingo. Tem duas ligas dos campões em futsal e três em hóquei. (Seria injusto não referir que o Pavilhão foi construído por Bruno de Carvalho, e que muito terá contribuído para estes sucessos). E tem 88% da sociedade anónima face aos 66% de 2018. Varandas fez uma coisa que é rara tanto no futebol como nas outras áreas da sociedade: fez como Presidente aquilo que prometeu como candidato. Aquela união que em 2019 me era difícil perceber como é que seria possível, Varandas conseguiu-a da única maneira viável: ganhando! Fê-lo, como dizia ontem Carlos Moedas, porque sabe “rodear-se, ouvir e fazer”. Não sei como será o amanhã, se haverá dobradinha para a semana ou bicampeonato em 2025, mas sei que temos uma estrutura que tão cedo não nos deixa voltar a 2018. E também sei que hoje as crianças voltaram a querer ser do Sporting. E que ir para a escola ou para o trabalho à segunda-feira deixou de ser doloroso e passou a ser mágico. E isso não tem preço. Mas tem responsável: Frederico Varandas.

  • Dois poemas de José Maria Jardim

    José Maria Jardim é um saudosista, um romântico e um apaixonado. Nasceu no século errado e não se conseguiu adaptar às paixões de hoje em dia. Tem um forte instinto que está destinado à solidão e à desgraça, depois de tantas desilusões que foi tendo ao longo da sua vida. Se, quando eu morrer, olharem para o meu corpo, Naturalmente, verão a minha carne, mas não a minha alma. Fico descansado, pois a maravilha de tudo isso é que nada perdem. Na minha alma só se vê tristeza. Na minha alma não há vontade de viver. Na minha alma vê-se uma loucura incessante pela sua própria degradação. Que se dane a Igreja dos iludidos, Já não há pai nosso que valha para a ressuscitar… Ainda me recordo do dia em que a minha alma era alegre. O sorriso que não era meu alegrava-a e sustentava-a… Aí, era verdadeiramente feliz. Como tudo o resto na minha mísera vida, Esse sorriso desapareceu e, com ele… O amor, a alegria, a esperança e a vontade. Fui destinado a estar sozinho. Por isso, Se quiserem ver-me depois da minha morte, não vejam. Se quiserem pensar em mim depois da minha morte, não pensem. Basta que saibam que fui um preguiçoso infeliz. Ao menos, assim, deixei alguma verdade no mundo. José Maria Jardim Deambulo pela rua… Não sei, nem quero saber para onde vou, Apenas ando, e ando… e ando… Quero que a força do ar me bata na cara. Quero que me limpe as lágrimas reais, simplesmente reais. E, simultaneamente, quero que a chuva se misture e as agrave. Porque estou triste e cansado, com todo o direito a estar triste e cansado. Tenho sofrido meses a fio. Porque amar é outro universo. Tão diferente, que abalou tudo o que era meu e dos meus pensamentos. Agora, já não acredito em nada. Agora, já só quero ser nada. Agora, quero estar sozinho. José Maria Jardim

  • Será que o "não" de Montenegro é o "não" da AD?

