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O populismo de esquerda por dentro

  • Ricardo Duarte
  • Jun 13, 2024
  • 4 min read

O populismo de esquerda apareceu entre a última parte da década de noventa e o início do século e, no sul da Europa, obteve os seus melhores resultados durante os tempos da austeridade. Os partidos do populismo de esquerda são produto de histórias variadas, que quase desapareceram da memória coletiva, particularmente em Portugal.


O SYRIZA nasceu em 2004, baseando-se em vários partidos da esquerda que ou se opunham ou derivavam do Partido Comunista Grego. Em 2015 apresentou-se com sucesso como a alternativa contra a austeridade imposta pelos partidos do centro, que governavam a Grécia desde a década de setenta. Apesar disto, o governo de Aléxis Tsípras mostrou pouco radicalismo, mantendo a maior parte das políticas de austeridade que tinha anteriormente criticado. Em 2018, o Bloco de Esquerda e o Podemos decidem abandonar o Partido da Esquerda Europeia (que inclui o SYRIZA) e criar o movimento Agora o Povo, como forma de protestar contra a conduta do governo grego. O abandono da política radical consolidou-se ainda mais em 2023, quando Stéfanos Kasselákis, um centrista assumido, se tornou líder do partido. O resultado foi a saída de parte dos militantes que acabaram por criar o Nova Esquerda, claramente mais esquerdista e alinhado com o Agora o Povo. Enquanto principal partido do governo grego, o SYRIZA assumiu rapidamente um posicionamento mais centrista, o que causou o aparecimento de um novo partido à sua esquerda (diminuindo o número de representantes no Parlamento Helénico) e a perda da enorme popularidade de outrora.


O movimento contra a austeridade em Espanha teve como resultado político o aparecimento do Podemos. O partido foi a votos pela primeira vez em 2015, onde elegeu 49 deputados, o seu melhor resultado. Entre 2016 e 2019, esteve inserido na Unidas Podemos, que incluía tanto a Esquerda Unida como o Podemos, sendo claramente liderada pelo partido de Pablo Iglesias. Depois dos maus resultados nas municipais e regionais espanholas e da demissão de Pablo Iglesias, o Podemos acabou por aceitar tornar-se parte da Sumar, liderada pelo Movimento Sumar, o novo partido de Yolanda Díaz, que tinha sido anteriormente a coordenadora da Esquerda Unida galega e que permanece membro do Partido Comunista Espanhol. O momento que determinou derradeiramente o desaparecimento do Podemos da cena política espanhola foi quando em 2023, depois de lhe terem sido recusados quaisquer ministérios no terceiro governo de Pedro Sánchez, saiu da Sumar, limitando-se apenas a 4 deputados. O Podemos perdeu completamente o seu anterior ímpeto, criando a oportunidade para o Movimento Sumar, sucessor informal da Esquerda Unida, se tornar o partido determinante da esquerda espanhola.


Resta-nos o Bloco. Foi criado na última metade da década de noventa, produto de um acordo entre a UDP hoxhaísta, o PSR trotskista e o Política XXI, constituído por dissidentes do PCP. Destes, o PXXI representava a esquerda mais moderada. É relevante constatar que o movimento abandonou o BE em 2014, consequentemente, os membros desta ala mais moderada, como o atual comentador Daniel Oliveira e Ana Drago abandonaram também o partido (o histórico líder do PXXI, Miguel Portas, faleceu em 2012). O PSR e a UDP não se constituem como correntes internas do Bloco desde 2013, apesar disto, os seus principais líderes, Francisco Louçã e Luís Fazenda respetivamente, patrocinaram as novas correntes que se tornaram dominantes no partido. Catarina Martins torna-se co-coordenadora nesta altura, em 2012, representando este novo período da vida do partido (a sua candidatura foi também apoiada, ou mesmo proposta, pelo seu antecessor).


Neste sentido, o Bloco acaba por contrastar com outros partidos equivalentes na Europa. Yolanda Díaz, líder do Sumar em Espanha, abandonou publicamente a Esquerda Unida em 2019. Apesar de muitas disputas internas, a corrente dominante do SYRIZA, os «renovadores» vindos do Synaspismós, tinha abandonado o comunismo do KKE (Partido Comunista Grego) depois da queda da União Soviética no início da década de noventa. Destes, o Bloco é o único no qual a corrente mais radical, associada inicialmente à UDP e ao PSR, acabou por vencer a disputa pelo controlo partidário. Desde a sua entrada na política nacional que o Bloco é considerado encontrar-se entre o Partido Socialista e o comunismo mais «tradicional» do PCP, mas não é possível apontar nenhum momento claro de quebra com o radicalismo dos partidos que o constituíram. O próprio posicionamento do partido não se tem revelado propriamente constante, tendo mudado claramente na última década relativamente a temas centrais, como a moeda única. Resta questionar se abandonou mesmo o radicalismo, acompanhando outros equivalentes na Europa, ou se será o que resta da perspetiva revolucionária que determinará o seu posicionamento.


Por enquanto o mistério mantém-se, o Bloco é o partido mais imprevisível da esquerda portuguesa. Mariana Mortágua tornou-se coordenadora nacional há cerca de um ano e tinha apenas 12 anos quando foi fundado o BE. Representa bloquistas que estão cada vez mais distantes das nuances políticas que marcaram o início de vida do partido que lidera. O próprio Bloco fez 25 anos este ano e, admitindo que na política os movimentos internos dos partidos os moldam tanto como o próprio eleitorado, é possível que Mortágua encaminhe o partido a assumir as políticas que os eleitores esperam. O mandato desta coordenadora nacional vai ser verdadeiramente importante, tendo esta a oportunidade de adaptar o Bloco ao seu tempo e à Europa, e quebrar com o discurso constantemente protestativo, que tem limitado consideravelmente o possível eleitorado do partido.

 
 
 

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