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- O Chega, Europa-EUA e força no poder. Entrevista a Tiago Moreira de Sá
Tiago Moreira de Sá, antigo deputado do PSD, foi eleito nas eleições europeias pelo Chega, em junho deste ano. António Agulheiro, Duarte Amorim e Luís van Zeller estiveram com o atual eurodeputado para conversar sobre o seu trajeto político, a relação entre a Europa e os EUA e ainda as eleições americanas de amanhã. Começando pelo inevitável assunto – a sua transição do PSD para o Chega. Gostaríamos de perceber a que se deveu esta mudança. Por várias razões, de natureza ideológica, programática, estratégica, entre outras. A primeira razão consiste no facto de eu ser um homem de direita, conservador e católico. Sempre senti que faltava em Portugal um partido que se assumisse claramente, sem complexos, como tal. Quando apareceu um partido com estas características, desde a primeira hora que senti que era ali, naquele partido, que eu devia pertencer. Antes não havia, passou a haver. Depois, também não é segredo para ninguém, que eu sou um grande fã e admirador de André Ventura. Hoje em dia, até amigo. É um dos grandes políticos do século XXI português; é um animal político, no bom sentido, de um instinto político raro. É um político por quem eu tenho uma admiração profunda. Senti também, há muito tempo, que nós tínhamos um problema de representação que estava a minar a democracia representativa. Uma boa parte dos eleitores, do povo, deixou de ter representação, deixou de ser representado pelos partidos tradicionais. Isso coloca um problema sério à própria democracia. E estamos a falar de muitas pessoas. O Chega teve quase 18%, porque passou a representar uma grande parte, diria uma maioria silenciosa, do povo que precisava, e passou a ter uma representação no Chega. Isto é uma questão fundamental, porque tem a ver com a própria existência da democracia representativa. Tem de haver representantes a representar os representados. O mandato vem do povo. O povo tem de ter alguém a quem possa dar o mandato, numa relação de confiança. Os partidos tradicionais deixaram de representar os interesses das pessoas comuns. Quem não tem poder, quem faz parte de uma minoria, quem não é rico, deixou de ter quem lhe dê voz. Isso é muito visível em Portugal, mas também na Europa e nos EUA. Acho também que o sistema como está, não pode continuar. O sistema político – mas também a comunicação social, a justiça, etc. – precisa de uma mudança significativa, de um verdadeiro banho de ética. Hoje em dia o que nós temos é um sistema político incapaz de resolver temas como a saúde, a educação, sem suma de garantir o funcionamento do estado social em geral. Temos um Estado que se mete na vida de toda a gente, que sobrecarrega as pessoas com impostos, e que depois praticamente não dá nada em troca. Quando uma pessoa precisa do Estado, seja na educação, na saúde, no que for, o Estado não é capaz de dar nada em troca. O contrato social que sustentava o sistema está quebrado. Nós cedemos ao Estado um bocado da nossa liberdade, e quando ele não é capaz de cumprir na questão de segurança, da imigração, no Estado social, na educação, o sistema deixa de funcionar. Há mais razões para a minha mudança, mas não vos quero sobrecarregar. No plano estratégico, eu não percebo como é que tendo resultado uma maioria clara de direita nas últimas eleições, como é que foi possível desperdiçar esta oportunidade única de mudar o país, em troca de um “não é não”, de uma linha vermelha, que mais não é do que comprar a conversa da esquerda. Isto serve a esquerda, não a direita. Estamos a ser governados há quase 50 anos à esquerda e tínhamos pela primeira vez uma oportunidade de mudar significativamente as coisas com um governo de direita. Foi desperdiçado pela atual direção do PSD, que aceitou que lhe impusessem os termos em que pode agir e pensar politicamente – e eu recuso aceitar isso. Então esta ida para o Chega não tem volta nenhuma a dar? Não há nenhuma figura do PSD que, se avançasse para presidente do partido, o fizesse repensar? Não, ninguém, É uma decisão absolutamente irrevogável. Aliás, para mim era muito claro que o meu caminho e o de André Ventura iam-se cruzar para nunca mais separar. Isto é uma relação e um projeto para sempre. Para além disso, para além da questão pessoal, não tenho dúvidas que houve uma transformação sistémica no sistema partidário português. Deixou de ser bipartidário, isso veio para ficar. O Chega é um partido que continuará a crescer. Tem uma base social de apoio muito alargada e significativa, que veio para ficar. E não é só um fenómeno português, vemos isto em toda a Europa e no mundo ocidental. Os partidos com os genes do Chega, os partidos de direita popular, como eu gosto de dizer, estão a crescer em todo o lado. É algo estrutural. Não tenho dúvidas nenhumas que é deste lado que eu quero estar. É uma decisão irrevogável. Como é que avalia estes primeiros oito meses de Luís Montenegro e do governo da AD? Qual é o balanço que faz? Acho que é demasiado parecido com o anterior – o que diz muito. O que este governo tem feito é o que em larga medida fazia o anterior. Tem prometido tudo a todos, fingido que dá tudo a todos, ainda promete baixar impostos e fazer uma nova ponte sobre o Tejo e um novo aeroporto e TGV – pura e simplesmente isto não existe. Nós não temos condições em Portugal para tudo isto. Infelizmente, isto é uma consequência estrutural – e previsível – da estratégia de “não é não” e de “linhas vermelhas” do atual Primeiro-Ministro. A consequência prática do erro de recusar uma aliança à direita foi ficar dependente da esquerda para governar – e a esquerda agradece aplicando a sua agenda e as suas políticas de sempre e que nos conduziram a este estado de coisas. O que se espera de um governo de direita é: contas em ordem, capacidade de fazer reformas significativas nas áreas fundamentais de governação; redução do peso do Estado na vida geral das pessoas; baixa de impostos de uma forma sustentada; defesa da família, do direito à vida, da demografia; combate à imigração ilegal e desordenada – e nada disso tenho visto neste governo. Este governo, tal como o anterior, pensa que governar é prometer tudo a todos. Isso não é governar. Nós estamos numa altura em que é absolutamente crucial ter um governo verdadeiramente reformista, o mundo está a mudar a uma velocidade aceleradíssima. Estivemos 8 anos parados com os governos socialistas. Como diz o livro, Alice no País das Maravilhas , “Estar parado significa andar para trás”. As coisas no mundo funcionam a uma velocidade brutal. Com os governos socialistas, andámos para trás, e agora, como disse, desperdiçámos uma oportunidade única de ter um governo verdadeiramente à direita. Na verdade, temos um governo que está permanentemente em campanha eleitoral. Não só não está a fazer as reformas que o país precisa, como está a desbaratar aquilo que é uma das imagens da direita, que é a ideia do rigor das contas públicas. Para além disso, acho que ficou visível neste orçamento que continua a existir na governação um bloco central. Não é por acaso que o PS aprova o orçamento da AD. Estou convencido que o próprio Pedro Nuno Santos não teria aprovado, mas a pressão foi tal do sistema que viu-se obrigado a aprovar. Acho que isso diz muito sobre o que pouco distingue um governo do outro. E é pena porque de facto o país precisa de uma grande mudança, e nota-se a insatisfação das pessoas, com muita razão. O que é que o leva a crer que o Chega teria essa capacidade reformista, se chegar o dia de poder mostrar que tem? Desde logo pela sua própria natureza, é um partido verdadeiramente antissistema e isso é bom. É um partido que não se revê na forma como o sistema funciona - neste caso, como não funciona. Quem está comprometido com o sistema, quem de alguma maneira faz parte dos “privilégios” do sistema nunca muda nada. Ao longo da história, nunca ninguém que beneficiou de um sistema foi capaz de o mudar. A grande mudança tem de vir de quem nasce de fora do sistema. Em segundo lugar, sei bastante bem o que o Chega pensa nas várias áreas e na diferença muito grande que existe em relação à atual governação. Desde logo, na questão do peso relativo que existe entre o indivíduo, a família e o Estado. Atualmente, nós temos o Estado no centro de todas as coisas. O individuo e a família é que devem ser o centro de todas as coisas – esse é o princípio da liberdade individual. Como dizia anteriormente, o Estado só deve existir quando é estritamente necessário em nome de um bem comum superior. O que nós temos hoje em dia não é isso, mesmo dentro de nossa casa encontramos o Estado à frente. O Chega é um partido economicamente liberal e socialmente conservador. Depois, acredito que a governação tem uma dimensão fundamental de valores e ela para nós é muito importante. Defendemos os valores conservadores fundamentais da família, da natalidade, do direito à vida, da soberania e identidade nacional, a não cedência ao wokismo e às causas identitárias. É a luta contra essa agenda da esquerda que vem dominar o pensamento, infelizmente, até da própria direita que é preciso combater. Temos também a questão das grandes bandeiras que nós trouxemos para o centro do debate político e da ação política. A questão do combate à imigração ilegal e descontrolada que em Portugal já se começa a sentir de forma significativa, com grande incidência nos últimos três/quatro anos e que lá fora, em países como Itália, França, Bélgica, Suécia, entre outros, está a atingir posições dramáticas: e este será o nosso futuro se não fizermos nada. A questão do combate à corrupção; a questão da segurança, que agora bem se viu nos acontecimentos mais recentes e que nós temos vindo a alertar há muito tempo. Fomos nós que introduzimos estes temas fundamentais no debate e fomos acusados de ser radicais. Agora, muitos têm vindo a começar a falar destes problemas. São problemas reais e da vida das pessoas. Portanto, há um conjunto de causas e valores. Acima de tudo, reforço o facto de ser um partido antissistema, com vontade e capacidade de mudar o sistema e que tem uma visão diferente do contrato social, isto é, da relação que se estabelece entre o indivíduo, as famílias, a sociedade e o Estado. Neste momento temos o Estado acima de tudo e, depois, temos tudo resto a funcionar em função do Estado. Nós pensamos exatamente o contrário: no centro tem de estar o indivíduo, a liberdade individual, a família, depois a sociedade e depois o Estado. Há uma série de razões que justificam a diferença que o Chega vem representar. Acha que o podemos ver, um dia, a ser um protagonista do Chega, cá em Portugal? Eu acabei de ser eleito para o Parlamento Europeu. A minha área é a das relações internacionais, da política externa, por isso, o que eu me vejo a fazer é estar nesta área internacional. Neste momento acabei de assumir este mandato europeu muito entusiasmante. É um grande desafio. O Parlamento Europeu tem uma dimensão incomparavelmente maior do que Parlamento português e, cada vez mais, goste-se ou não, as coisas passam pela Europa, havendo cada vez menos verdadeiras soluções exclusivamente nacionais. Embora tenha de haver mais soluções nacionais do que tem havido. Nós somos europeístas, mas temos uma visão diferente da Europa e estou convencido de que a nossa visão é a única que pode salvar o projeto de integração europeia. Querendo nós que os Estados tenham maior capacidade para defender por si próprios o seu interesse nacional, também temos que reconhecer que, cada vez mais, as soluções passam também pela Europa e, num mundo que se encaminha para a multipolaridade, provavelmente organizada sob a forma de grandes espaços – o espaço americano, o espaço chinês e eventualmente, o indiano – vamos ter de conseguir conjugar as duas coisas. No Parlamento Europeu podemos servir muito o nosso país e, por isso, nos próximos cinco anos, eu vejo-me a fazer, com um grande entusiasmo e com cada vez mais conhecimento, o que estou a fazer agora. Pegando precisamente nessa importância que diz que a Europa tem, quem tem mais relevância nas vidas dos portugueses? É o eurodeputado Tiago Moreira de Sá, ou é o deputado nacional Bruno Nunes, por exemplo? Não é um ou outro, não é algo binário. Cada um tem a sua área de luta. O deputado nacional toma uma série de decisões que têm um impacto muito direto na vida das pessoas. O deputado nacional tem uma enorme importância. Apesar de estarmos a assistir aquilo que o Professor Adriano Moreira chamava “o presidencialismo do primeiro-ministro” e, de alguma maneira, os partidos do sistema foram esvaziando um bocadinho o Parlamento, sobretudo quando há um governo de maioria absoluta como aconteceu no mandato passado, o Parlamento continua a ter muita importância e toma um conjunto de decisões que têm um impacto muito direto na vida dos portugueses, seja a nível económico, seja a nível social, seja a nível ate dos valores. Lembro-me de, na minha altura [enquanto deputado nacional], debatermos questões, como a questão da eutanásia, que a nível de valores, tem um impacto enorme na vida das pessoas. Mas, também é verdade, que grande parte das decisões importantes para os países passa pela Europa e, nós temos de tomar um conjunto de decisões fundamentais. Nós, Europa, passados quase oitenta anos, voltámos a viver no mundo da guerra. Robert Kagan dizia que os europeus eram de Vénus (Deus do amor) e que os americanos eram de Marte (Deus da guerra), agora nós voltámos a viver no mundo de Marte e isso implica tomar um conjunto de decisões, desde logo ao nível da segurança e da defesa europeia. A defesa deve ser de competência nacional, mas é inevitável que também haja soluções europeias para fazer face ao mundo da guerra. O projeto de integração europeia, ao longo de várias décadas, tem sido, no essencial, bom para os Estados e bom para o seu interesse nacional. É por isso que ele continua a existir. Os Estados são livres de sair, como foi o caso do Brexit , logo se decidem não sair é porque consideram que é do seu interesse. No entanto, em tese, a transferência de soberania não é uma coisa boa – é uma coisa que os Estados fazem quando têm mais a ganhar com isso do que a perder. O princípio deve ser os Estados terem, em si mesmos, os instrumentos para defender os seus interesses nacionais, porque, se Portugal não defender os seus interesses, não vai ser, por exemplo, um alemão a defendê-los. Quando consideram que ganham mais em partilhar soberania do que em mantê-la, então aí decidem partilhar, como é o caso da moeda única. Apesar das dificuldades que a moeda única coloca a economias como à nossa, os Estados consideram que é do seu interesse. Nós somos realistas e soberanistas e, numa visão tipicamente realista, os Estados defendem melhor os seus interesses do que