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Presidenciais prometedoras: Pontapé de saída está dado

  • Jorge Q. Afonso
  • Feb 13, 2025
  • 5 min read

Até agora, a tradição dominou. No primeiro mandato, o Presidente da República eleito à primeira volta procura a reeleição. No segundo mandato, procura um lugar na história. Os últimos três inquilinos de Belém foram assim, além de terem sido desde o princípio os favoritos a ocupar a “magistratura de influência”. Os dois primeiros foram exceções. A única semelhança entre si foi o estilo interventivo nas ações do governo. De resto, bastante diferentes. Ramalho Eanes foi o único a ter poderes diferentes dos sucessores (nomear e demitir o Primeiro-Ministro e tinha o Conselho da Revolução), além de ser general e ter uma perspetiva que privilegiava a vertente presidencial. Já Mário Soares foi o único a disputar uma segunda volta (com uma vitória escassa inferior a 139 mil votos), o primeiro Presidente civil a ter uma perspetiva que privilegiava a vertente parlamentar (mais no primeiro mandato, o segundo foi bem diferente).

 

Após trinta anos com um estilo muito semelhante no Palácio de Belém, sempre em decrescendo em termos de qualidade e com os sucessores naturais (Costa, Durão, Santana, Passos ou Portas), ricos em currículo a colocarem-se fora da corrida, resta mesmo pensar que podemos estar à beira de uma rutura. Uma rutura que além de ser de circunstâncias, aparenta ser de estilo. As últimas eleições legislativas e europeias, mostraram que o sistema político e social relacionado mudou. Os partidos de direita juntos têm mais eleitores que os de esquerda, o eleitorado de protesto já não se manifesta maioritariamente pela abstenção e o leque grande de opções de voto pode ter vindo para ficar. Três realidades que há menos de três anos não existiam, apesar de nas últimas presidenciais e legislativas anteriores já termos visto sinais. No que diz respeito a autárquicas, creio que as que estão para breve trarão mais respostas sobre esta definitividade do que as anteriores.

 

O único fator que se mantém é que o centro político é decisivo para determinar quem vence o ato eleitoral. A questão é que já não é o único que empurra a eleição para um lado. Diga-se que o estilo maquiavélico de António Costa e o estilo faroleiro de Marcelo Rebelo de Sousa, muito contribuíram para estas mudanças. Mas concentremo-nos no segundo. O Presidente da República atua como chefe de Estado com funções sobretudo cerimoniais, mas tem essencialmente dois poderes mais que reconhecidos notória e politicamente: influência política através da palavra e dissolver o Parlamento durante uma crise. Dois poderes que Marcelo usou demais e até acabou por abusar, no caso da palavra. Daí a sua (alguma) descida de popularidade e o desejo de uma fatia grande do eleitorado por algo mais que unificador nos órgãos de soberania: firmeza e ordem.

 

Uma candidatura forte precisa de 4 fatores para sair vencedora desta eleição: ter coesão e ser unificadora, não ter ativos tóxicos associados, ter currículo ou ser algo justificativo para tal cargo e ter sentido para concorrer. Falando apenas nas candidaturas já assumidas e mais prováveis, nunca ignorando as sondagens, pode-se verificar para já as realidades que as candidaturas vão ter de enfrentar e o que terão de fazer para as consolidar ou combater.

 

As candidaturas de Tim Vieira, Aristides Teixeira, Manuela Magno e Orlando Cruz serão um “voto perdido”, além de pouco notáveis, a desistência seria o melhor caminho.

 

A candidatura de André Pestana é da fação ligada ao BE, servirá unica e exclusivamente para um pequeno setor de votos à esquerda. Não alcançará nada de relevante, só eventualmente retirar ao grande candidato do centro-esquerda a tina eleitoral que lhe permitiria disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista.

 

Poderá ser um caso interessante de se acompanhar a candidatura de Joana Amaral Dias. Uma figura mediática, tanto na TV como nas redes sociais e sendo assim, dá-lhe relevância a passar as suas mensagens. Apesar de ser apoiada pelo ADN, tem claramente mais notoriedade que o partido, logo é diferente num boletim ter “Joana Amaral Dias” ou ter “ADN”. Poderá ser uma surpresa.

 

Mariana Leitão é a candidata da fação liberal. Se fizer uma campanha coerente e algo notável, aspirará a mais notoriedade no partido e a uma percentagem de 5% ou 6%. Poderá retirar a tina eleitoral suficiente para um candidato de centro-direita disputar uma segunda volta, mesmo assim é preciso ser otimista.


André Ventura além de ser o fenómeno que ilustra muita da mudança já mencionada, representa um setor importante do eleitorado atual e tem um histórico eleitoral sempre em crescendo - embora acredite que não chegará a PR e dificilmente chegará a uma segunda volta, pois enfrentará uma barreira de oposição muito grande por parte do centro no combate pela posição de 2º mais votado. Creio que o segredo na tentativa de esvaziar um pouco esta candidatura está em Gouveia e Melo e não em Marques Mendes.


A candidatura de Luís Marques Mendes foi apresentada há poucos dias. Apesar de ser o candidato mais experiente e naturalmente o do governo, tem um peso a seu desfavor, que é aparentar ser o candidato da continuidade em relação ao trabalho de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de parecer mais formal. Mas sendo o candidato da fação centro-direita e estando o país mais polarizado e politizado do que há 10 anos, aparenta ser o candidato de continuidade cujo ambiente já não se verifica favorável. Terá dificuldade em disputar a posição de segundo mais votado com Ventura e creio só ter condições escassas de ser primeiro se Gouveia e Melo não avançar.


Apesar de ainda se desconhecer se avança, é inevitável falar de Henrique Gouveia e Melo. É o favorito por agora. Lidera todas as sondagens e tem o capital de ter liderado o combate pela vacinação contra o Covid-19. Tem a imagem de homem que vai pôr em sentido toda a “classe política” e pô-la-á na ordem. No entanto, terá duas grandes dificuldades pela frente e ambas vão andar de mão dada do princípio ao fim da campanha. A primeira será quando começar a falar das suas ideias e começar a mostrar o seu conteúdo enquanto candidato, aí logo se verá a sua firmeza. A segunda é que sendo a candidatura favorita, bater-se-á com a difícil tarefa de manutenção da popularidade, ou seja, será aquela candidatura que poderá começar com 60% ou 70% das intenções de voto e que terá de segurar o suficiente delas para terminar acima dos 50% para vencer a corrida. Vai começar a descer com a afirmação dos outros candidatos e fica a dúvida se terá a tal firmeza e conteúdo para aguentar a vantagem até ao fim.


Não crendo que António José Seguro seja a figura mais forte à esquerda, pela ausência de carisma e de aceitação interna, a bola está do lado de Pedro Nuno Santos. O líder do PS tendo colado Gouveia e Melo à direita, terá de apresentar um candidato agora. Não querendo ir para Seguro e o suicídio que seria Santos Silva, o segredo está na aceitação ou não de António Vitorino, que seria a meu ver mais forte e agregador que Marques Mendes e eventualmente disputaria uma segunda volta com Gouveia e Melo.


Veremos os próximos capítulos que esta novela nos trará.

 
 
 

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