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Circo de Perceções

  • Diogo Lopes de Carvalho
  • Dec 22, 2024
  • 2 min read

Updated: May 6, 2025

Nos últimos meses considero-me invejoso em relação às capacidades deste Governo. Percebo que esta afirmação possa causar algum espanto e, por isso, apelo a que me acompanhem na exposição do meu estado de espírito. Falo então de um poder telepático que parece capacitar o Governo com a habilidade de combater factos que não aconteceram, acrescentando à telepatia, uma certa futurologia. O Governo é capaz de ler a mente de todos os portugueses, ajudando-os a enfrentar os seus medos, aplicando políticas de combate às perceções dos mesmos. Parece um exercício complicado, mas Luís Montenegro parece torná-lo bastante simples, algo certamente invejável.

 

Há cerca de um mês a PSP cercou a zona do Martim Moniz com o objetivo de combater a imigração ilegal fruto da perceção de insegurança dos portugueses. As saídas do metro foram barricadas pela polícia de segurança pública e, principalmente, o centro comercial foi o grande foco da fiscalização, resultando num detido. Acerca desta situação muito tenho a dizer, contudo quero enunciar mais uma obra-prima do Primeiro-Ministro para depois expor tudo de uma vez, de forma desproporcional, tal como a atuação do Governo. No dia 19 de dezembro, foi levada a cabo mais uma operação da PSP, mas desta vez, de forma ainda mais excecional. Foram encostadas à parede todas as pessoas que se encontravam numa rua, na Mouraria, naquilo que foi uma rusga policial, novamente, com o objetivo de combater a sensação de insegurança dos portugueses assustadiços, resultando em dois detidos e na apreensão de uma arma branca.


Este combate a perceções é algo absurdo e que não traz qualquer benefício. Associar criminalidade aos imigrantes é não só falso como perigoso, pois tem exatamente o efeito contrário ao que Luís Montenegro diz pretender. Qualquer uma destas ações não é dissuasora de coisa nenhuma, mas sim uma incitação ao ódio e uma perseguição “sem pés nem cabeça” a seres humanos que apenas tentam encontrar melhores condições de vida, num país pacífico como o nosso. Os imigrantes são essenciais para Portugal, tendo contribuído, de janeiro a agosto de 2024, com cerca de 2198 milhões de euros para a Segurança Social. Sendo assim, estas ações não são mais do que uma agenda política populista e, principalmente, perigosa e que põe em causa qualquer Estado de Direito. Existem cidadãos criminosos imigrantes tal como não imigrantes e, portanto, os casos devem ser tratados de igual forma. Instrumentalizar as forças policiais para meios de campanha própria ou da extrema-direita, não só é completamente inadmissível, como põe em causa a democracia e os direitos humanos. Um imigrante é um ser humano como qualquer outro e, portanto, até prova em contrário, é mandatório tratá-lo como uma pessoa respeitadora e honesta, e não como um criminoso. Assim, qualquer ação desproporcional como estas, sem qualquer suspeita, é inaceitável e indigna de uma democracia.

 

Termino mudando o meu estado de espírito, mostrando-me envergonhado. Envergonhado por viver num país onde se montam circos para satisfazer agendas políticas e combater perceções. Envergonhado por viver num país onde o Governo se preocupa mais com campanhas de marketing do que com os reais problemas do país. Mas principalmente envergonhado por viver num país onde seres humanos não são tratados de forma igual e justa, como todos merecem.  Somos uma democracia e não um estado policial, tenham maneiras.

 
 
 

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