os outros. Dito isto, nós temos de reconhecer que há um conjunto de grandes decisões que os Estados já não têm força suficiente para tomar sozinhos, por exemplo, a nível económico e, então, acabam por ser decisões tomadas a nível europeu. Era impossível combater a crise do euro, ou a pandemia, ou as grandes catástrofes naturais de forma completamente nacional. Há um conjunto de assuntos em que a Europa tem um grande impacto, até porque grande parte da legislação europeia é incorporada na legislação nacional. É impossível não deixar de falar dos Estados Unidos da América. Sem olhar a eleições e a partidos, de um modo geral, qual é a influência, atualmente, que a América tem na Europa? É uma influência enorme e crucial e para Portugal é uma relação essencial pela geografia. A relação entre a Europa e os EUA tem vários momentos históricos. Pelo menos, a partir das duas guerras mundiais, a segurança e a sobrevivência dos europeus e dos americanos cruzam-se, o que dura até aos dias de hoje. Goste ou não se goste, a Europa ainda é dependente dos EUA para garantir a sua segurança, sobretudo pelo “guarda-chuva” nuclear americano. E aquilo que nós nunca poderemos abdicar é a segurança e a sobrevivência. Por isso, é do nosso interesse fundamental ter uma boa relação com os EUA, seja quem for o presidente norte-americano, e é assim que tem sido durante todo este tempo, com os presidentes mais diferentes entre si. Para além disso, a Europa e os EUA partilham um conjunto de valores. Uma identidade de regimes, a democracia, uma mesma conceção de liberdade, uma relação de Estado e direito, de separação de poderes, de checks and balances. Por isto também, esta relação tem sido crucial e deve continuar a ser. No entanto, também é do interesse da Europa deixar de depender tanto como depende dos EUA, nomeadamente em termos de defesa. Não podemos continuar a depender dos EUA para tudo e mais alguma coisa, embora o princípio da nossa defesa comum deva sempre ter no centro a Aliança Atlântica, que é absolutamente fundamental. A NATO é o instrumento crucial desta aliança, não é por acaso Portugal, mesmo num regime de Estado Novo, aceitou algo tão revolucionário como fazer parte de uma aliança militar permanente como um artigo - o quinto - que diz que um ataque contra um é um ataque contra todos. Já não vou tão longe como o Professor Borges Macedo que diz que a nossa tradição é uma tradição de neutralidade, porque isso é discutível, mas nunca tínhamos feito parte de uma aliança militar permanente desta natureza, isto porque o Atlântico é fundamental para nós. E agora tirando o véu de ignorância e focando-se nesta eleição que está à porta. Se não estou em erro, corrija-me se estiver, votaria em Donald Trump, caso pudesse votar ... Não faz sentido responder. Sou português, não sou americano. Compete exclusivamente aos americanos escolherem quem querem para seu Presidente e nós temos de respeitar isso. Não escondo que vejo com muita preocupação a atual fraqueza e – perceção de fraqueza – internacional da América. Com consequências para a segurança de todo o mundo ocidental, incluindo Portugal e a Europa. Há muita gente, ao centro-direita, e não só, que tipicamente votaria ou apoiaria o candidato republicano, mas que não o faz agora apelando, precisamente, a razões europeias; que Trump é um perigo para a Europa, ouve-se muito isto, que a Europa tem de temer a eleição de Trump. Portanto como eurodeputado, tem naturalmente uma preocupação enorme com a Europa, mas acha que Trump é o melhor para a Europa. Porquê? Vamos lá ver. O debate em Portugal sobre a política norte-americana está muito enviesado, faltando um pouco de honestidade intelectual e perspetiva histórica. Quem conhece - e eu conheço a política americana desde 1776 - muitas das coisas de que se falam agora já aconteceram igual ou pior no passado. Por exemplo, fala-se que esta eleição é muito violenta. Mas a eleição que toda a gente elogia, e bem, a de 1800 entre o Jefferson e o Adams, foi de uma violência enorme. Já para não falar na eleição de 2016, entre Trump e Hillary Clinton. A história é fundamental e dá perspetiva, mas eu não quero fugir à pergunta. Por falta de conhecimento da história política norte-americana, ou por viés ideológico, ou por desonestidade intelectual, o debate cá está, quanto a mim, comprometido à partida. E com muita emoção. Nós temos de ser frios e não ter emoções, nós somos portugueses, não somos americanos, não temos de ter candidatos. O que é que nós temos de objetivo, de concreto? Temos a presidência Trump durante quatro anos, temos as campanhas eleitorais e temos aquilo que foi sendo dito ao longo do tempo. Em termos concreto, no que diz respeito à política externa a Presidência Trump até não foi má. Foi o primeiro a ter uma política que faz sentido em relação à China. Nós temos de lidar com a China em termos de contenção e dissuasão. Não numa lógica de Guerra Fria, mas numa lógica de interesses antagónicos e concorrenciais. Nós temos de defender os nossos interesses muitas vezes em confronto com eles. E Donald Trump foi o primeiro a ter uma política nesse sentido. E eu confesso que tenho muitas dúvidas que com uma presidência Trump, pela força e até pela imprevisibilidade dele, que a Rússia tivesse invadido a Ucrânia ou que o Irão e o Hamas se achassem livres para fazer o que estão a fazer no Médio Oriente, ou a Coreia do Norte para escalar na Península da Coreia, ou mesmo a China na questão de Taiwan. A força é o segredo das relações internacionais e Trump é um líder forte. Quanto à questão europeia? Eu sou um realista. O presidente dos Estados Unidos deve defender os interesses da América, os líderes europeus devem defender os interesses dos europeus, os líderes de Portugal devem defender os interesses de Portugal. E independentemente do que se pense de Donald Trump, o que tem falhado é a capacidade de os líderes europeus defenderem os seus próprios interesses. E isso vê-se na enorme dependência da Europa em relação aos Estados Unidos em matéria de defesa. Por isso, se calhar, o que nós precisávamos era de, em vez de passarmos a vida a queixar-nos dos presidentes norte-americanos, que não nos dizem respeito, fazermos a nossa parte como deve ser, e aí não estaríamos tão preocupados em saber quem seria o presidente norte-americano. Na questão fundamental da NATO, seja ou não seja essa a intenção, a verdade é que Trump acabou por fazer um favor aos europeus (e isto já vem desde o tempo do Obama: o Acordo de Gales é de 2014). E tem razão, os europeus têm que suportar um pouco mais o custo da sua defesa e da defesa comum no âmbito da NATO. Até porque há uma coisa que qualquer presidente norte-americano tem de reconhecer: que os americanos se cansaram de pagar o custo da ordem internacional liberal saída da Segunda Guerra Mundial. O eleitorado americano cansou-se disso e nenhum presidente pode deixar de estar em sintonia com o seu povo. Quando os líderes europeus não se inibem de comentar a política norte-americana, não se inibem de dizer de Donald Trump o que dizem, é natural que a relação no dia seguinte esteja inquinada, mas isso é culpa das duas partes. Os asiáticos não fizeram isso. Os japoneses e os sul-coreanos a primeira coisa que fizeram em 2016, a seguir à eleição de Trump, foi ir a Mar-a-Lago conversar com Trump e chegar a acordo, tendo ele deixado de dizer mal deles. Trump é um homem de negócios e nós temos de saber lidar com ele. O que nós devíamos estar a preparar era não só sermos menos dependentes, mas uma forma de nos relacionarmos com Trump (caso seja eleito) de maneira a que ele defenda os interesses da América, que é o que lhe compete, e nós defendamos os interesses da Europa, que é o que nos compete. O que eu estou preocupado não é com o presidente norte-americano e o seu impacto na Europa. Estou preocupado é com os líderes europeus e o seu impacto na Europa. Para mim não há nada mais perigoso para a Europa do que esta fraqueza e esta imagem de fraqueza internacional dos Estados Unidos da América neste momento. E isto vê-se em todo o lado: na Ucrânia, no Médio Oriente, em Gaza, na Península da Coreia. E agora falando um pouco de Kamala. Disse que o segredo das relações internacionais é a força, acha que esta fraqueza não seria curada com Kamala? Não, acho que ainda é pior. Joe Biden, não sendo fraco, acabou por ser um Presidente ligado a uma imagem de fraqueza, desde, pelo menos, os acontecimentos da saída do Afeganistão. E também pela evidente diminuição das suas capacidades físicas e intelectuais. Acabou num grande estado de fraqueza. Tanto que foi afastado. Mas era muito experiente! Joe Biden está há cinquenta anos como Senador na área das relações internacionais, tem quase mais tempo como Senador do que eu tenho de vida. Portanto, era muito experiente e era um homem da Guerra Fria, que percebe este mundo de que estamos aqui a falar. Um mundo em que a força é absolutamente fundamental, o hard power . Ele era experiente. Kamala Harris é fraca, inexperiente e vem de uma tradição de política externa pacifista (ao contrário de Biden, que, como já disse, era um homem da Guerra Fria, era um falcão, tendo apoiado as intervenções militares americanas quase todos desde a Segunda Guerra Mundial). E essa tradição é perigosíssima, a mais perigosa de todas a meu ver. Porque para além de enfraquecer o país, parte de uma visão do mundo que não existe. Que é um mundo como eles queriam que ele fosse e não um mundo como ele é. E nós vemos como é que isso acabou, por exemplo, no período pré-Primeira Guerra Mundial ou no período entre guerras. Estou absolutamente convencido de que, independentemente do que pensamos de um e de outro (Kamala e Trump), para o mundo ocidental a coisa mais perigosa que há é esta fraqueza do líder do mundo ocidental, que são os EUA. Tocando num tópico mais à parte, Viktor Orbán é uma figura muito importante na sua família política, Patriots for Europe, que aparenta ter uma relação mais chegada a Putin. Sendo o Professor abertamente pró-Ucrânia, isto não lhe faz alguma confusão? Não! Isso é mais um mito criado pela esquerda, e que infelizmente alguma direita vai reproduzindo. A Hungria é um país que tem uma história, uma geografia, uma economia, uma geopolítica, uma política energética, muito particular. Portugal é completamente diferente. A Hungria está localizada perto da Rússia, fez parte do bloco soviético, tem uma economia muito dependente da Rússia. E tem de ser capaz de gerir isto. Portugal é o contrário, como falámos há bocado. Está no extremo ocidental da Europa, virado para o Atlântico. A nossa relação fundamental é com o Atlântico, com os EUA; a Rússia está longe, nem a nossa economia, nem energia, dependem da Rússia, etc. Por isso, da mesma maneira que eu, enquanto português, defendo os interesses de Portugal, defendo uma determinada política externa portuguesa, inclusive na questão da Ucrânia, Viktor Orbán tem de pensar nos interesses da Hungria. E isso obriga a gerir a questão com uma flexibilidade maior. Quando nós passamos das palavras para os atos, vemos que a Europa tem apoiado a Ucrânia maciçamente desde a primeira hora, quer do ponto visto económico, quer do militar. Ora, se a Hungria quisesse, isto não teria acontecido, porque estas são áreas de unanimidade. Podia ter vetado, não vetou, por alguma razão não vetou. O mesmo no âmbito da NATO, a Hungria se quisesse podia vetar. Mais, Europa e os EUA impuseram sanções muito significativas à Rússia; se a Hungria quisesse podia ter vetado, que também são matérias de unanimidade. Fala-se muito da visita de Orbán à Rússia, mas primeiro foi a Ucrânia, a Kiev. Estes gestos têm significado. E também não foi só ele. Emmanuel Macron não se fartou de ir à Rússia? António Guterres na Cimeira dos BRIC, a Alemanha de Angela Merkel, etc. Dá jeito atacar Orbán, mas na verdade não é por nenhuma destas razões. Isto é aquilo que a esquerda quer fazer crer. A esquerda tem esta capacidade de reinventar a história e até de transformar os seus assassinos em heróis românticos. E a direita vai atrás. A razão principal porque atacam Orbán é porque é antissistema. Ele que mudar a Europa, quer mudar o sistema europeu, que acabar com os privilégios de muitos que vivem à conta do sistema há décadas. Estes perceberam que uma maneira de o atacar era colá-lo à Rússia, fazendo tábua rasa daquilo de que estávamos a falar: a história, a geografia, a economia, a segurança – e dos factos! Acrescento ainda que nós fazemos parte de uma família política que é soberanista e nacionalista, ou patriota (prefiro patriota, por causa da história). Nesta família política, cada um responde por si. Eu não falo pelos húngaros, falo por Portugal e pelos portugueses, acho que essa e a minha obrigação. Devemos manter este princípio: cada um representa o seu povo e preocupa-se com os seus interesses dos seus países. O que é que se pode, ou não, esperar da Ucrânia com Trump? É uma boa questão. Nós temos que, por um lado, ter a capacidade de perceber que as relações internacionais são essencialmente relações de força, portanto, nós não podemos ser colocados na Ucrânia numa posição de fraqueza e isso implica apoiar Kiev. Basta abrir os livros de história para perceber a importância de estar numa posição de força (e não de fraqueza) e para entender que temos de apoiar a Ucrânia para impedir que a Rússia se sinta confiante para continuar a avançar pelos espaço pós-soviético. Mas tem de se ter presente que a Guerra não é um fim em si mesmo e que a nossa finalidade deve ser sempre a paz. Por isso precisamos de um plano para a paz, sim, mas tem de ser baseado no conceito de “paz pela força”. Um plano de paz que implique uma cedência à Rússia é péssimo, é um convite para que a Rússia não pare. Um acordo de paz numa posição de força que mantém a integridade territorial e a soberania da Ucrânia, é o ideal, é o que toda a gente quer. É nisso que consiste o plano de paz Trump/Vance. Ele é muito mais elaborado do que tem sido dito aqui na Europa. Pressupõe a criação de um contexto negocial a partir de uma posição de força que permita uma paz que não seja imposta pelos termos russos, mas que seja nos termos preferenciais dos interesses do mundo ocidental. É por isso que ele defende, antes mesmo da negociação de paz, que as capacidades militares dos países da NATO que fazem fronteira com a Rússia sejam reforçadas significativamente, para negociar numa posição de força. Se é exequível, ou não, é outra questão. Essa é que é a grande questão. Mas que a forma deve ser paz pela força, não tenho a mais pequena dúvida, porque é sempre assim. Portanto, a proposta de Trump e Vance é mais elaborada do que se diz e fala da manutenção da integridade territorial da Ucrânia. Tudo somado, é preciso dizer que é do nosso interesse – desde logo da Europa – continuar a apoiar a Ucrânia.