    Montenegro reitera que "não é não", mas será também esta a resposta da AD como um todo? Em janeiro, o PSD coligou-se ao CDS e foi restabelecida a Aliança Democrática. Apesar da coligação à direita, Luís Montenegro, presidente do PSD, encabeçou um caminho de centralização do seu partido. No último domingo, a AD, em conjunto com a IL, não foi capaz de alcançar uma maioria de direita sem o Chega, voltando-se a colocar questões sobre um possível entendimento entre os dois partidos. Luís Montenegro disse mais do que uma vez que "não é não", mas vozes de senadores do seu partido, entre elas a de Pedro Passos Coelho, fizeram-se ouvir, argumentando que não se deveria desconsiderar um entendimento com o Chega. Estas opiniões surgem no contexto da história de um partido e, principalmente, de uma coligação, que não indica necessariamente a impossibilidade de um acordo com o partido de André Ventura. Depois do 25 de Abril de 1974, a expressão ‘fascismo nunca mais’ tornou-se uma parte emblemática do vocabulário político nacional e os políticos associados ao Estado Novo foram na sua maioria afastados do poder. Algumas personalidades políticas, no entanto, mantiveram-se ativas, apesar de quase sempre fora da atenção pública. Entre estas destaca-se Diogo Pacheco de Amorim, uma das principais figuras do partido Chega, que fez parte do MDLP, movimento paramilitar liderado por Spínola, na década de 70, e do MIRN, partido neo-salazarista, na década de 80, e que acima de tudo foi militante do CDS durante a maior parte da sua vida. Para além de se organizar esporadicamente em pequenos partidos, a extrema-direita portuguesa refugiou-se principalmente nas fileiras do CDS. Também Pedro Pinto e António Tânger Corrêa foram militantes do CDS, este último chegando a ser adjunto de Diogo Freitas do Amaral quando este foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro governo da Aliança Democrática. Para além de voltar a querer coligar-se com o CDS, partido historicamente ligado à extrema-direita e que não elegeu nenhum deputado ao Parlamento nas últimas eleições legislativas, o PSD de Luís Montenegro decidiu incluir também nesta nova AD, o PPM, que desde a saída de Gonçalo Ribeiro Telles, líder histórico do partido e admirado opositor ao Estado Novo, em 1993 se virou claramente para a direita. O PPM acabou mesmo por se coligar com o Chega para as eleições europeias de 2019. O atual presidente do PPM (que acabou por não ser eleito deputado), em entrevista à Antena 1, defendeu um entendimento com o Chega dois dias depois da ida a votos. Desde 1979, quando foi formada a primeira Aliança Democrática, que o PSD aceita a presença da extrema-direita nos seus governos. Não é nenhuma surpresa ser Pedro Passos Coelho a apelar a um acordo com o Chega, tendo ele próprio governado em coligação com o CDS de 2011 a 2015. Vale a pena relembrar também o ano de 2017, quando André Ventura era candidato pelo PSD nas autárquicas em Loures, em que Passos Coelho (ao contrário do CDS) nunca deixou de apoiar a sua candidatura, mesmo depois de uma série de comentários radicais. André Ventura militou 17 anos no PSD, tal como muitos outros líderes do seu partido. Os veteranos do partido de André Ventura, que foi fundado apenas em 2019, fizeram as carreiras como militantes do CDS e do PSD. Percebe-se, tendo em conta a sua história, que a Aliança Democrática se divida entre voltar a convidar a extrema-direita para o centro de decisão política e honrar as repetidas palavras do seu atual líder: "não é não". Será que a ala passista do partido deixará passar uma oportunidade para governar 4 anos, ou sairá Luís Montenegro vitorioso desta disputa interna?

  • Este país não é para os jovens

    No último domingo, ocorreram as eleições mais importantes dos últimos tempos. Com os últimos 8 anos de fiasco social e económico providenciados pela esquerda e pelo PS, este 10 de Março tinha tudo para correr bem à AD e à direita portuguesa. Com toda a corrupção do PS desmascarada, com todas as greves e descontentamento popular e com todas as crises criadas pela esquerda por resolver, Luís Montenegro estava num lugar intocável e com todas as condições para criar uma onda laranja (e um bocado de azul) pelo país inteiro. Contudo, os resultados ficaram longe do ótimo, pelo menos para a direita. Ainda com os deputados dos círculos da Europa e Fora da Europa por apurar, as projeções dão um resultado de vitória ao PSD. Uma vitória por dois deputados (80 – PSD/CDS-PP e 78 – PS), sendo uma derrota da AD-IL frente à esquerda. Como jovem com dificuldades de perceber o meu lugar em Portugal no futuro, vítima destas políticas de anti crescimento económico que resultaram no meu irmão ter que emigrar, não me cabe na cabeça como é que o PS ainda tem tanta força. Mesmo depois de, em 15 meses, 13 ministros do antigo Governo se demitirem por escândalos (sendo que um deles foi candidato a Primeiro-Ministro. Só acontece mesmo em Portugal!), depois de toda a corrupção do sistema feita pelo PS e de grande parte das famílias portuguesas verem os seus filhos obrigados a abandonar a pátria para ter uma vida decente e os que cá ficaram não verem um futuro à sua frente. Ao analisar os resultados destas eleições consigo perceber duas coisas mais que evidentes. A primeira é que Portugal não vai mudar e não vai crescer enquanto a geração de Abril cá estiver. Olhando para as idades médias dos eleitores de cada partido, é possível ver que o PS tem uma popularidade incomparável com os cidadãos mais velhos, que viveram parte da sua vida durante o Estado Novo e viram o Partido Socialista como herói da Revolução dos Cravos. Estes são os cidadãos que são incapazes de votar à direita e que veem Pedro Passos Coelho como o lobo mau. E é por causa destas pessoas que o PS tem estado nos últimos 28 anos, 21 a governar e, consequentemente, Portugal não ter mudado para melhor, ter-se tornado toxicodependente da União Europeia e dos seus fundos, sem políticas de crescimento económico. A outra é que houve uma enorme resistência ao PSD, resultando no aumento do Chega. Porque digo então que a direita perdeu com estas eleições se o Chega aumentou os votos? Existem duas razões. Primeiro, devido ao orgulho, soberba e teimosia do PSD um acordo com o Chega, pelo menos com Luís Montenegro na liderança, está fora de questão. Este já descartou, até mesmo depois dos resultados, o referido partido para integrar a solução do país. E se não conseguir formar governo neste momento, o que não consegue sem o Chega ou o PS, creio que não terá hipóteses de ganhar as eleições outra vez. Se nestas estava numa posição fácil para ganhar, então duvido que ganhe depois de criar instabilidade política ao país. Até vou longe o suficiente para dizer que o Chega é capaz de se fortalecer ainda mais, pelo crescente descontentamento que há pelo PSD e pelo bloco central. E para os mais céticos, apelo a que olhem para a Holanda, Itália, Hungria, Alemanha, Suécia, Finlândia, tudo países em que partidos controversos e pouco populares aquando da sua criação fazem agora parte do Governo, em alguns a liderar, noutros como segunda força política. A segunda razão pela qual digo que a direita não ganhou nestas eleições é pelo puro facto do voto no Chega não ser um voto na direita. Relembro que em termos económicos o Chega moderou-se tanto ao ponto das suas políticas serem comparadas às do Partido Socialista no debate com Rui Rocha. Para além disto, um voto no Chega para muitos é quase como um voto branco que funciona. Um voto de protesto que afirma que não estão contentes com o resto, daí defender a resistência que houve em votar AD. O PSD é um partido do passado com preocupações e soluções antigas que não refletem os portugueses. Por exemplo, acho inadmissível no programa da AD falar tão pouco e tão vagamente de políticas de imigração, sendo este um tópico que já mais de metade dos portugueses acha fulcral ser tratado. O resto ou é mais do mesmo ou são políticas de um PS moderado que não vão acrescentar assim tanto a Portugal e não vão fazer a mudança que é necessária. Com um futuro incerto pela frente para todos, posso dizer que estas eleições foram um dos maiores falhanços para a direita em Portugal, para os jovens portugueses, e para o futuro desta tão grande Nação. Fico dececionado. Pergunto-me quando é que os jovens terão lugar neste meu Portugal.

