Da Ruína à Glória
- Duarte Amorim
- May 21, 2024
- 5 min read
Updated: May 27, 2024
Corria o ano de 2019. Era Marcel Keizer quem comandava os Leões, depois da saída de Peseiro, em Novembro de 2018. Lembro-me bem de estar sentado no meu lugar em Alvalade e ouvir, inicialmente vindo apenas das bancadas sul, o famoso cântico que perguntava a Varandas o que ali fazia e dizia que a “presidência não é lugar” para ele. Mas rapidamente, de jogo para jogo, o cântico passou a ser entoado um pouco por todos os setores. De repente, o Presidente eleito há apenas um ano com 42% dos votos dos sócios do Sporting era agora odiado por quase todos. (Tenho bem guardada nas minhas memórias de infância a agressividade com que se pedia a demissão a Godinho Lopes, mas agora tudo era diferente.)
Lembro-me de estar nesse, até hoje, meu lugar, olhar à volta, e pensar que clube era aquele. Tinham sido 14 anos de devoção ao Sporting, sem praticamente ganhar títulos. O clube tinha estado à beira da guerra civil, mas tinha aguentado, e elegeu um Presidente que eu acreditava ser capaz de inverter o rumo da história, mas as coisas não pareciam estar a andar para a frente. Tinha como lema de campanha: Unir o Sporting. Mas que união? Um estádio inteiro a pedir-lhe a demissão e constantes confrontos nas bancadas entre brunistas e não brunistas? Era difícil perceber como é que ia unir um clube assim, mas Varandas lá sabia. Tinha bem pensada uma verdadeira revolução silenciosa. Antes de mais, precisava de limpar a herança que recebeu.
Importa perceber o que encontrou Frederico Varandas em Setembro de 2018. Será que tinha obrigação de começar em grande? 2018 foi para o Sporting como 1945 foi para a Alemanha, era preciso recomeçar. A tensão entre jogadores, staff e dirigentes era um problema grave e nunca visto naquela escala. Mas a questão financeira, poucas vezes vincada, foi um dos grandes fatores que contribuiu para o falso arranque de Frederico Varandas. Antes de ganhar era preciso equilibrar contas, aliás, só equilibrando as contas seria possível ganhar. No dia das eleições de 2018, Sousa Cintra anunciava as contas do ano do Sporting, que mereceram o seguinte título da Sapo: “As contas vermelhas do Sporting”. Eram 19.9 milhões de prejuízo e um Sporting em falência técnica. Para além disto, à data das eleições, o clube detinha apenas 66% da SAD (e as previsões eram que viesse a perder a maioria). Foi esta a herança financeira de Bruno de Carvalho.
Outra questão muito importante da herança 2018, que se confunde entre a tensão dentro da estrutura e o declínio financeiro, é a questão das rescisões. Foram nove os jogadores do plantel principal do Sporting que rescindiram contrato após o fatídico 15 de Maio, invocando justa causa. Sendo que três acabaram por regressar, Bas Dost, Bruno Fernandes e Battaglia. (Nenhum Sportinguista se esquece da imagem de Bas Dost no Jamor perdido de 2018, e esse é para mim o retrato mais simbólico da herança Bruno de Carvalho.) Dois negociaram a saída, William e Rui Patrício. E outros quatro tiveram, ou têm ainda, processos mais complicados: Gelson Martins, Podence, Rafael Leão e Ruben Ribeiro. É importante referir que Rafael Leão poderia, porventura, ter vindo a ser a maior venda de sempre do Sporting, maior do que qualquer indeminização que o Sporting recebeu ou venha a receber por ele. Leão era ouro para o Sporting. E o ouro desperdiçado é também parte da herança Bruno de Carvalho.
O ápice da herança Bruno de Carvalho é o ataque à academia, a 15 de Maio de 2018. (Não estou com isto a dizer que Bruno de Carvalho tem envolvimento direto no caso, mas apenas que a invasão é o culminar de uma série de situações de que Bruno de Carvalho é responsável). E Frederico Varandas é eleito na madrugada de 9 de Setembro do mesmo ano. Algum sócio do Sporting, no pleno das suas capacidades, poderia achar que um Presidente eleito 115 dias depois do dia mais negro da história do clube tem obrigação de apresentar resultados nos primeiros meses ou mesmo anos? A razoabilidade diria que não, mas, como vimos, eram muitos os que desafiavam a razão.
É verdade que a gestão do futebol no primeiro ano e meio de mandato parecia ser absolutamente danosa, mas quem era o treinador que queria treinar aquele Sporting? Varandas tinha “desculpa” para a aparente má gestão desportiva do início de mandato. E por mais amor que se tenha ao Sporting e, consequentemente, exigência com a estrutura dirigente, não se vai do péssimo ao ótimo em meio mandato, não há milagres na gestão do futebol e nenhum sócio do Sporting tinha o direito de o exigir. E a verdade é que, no meio deste 2019 tão turbulento, o Sporting ganha a Taça da Liga e a Taça de Portugal. Desta forma, Frederico Varandas, até no seu ano de “gestão danosa”, consegue ter o dobro dos títulos do que Bruno de Carvalho desde 2016 até ao seu fim.
O dia D de Frederico Varandas é o 5 de Março de 2020, dia em que Ruben Amorim é apresentado como treinador principal do Sporting. Um muito jovem treinador, que dava nas vistas em Braga pelos bons resultados frente aos grandes, em que Varandas decide investir dez milhões de euros. À data, ouvi acusar Varandas de tudo: era porque não tinha experiência, era porque tinha um passado no grande rival, era porque não se paga nunca dez milhões por qualquer treinador. Muitos consideraram ser um tiro no escuro, talvez os mesmos que hoje dizem que foi um mero “golpe de sorte”, e que Varandas cai no dia em que deixar cair Amorim. Ou seja, em 2019 o Sporting estava mal e a culpa era só do Presidente e agora o Sporting está bem e o mérito é só do treinador? Felizmente são cada vez menos a pensar assim.
Frederico Varandas marca-se pela descrição, mas os seus resultados falam por si. Desde que chegou tem sete títulos de futebol masculino, dos quais dois campeonatos e uma final para jogar este domingo. Tem duas ligas dos campões em futsal e três em hóquei. (Seria injusto não referir que o Pavilhão foi construído por Bruno de Carvalho, e que muito terá contribuído para estes sucessos). E tem 88% da sociedade anónima face aos 66% de 2018.
Varandas fez uma coisa que é rara tanto no futebol como nas outras áreas da sociedade: fez como Presidente aquilo que prometeu como candidato. Aquela união que em 2019 me era difícil perceber como é que seria possível, Varandas conseguiu-a da única maneira viável: ganhando! Fê-lo, como dizia ontem Carlos Moedas, porque sabe “rodear-se, ouvir e fazer”.
Não sei como será o amanhã, se haverá dobradinha para a semana ou bicampeonato em 2025, mas sei que temos uma estrutura que tão cedo não nos deixa voltar a 2018. E também sei que hoje as crianças voltaram a querer ser do Sporting. E que ir para a escola ou para o trabalho à segunda-feira deixou de ser doloroso e passou a ser mágico. E isso não tem preço. Mas tem responsável: Frederico Varandas.



Grande artigo Duarte!
Subscrevo na íntegra!
Abraço
Muito bem!!!