- Versos Inconjuntos I
Pensamentos dispersos do quotidiano. Seleções de versos soltos, contemplados por diferentes autores. Vejo as tuas saliências e entusiasmo-me, Por entre o teu nevoeiro tranquilizo-me, Cheiro-te e tudo ganha mais senso, É a ti, alta Serra de Sintra, que pertenço // Esteja onde estiver, o mar salgado que me toca faz-me sentir em casa. É sempre o mesmo. // As nuvens amontoam-se, afrontam-se, desfilam, dissipam-se e fingem. Rosadas, fingem tornarem-se pequenas, Quando na verdade, eu, que me limito a um teto impenetrável, Eu, que gigante me percepciono, subo aos telhados, minúsculo debaixo delas. // Que venha a luz do Outono E a paz do Inverno, Para que tudo passe. // E que fizemos nós para merecer o céu e as estrelas, O teu olhar, E tudo o resto? // Tenho a cabeça enfraquecida e em chamas. Mas se a vejo… na realidade ou na imaginação, sejam estes termos o que sejam, produzo um leve e meigo sorriso, que exprime todos os sentimentos do mundo. // O sorriso que veem não é meu. Não passa de uma máscara que evita perguntas. Porque, por cada pergunta que façam, Pensarei ainda mais em ti. // A sós deambulo Pelas sombras dos meus pensamentos, Encurralado e derrotado Pela amiga minha à qual chamam Consciência. // Vagos e impessoais têm andado os meus pensamentos, Quando penso neles, fogem-me, Quando fujo deles, penso-os. ~ Luís Rau Silva, João Vilhena Baptista, Luís van Zeller
- O que nos espera em 2024?
O ano 2023 teve um pouco de tudo. Desde, a nível nacional, uma dissolução do Parlamento à Jornada Mundial de Juventude, como, a nível global, o crescimento contínuo e controverso da Inteligência Artificial a artistas e filmes que abalaram as bilheteiras e as nossas expetativas. No entanto, tudo indica que o ano que vem terá ainda mais. POLÍTICA 2024 será um ano interessantíssimo politicamente a nível nacional e internacional. Em Portugal, teremos as eleições legislativas no dia 10 de Março. Tendo em conta as sondagens e os cenários possíveis de governação, realçaremos três cenários. Pedro Nuno Santos ganha as eleições e forma uma nova geringonça de esquerda, com maioria absoluta. A AD ganha as eleições e, com a Iniciativa Liberal, obtém maioria absoluta de centro-direita. A AD ganha as eleições e precisa da IL e do Chega para aprovar o programa de governo. As sondagens apontam para o terceiro cenário, o que, provavelmente, levará Portugal a novas eleições, tendo em conta as declarações de André Ventura. A nível internacional, em 2024, mais de dois mil milhões de pessoas, em cerca de 50 países irão às urnas votar. Destaco as eleições no Taiwan em janeiro e as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em novembro. O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, está a preparar as forças militares para uma invasão a Taiwan em 2027. O futuro da ilha é incerto e uma invasão chinesa pode dar origem a uma guerra com os Estados Unidos. A forma de lidar com este conflito depende, evidentemente, das estratégias adoptadas por Taiwan e pelos EUA. Por isso, estas eleições serão relevantes e poderão definir um futuro mais instável a nível mundial. CINEMA É importante referir, antes de mais, que muitos filmes foram adiados devido às tão divulgadas greves em Hollywood – meses históricos de 2023. Depois do ano que passou, que viu o lançamento de Oppenheimer e Barbie , o panorama cinematográfico aguarda mais uma variedade de filmes que estão para vir, prometendo uma combinação de géneros, estilos e narrativas. Mas parece que no mundo do cinema, 2024 será o ano das sequelas. Desde já, em março, será lançado o tão esperado Duna: Parte Dois , a dramática adaptação de Denis Villeneuve, tentando seguramente alcançar o triunfo da primeira parte que ganhou seis Oscars . Estreiam-se também as sequelas dos filmes Joker (2019) e O Gladiador (2000), com o regresso do protagonista e do realizador do controverso Napoleão (2023) – Joaquin Phoenix em Joker: Folie à Dieux (outubro) e Sir Ridley Scott em O Gladiador 2 (novembro). No universo dos filmes de animação, chegarão aos cinemas o O Panda do Kung Fu 4 (março), Divertida-Mente 2 (junho) e Gru – O Maldisposto 4 (julho), procurando o mesmo sucesso que os seus respetivos antecessores. Apresentam-se ainda duas biopics de grande interesse – serão representadas as vidas dos músicos Amy Winehouse em Back to Black (maio) e Bob Marley em One Love: The Bob Marley Story (fevereiro). DESPORTO Também a nível desportivo, 2024 será um ano de grande interesse. Destaco três principais eventos: um nacional, um europeu e outro mundial. Por cá advinha-se um campeonato como há muito não se via, disputado a três. Chegamos a 2024 com os três grandes, primeiros três classificados, separados por apenas três pontos. O Sporting segue na frente com 37 pontos, seguido do Benfica com 36 e atrás o Porto com 34 pontos. Não há memória recente de campeonatos disputados pelos três até ao fim. Esperemos que este ano assim aconteça, só tem a acrescentar ao nosso futebol. 2024 é ano de europeu em futebol, competição especial para qualquer português desde 2016. Ainda mais numa altura em que a seleção nacional vive uma era de sonho, tendo ganho todas as partidas que disputou desde a chegada do novo selecionador. Portugal tem, por isso, todas as razões para poder sonhar. Dia 26 de Julho marca o arranque dos Jogos Olímpicos 2024, de regresso a Paris. Este é um evento que entretém qualquer pessoa, goste-se mais do desporto x ou y, há lugar para todos os gostos e feitios. É inevitável não passar umas quantas horas em frente à televisão nestes dias. MÚSICA 2024 não deixará a tradição festivaleira, já muito marcada em Portugal, ficar para trás. Nos dias 6, 7 e 8 de junho teremos o primeiro grande festival do ano, o Primavera Sound , no Porto, que já conta com artistas como Lana Del Rey e Tiago Bettencourt. O Rock in Rio , que este ano decorrerá no novo Parque Tejo, vai receber, nos dias 15, 16, 22 e 23 de junho, famosos artistas internacionais e nacionais como Ed Sheeran, Camila Cabello e os Xutos e Pontapés. O colossal NOS Alive já entra neste novo ano com nomes como Dua Lipa e Pearl Jam, banda que, com a música “Alive”, deu na 1.ª edição, em 2007, o nome ao festival. Como sempre, será realizado no Passeio Marítimo de Algés, entre 11 e 13 de julho. Ainda em julho, dar-se-á o Super Bock Super Rock , de 18 a 20, no Meco, com a presença de Måneskin, a banda por trás do hit “Beggin’”, e o MEO Marés Vivas em Vila Nova de Gaia, de 19 a 21. Já em agosto, teremos o MEO Sudoeste de 7 a 10, na Zambujeira do Mar, e o Vodafone Paredes de Coura , de 14 a 17. Por fim, a fechar a época, entre 29 e 31 de agosto, irá realizar-se o muito recente, mas promissor, MEO Kalorama no Parque da Bela Vista, com Sam Smith, Jungle, Peggy Gou, e mais. Para que não fiquem gostos por agradar, haverá ainda uma série de artistas a dar concertos, tal como Laura Pausini, The 1975, Capitão Fausto com um novo álbum em breve, Slow J, Depeche Mode, Hans Zimmer, o compositor da música de tantos filmes que conhecemos, Vanessa da Mata, J Balvin, Olivia Rodrigo, Simple Minds, Bárbara Tinoco, o compositor André Rieu, entre tantos outros músicos nacionais e internacionais. Destacamos ainda os concertos nos dias 24 e 25 de maio, no Estádio da Luz, de Taylor Swift, a artista mais popular de 2023. Sem dúvida, 2024 será um ano que não desapontará Portugal em termos musicais, tendo em conta os artistas que já foram, e aqueles que ainda serão, anunciados para festivais e concertos.
- Fugir de mim / Reter-me em nós
Cheguei à conclusão que não quero mais ter amigos. Não quero; não preciso. São-me absolutamente dispensáveis, tal como dezenas, centenas e milhares de coisas da minha vida. Cansei-me desta vivência verdadeira de os ter a meu lado, exigindo que seja o que sou, nem aquém, nem além. Se hoje me perguntares o porquê de todo este desabafo, respondo-te somente desta forma: cansei-me de ter amigos. Basta. Infelizmente, tenho muitos amigos: tenho-os como o sustentáculo que atrai a impossibilidade de me continuar a enganar a mim próprio, de continuar a dizer, a mim mesmo, que sou tudo e mais alguma coisa, quando não sou nada, nem um mísero nada. Infelizmente, tenho amigos que me dizem quando erro e ainda quando acerto. Infelizmente, tenho amigos que constroem o que sou, quando eu ando há dias, há meses, há anos, a tentar fugir de tudo isso. Infelizmente tenho amigos que me obrigam a ser melhor, com eles e comigo. Que altivez, que superioridade moral aberrante! Como é que é possível que ninguém perceba que o meu errar não é errante, mas sim certeza, escapatória em vista a um irreal com desejos de realidade? Tudo o que faço não são manifestações da minha identidade, mas da minha tentativa de a eliminar, de a tornar numa anti-identidade . Deixem-me construir uma narrativa idílica do que não sou, dizer-me o melhor dos homens e o rei de todos os castelos de areia deste mundo! Deixem-me propagar aos sete ventos a honestidade desonesta de ser quem quero ser, mas efetivamente não sou! Mas não… Os meus amigos fazem-me relembrar que não posso ser isso, porque o que sou é o que sou e não posso não ser eu. Como podem eles gostar de algo, quando esse mesmo algo se abomina a si mesmo? Todos me faziam um favor, se me deixassem ser o que não sou; se me deixassem viver a vida na ilusão de ser outro que não eu mesmo. Libertavam-me do peso que é estar obrigado a ser o que o homem é, quando nunca o pediu, nunca o desejou e jamais o desejaria. Mas afinal e no final das contas, estes sujeitos que se dizem meus amigos, sê-lo-ão, ou não passarão de meros inimigos? A verdade nua e crua é que me cansei de ter amigos. Por hoje e a partir de hoje, chega de amigos: deixem-me estar miseravelmente resoluto, nesta decisão de ser tudo o que não sou. Pois, só na constância da fuga a mim mesmo é que posso perceber o quão crápula e deselegante eu sou realmente. Só me vendo na dispersão de mim, é que posso objetivamente odiar-me. E mesmo assim, enquanto vou fugindo de mim, todos os meus amigos me relembram do que deixei para trás, como se de um crime se tratasse fugir da carga que me assola. Não há como seguir nesta narrativa que inventei, pois a caneta com que me vou escrevendo está constantemente a ser roubada das minhas mãos, para que jamais me deixem dizer as falsas verdades acerca de mim mesmo. E mesmo assim, sendo o pior homem de todos os homens, a besta das bestas, há algo que continua a perseguir-me e a fazer com que jamais me esqueça da verdade que em mim habita. Como um mísero recluso das galés, encareceram-me na prisão de ser eu e só eu. Odeio-me odiando-me e odeio-me na incapacidade de não poder ser um se não eu mesmo. Mas mesmo assim, os meus amigos continuam aqui, terminantemente comprometidos em demover-me do sonho de algo mais que não eu mesmo. Mesmo odiando-me a mim, eles são capazes de me amar: pelo que sou, não por aquilo que não serei. Por mais que as pulsões de evasão e de migrar para um outro me dominem, os meus amigos persistem na estabilidade ontológica do eu, como se fossem guardiões indesejados de uma verdade, da minha verdade. E é essa insistência deles que me enerva: não me deixam mergulhar no conforto da ilusão, não me permitem viver na pele de alguém que não sou, no manto de um Imperador de um Império sem terras. Talvez seja isso o que mais me assusta. Talvez, afinal, essas amizades, que tantas vezes me parecem uma prisão, sejam a única coisa que me mantém são, mesmo quando tudo em mim grita por evasão. No meio do berrar da minha alma, os meus amigos emprestam-me silêncio e põem fim à tempestade que destrói os barcos no alto dos oceanos… Apesar de tudo o que sou e insisto não ser, ainda tenho os meus amigos. Talvez não seja assim tão mau. Mesmo sendo um homo horribilis , ainda tenho os meus amigos…
- O PS e o PSD precisam de outra oportunidade
O OE para 2025 só é aprovado se o PSD reunir o apoio do PS ou do Chega. Nenhuma destas possibilidades teria qualquer contributo positivo para além de permitir ao país mais uns meses de estabilidade. Isto aplica-se a todos os partidos envolvidos. No entanto, na quinta-feira, Pedro Nuno Santos indicou que os deputados do PS vão-se abster quando o OE for votado. O líder socialista apontou também que não há um compromisso com o Governo, apenas com os portugueses. Se este OE for de facto aprovado, não vai corresponder certamente ao que foi prometido aos portugueses que votaram no PS e no PSD. Também nenhum destes partidos seria recompensado eleitoralmente depois de se apresentarem como coautores deste OE. Em 1999, depois do PSD de Marcelo Rebelo Sousa ter deixado passar todos os OE do primeiro governo de António Guterres, o sentido de voto não mudou quase nada quando comparado a 1995. Para além de que qualquer acordo consistiria num dos partidos ceder ideologicamente, acabando o OE, naturalmente e independentemente da sua popularidade e conteúdo, por ser associado ao governo liderado por Luís Montenegro. Mesmo no caso praticamente impossível de o OE ser completamente substituído na especialidade (Pedro Nuno Santos indicou também no seu discurso que o seu partido iria discutir ativamente o conteúdo do OE na especialidade), o contributo do Partido Socialista não seria notado para além da cúpula política. É importante também desmontar a narrativa de que o PSD de Montenegro é um PSD «centrista». O próprio primeiro-ministro liderava o grupo parlamentar social-democrata durante os anos de Pedro Passos Coelho, para além de ter nomeado a antiga ministra Maria Luís Albuquerque para a cada vez mais importante Comissão Europeia. Aguiar-Branco, também antigo ministro de Passos Coelho, foi eleito Presidente da Assembleia da República (a principal arena de todos estes desenvolvimentos) e o impetuoso Hugo Soares lidera o grupo parlamentar. Isto tudo sem apontar sequer que este governo inclui também o CDS, o que, tendo em conta a história recente da política portuguesa, indica pouco «centrismo». O Partido Socialista tem de saber claramente com quem está a dialogar. Os eleitores esperam que os dois maiores partidos se apresentem como alternativas. Se o PS se abstiver quando o OE for votado, o eleitorado verá certamente um Bloco Central, confundindo-se os dois partidos. Pedro Nuno Santos indicou que esta decisão foi excecional e tomada apenas face à crise política que enfrentamos, mas a passagem deste OE resolve apenas os problemas imediatos do país. Mais OE terão de ser aprovados até acabar esta legislatura e a composição do Parlamento não vai mudar. O Chega, catalisador desta crise, não irá a lado nenhum, independentemente do que acontecer. A política europeia mostra-nos que este tipo de eventos não impactam os partidos da direita populista. Nos países onde existem há décadas, estes partidos só foram verdadeiramente afetados depois de efetivamente governarem, como aconteceu em 2002 na Áustria ou em 2019 na Dinamarca (neste caso, a causa da perda eleitoral foi a incapacidade de governarem depois da direita ter vencido em 2015 e o partido ter sido o mais votado deste bloco). O cerne incoerente destes partidos só foi realmente exposto nestes casos, e de qualquer forma voltaram a assumir o destaque passados alguns anos. A direita populista representa um movimento quase inevitável, uma crise democrática que certamente não se resolverá através da política parlamentar. O impacto do Chega no Parlamento é claro, foi o facto de ter elegido cinquenta deputados que iniciou esta crise parlamentar. Para além disto, os seus resultados eleitorais não serão afetados por se manter ou não o cordão sanitário. Apesar disto, o PSD também não ganhará em colaborar com os deputados que se sentam mais à direita no Parlamento. O senhor primeiro-ministro não só quebrará a sua promessa particularmente mediática de que «não é não» (apesar de muitos no partido terem no passado e novamente mais recentemente, note-se o discurso de Carlos Moedas, discordado destas palavras), como a ainda maioria dos portugueses concordará em que o contributo político do Chega não será propriamente positivo. Uma nova ronda eleitoral traria realmente nova instabilidade ao país, mas apresentaria uma oportunidade para o PS ou o PSD conquistarem uma maioria absoluta ou uma maioria com o apoio dos seus habituais parceiros políticos. Isto permitiria verdadeiramente desbloquear a política portuguesa. Se forem incapazes de a obter, as previsões anteriormente referidas terão de ser assumidas, mas, depois de terem passado por esta crise política, é esperado que se revele um novo dinamismo e sentido de dever dos partidos arquitetos da democracia portuguesa. Apesar de tudo, o OE só será votado definitivamente em Novembro; o cenário político ainda pode mudar e ainda há tempo para reverter o sentido de voto proposto esta semana. Uma nova campanha eleitoral iria requerer, no entanto, um novo ímpeto partidário e lideranças fortalecidas que inspirem verdadeiramente o eleitorado.