  • O Voto Certo: CHEGA!

    Nestas eleições, pela primeira vez em muitos anos, temos uma “guerra” em três frentes. À esquerda temos o Partido Socialista, ao centro-direita temos a Aliança Democrática e à direita temos o Chega. Num lado temos a incapacidade, o Partido Socialista, cujos últimos três primeiros-ministros saem do cargo por meio de uma demissão, onde temos ministros que gerem empresas por WhatsApp, onde o cargo de ministro não demonstra confiança aos portugueses… Teria de escrever um romance para enumerar todos os erros cometidos pelo Partido Socialista. No meio temos a hipocrisia e a incoerência, a Aliança Democrática. É constituída por três partidos PSD, CDS-PP, PPM, sendo o segundo seguidor da Doutrina Social da Igreja. Ao darem a hipótese de se coligarem com um partido como a Iniciativa Liberal, vão contra “tudo” aquilo que a Igreja Católica acredita! Devemos votar num partido que não é fiel aos seus próprios princípios? Dizem também que querem combater a corrupção, mas não parece. Do prório PSD assitimos desde o Caso Tutti-Frutti, até mais recentemente ao caso de Miguel Albuquerque, sendo que muitos dos envolvidos ainda desempenham cargos dentro do partido! Quanto à incoerência, esteve sempre muito presente durante a campanha eleitoral. Logo no início com declarações do presidente do CDS-PP, dizendo que viabilizaria um governo socialista, depois “corrigindo-se”. Na questão do aborto a AD contradiz-se: por um lado, o Vice-Presidente do CDS-PP afirma “logo que seja possível, procurar convocar um novo referendo no sentido de inverter esta lei”. Pouco depois, uma candidata a deputada pelo PSD, publicou com a  AD nas redes sociais um vídeo a explicar que a AD em relação ao aborto, “jamais aceitaria andar  para trás”. Por último, o candidato por Santarém da AD fez umas declarações dizendo que as alterações climáticas são “teorias da conspiração”, levando o presidente da AD a depois dizer que o candidato fez apenas “alertas”. Devemos então votar numa coligação que é hipócrita e incoerente? No outro lado temos o Chega, o partido que quer reformar a justiça, que mais apresentou propostas contra a corrupção, “apesar de não ter soluções”, segundo os restantes partidos… O partido que apresentou 501 propostas para o orçamento de estado, o partido que mais propostas fez! Mas não tem soluções, não é? O Chega quer dar mais àqueles que precisam e tirar aos que não precisam, implementando novos mecanismos de fiscalização no que toca ao RSI. Quer criar mais  PPP’s, para que TODOS tenham um melhor acesso à saúde. Quer dar aos jovens a possibilidade de viver em Portugal com o restabelecimento do Crédito Jovem Bonificado com linhas de crédito específicas destinadas a jovens que desejam adquirir a sua primeira habitação. Quer isentar os jovens do pagamento de IMI, IMT e Imposto de Selo na compra da primeira habitação. Por fim pergunto, o que é ser português? Não estou a falar em alguém que possui apenas o cartão de cidadão português (pois isso hoje em dia arranja-se mais facilmente que um Calippo de Coca-Cola), estou a falar de ser português em valores e espírito! Alguém hoje em dia consegue responder a essa pergunta? O Chega quer mudar isso! Queremos voltar a ser um país próspero, com fronteiras, valores e identidade! O Chega quer reformar a lei da nacionalidade tornando-a mais restrita! Quer ser mais restrito à imigração, para que os imigrantes possam viver em condições dignas! Pois, infelizmente, o estado neste momento não consegue dar a tantos essa vida que merecem. O Chega quer transformar Portugal! E, para isso, não podes votar nos mesmos que governam há 50 anos! Dia 10 Vota por Portugal, e diz CHEGA aos do costume!

