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"In A Silent Way" - A reinvenção da música (pela terceira vez)

  • João Amaral
  • Jun 18, 2024
  • 4 min read

Updated: Jun 20, 2024

Sempre que me deparo com uma situação que consiste em escolher um único disco de Miles Davis, dou uma resposta diferente. E desta vez, ao decidir que escreveria acerca um deles, a decisão foi, como de costume, dolorosa. Há, no entanto (como em todos os outros) uma, ou melhor dizendo, várias razões que justificam a opção escolhida ter sido In A Silent Way.


Nesta marcante obra-prima da mais estimada lenda do jazz, identificamos as características que lhe são mais frequentemente atribuídas e que, por consequência, explicam a sua colocação como um dos músicos mais importantes do século XX. Uma exibição de absoluto talento e destemor, que simboliza todos os seus trunfos condensados num só projeto capaz de nos questionar os limites da música.


De modo a não ser obrigado a escrever uma autêntica dissertação de dezenas de páginas, resumir-me-ei a desenvolver apenas três das principais particularidades de Davis e o esplendor com que são demonstradas neste disco.


Primeiramente, há que ser assinalada a sua capacidade de orquestrar uma banda. Reconhecido por ser um dos mais célebres líderes de grupos de jazz, destacam-se o Primeiro Grande Quinteto (1955-1958) e Segundo Grande Quinteto (1964-1968), nos quais contava, entre outros, com o saxofonista John Coltrane e o contrabaixista Paul Chambers no primeiro, e com Ron Carter no contrabaixo e Herbie Hancock no teclado no segundo. Este prestígio que lhe é atribuído não se justifica apenas pela incrível química musical entre os instrumentalistas por ele encabeçada, como a capacidade de impulsionar os seus jovens colaboradores a iniciarem mais tarde a sua carreira a solo (exemplo de Coltrane).


À data em que In A Silent Way foi lançado, em 1969, o Segundo Quinteto já tinha “tecnicamente” terminado. No entanto, ao verificarmos os créditos do disco encontram-se os dois últimos anteriormente mencionados e os restantes membros do quinteto da década de sessenta (o baterista Tony Williams e Wayne Shorter no saxofone soprano). Contudo, conta também John McLaughlin na guitarra elétrica, dois pianistas para além de Hancock com Chick Corea e Joe McLaughlin e, por fim Dave Holland no contrabaixo. Tratava-se, então de uma banda de 8 membros. E entre eles a química é inquestionável. Ao longo das duas faixas de 18:14 e 19:42 minutos, respetivamente, dão-se transições de impressionante fluidez e solos memoráveis. Cada membro um génio totalmente dominante do seu instrumento. Em sequências musicais caóticas e simultaneamente belíssimas, é criado um ambiente frio e quase alienígena, tendo como maestro o “Mr. Cool himself” no trompete, Miles Davis.


Em segundo lugar, o estilo de tocar do compositor e trompetista encontra-se aqui no seu estado mais puro e idiossincrático. É sabido que Davis não é um virtuoso ou um mestre do trompete no sentido técnico do termo, no que toca à sua capacidade de tocar o máximo de notas possível num minuto ou em seguir um ritmo convencional. Opondo-se a Coltrane, sempre optou por capitalizar nas melodias e na emoção que estas transportavam através do seu sopro no trompete. Ao invés de se sentir obrigado a tocar uma nota no sítio certo, a cumprir a pauta à regra ou a desatar a improvisar com uma velocidade implacável, priorizava a sua tremenda criatividade e sensibilidade melódica. E talvez não haja melhor exemplo de tal do que em In A Silent Way. Aqui, liberta-se de quaisquer regras da teoria musical e metaforicamente rasga as insuficientes e limitadoras pautas. Nunca em qualquer outro disco até então alguém soou tão livre dos limites habitualmente impostos aos músicos de jazz.


O resultado é simplesmente brilhante. Sempre complementado pelos restantes membros, existe uma espécie de ecossistema sonoro onde este álbum existe que é inteiramente único de qualquer rótulo ou simplificação estilística. Um ambiente algo calmo, mas dinâmico ao mesmo tempo. É constante e sensível ao ouvido uma espécie de revestimento superficial onde o ritmo marcado pelo contrabaixo persiste, mantendo a coerência e a conexão entre todos os outros instrumentos, enquanto estes se soltam a cada segundo, dando lugar a uma camada obscura em constante e exponencial inquietação. Uma tensão que nunca chega realmente a quebrar de modo satisfatório e que nos deixa sempre a desejar mais cada vez que o ouvimos. Mas é essa angústia, essa incerteza nas notas que são tocadas, que são a grande dádiva do disco e que o tornam como nada mais no mundo do jazz. Isto é, até aquela altura.


Pois, por fim, como terceiro motivo pelo qual merece ser relembrado como um momento único na história da música é o facto de ser um álbum especialmente relevante na evolução artística pessoal de Miles Davis e na do jazz como um todo. Representa não só uma transição do seu período acústico para o elétrico, dando lugar a pianos e guitarra elétrica, assim como sendo o seu primeiro disco de “fusão”, marcando assim uma nova etapa não só nos seus seguintes trabalhos de estúdio como performances ao vivo.

Ora, sendo pioneiro como sempre foi ao longo de toda a carreira, In A Silent Way marca, por isso, não só um ponto de viragem na sua carreira como do restante panorama sonoro do jazz e mais ainda (com alcance até ao rock). Enquanto anteriormente já teria dado a conhecer ao mundo o “cool jazz” em Birth of the Cool, ao “modal jazz” no magnífico Kind Of Blue, seria agora a vez de introduzir o “fusion jazz” (“Well, I’ve changed music five or six times”, confessou a Nancy Reagen, ex-primeira dama dos EUA, quando esta lhe perguntou a razão pela qual ele estava presente num jantar na Casa Branca). Esta vertente seria mais tarde desenvolvida pelo próprio, incluindo no famoso Bitches Brew e pelos seus contemporâneos.


O nível de experimentação foi de tal maneira inesperado e audaz que fez com que o disco fosse, à época, relativamente mal recebido. Ninguém sabia o que fazer com aquilo. Havia quem nem o considerasse jazz. E quem somos nós, privilegiados ouvintes do futuro para os julgar? Não havia nada que se lhe comparasse, nem sítio por onde se pegar. Soava diferente e vindo do futuro. Agora, com o passar do tempo e depois de se mostrar incrivelmente influente na cena musical do início da década de 70, apesar de continuar excêntrico e futurista, é seguro afirmar que é não só à frente do seu tempo como um dos eternos clássicos do jazz.

 
 
 

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