- EUA: Navegar na incerteza. Entrevista a Miguel Morgado
O Discreto sentou-se com Miguel Morgado, comentador político, professor e ex-deputado à Assembleia da República, para discutir e perceber melhor o cenário político norte-americano, a propósito das eleições do próximo dia 5 de Novembro. O que é que é o cargo do Presidente dos EUA, o que é que isso significa? O que é que simboliza esse cargo em 2024? Em 2024, significa que é ser Presidente no país que continua a ser, nos vetores mais decisivos do ponto de vista geopolítico, o país mais poderoso do mundo do ponto de vista militar, tecnológico, económico, do ponto de vista da formação de conteúdos culturais, da cultura popular dos povos. Pode vir a perder essa posição em primazia nos próximos tempos, nas próximas décadas, nos próximos séculos, com certeza, isso está sempre tudo em aberto, mas nós nunca nos podemos esquecer que o nascimento dos EUA no final do século XVIII é o nascimento da grande potência política do nosso tempo, dos últimos 200 anos, e que ainda continuará a ser por mais uns tempinhos, por maior que seja o declínio americano. Por isso ser o Presidente dos EUA é mesmo muito importante. Tocando na geopolítica, quanto à Ucrânia e à guerra com a Rússia – gostava de perceber exatamente quais é que são as diferenças mais evidentes entre Kamala e Trump. Muito se tem dito que a eleição de Trump é um perigo para a Europa e que esta deve temer essa eleição. Queria perceber se este perigo realmente existe ou não. Bem, sobre Kamala Harris, nós temos a dificuldade de não saber exatamente o que é que ela pretende em termos de políticas públicas em geral. Mas no caso da Ucrânia, nós podemos presumir não só pelas palavras dela, que também têm oscilado muito, mas enfim, por razões orgânicas digamos assim, que ela seguirá basicamente a política de Joe Biden. E a Europa deve a Joe Biden ter ficado ao lado da Ucrânia. Naquelas primeiras horas não era evidente que os países europeus iam querer ficar ao lado da decisão de Zelensky de resistir à invasão russa. Os alemães, o atual Chanceler Scholz, não queria ficar ao lado de Zelensky. Teria preferido a via de 2014, que era fechar os olhos. Essa foi a política alemã e seria a política alemã, não fosse a ameaça dos EUA. É verdade que, inicialmente, também nas primeiras horas, Joe Biden hesitou, mas depois de perceber a vontade e a decisão de Zelensky e do seu grupo de resistir, Biden não voltou a hesitar. E isso não é verdade para os governos europeus, que se demonstraram de uma fraqueza e de uma cobardia políticas a que nós, infelizmente, já estamos habituados. Portanto, nós devemos a Joe Biden – e, para todos os efeitos a Kamala Harris, que não arriscou nada nesta coisa, mas que era Vice-Presidente, apesar de tudo, era – uma grande decisão política, que a julgar por aquilo que Trump tem dito, disse, e que muita gente à volta dele continua a dizer, não era evidente que essa decisão tivesse sido tomada. Para um europeu, independentemente dos defeitos das políticas de Joe Biden, e, sobretudo, dos defeitos da candidata Kamala Harris, a orientação estratégica de Biden é mais tranquilizante do que a de Trump. Sobre isso, não há qualquer dúvida. Trump tem feito muitas apostas e decisões e tomado posições absolutamente irresponsáveis. Trump, não me esqueço (porque vivi isso, ainda era deputado na altura, no processo do Brexit e, aliás, eu ainda estava no Governo quando o processo da ida para o referendo do Brexit começou, quando Cameron era Primeiro-Ministro), fez campanha deliberadamente, pelo Brexit. E isso é uma coisa completamente inaudita no comportamento de um Presidente dos Estados Unidos. A Europa encontra-se numa posição de grande fragilidade, de grande fraqueza a vários títulos. E sem a parceria com os EUA, a Europa não tem qualquer espécie de futuro. Nenhum! É o que a Europa tem revelado não só nos últimos 20 anos, como nos últimos dois anos. É verdade que Trump também chamou à atenção os europeus dos contributos que tinham que passar a dar. As exigências que Trump passou a dar sobre o cumprimento das despesas da NATO foram mais do que justas e que, aliás, nem começaram com Trump, começaram com Obama. Eu fui daqueles poucos europeus que achou muito bem a repreensão que Trump fez aos dirigentes europeus, a começar pelos portugueses, que mentem à NATO e que mentem aos americanos sobre o nível das suas despesas a toda a hora. O último Governo português socialista, fez isso sem qualquer escrúpulo, como faz o Governo alemão, como fazem os outros governos. Desse ponto de vista, acho isso uma beleza. Mesmo aquelas afirmações mais monstruosas a dizer que os membros da NATO que não pagassem as suas contas, que ele os deixaria entregues a uma invasão da Rússia. Até isso podemos ver como uma espécie de expressão de força negocial, pois é impor uma decisão que os parceiros europeus não querem tomar. Mas do ponto de vista estratégico, não há qualquer dúvida que Trump tem funcionado como uma fonte de fragmentação na Europa e não como um baluarte da parceria transatlântica que, do ponto de vista europeu, continua a ser vital para nós. Ainda nesta questão, o que é que o Professor acha que Vladimir Putin, no seu íntimo, deseja como resultado desta eleição? Ah, isso eu não faço a mínima ideia. Eu acho que o Putin quer – e tem estado a fazer com governos europeus, com as sociedades europeias, e na América também – basicamente, que se perca a vontade de continuar a auxiliar a Ucrânia financeira e militarmente. Porque ele também já percebeu que não consegue vencer a Ucrânia enquanto o apoio ocidental continuar, portanto, ele quer operar todo o tipo de mudanças políticas, na Europa e nos Estados Unidos, que contribuam para esse abrandamento. Trump fala enigmaticamente do plano que tem, que em 24 horas traria a paz à Ucrânia, mas depois tem sido ambíguo relativamente ao que significa essa paz. É óbvio que se a Ucrânia se render amanhã e disser que Putin pode tomar conta de tudo aquilo, a guerra acaba amanhã. Claro. Se for esse o plano, não é particularmente interessante. Mas, também não estou a ver como é que ele convenceria Putin a regressar à posição anterior a 2014, mesmo que houvesse compromissos no Donbass ou houvesse compromissos na Crimeia. Enfim, mesmo que houvesse algum tipo de compromisso, não estou a ver como é que Trump em 24 horas conseguiria convencer Putin a cessar as hostilidades quando a morte de dezenas de milhares de soldados russos e a destruição da economia russa não têm sido suficientes para o parar. Tenho de presumir que as tais 24 horas é um possível Presidente Trump a dizer a Putin e a Zelensky, “Eu não vou continuar a auxiliar a Ucrânia se a Ucrânia não aceitar estas condições”. E essas condições são a Rússia ficar com a maior parte das coisas que quer. Isso não parece que seja uma ideia muito interessante para a Europa. Por isso, se for isso que Trump tiver na cabeça, espero que Trump não seja eleito. E quanto ao Médio Oriente, faz hoje um ano dos ataques de 7 de outubro. Trump diz que quer uma vitória rápida de Israel e que, sem ele, com Kamala, haverá uma “aniquilação total” do Estado de Israel. Até que ponto é que isto é plausível e o que é que isto significa relativamente às dimensões do apoio de Trump? Ao contrário do que se passou na Rússia, Trump esteve à beira de ter um grande trunfo diplomático, que realmente ficaria na história. Era a consumação dos Acordos de Abraão. Se se tivesse conseguido levar isso por diante – e quer dizer, ele conseguiu um acordo diplomático, coisas extraordinárias: os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita aceitarem constituir relações diplomáticas com Israel, etc. Isso foram coisas absolutamente extraordinárias que ele conseguiu e o mérito é dele e da equipa dele. Claro que para abortar esses resultados é que também foram levados a cabo os ataques de 7 de outubro, não é? Para o Hamas e as organizações palestinianas garantirem que os palestinianos não ficariam isolados, que seria o resultado depois de um entendimento pacífico e de uma amizade política crescente entre Israel e, pelo menos, alguns dos seus vizinhos árabes, a juntar ao Egito e à Jordânia, se se juntassem a Arábia Saudita, os Emirados e mais alguns, então aí sim, pelo menos a variante radical da causa palestiniana, o Hamas, ficaria radicalmente comprometida. E a partir do momento em que o Hamas provoca esta guerra terrível, em que os governantes árabes são forçados a pronunciarem-se publicamente contra Israel, e a apoiarem cada vez mais as posições terroristas da Palestina, esses acordos (não foram desfeitos atenção, mas, enfim) foram, podemos dizer, razoavelmente suspensos ou abrandados. Aí, o Trump tinha trunfos para dizer que o seu legado era bastante mais positivo do que tinha sido o legado, por exemplo, de Obama. Obama tinha optado por posições muito erráticas, que se revelaram desastrosas, aquando da Primavera Árabe, e uma opção perante o cordão sanitário ao Irão que também não produziu os resultados que se esperava e, provavelmente, acelerou a trajetória do Irão para obter armas nucleares. Portanto, o legado dos partidos democratas no Médio Oriente não era famoso. E, se as coisas tivessem corrido de outra maneira e se os Acordos de Abraão tivessem produzido mais resultados, ele [Trump] estaria numa posição política de grande vantagem sobre os democratas. Agora, também não é evidente perceber em Trump o que é que ele quer desta guerra. Biden, e Kamala supõe-se, quer agora navegar ali numa espécie de equilíbrio em que não se hostiliza totalmente o mundo árabe mas, não se deixa de apoiar Israel, que é um caminho muito difícil de percorrer no dia a dia. De Trump não se percebe exatamente, por exemplo, o que é que Trump pretende que Israel faça com a invasão do Líbano. Não é claro. Como quase nenhumas posições políticas públicas em Trump são claras. As de Kamala, infelizmente, também não, por isso é que temos de funcionar sempre com o precedente de o que é que o Biden fez e associar ao que ela faria. Por isso, estamos sempre aqui a navegar um bocadinho nesta incerteza. Passando a temas domésticos, Trump promete deportações em massa: é politicamente viável? Consegue reunir as condições necessárias, convencer o Congresso, os republicanos e ainda o público em geral? E mesmo conseguindo, resistirá à pressão internacional e mediática? Vamos ver, programas de deportações nos EUA existem há muito tempo, W. Bush e Obama levaram a cabo grandes programas de deportação, portanto o que Trump está agora a dizer não é novo, apesar de ter havido, de facto, um abrandamento destes programas na administração Biden. Mas o que significa isto da deportação em massa? Trump fala sempre por hipérboles, se ele for dizer que vai deportar centenas de milhares de pessoas, bem, Obama já fez isso e à luz dos números de imigração ilegal nos EUA, é inevitável que isso aconteça. De resto, como estamos a ver na Alemanha e noutros países europeus, estão a surgir, também, programas de deportações, portanto, o problema de imigração ilegal adquiriu proporções ao ponto de o surgimento de programas de deportação serem inevitáveis. Agora, depende de que escala é que ele está a falar, se forem aqueles milhões de ilegais que estão nos EUA, que alguns calculam em 6 milhões, outros em 10 milhões, outros em 16 milhões, isso é impossível e ele não fará isso, até porque esses programas são muito cruéis se não forem muito cirúrgicos, e causam perturbações sociais enormes. Uma vez mais, é o ponte forte de Trump, já o era em 2016. Disse recentemente que acha que ganhou as eleições de 2016, embora ele também mude sempre de ideias, por causa da imigração já na altura, e por isso é que veio com a ideia de fazer o muro, por exemplo. Ele aí ganhou muitos pontos, porque, de facto, Biden e Kamala foram totalmente suicidas na questão da imigração e aperceberam-se desse suicídio político nestes últimos 15 meses do mandato de Biden, também por uma questão ideológica, porque queriam ser anti-trumpistas e pretendiam associar a imagem de Trump à construção do muro. Então tudo aquilo que estava a ser preparado, se não foi desmantelado, pelo menos foi refreado. Eu acho que todos os democratas se arrependem hoje disso, a imigração, como nós estamos a perceber, no mundo ocidental, passou a ser o principal problema político e nos EUA é certamente um dos principais. Trump, curiosamente, em 2016 tinha muito mais novidades programáticas do que