  • O Voto Certo: Partido Socialista

    No próximo domingo, somos chamados às urnas para escolher o futuro do país. Estas eleições acontecem no ano em que comemoramos os 50 anos do 25 de abril de 1974, da revolução que nos deu a liberdade, a democracia e o progresso, libertando todo um povo das amarras injustas de um regime fascista, promotor de um atraso estrutural do nosso país quando comparado às outras nações europeias, que muito difícil se mostrou de combater. A história do PS e a história das conquistas que a democracia e o 25 de abril trouxe a Portugal confundem-se. Foi abril que nos trouxe as liberdades e a democracia mas foi verdadeiramente o PS que desde a primeira hora se bateu para as manter e aprofundar quando muitos se queriam desviar deste caminho à esquerda e à direita. Há, então, um longo legado que o PS carrega consigo e que o valoriza. Desde a criação do SNS (com o voto contra do PSD), à luta pela liberdade sindical, passando pela garantia da escola pública e do direito ao aborto, há muito que é o partido que verdadeiramente se bate por um país mais desenvolvido e solidário, que não deixa ninguém para trás, e, pelo contrário, leva todos para a frente. Este legado pesa no meu voto, mas não só. Para dizer que o voto no PS é um bom voto temos necessariamente de olhar para os últimos oito anos de governação. Este exercício deve ser feito tendo em conta o país que havia em 2015, analisando o que se fez, mas não esquecendo que mais importante do que essa visão em retrospetiva, há naturalmente um futuro do país para o qual se tem de dar respostas. Enquanto jovem escolho olhar para o que fizeram pela minha geração e sei bem o que o PS fez por mim nestes últimos 8 anos: reduziu as propinas em mais de 360 €, tornou gratuito os passes para estudantes até aos 23 anos, tornou os manuais escolares gratuitos, criou o IRS Jovem, aumentou as bolsas de mestrado e garantiu no geral um aumento das bolsas de estudo no ensino superior, aumentou 78% o número de camas nos alojamentos universitários, criou a devolução do valor das propinas para os jovens que fiquem em Portugal, incentivando-me a mim e a todos a aqui ficarem, combatendo a emigração jovem que desceu consideravelmente desde 2015. Enumerar todos os avanços levar-me-ia a um texto sem fim. No entanto, não quero deixar de sublinhar as contas certas, reduzindo a dívida para um número abaixo dos 100% do PIB, número histórico e que reflete a competência de quem geriu o país, e, que, finalmente, ao contrário do que muitos diziam e consideravam impossível, se conseguiram valorizando os rendimentos das pessoas e nunca, mas nunca mesmo, cortando nos apoios sociais. Pelo contrário o Salário Mínimo Nacional cresceu como nunca antes visto, as pensões aumentaram, as exportações idem, o país cresceu, feito reconhecido internacionalmente. Mas não me chega! Quero mais e é exatamente, por isso, que confio no PS para continuar o trabalho mas também para dar este novo impulso necessário para a valorização do nosso tecido produtivo e dos salários. Confio no programa que o PS apresentou aos portugueses porque responde às principais áreas que é preciso responder. Na habitação com a criação do Serviço Nacional de Habitação, aumentando o parque público de habitação e criando uma garantia pública para os jovens e na saúde com a integração da saúde oral no SNS. Sei que votando no PS posso contar com um governo virado para o diálogo, responsável e com uma visão clara de país – um país do progresso, da valorização das pessoas e da solidariedade social. O voto no PS é um bom voto porque garante que qualquer problema será sempre respondido de forma fraterna e nunca deixando ninguém para trás. É um bom voto porque já deu provas de conseguir lidar com situações difíceis. É, também, o único voto que garante um Primeiro-Ministro com provas dadas e com experiência governativa. Voto no PS porque não quero deixar o trabalho deste governo a meio e porque acredito que é possível fazer ainda mais em várias áreas, mas que só o PS o pode fazer porque conhece os problemas, muitos já resolveu e outros ainda tem energia para solucionar com este novo impulso.

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