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Europa, mudei a casa

  • Miguel Pereira
  • May 23, 2024
  • 4 min read

Updated: May 27, 2024

Corre no Parlamento Europeu um velho ditado que diz que o primeiro mandato de eurodeputado serve para perceber como tudo funciona, o segundo para o deputado se afirmar e o terceiro para preparar a chegada da geração seguinte. Ser eurodeputado requer experiência. Surpreende então que Portugal seja o estado-membro com as listas mais remodeladas em 2024, depois de cinco anos em que a delegação portuguesa foi a terceira com mais influência no PE, de acordo com o EU Matrix. No cenário mais “otimista”, só dois dos atuais vinte e um eurodeputados serão reeleitos. E isto deve-se a vários fatores, como o facto de quatro dos seis eurodeputados do PSD terem sido chamados a integrar o novo governo, o que também aconteceu com o eurodeputado único do CDS-PP, agora Ministro da Defesa, Nuno Melo. Mas a necessidade de “refrescar” as listas tem uma primeira causa central: combater a abstenção.

 

De 1987 (ano das primeiras europeias) a 2019 (ano das últimas), fomos dos 30% de abstenção a pouco mais de 30% de participação. Não seria escusado falar aqui de uma “maioria silenciosa”, que representa quase 70% dos eleitores, mas cuja voz não é ouvida em Bruxelas. Por isso se renovam as listas. As eleições europeias são ganhas por quem consegue “levar” mais gente a votar. E os cabeça-de-lista do PS e da AD deste ano são um testemunho disso.

 

O PSD em 2019 elegeu seis deputados, menos três que o PS, que ganhou as eleições. O atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, foi o cabeça-de-lista, e que acabou o seu terceiro mandato como o 15º deputado mais influente do PE. Desta vez, o rumo tomado não poderia ter sido mais diferente. Luís Montenegro escolheu Sebastião Bugalho, agora ex-comentador político, de vinte e oito anos, cuja única experiência política anterior fora um quinto lugar na lista do CDS por Lisboa. Mas se a experiência foi negligenciada, pelo menos comparando a 2019, o mediatismo foi privilegiado – numas eleições que não se disputam somente no plano do combate à abstenção, como referi acima, mas que têm sido encaradas como uma segunda volta das legislativas, ou melhor, uma primeira volta das próximas. 9 de junho será o barómetro através do qual os partidos – nomeadamente o PS e o Chega - avaliarão a confiança dos portugueses no Governo e a margem que terão para o derrubar na votação do Orçamento de Estado.

 

A estratégia do PS não terá sido muito diferente da AD. Os portugueses conhecem bem Marta Temido dos tempos da pandemia, altura em que foi Ministra da Saúde, e se acusam Bugalho de só ser conhecido na “bolha” mediática, sem dúvida que a projeção de Marta Temido é maior. Isto numas eleições que se seguem à derrota do Partido Socialista nas legislativas: duas derrotas eleitorais seguidas não seriam um bom começo para o consulado de Pedro Nuno Santos como secretário-geral do PS, que se depara com fraturas internas que o enfraquecerão caso não consiga um bom resultado. A preferência pelo mediatismo e a necessidade que tem o PS de não perder estas eleições explicam o porquê do segundo e terceiro candidatos na lista dos socialistas, Ana Catarina Mendes e Francisco Assis, serem, de longe, figuras com mais experiência política, nacional e europeia, que Marta Temido, mas que talvez não dessem tantos frutos nas urnas.

 

As escolhas do resto dos partidos apontam no mesmo sentido. O BE optou pela ex-líder Catarina Martins, que substitui a agora deputada Marisa Matias como cabeça-de-lista, e a IL anunciou já em novembro outro ex-líder, João Cotrim de Figueiredo. Mais uma cara conhecida, para somar a um comentador, uma ex-ministra, e à última coordenadora do Bloco.

 

Depois há o caso do Chega, que não deixou de me surpreender. Aos olhos do que ocorre na Itália (e na Croácia), onde três líderes partidários, inclusive a primeira-ministra Georgia Meloni, concorrem como cabeça-de-lista às europeias sem intenção de ir para Estrasburgo, não seria de espantar que um partido unipessoal como o Chega, cujo sucesso assenta – assim como acontece com todos os partidos da direita populista – no líder carismático, o colocasse a disputar as europeias. Se não Ventura, talvez Rita Matias, que viaja várias vezes a Bruxelas em encontros do ID (Identidade e Democracia), o grupo parlamentar a que pertence o Chega e no qual estão representados os partidos Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, e a Liga Italiana, de Matteo Salvini. Face ao que verificamos noutros partidos, António Tânger Correia está longe de integrar o perfil mediático preponderante, e é de alguma ironia o facto de ser o Chega a fugir à regra.

 

Nestes próximos cinco anos em que se decidirá muito do futuro da Europa e do mundo, em que se assistirá a uma viragem à direita no PE que terá um grande impacto na União, com a guerra na Ucrânia e a necessidade renovada de uma aposta europeia em defesa, em que se decidirão os alargamentos a leste e o futuro da coesão, e o desenvolvimento da questão climática (alterações ou emergência, como lhe queiram chamar), os eurodeputados portugueses estarão no estágio de «perceber como tudo funciona», como diz o ditado parlamentar. É certo que há muita experiência, e acima de tudo competência, mas, será que a total renovação será remotamente positiva? Creio que não. Talvez Lídia Pereira, quinta na lista da AD, e que será eleita para o seu segundo mandato, possa acompanhar todos os vinte e um eurodeputados da delegação portuguesa e mostrar-lhes os cantos da casa.

 
 
 

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