tem agora em 2024. Fala mais da imigração do que falava. Por um lado, pode dizer que é porque o problema se agravou. Sem dúvida, não posso dizer que não. Mas, apesar de tudo, ele tinha outras coisas que trouxe à campanha: na altura era drenar o pântano, como ele chamava, do deep state; tinha coisas mais interessantes como as relações com a China; a relação de hostilidade para com a China; o combate tecnológico com a China e conseguiu fazer com que o “ establishment ” americano adotasse como bom. Em 2016 parecia mais fresco, com mais ideias, agora está mais cansado. Não só porque envelheceu, o que é notável, mas também porque a plataforma dele também é: “Eu quero regressar a 2020”. Perdeu aquelas eleições, mas não o reconhece, foi arredado do poder e agora quer regressar porque aquilo que aconteceu não devia ter acontecido. E, do ponto de vista programático, bem, isto é curto. Mas, quer dizer, as políticas continuam lá, baixar os impostos, essas coisas todas. E Kamala, o que é que defende ao certo na questão da imigração? No que é que diverge de Trump? Bem, Kamala Harris por um lado tem uma inclinação política que tem explorado a demonização do discurso da imigração, mas que agora já não pode levar tão extensivamente. Antes, o que faziam era jogar a cartada racista na campanha contra a candidatura de Trump, por causa da sua insistência, e isso depois coloca obstáculos àquilo que Kamala Harris pode fazer, para mudar a orientação da política que tinha sido levada a cabo por Biden. Agora não nos podemos esquecer que a dada altura Biden mudou o curso das coisas e quis, de facto, trazer um reforço da vigilância, da tal construção do muro e do aparato tecnológico, da mudança do processo de aquisição do estatuto de refugiado e de asilo que, anteriormente, estava muito mais facilitado e esse processo legislativo começou ainda com Biden. Kamala pode dizer que é isso que quer fazer e que, na verdade, não foi adotado mais cedo porque houve um veto na Câmara dos Representantes e do Senado pelos deputados republicanos mais ligados a Trump que queriam a estagnação do problema para que ele se agravasse. Isso é verdade, os democratas podem alegar isso que é correspondente à verdade, Trump e os seus aliados mais próximos tinham ali uma minoria de bloqueio que foi suficientemente eficaz para arrastar, consideravelmente, aquela questão. E isso teve consequências muito más. Mas, enfim, podemos esperar de uma administração Kamala Harris a continuação deste arrepiar de caminho feito por Biden, portanto, uma política mais restritiva à imigração, do que tinha sido o caso desde 2020, até ao final de 2022. Em concreto, é mais difícil saber, porque se os republicanos estão agora muito confortáveis numa posição muito agressiva no que diz respeito à imigração. Os democratas ainda têm um lastro ideológico que os impede de corrigirem com tanta facilidade o problema. É um bocadinho como a esquerda portuguesa, que quando for preciso apertar e restringir políticas de imigração em Portugal, terá dificuldade em fazê-lo porque já disseram tanta coisa contra quem quis falar no problema, que ficarão com a imagem de hipócritas e oportunistas. E Kamala Harris também fez várias declarações que, provavelmente, se arrepende em relação à fronteira e à imigração que a obrigará a fazer as coisas com muito gradualismo. Mas, quer dizer, a campanha de Kamala é tentar dizer o mínimo sobre as coisas porque ela ainda não sabe tatear bem o chão que quer pisar, é uma candidata muito imatura, muito inexperiente, muito desconhecedora dos problemas reais e que, às vezes, fica-se com a ideia de que ainda não pensou muito a sério sobre os problemas. Trump também não, mas ao menos é marcado por algumas obsessões que depois permitem prever alguma consistência em algumas políticas públicas. Em Kamala é difícil adivinhar as suas políticas, principalmente porque ela tornou-se agora, como os americanos dizem, uma flip-flopper em torno de tudo e mais alguma coisa. Ser filha de imigrantes é uma desvantagem ou uma vantagem? Bem, Trump também é descendente de imigrantes, na América a probabilidade é grande. Eu acho que tem mais que ver com o facto de Kamala estar mais ligada aos grupos políticos e de ação cívica pró-imigração do que a sua condição. Se ela quer ser Presidente dos EUA e se a maioria das pessoas forem favoráveis a medidas restritivas, ela pode ser filha de quem quiser, ela quer ganhar ou quer perder. Acho que neste caso é diferente, é o facto de ela depender política, ideológica e espiritualmente, no sentido mais lato do termo, do conforto desses grupos a quem repugna políticas de imigração muito restritivas, acho que é mais esse o ponto. Passando a outro tema. Faz-me alguma confusão como é que o aborto é um tema tão central eleição após eleição nos EUA. Em Portugal ninguém vota pelo aborto, ou há uma pequena minoria que o faz. Como é que se explica esta diferença? As razões são várias. Primeiro, o EUA demorou mais tempo a descristianizar-se do que as sociedades europeias, que se descristianizaram a seguir à segunda guerra mundial, muito rapidamente. Os EUA também é um país em vias de descristianização, mas esta tem-se revelado bastante mais lenta. E, portanto, o conjunto de eleitores, de organizações cívicas, de dinheiro para financiar campanhas em torno de temas que digam respeito, neste caso ao aborto, nos EUA, são sempre politicamente muito mais relevantes, aí essa explicação é óbvia. Depois, é preciso não esquecer como é que o aborto foi legalizado nos EUA. Ao contrário do que aconteceu nos países europeus, que essa legalização ocorreu por via legislativa, por consentimento dos representantes do povo, livremente eleitos. No caso dos EUA, ocorreu por um acórdão do Supremo Tribunal em 1973. Portanto, houve sempre muita gente que não se conciliou com o facto de, para todos os efeitos, a legalização do aborto ter sido feita por um órgão que não é eleito. Evidentemente que é um órgão republicano, constitucional, mas que não é eleito. Trump conseguiu nomear muitos juízes e criar uma maioria republicana ou conservadora no congresso que não existia há muito tempo. Trump conseguiu reverter a tendência de maioria liberal, no sentido americano do termo, mais esquerdista. Isto reflete o facto de se olhar para o órgão do Supremo Tribunal como incluído ou abrangido pela luta política. Isto fez com que o tema do aborto estivesse sempre presente nas eleições. Entretanto, nestas eleições, o tema regressou com mais força, do que tinha sido o caso, nas três ou quatro eleições presidenciais anteriores, onde o tema tinha perdido algum vigor. Agora regressou porque houve um novo acórdão do Supremo Tribunal. Com a revogação do acórdão de 1973 e, no fundo, tomando a decisão que é uma espécie de não decisão, que é dizer: cabe ao poder legislativo decidir o que quer fazer relativamente ao aborto, e isso é uma competência dos estados. Assim, os estados, que têm câmaras legislativas, parlamentos próprios, legislem sobre o aborto como quiserem. Não será o Supremo Tribunal a empurrá-los numa direção ou noutra. Claro que, imediatamente, os conservadores ficaram muito contentes com esta decisão. Há muitos estados que disseram que, nesse caso, manter-se-ia legal o aborto e com um período em que o aborto é legal, de gestação, muito superior ao da lei portuguesa, que é bastante contida e razoável. Por outro lado, noutros estados legislou-se num sentido muito mais conservador e, portanto, imediatamente os grupos mais esquerdistas propuseram que o poder legislativo federal tem de incluir uma espécie de equivalente do acórdão de 73, que, entretanto, foi revogado na lei. E que seria uma proibição nacional da ilegalização do aborto a nível estadual, e é isso que está agora em cima da mesa na campanha. No que toca à figura do candidato republicano, como é que se explica esta idolatria a Trump? O trumpismo nos EUA, na minha perspetiva, é muito mais forte que qualquer outro populismo na Europa. E é! Também concordo, é mais forte. Como é que esta filosofia do trumpismo surgiu e influencia tanto a vida dos americanos? Não é fácil explicar porquê, agora, vejam que, nos EUA, o Partido Republicano é sempre um partido forte. Há países na Europa onde a direita pode estar numa posição de fragilidade política e eleitoral durante muito tempo. Os EUA não era assim há muito tempo. Se forem ver, no pós Segunda Guerra, há uma grande percentagem de presidentes republicanos e uma grande percentagem de maiorias republicanas no Congresso. Portanto, o partido é sempre muito forte. Trump aparece num momento de grande falência do Partido Republicano. Trump tem uma força própria, é inegável; uma força ligada à personalidade dele, à energia e à tenacidade dele, ao atrevimento dele. Mas, de facto, apanhou o Partido Republicano num estado decrépito. Num momento em que precisava dele. Num estado decrépito. Vejam, ele fez aquilo que toda a gente considerava ser impossível fazer. Ele venceu os poderes internos mais fortes do Partido Republicano, contra tudo e contra todos. Apareceu nas primárias em 2016. Venceu contra os meios de comunicação social conservadores. Ele venceu contra a rádio conservadora, que é muito forte na América, e contra a Fox , nas primárias. Claro, quando ele vence as primárias, todos esses meios de comunicação social ficam do lado dele. Mas para todos os efeitos, o que ele fez toda a gente dizia que era impossível. E em retrospectiva vê-se que era impossível porque o partido tinha ficado sem norte. Não era só o facto de os candidatos republicanos desse ano serem fracos, na altura Jeb Bush era considerado o candidato, enfim, favorito para ganhar. E em retrospectiva, à luz das coisas que ocorreram na América e na Europa, vemos que ele era um candidato fraco, apesar de ter sido governador da Flórida. Trump aparece com propostas que permitem revitalizar instantaneamente o Partido Republicano. Dou um exemplo, que para mim foi muito marcante quando vi o Trump aparecer. Os republicanos tinham ficado amarrados à questão das guerras no Médio-Oriente, com a decisão, fatídica a meu ver, tomada em 2003 pelo Governo Bush. E a partir daí, aquilo tornou-se uma ortodoxia, mesmo perante o desastre que aquilo tudo foi, a invasão do Iraque e tudo aquilo. Os republicanos cerraram fileiras e todos os candidatos podiam destoar de muita coisa, mas não destoavam daquilo. “Os americanos estavam em guerra por isso não podiam trair os soldados, não podiam fazer como no Vietname em que se contestava a política militar porque era uma espécie de traição aos soldados, etc.”. Os republicanos acharam que tinham de cerrar fileiras a todo o custo e havia muitos intelectuais americanos a justificarem aquilo, que era absolutamente injustificável, o aventureirismo americano no Médio-Oriente. Nem um candidato que eu apreciava muito, e que foi sempre o derrotado, chamado Mitt Romney, foi capaz de destoar disso. Ele tentou em 2008, e foi vencido por John McCain e depois não voltou a cometer o erro. O primeiro candidato que aparece a dizer, “tudo isto que os republicanos fizeram em matéria de política externa no Médio-Oriente foi um desastre! E comigo não volta a acontecer”. E dentro do Partido Republicano as pessoas pensaram, “Mas é possível dizer isto? Aquele gajo disse, se calhar é, e se calhar é uma posição muito mais razoável e muito mais popular no país do que nós estarmos a insistir num desastre”. E o Trump fez isso com duas ou três coisas e aquilo que parecia ser, “Bem, este tipo está a detonar o Partido Republicano”, na verdade foi uma espécie de última mão que se deu ao partido republicano, deu uma oportunidade ao partido de ter sobretudo posições isolacionistas. E isso foi obra de Trump, conseguiu fazer, não em 24 horas como diz que vai fazer na Ucrânia, mas em pouco menos de 24 horas porque basicamente ele apareceu no final de 2015 e disse “Comigo estas guerras acabam já e vou tirar os soldados todos de lá, e isto das guerras foram todas um desastre!”