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Uma nova Alemanha, Europa e Mundo?

  • Jorge Q. Afonso
  • May 9, 2025
  • 5 min read

Ao passado dia 23 de fevereiro, os alemães foram chamados às urnas para decidir o futuro político do país após a queda do governo “semáforo” (SPD, Verdes e FDP). O ambiente era claramente favorável a uma mudança para a direita, após três anos e meio cujo resultado não foi famoso: dois anos consecutivos de recessão e um crescimento anémico para este ano.


Antes de tudo, há que saudar a participação histórica de 83% dos alemães recenseados, em subida desde 2013. De resto, a maioria das expectativas tornaram-se realidade. A CDU liderada por Friedrich Merz venceu de forma clara, na maioria das regiões do país, mas longe da maioria absoluta, o que obriga a entendimentos com um ou mais partidos para conseguir governar.


A vitória dos democratas-cristãos enquadra-se no item mais antigo e problemático na altura de eleições: economia em crise e a necessidade de reformas. Um país que está em declínio há um certo tempo e que se reflete em problemas estruturais, tendo os seus principais exemplos na sua dependência altíssima do setor automobilístico, nos custos pesadíssimos do setor da energia e no excesso de burocracia. Embora seja muito difícil, esta mudança poderá trazer alguma esperança ao país e não só. Friedrich Merz sendo um homem pro-business, poderá virar a Alemanha para uma fase de algumas mudanças, de mais visão no que diz respeito ao mercado e a uma nova fase de industrialização. Se este caminho tiver sucesso, o mesmo poderá fazer a Europa e levá-la a uma estrada comum.


O resultado mais impressionante da eleição foi indiscutivelmente da AfD, liderado por Alice Weidel, que chegou historicamente a segundo mais votado e liderando alguns setores no voto demográfico. O partido de direita radical populista, teve a franja de votos mais alta nas pessoas entre os 25 e 44 anos, pessoas com ensino secundário, trabalhadores de colarinho azul e pessoas cuja situação económica particular é mais desfavorável. Além de ter vencido nas duas regiões em que já tinha vencido há três anos e meio (Saxónia e Turíngia), tirou aos sociais-democratas outras três (Brandeburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxónia-Anhalt) da eleição de 2021. Um resultado que se explica por outros cinco problemas que estiveram na agenda deste ato eleitoral: políticas migratórias, custo de vida elevado, aumento da polarização política, fragmentação eleitoral por insatisfação com o centro e o impacto da política internacional na situação alemã.


O SPD foi naturalmente o grande derrotado, obteve o pior resultado dos últimos 70 anos. Vencendo apenas nas duas regiões onde é mais forte (Bremen e Hamburgo) e tendo perdido cerca de 2 milhões e meio de votos para todos lados do espectro político, o partido do então Chanceler Olaf Scholz, arrisca-se agora a ser “muleta” da CDU e a ter uma longa travessia até voltar a ter um resultado robusto que lhe permita voltar a liderar um executivo.


Nos partidos mais pequenos, naturalmente destacou-se a Die Linke que venceu em Berlim (as outras regiões não mencionadas foram vencidas pela CDU e CSU, no caso da Baviera), duplicou os seus resultados face a 2021 e teve a maioria de votos das pessoas entre 18 e 24 anos. Os Verdes perderam mais de trinta deputados, o que levou à saída do líder Robert Habeck. O FDP e a BSW obtiveram um cenário pior, pois não elegeram, mas no caso dos liberais a desfavorável circunstância de ser pela segunda vez na sua história (primeira em 2013).


No que diz respeito a consequências deste resultado, tudo o que resultou do mesmo era inevitável. Não creio que houvesse margem para grandes surpresas até um novo ato eleitoral. Ou seja, um governo de maioria relativa da CDU/CSU, com acordos pontuais com os outros partidos, nomeadamente com o SPD. Acabou por se tornar realidade, mas numa coligação de governo. Podendo ser bom para o país em termos de funcionamento de executivo e para as reformas, poderá também ser um risco em termos políticos. Manter-se-ão vivos os “fantasmas” do centrão e poderá fortalecer ainda mais as franjas (AfD nomeadamente).


Tem-se vindo a confirmar o que antecipei em países até há pouco governados pelas forças de centro-esquerda e com o populismo de direita a crescer: As forças de centro-direita vencem pelo desgaste das forças de centro-esquerda, conseguem constituir governo, mas vivem acossadas e assombradas pelas agendas de direita radical, constituídas por problemas reais que terão de se ir resolvendo, sob pena de ver a mesma direita radical crescer se esses não forem minimamente atenuados.


Por fim, tudo isto reflete um momento decisivo na história. Considero que a agenda desta direita populista e radical, não só na Alemanha como por essa Europa e mundo fora, é perigosíssima e não representa uma solução. Além da sua postura que cheira a oportunismo. Com os devidos travões, pois temos a nossa identidade e valores a conservar, juntamente com a abertura, a tolerância e o respeito para com o diferente. Tudo isto deve prevalecer.


Mas também considero há já imenso tempo que é um erro chamarmos extrema-direita e extrema-esquerda a tudo o que vemos em ambos os lados do espectro político que não gostamos e fazer logo comparações com Hitler e Stalin. Digo isto tanto em relação à direita (AfD, VOX, Frente Nacional, ala radical do Partido Republicano ou CHEGA), como para a esquerda (Die Linke, Sumar, Esquerda francesa, ala esquerda do Partido Democrata ou BE).


No sentido mais profundo de ambas os franjas, a palavra de ordem à esquerda é “revolução” e à direita é “reação”. Os partidos, movimentos e personagens que surgiram durante a última década e meia, mais à direita e que viraram (do avesso) os xadrezes políticos em vários países, não surgiram do nada e apenas com uma agenda contra o sistema para virar tudo a seu favor, isto é uma verdade incompletíssima. Apesar de ser verdade que ambos os “extremos” têm em comum o ataque e combate político ao centro político e partidos tradicionais, pois têm a responsabilidade política das situações desfavoráveis que os países enfrentam, pois foram os que governaram e não outros, falta perceber outro fenómeno. Surgiram e ganharam mais e mais terreno, porque movimentos de esquerda populista e com um moralismo insuportável, já tinham transformado o debate político em algo quase irrespirável e com uma divisão da sociedade entre os “bons” e os “maus”. Logo, com o tempo muitas pessoas comuns, moderadas, nada conservadoras e por vezes até mais progressistas começaram a ser chamadas de “racistas”, “xenófobas”, “homofóbicas” ou “machistas”.


A resposta a este ambiente era inevitável, agravou-se e está à vista.  A solução não passa por um ambiente insuportável criado e gerido pelos dois extremos, só a defender o que considera “oprimidos” e a desfazer tudo o que chama de “opressores”. Há lugar para todos numa democracia, com respeito pelo adversário, com compromisso, com agendas de esquerda e de direita e com partidos ao serviço dos interesses dos cidadãos. Se tudo isto funcionar, não há extremos com excesso de votação. A história teve períodos que demonstraram essa realidade. Uma realidade que serve não apenas para a Alemanha, mas para a Europa e para muitos países no mundo. A história não está condenada a repetir-se.

 
 
 

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