. Os outros todos ficaram à defesa. E o que separa do Partido Republicano e o torna a figura do conservadorismo? Pois é isso, ele depois fez ali uma coligação estranha. Eu acho que houve muito oportunismo e cobardia nos republicanos, porque assim que os republicanos com o “choque Trump” nas primárias, perceberam que o país tinha mudado muito na relação com eles republicanos, todos quiseram dar o salto e ir a bordo daquele barco. Pensaram: “este Trump é um bocado labrego, é um espalha-brasas, nunca pensou muito sobre estes temas; mas precisamente por isso, nós, se calhar, podemos capturá-lo.” Vou-vos dar um exemplo para ser mais concreto: o Partido Republicano tinha ficado sob a esfera de influência, não totalmente, mas em parte, de grupos cívicos organizados do evangelismo cristão. E estes pensaram: “bem este tipo pelo seu historial de vida esteve-se sempre a marimbar para o cristianismo e para a ética cristã, mas nós vamos acompanhá-lo neste barco, que este tipo vai ganhar, e no caminho vamos tentar capturá-lo e fazer dele um candidato cristão". E eles tentaram fazer isso. E o Trump, que nós já vimos que é um tipo sem escrúpulos, teve de dizer umas certas mentiras e fingir que afinal até já acreditava em Deus, quando se esteve sempre a marimbar para o cristianismo, para Deus, para a Bíblia, mas fazia aquelas figuras ridículas com a Bíblia na mão e tal. E assim agradava a todos. Foi uma combinação de conveniências: os cristãos estavam contentes porque ele ia lá pôr uns juízes que eles sabiam que eram contra o aborto e que, portanto, mais tarde ou mais cedo, ia acabar por revogar o aborto, embora soubessem que ele era um estaferme do ponto de vista da ética cristã. Os libertários, aqueles que queriam liberalizar a economia, fecharam um bocado os olhos àquelas coisas que ele dizia sobre introdução do controlo de preços, aumentar as tarifas aduaneiras, fechar a economia americana ao exterior: “bem nós fechamos os olhos desde que ele depois faça um orçamento em que reduza drasticamente a carga fiscal”, como depois acabou por fazer. Portanto, aquelas coligações que são sempre muito complexas nos Estados Unidos, ali tornou-se uma coligação totalmente bizarra, em que ele é o pivot completamente idiossincrático. E, de facto, ele tornou-se uma espécie de corporização de uma promessa de Renascimento americano, que é uma coisa que os americanos gostam muito. Não se esqueçam que o MAGA não é dele, é do Reagan. Mas ele foi lá buscar aquilo com a mesma promessa de uma maneira hiperagressiva, que refletia uma polarização que tinha crescido na sociedade americana e que ele em vez de agir para a moderar, decide acerá-la para seu proveito. E conseguiu? Conseguiu em 2016, levou demasiado longe em 2020 e é por isso que ele perde. Ele comete erros absurdos de polarização que eram completamente escusados, sobretudo a partir do Covid. Eu acho que ele até ao Covid ganharia as eleições. E depois no Covid, lá está por razões idiossincráticas daquela paixão que ele tem por agravar os conflitos políticos e a polarização, ele levou aquilo para um ponto em que já não conseguiu controlar. Ele agora voltou com esse objetivo de repolarizar aquilo já está totalmente polarizado. E não sei se depois do atentado na Pensilvânia ou depois do debate com Kamala Harris ou, que não podemos excluir, resultado do envelhecimento dele, fiquei com a impressão nestas últimas duas/três semanas que ele já não está a tentar esticar outra vez a polarização, ele agora já está a tentar conviver com a polarização que existe. Agora vamos ver, ele é daquelas pessoas que entende que a única lição que se deve recolher em política é nunca reconhecer um erro e que se disser uma coisa vezes suficientes com convicção suficientemente veemente, ela se torna verdadeira. Só que isso em política tem um preço que é passar a ser detestado pela maioria da população, podem ser amados pelos vossos partidários, mas há sempre um conjunto da população que nem vos ama nem vos odeia, aqueles mais ou menos indiferentes. E esses indiferentes inclinam-se ou para um lado ou para o outro, dependendo da circunstância. Se vocês se tornarem detestáveis aos indiferentes, não têm hipótese de ganhar. Se calhar vai ganhar um gajo que a malta acha que é um candidato da treta, fraquíssimo, mas que não é detestável. Isso acontece muito, na Europa, em Portugal e na América. E vai acontecer? Eu continuo a achar que o Trump vai perder, apesar das sondagens agora até me andarem a contradizer, mas já disse isto há tanto tempo. Não, eu achava que ele ia ganhar de caras contra Biden, mas depois quando eles meteram lá a Kamala, da maneira como a puseram, e o debate que ela fez, eu convenci-me que ele ia perder por esta razão, porque ele é muito mais detestável para os americanos do que ela. Ele até pode ser mais amado do que ela, Kamala é mais ou menos indiferente para os americanos, também é detestável para muitos, mas ao não ser tão detestável, eu acho que ela vai colher o encolher de ombros de uma parte maioritária dos indiferentes. Trump criou deliberadamente um capital de mobilização do voto contra ele. Eu tenho vários amigos americanos que acham que a Kamala é uma nulidade, que é o que ela é, mas acham que o Trump é detestável e vão votar na Kamala por ele ser detestável. Também só há duas opções. Só há duas, mas na Europa às vezes há mais e mesmo assim isso conta. Vocês vêm, por exemplo, isso acontecer em França com o Rassemblement National , da Marine Le Pen. Ela tornou-se detestável para uma grande parte da população francesa. E depois vem ao lado Itália, Meloni que percebeu esse risco. É verdade que chegou ao poder mais rápido, outro sistema eleitoral, foi tudo mais fácil para a Meloni. Mas a Meloni percebeu que não se podia tornar detestável e vai ter um futuro político muito mais risonho do que a Marine Le Pen. Portanto isto conta, vocês querem dar nas vistas, aparecer, ir de frente contra adversários políticos, bem é preciso medir como é que se vai contra os adversários para o capital de ódio não ser acumulado. É uma lição que aprendemos com Cícero e depois com Maquíavel: vocês podem fazer muita coisa, tornarem-se objetos de ódio é que não. Hoje vemos que Donald Trump é quase maior que o Partido Republicano. Qual é o futuro do partido, tanto em caso de derrota como em caso de vitória, visto que acabaria o mandato com 82 anos? Acha que a escolha de J.D. Vance é para ser o seu sucessor? Não, Trump nunca quereria escolher um sucessor. Trump detesta a ideia de sucessor. Trump quer que a eleição, e uma possível presidência, seja sobre ele, ele é o protagonista. É o clássico egomaníaco. Não é o único atenção, todos os políticos têm de ser um bocadinho. Ele é a figura clássica do egomaníaco demagogo, que também aprendemos na filosofia política desde a antiguidade. Mas sucessores ele não quer e vai-se estar nas tintas para isso. Mas o partido não. Mas as coisas mudam muito. Eu julgo que DeSantis mostrou que não será sucessor, que não tem dimensão nacional. Os Estados Unidos é um país continental, portanto não é fácil ser um candidato nacional. Podes ser um grande governador da Flórida que não é a mesma coisa, apesar da Flórida ser maior que Portugal. Agora, J.D. Vance que parecia, por aquela razão da detestabilidade, uma má escolha, mostrou que é um tipo superiormente inteligente e percebeu que tem de se reconstruir já imediatamente. Ele fez um debate com o Tim Walz nos antípodas do debate de Trump. E aquilo que ele disse sobre Trump foi o mínimo dos mínimos para ser leal, numa candidatura que é liderada por Trump e teria que ser leal sempre. No resto ele foi um líder conservador tão ardente nas suas posições quanto Trump, mais fundamentado até, mas que ao mesmo tempo percebe o risco do capital de ódio. Portanto ele foi muito conciliador. Raparem, ele disse montes de vezes uma coisa que Trump nunca diria, que é que estava de acordo com Tim Walz. Eu li o livro dele e fiquei muito bem impressionado. Porque na altura a malta pensava que ele era um tipo que ia dar ali a volta entre os esquerdistas ou então os republicanos mais ao centro. Mas não, ele revelou-se um conservador até bastante integral, digamos assim. Ele é muito inteligente como dá para perceber. Eu acho que ele claramente está a construir uma candidatura de sucessão a Trump. Ele claramente apaixonou-se pela ideia de ser candidato a presidentes do EUA. Ele é muito novo, tem muito dinheiro, é muito inteligente, tem muitos contactos. E isso é importante. Não tem nenhuma experiência política, para além de ter sido eleito para o Congresso, mas se fosse Vice-Presidente ficaria a tê-la com certeza. Eu julgo que ele não deixará de abdicar daqui por quatro anos de se candidatar. Agora não sabemos quem é que vai aparecer, é muito difícil dizer o que é que vai acontecer, sobretudo se houver uma presença de Trump, quer dizer, isso é tudo indeterminado. E quanto aos democratas, em caso de nova administração, há algum setor em que nós saibamos que vai haver uma mudança clara? Não sabemos. Como? Kamala Harris é uma candidata muito fraca. Que também já se viu que está disposta a engolir as convicções, que andou a agitar durante anos e anos. E isso lançou uma grande dose de incerteza. Ela quer ficar com a equipa do Biden? Eu não sei, nós não sabemos. Para já ela ficou com uma grande parte da equipa do Biden, mas por razões até de logística. Os democratas atiraram-na para a candidatura sem tempo para nada, portanto não havia outra equipa. Mas é isso que seria uma equipa na Casa Branca dela? Eu sinceramente não sei. A resposta mais fácil é dizer que haverá uma grande continuidade das políticas do Biden. Isto significa uma grande aposta na digitalização, a inteligência artificial, a continuação de concorrência tecnológica com a China, presumivelmente uma maior restrição das políticas de imigração. Mas quer dizer, isto é porque como nós não sabemos nada sobre Kamala Harris, a única coisa que temos do Partido Democrata é o que é que Biden estava a fazer e o que é que ele prometia fazer a seguir. Se é isso que Kamala vai fazer? Nós não sabemos. E Trump, em grande medida nós também não sabemos que é que vai fazer. À exceção da imigração e da China, mesmo na questão da concorrência tecnológica e económica, ele também oscila entre levar essa concorrência à Europa. Sabemos pouco dos dois então. Estas eleições são muito bizarras. Porque às vezes há um candidato que é imprevisível, mas aqui são os dois. Eu diria, no entanto, que do ponto de vista europeu, e só do ponto de vista puramente egoísta de um europeu, Kamala é menos imprevisível do que Trump. Professor, por fim, se tivesse de escolher entre Donald Trump e Kamala Harris, conseguia escolher? Não façam essas infantilidades de levar as pessoas a querer escolher! Eu dou graças a Deus de não ser americano nesta fase e de não ter de escolher nenhum deles. Os americanos saberão o que é que é melhor para eles. Eu falo do ponto de vista europeu e já vos disse que desse ponto de vista Kamala Harris é menos imprevisível do que Trump e, portanto, menos arriscada do que Trump. Agora, as loucuras e a imprevisibilidade de Trump não me levam, como muita gente aqui em Portugal, a fechar os olhos às carências gravíssimas de Kamala Harris e do facto de ela também ter sido sempre uma líder política do wokismo. Portanto eu não tenho de escolher nenhum deles e espero que os americanos não se venham cá meter quando eu quiser escolher quem são os líderes portugueses que eu achar melhores e piores. Já é tão difícil às vezes, em certas situações, eu ter de escolher o meu futuro primeiro-ministro e tem havido várias ocasiões onde me é muito difícil escolher, quanto mais a posição americana. Deixem lá isso, vocês não se preocupem com essas coisas.
- Momentos Analógicos
Os meus pais estão-me sempre a perguntar porque que é que eu uso uma máquina de fotografia analógica e, de facto, a pergunta é válida. Com os altos preços da revelação e os dos rolos a subirem a cada mês e até o facto de não conseguirmos ver imediatamente as fotografias podem para alguns estragar a experiência analógica, mas para mim são exatamente estas razões que me fazem querer tirar mais e mais fotografias. Estes três pontos fazem com que cada fotografia tenha mais importância do que uma mera fotografia digital que no mesmo instante nos é entregue nas mãos. Importância esta que nos obriga a ter um olhar muito mais atento e específico do espaço que nos rodeia. A fotografia analógica desafia-nos a encontrar o momento ideal para a fotografia perfeita. Dou por mim, muitas vezes, a reparar em coisas que em tempos me pareciam tão banais mas que agora são arte, simplesmente porque reconheço o valor de cada fotografia. Ainda estou longe de ser profissional nesta matéria, mas aqui se seguem algumas fotografias tiradas por um simples homem que com a sua simples máquina analógica foi aprendendo a ter uma visão diferente do que o rodeia.
- Eleições Negativas
O Reino Unido. Monarcas, grandes líderes, guerras e batalhas, autores, filósofos, músicos e artistas, o maior império de sempre e quase mil anos de tradição. Foi o primeiro e único país a sair da União Europeia, circula uma moeda que mais ninguém usa, guia-se do lado esquerdo e ainda tem o seu próprio tipo de tomada elétrica. Os britânicos não conseguem ter êxito nos seus próprios desportos, adoram jardins, animais e chá e parece que, dia 4 de julho, são chamados mais uma vez às urnas. O cenário político no Reino Unido é de uma enorme desconfiança. Nos últimos oito anos, o país viu cinco primeiros-ministros diferentes, algo de inédito na sua democracia, e é quase certo que em julho seja eleito o sexto. Com o resultado do referendo do Brexit, demitiu-se David Cameron, sucedendo Theresa May, que em 2017 ganhou as eleições gerais sem maioria. Derrotada pelo fardo de executar o Brexit, May sai em 2019, subindo ao cargo Boris Johnson, que nesse mesmo ano, recupera uma maioria absoluta, a maior desde Thatcher em 1987. Abalado pela pandemia, o Reino Unido viu em 2022 a demissão de um Johnson envolto em escândalos, introduzindo-se Liz Truss, que não durou mais do que 50 dias. No meio de todo este tumulto surge Rishi Sunak, o antigo Chanceler do Tesouro, que desde outubro de 2022 tem batalhado para tentar redinamizar uma débil nação. As tendências e os temas debatidos são os mesmos que em muitos países europeus. Discutem-se as políticas fiscais, o resgate dos serviços públicos e do serviço nacional de saúde, a inflação, a imigração e as crises de habitação e de energia. E a tendência, como sabemos, é de polarização. A população vai perdendo esperança nos partidos mais moderados e institucionais, o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, que estão no poder há muito tempo, dando espaço às forças mais extremistas. Existe, em particular, a amplificação da voz e da influência da direita “populista” (conceito de que tanto ouvimos falar nos dias de hoje) de Nigel Farage e do seu partido Reform UK. O Reino Unido encontra-se perante um contexto muito negativo e umas eleições históricas. Pelo estado fragilizado do país, pelo ceticismo que existe acerca de quem governou, quem governa e quem governará, e porque não haverá nenhum vencedor, apenas um Partido Conservador vencido e possivelmente humilhado. As sondagens mais recentes da BBC dão 41% ao Partido Trabalhista de Sir Keir Starmer, 21% aos Conservadores e 16% ao Reform UK - um resultado trágico para Rishi Sunak. Estas eleições veem uma população britânica que não está a votar para um novo governo, mas sim para tirar de lá o atual. Acredito que grande parte dos votos nos Trabalhistas não é ideológico; o programa do partido consiste em reformas económicas e sociais, reforçando a ideia de mudança. Mesmo com as muitas críticas de Sunak à ausência de um plano pragmático de Starmer para governar, não parece haver esperança para os Tories. É importante notar que o sistema eleitoral britânico é um de “first-past-the-post”: a população não elege diretamente um primeiro-ministro, mas sim um membro representante de cada um dos 650 círculos eleitorais, vencendo o candidato local que tiver o maior número de votos. O partido que eleger o maior número de candidatos é desta forma convidado pelo monarca a formar governo. Assim, a presença desestabilizadora de Nigel Farage tornar-se-á fatal para Sunak. É inevitável que o Reform UK roube votos à direita. Podem não ser muitos, mas serão o suficiente para garantir que muitos dos candidatos Conservadores não sejam eleitos. Ainda que se assemelhe aos outros líderes da direita europeia, é de se reforçar que Farage destaca-se, não só pela sua inteligência e eloquência, mas pela sua extensa reputação política. Foi membro fundador da UK Independence Party em 1993, que sob a sua liderança ainda teve 24 lugares no parlamento, foi eurodeputado de 1999 a 2014, onde teve muita influência, e a sua maior conquista, conseguiu convencer, quase sozinho, 52% do Reino Unido a sair da União Europeia. Ao longo dos últimos 21 anos, foi lhe rejeitado um lugar em Westminster sete vezes em seis círculos diferentes. Mas isto não afeta de forma nenhuma a confiança de Farage, nem o seu fiel eleitorado. Tem puxado há anos pelo tema da imigração como também pela ineficácia dos Conservadores e dos Trabalhistas. O colunista do Wall Street Journal, Joseph C. Sternberg, num artigo intitulado “We Know Who’ll Win the UK Election, but Why?”, descreve também a situação política da Grã-Bretanha. Evidencia o facto de o Partido Conservador estar no poder há 14 anos: “That’s too long in a democracy. The Tories have exhausted their talent and whatever ideas they brought in when David Cameron first became prime minister in 2010.”, explica Sternberg. É o início de um novo ciclo. Os Conservadores já estiveram tempo o suficiente, o país está a precisar de mudança e, a partir de julho, será o Sir Keir Starmer e o seu futuro governo a proporcioná-la. Os líderes estão se a deslocar pelo país em campanha, os programas mais relevantes já foram todos apresentados e os debates concluem-se na próxima semana. Falta apenas o resultado para assinalar o começo de uma nova era no Reino Unido, seguramente marcada por incerteza, considerando tanto as questões domésticas como a atual instabilidade geopolítica. As condições são pouco favoráveis a Sunak: as consequências do Brexit, a pandemia, a insegurança internacional e ainda o desgaste democrático. Em termos de lugares no parlamento, a última projeção da YouGov prevê 425 candidatos eleitos para os Trabalhistas e 108 para os Conservadores. O número mais baixo de lugares na história do Partido Conservador (que tem 190 anos). É pouco provável, mas nunca impossível, que consiga resgatar um resultado suficientemente forte para fazer oposição a Starmer. Mas, por enquanto, uma coisa é certa: a prioridade é o regresso de um próspero Reino Unido.
- "In A Silent Way" - A reinvenção da música (pela terceira vez)
Sempre que me deparo com uma situação que consiste em escolher um único disco de Miles Davis, dou uma resposta diferente. E desta vez, ao decidir que escreveria acerca um deles, a decisão foi, como de costume, dolorosa. Há, no entanto (como em todos os outros) uma, ou melhor dizendo, várias razões que justificam a opção escolhida ter sido In A Silent Way. Nesta marcante obra-prima da mais estimada lenda do jazz, identificamos as características que lhe são mais frequentemente atribuídas e que, por consequência, explicam a sua colocação como um dos músicos mais importantes do século XX. Uma exibição de absoluto talento e destemor, que simboliza todos os seus trunfos condensados num só projeto capaz de nos questionar os limites da música. De modo a não ser obrigado a escrever uma autêntica dissertação de dezenas de páginas, resumir-me-ei a desenvolver apenas três das principais particularidades de Davis e o esplendor com que são demonstradas neste disco. Primeiramente, há que ser assinalada a sua capacidade de orquestrar uma banda. Reconhecido por ser um dos mais célebres líderes de grupos de jazz, destacam-se o Primeiro Grande Quinteto (1955-1958) e Segundo Grande Quinteto (1964-1968), nos quais contava, entre outros, com o saxofonista John Coltrane e o contrabaixista Paul Chambers no primeiro, e com Ron Carter no contrabaixo e Herbie Hancock no teclado no segundo. Este prestígio que lhe é atribuído não se justifica apenas pela incrível química musical entre os instrumentalistas por ele encabeçada, como a capacidade de impulsionar os seus jovens colaboradores a iniciarem mais tarde a sua carreira a solo (exemplo de Coltrane). À data em que In A Silent Way foi lançado, em 1969, o Segundo Quinteto já tinha “tecnicamente” terminado. No entanto, ao verificarmos os créditos do disco encontram-se os dois últimos anteriormente mencionados e os restantes membros do quinteto da década de sessenta (o baterista Tony Williams e Wayne Shorter no saxofone soprano). Contudo, conta também John McLaughlin na guitarra elétrica, dois pianistas para além de Hancock com Chick Corea e Joe McLaughlin e, por fim Dave Holland no contrabaixo. Tratava-se, então de uma banda de 8 membros. E entre eles a química é inquestionável. Ao longo das duas faixas de 18:14 e 19:42 minutos, respetivamente, dão-se transições de impressionante fluidez e solos memoráveis. Cada membro um génio totalmente dominante do seu instrumento. Em sequências musicais caóticas e simultaneamente belíssimas, é criado um ambiente frio e quase alienígena, tendo como maestro o “Mr. Cool himself” no trompete, Miles Davis. Em segundo lugar, o estilo de tocar do compositor e trompetista encontra-se aqui no seu estado mais puro e idiossincrático. É sabido que Davis não é um virtuoso ou um mestre do trompete no sentido técnico do termo, no que toca à sua capacidade de tocar o máximo de notas possível num minuto ou em seguir um ritmo convencional. Opondo-se a Coltrane, sempre optou por capitalizar nas melodias e na emoção que estas transportavam através do seu sopro no trompete. Ao invés de se sentir obrigado a tocar uma nota no sítio certo, a cumprir a pauta à regra ou a desatar a improvisar com uma velocidade implacável, priorizava a sua tremenda criatividade e sensibilidade melódica. E talvez não haja melhor exemplo de tal do que em In A Silent Way. Aqui, liberta-se de quaisquer regras da teoria musical e metaforicamente rasga as insuficientes e limitadoras pautas. Nunca em qualquer outro disco até então alguém soou tão livre dos limites habitualmente impostos aos músicos de jazz. O resultado é simplesmente brilhante. Sempre complementado pelos restantes membros, existe uma espécie de ecossistema sonoro onde este álbum existe que é inteiramente único de qualquer rótulo ou simplificação estilística. Um ambiente algo calmo, mas dinâmico ao mesmo tempo. É constante e sensível ao ouvido uma espécie de revestimento superficial onde o ritmo marcado pelo contrabaixo persiste, mantendo a coerência e a conexão entre todos os outros instrumentos, enquanto estes se soltam a cada segundo, dando lugar a uma camada obscura em constante e exponencial inquietação. Uma tensão que nunca chega realmente a quebrar de modo satisfatório e que nos deixa sempre a desejar mais cada vez que o ouvimos. Mas é essa angústia, essa incerteza nas notas que são tocadas, que são a grande dádiva do disco e que o tornam como nada mais no mundo do jazz. Isto é, até aquela altura. Pois, por fim, como terceiro motivo pelo qual merece ser relembrado como um momento único na história da música é o facto de ser um álbum especialmente relevante na evolução artística pessoal de Miles Davis e na do jazz como um todo. Representa não só uma transição do seu período acústico para o elétrico, dando lugar a pianos e guitarra elétrica, assim como sendo o seu primeiro disco de “fusão”, marcando assim uma nova etapa não só nos seus seguintes trabalhos de estúdio como performances ao vivo. Ora, sendo pioneiro como sempre foi ao longo de toda a carreira, In A Silent Way marca, por isso, não só um ponto de viragem na sua carreira como do restante panorama sonoro do jazz e mais ainda (com alcance até ao rock). Enquanto anteriormente já teria dado a conhecer ao mundo o “cool jazz” em Birth of the Cool, ao “modal jazz” no magnífico Kind Of Blue, seria agora a vez de introduzir o “fusion jazz” (“Well, I’ve changed music five or six times”, confessou a Nancy Reagen, ex-primeira dama dos EUA, quando esta lhe perguntou a razão pela qual ele estava presente num jantar na Casa Branca). Esta vertente seria mais tarde desenvolvida pelo próprio, incluindo no famoso Bitches Brew e pelos seus contemporâneos. O nível de experimentação foi de tal maneira inesperado e audaz que fez com que o disco fosse, à época, relativamente mal recebido. Ninguém sabia o que fazer com aquilo. Havia quem nem o considerasse jazz. E quem somos nós, privilegiados ouvintes do futuro para os julgar? Não havia nada que se lhe comparasse, nem sítio por onde se pegar. Soava diferente e vindo do futuro. Agora, com o passar do tempo e depois de se mostrar incrivelmente influente na cena musical do início da década de 70, apesar de continuar excêntrico e futurista, é seguro afirmar que é não só à frente do seu tempo como um dos eternos clássicos do jazz.
- O populismo de esquerda por dentro
O populismo de esquerda apareceu entre a última parte da década de noventa e o início do século e, no sul da Europa, obteve os seus melhores resultados durante os tempos da austeridade. Os partidos do populismo de esquerda são produto de histórias variadas, que quase desapareceram da memória coletiva, particularmente em Portugal. O SYRIZA nasceu em 2004, baseando-se em vários partidos da esquerda que ou se opunham ou derivavam do Partido Comunista Grego. Em 2015 apresentou-se com sucesso como a alternativa contra a austeridade imposta pelos partidos do centro, que governavam a Grécia desde a década de setenta. Apesar disto, o governo de Aléxis Tsípras mostrou pouco radicalismo, mantendo a maior parte das políticas de austeridade que tinha anteriormente criticado. Em 2018, o Bloco de Esquerda e o Podemos decidem abandonar o Partido da Esquerda Europeia (que inclui o SYRIZA) e criar o movimento Agora o Povo, como forma de protestar contra a conduta do governo grego. O abandono da política radical consolidou-se ainda mais em 2023, quando Stéfanos Kasselákis, um centrista assumido, se tornou líder do partido. O resultado foi a saída de parte dos militantes que acabaram por criar o Nova Esquerda, claramente mais esquerdista e alinhado com o Agora o Povo. Enquanto principal partido do governo grego, o SYRIZA assumiu rapidamente um posicionamento mais centrista, o que causou o aparecimento de um novo partido à sua esquerda (diminuindo o número de representantes no Parlamento Helénico) e a perda da enorme popularidade de outrora. O movimento contra a austeridade em Espanha teve como resultado político o aparecimento do Podemos. O partido foi a votos pela primeira vez em 2015, onde elegeu 49 deputados, o seu melhor resultado. Entre 2016 e 2019, esteve inserido na Unidas Podemos, que incluía tanto a Esquerda Unida como o Podemos, sendo claramente liderada pelo partido de Pablo Iglesias. Depois dos maus resultados nas municipais e regionais espanholas e da demissão de Pablo Iglesias, o Podemos acabou por aceitar tornar-se parte da Sumar, liderada pelo Movimento Sumar, o novo partido de Yolanda Díaz, que tinha sido anteriormente a coordenadora da Esquerda Unida galega e que permanece membro do Partido Comunista Espanhol. O momento que determinou derradeiramente o desaparecimento do Podemos da cena política espanhola foi quando em 2023, depois de lhe terem sido recusados quaisquer ministérios no terceiro governo de Pedro Sánchez, saiu da Sumar, limitando-se apenas a 4 deputados. O Podemos perdeu completamente o seu anterior ímpeto, criando a oportunidade para o Movimento Sumar, sucessor informal da Esquerda Unida, se tornar o partido determinante da esquerda espanhola. Resta-nos o Bloco. Foi criado na última metade da década de noventa, produto de um acordo entre a UDP hoxhaísta, o PSR trotskista e o Política XXI, constituído por dissidentes do PCP. Destes, o PXXI representava a esquerda mais moderada. É relevante constatar que o movimento abandonou o BE em 2014, consequentemente, os membros desta ala mais moderada, como o atual comentador Daniel Oliveira e Ana Drago abandonaram também o partido (o histórico líder do PXXI, Miguel Portas, faleceu em 2012). O PSR e a UDP não se constituem como correntes internas do Bloco desde 2013, apesar disto, os seus principais líderes, Francisco Louçã e Luís Fazenda respetivamente, patrocinaram as novas correntes que se tornaram dominantes no partido. Catarina Martins torna-se co-coordenadora nesta altura, em 2012, representando este novo período da vida do partido (a sua candidatura foi também apoiada, ou mesmo proposta, pelo seu antecessor). Neste sentido, o Bloco acaba por contrastar com outros partidos equivalentes na Europa. Yolanda Díaz, líder do Sumar em Espanha, abandonou publicamente a Esquerda Unida em 2019. Apesar de muitas disputas internas, a corrente dominante do SYRIZA, os «renovadores» vindos do Synaspismós, tinha abandonado o comunismo do KKE (Partido Comunista Grego) depois da queda da União Soviética no início da década de noventa. Destes, o Bloco é o único no qual a corrente mais radical, associada inicialmente à UDP e ao PSR, acabou por vencer a disputa pelo controlo partidário. Desde a sua entrada na política nacional que o Bloco é considerado encontrar-se entre o Partido Socialista e o comunismo mais «tradicional» do PCP, mas não é possível apontar nenhum momento claro de quebra com o radicalismo dos partidos que o constituíram. O próprio posicionamento do partido não se tem revelado propriamente constante, tendo mudado claramente na última década relativamente a temas centrais, como a moeda única. Resta questionar se abandonou mesmo o radicalismo, acompanhando outros equivalentes na Europa, ou se será o que resta da perspetiva revolucionária que determinará o seu posicionamento. Por enquanto o mistério mantém-se, o Bloco é o partido mais imprevisível da esquerda portuguesa. Mariana Mortágua tornou-se coordenadora nacional há cerca de um ano e tinha apenas 12 anos quando foi fundado o BE. Representa bloquistas que estão cada vez mais distantes das nuances políticas que marcaram o início de vida do partido que lidera. O próprio Bloco fez 25 anos este ano e, admitindo que na política os movimentos internos dos partidos os moldam tanto como o próprio eleitorado, é possível que Mortágua encaminhe o partido a assumir as políticas que os eleitores esperam. O mandato desta coordenadora nacional vai ser verdadeiramente importante, tendo esta a oportunidade de adaptar o Bloco ao seu tempo e à Europa, e quebrar com o discurso constantemente protestativo, que tem limitado consideravelmente o possível eleitorado do partido.
- Europa, mudei a casa
Corre no Parlamento Europeu um velho ditado que diz que o primeiro mandato de eurodeputado serve para perceber como tudo funciona, o segundo para o deputado se afirmar e o terceiro para preparar a chegada da geração seguinte. Ser eurodeputado requer experiência. Surpreende então que Portugal seja o estado-membro com as listas mais remodeladas em 2024, depois de cinco anos em que a delegação portuguesa foi a terceira com mais influência no PE, de acordo com o EU Matrix. No cenário mais “otimista”, só dois dos atuais vinte e um eurodeputados serão reeleitos. E isto deve-se a vários fatores, como o facto de quatro dos seis eurodeputados do PSD terem sido chamados a integrar o novo governo, o que também aconteceu com o eurodeputado único do CDS-PP, agora Ministro da Defesa, Nuno Melo. Mas a necessidade de “refrescar” as listas tem uma primeira causa central: combater a abstenção. De 1987 (ano das primeiras europeias) a 2019 (ano das últimas), fomos dos 30% de abstenção a pouco mais de 30% de participação. Não seria escusado falar aqui de uma “maioria silenciosa”, que representa quase 70% dos eleitores, mas cuja voz não é ouvida em Bruxelas. Por isso se renovam as listas. As eleições europeias são ganhas por quem consegue “levar” mais gente a votar. E os cabeça-de-lista do PS e da AD deste ano são um testemunho disso. O PSD em 2019 elegeu seis deputados, menos três que o PS, que ganhou as eleições. O atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, foi o cabeça-de-lista, e que acabou o seu terceiro mandato como o 15º deputado mais influente do PE. Desta vez, o rumo tomado não poderia ter sido mais diferente. Luís Montenegro escolheu Sebastião Bugalho, agora ex-comentador político, de vinte e oito anos, cuja única experiência política anterior fora um quinto lugar na lista do CDS por Lisboa. Mas se a experiência foi negligenciada, pelo menos comparando a 2019, o mediatismo foi privilegiado – numas eleições que não se disputam somente no plano do combate à abstenção, como referi acima, mas que têm sido encaradas como uma segunda volta das legislativas, ou melhor, uma primeira volta das próximas. 9 de junho será o barómetro através do qual os partidos – nomeadamente o PS e o Chega - avaliarão a confiança dos portugueses no Governo e a margem que terão para o derrubar na votação do Orçamento de Estado. A estratégia do PS não terá sido muito diferente da AD. Os portugueses conhecem bem Marta Temido dos tempos da pandemia, altura em que foi Ministra da Saúde, e se acusam Bugalho de só ser conhecido na “bolha” mediática, sem dúvida que a projeção de Marta Temido é maior. Isto numas eleições que se seguem à derrota do Partido Socialista nas legislativas: duas derrotas eleitorais seguidas não seriam um bom começo para o consulado de Pedro Nuno Santos como secretário-geral do PS, que se depara com fraturas internas que o enfraquecerão caso não consiga um bom resultado. A preferência pelo mediatismo e a necessidade que tem o PS de não perder estas eleições explicam o porquê do segundo e terceiro candidatos na lista dos socialistas, Ana Catarina Mendes e Francisco Assis, serem, de longe, figuras com mais experiência política, nacional e europeia, que Marta Temido, mas que talvez não dessem tantos frutos nas urnas. As escolhas do resto dos partidos apontam no mesmo sentido. O BE optou pela ex-líder Catarina Martins, que substitui a agora deputada Marisa Matias como cabeça-de-lista, e a IL anunciou já em novembro outro ex-líder, João Cotrim de Figueiredo. Mais uma cara conhecida, para somar a um comentador, uma ex-ministra, e à última coordenadora do Bloco. Depois há o caso do Chega, que não deixou de me surpreender. Aos olhos do que ocorre na Itália (e na Croácia), onde três líderes partidários, inclusive a primeira-ministra Georgia Meloni, concorrem como cabeça-de-lista às europeias sem intenção de ir para Estrasburgo, não seria de espantar que um partido unipessoal como o Chega, cujo sucesso assenta – assim como acontece com todos os partidos da direita populista – no líder carismático, o colocasse a disputar as europeias. Se não Ventura, talvez Rita Matias, que viaja várias vezes a Bruxelas em encontros do ID (Identidade e Democracia), o grupo parlamentar a que pertence o Chega e no qual estão representados os partidos Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, e a Liga Italiana, de Matteo Salvini. Face ao que verificamos noutros partidos, António Tânger Correia está longe de integrar o perfil mediático preponderante, e é de alguma ironia o facto de ser o Chega a fugir à regra. Nestes próximos cinco anos em que se decidirá muito do futuro da Europa e do mundo, em que se assistirá a uma viragem à direita no PE que terá um grande impacto na União, com a guerra na Ucrânia e a necessidade renovada de uma aposta europeia em defesa, em que se decidirão os alargamentos a leste e o futuro da coesão, e o desenvolvimento da questão climática (alterações ou emergência, como lhe queiram chamar), os eurodeputados portugueses estarão no estágio de «perceber como tudo funciona», como diz o ditado parlamentar. É certo que há muita experiência, e acima de tudo competência, mas, será que a total renovação será remotamente positiva? Creio que não. Talvez Lídia Pereira, quinta na lista da AD, e que será eleita para o seu segundo mandato, possa acompanhar todos os vinte e um eurodeputados da delegação portuguesa e mostrar-lhes os cantos da casa.
- Da Ruína à Glória
Corria o ano de 2019. Era Marcel Keizer quem comandava os Leões, depois da saída de Peseiro, em Novembro de 2018. Lembro-me bem de estar sentado no meu lugar em Alvalade e ouvir, inicialmente vindo apenas das bancadas sul, o famoso cântico que perguntava a Varandas o que ali fazia e dizia que a “presidência não é lugar” para ele. Mas rapidamente, de jogo para jogo, o cântico passou a ser entoado um pouco por todos os setores. De repente, o Presidente eleito há apenas um ano com 42% dos votos dos sócios do Sporting era agora odiado por quase todos. (Tenho bem guardada nas minhas memórias de infância a agressividade com que se pedia a demissão a Godinho Lopes, mas agora tudo era diferente.) Lembro-me de estar nesse, até hoje, meu lugar, olhar à volta, e pensar que clube era aquele. Tinham sido 14 anos de devoção ao Sporting, sem praticamente ganhar títulos. O clube tinha estado à beira da guerra civil, mas tinha aguentado, e elegeu um Presidente que eu acreditava ser capaz de inverter o rumo da história, mas as coisas não pareciam estar a andar para a frente. Tinha como lema de campanha: Unir o Sporting. Mas que união? Um estádio inteiro a pedir-lhe a demissão e constantes confrontos nas bancadas entre brunistas e não brunistas? Era difícil perceber como é que ia unir um clube assim, mas Varandas lá sabia. Tinha bem pensada uma verdadeira revolução silenciosa. Antes de mais, precisava de limpar a herança que recebeu. Importa perceber o que encontrou Frederico Varandas em Setembro de 2018. Será que tinha obrigação de começar em grande? 2018 foi para o Sporting como 1945 foi para a Alemanha, era preciso recomeçar. A tensão entre jogadores, staff e dirigentes era um problema grave e nunca visto naquela escala. Mas a questão financeira, poucas vezes vincada, foi um dos grandes fatores que contribuiu para o falso arranque de Frederico Varandas. Antes de ganhar era preciso equilibrar contas, aliás, só equilibrando as contas seria possível ganhar. No dia das eleições de 2018, Sousa Cintra anunciava as contas do ano do Sporting, que mereceram o seguinte título da Sapo: “As contas vermelhas do Sporting”. Eram 19.9 milhões de prejuízo e um Sporting em falência técnica. Para além disto, à data das eleições, o clube detinha apenas 66% da SAD (e as previsões eram que viesse a perder a maioria). Foi esta a herança financeira de Bruno de Carvalho. Outra questão muito importante da herança 2018, que se confunde entre a tensão dentro da estrutura e o declínio financeiro, é a questão das rescisões. Foram nove os jogadores do plantel principal do Sporting que rescindiram contrato após o fatídico 15 de Maio, invocando justa causa. Sendo que três acabaram por regressar, Bas Dost, Bruno Fernandes e Battaglia. (Nenhum Sportinguista se esquece da imagem de Bas Dost no Jamor perdido de 2018, e esse é para mim o retrato mais simbólico da herança Bruno de Carvalho.) Dois negociaram a saída, William e Rui Patrício. E outros quatro tiveram, ou têm ainda, processos mais complicados: Gelson Martins, Podence, Rafael Leão e Ruben Ribeiro. É importante referir que Rafael Leão poderia, porventura, ter vindo a ser a maior venda de sempre do Sporting, maior do que qualquer indeminização que o Sporting recebeu ou venha a receber por ele. Leão era ouro para o Sporting. E o ouro desperdiçado é também parte da herança Bruno de Carvalho. O ápice da herança Bruno de Carvalho é o ataque à academia, a 15 de Maio de 2018. (Não estou com isto a dizer que Bruno de Carvalho tem envolvimento direto no caso, mas apenas que a invasão é o culminar de uma série de situações de que Bruno de Carvalho é responsável). E Frederico Varandas é eleito na madrugada de 9 de Setembro do mesmo ano. Algum sócio do Sporting, no pleno das suas capacidades, poderia achar que um Presidente eleito 115 dias depois do dia mais negro da história do clube tem obrigação de apresentar resultados nos primeiros meses ou mesmo anos? A razoabilidade diria que não, mas, como vimos, eram muitos os que desafiavam a razão. É verdade que a gestão do futebol no primeiro ano e meio de mandato parecia ser absolutamente danosa, mas quem era o treinador que queria treinar aquele Sporting? Varandas tinha “desculpa” para a aparente má gestão desportiva do início de mandato. E por mais amor que se tenha ao Sporting e, consequentemente, exigência com a estrutura dirigente, não se vai do péssimo ao ótimo em meio mandato, não há milagres na gestão do futebol e nenhum sócio do Sporting tinha o direito de o exigir. E a verdade é que, no meio deste 2019 tão turbulento, o Sporting ganha a Taça da Liga e a Taça de Portugal. Desta forma, Frederico Varandas, até no seu ano de “gestão danosa”, consegue ter o dobro dos títulos do que Bruno de Carvalho desde 2016 até ao seu fim. O dia D de Frederico Varandas é o 5 de Março de 2020, dia em que Ruben Amorim é apresentado como treinador principal do Sporting. Um muito jovem treinador, que dava nas vistas em Braga pelos bons resultados frente aos grandes, em que Varandas decide investir dez milhões de euros. À data, ouvi acusar Varandas de tudo: era porque não tinha experiência, era porque tinha um passado no grande rival, era porque não se paga nunca dez milhões por qualquer treinador. Muitos consideraram ser um tiro no escuro, talvez os mesmos que hoje dizem que foi um mero “golpe de sorte”, e que Varandas cai no dia em que deixar cair Amorim. Ou seja, em 2019 o Sporting estava mal e a culpa era só do Presidente e agora o Sporting está bem e o mérito é só do treinador? Felizmente são cada vez menos a pensar assim. Frederico Varandas marca-se pela descrição, mas os seus resultados falam por si. Desde que chegou tem sete títulos de futebol masculino, dos quais dois campeonatos e uma final para jogar este domingo. Tem duas ligas dos campões em futsal e três em hóquei. (Seria injusto não referir que o Pavilhão foi construído por Bruno de Carvalho, e que muito terá contribuído para estes sucessos). E tem 88% da sociedade anónima face aos 66% de 2018. Varandas fez uma coisa que é rara tanto no futebol como nas outras áreas da sociedade: fez como Presidente aquilo que prometeu como candidato. Aquela união que em 2019 me era difícil perceber como é que seria possível, Varandas conseguiu-a da única maneira viável: ganhando! Fê-lo, como dizia ontem Carlos Moedas, porque sabe “rodear-se, ouvir e fazer”. Não sei como será o amanhã, se haverá dobradinha para a semana ou bicampeonato em 2025, mas sei que temos uma estrutura que tão cedo não nos deixa voltar a 2018. E também sei que hoje as crianças voltaram a querer ser do Sporting. E que ir para a escola ou para o trabalho à segunda-feira deixou de ser doloroso e passou a ser mágico. E isso não tem preço. Mas tem responsável: Frederico Varandas.











