top of page

Finalmente os smartphones estão aborrecidos

  • Vasco Sousa Pinto
  • Apr 15, 2025
  • 4 min read

Desde a Segunda Guerra Mundial que estamos a viver numa época revolucionária de crescimento exponencial. Será que a mente humana e a sua imaginação existem num modelo exponencial? Ou será que estamos a chegar ao limite do que se pode criar e/ou inovar?


Um excelente exemplo de produto que teve este crescimento e que aparenta agora ter apenas um desenvolvimento linear é o telemóvel. O telefone foi inventado no século XVII, mas o smartphone foi inventado em 2007. Qual a diferença entre um telefone e um smartphone? Até 2007, os telefones faziam essencialmente duas coisas: comunicar com outra pessoa via voz e via mensagem, tendo já nos últimos anos integrado os e-mails. Claro que, a partir dos anos 2000, os telefones já tinham mais algumas capacidades, mas nunca bem integradas e, por isso, pouco usadas. Em 2007, a empresa de tecnologia conhecida na altura e, atualmente, afirmada por mudar o mercado dos computadores pessoais, decidiu lançar um telefone. Esta empresa não era nada mais nada menos que a Apple Inc., com Steve Jobs no coração da operação e Jony Ive com a mão no design.


A Apple já tinha revolucionado o mundo com dois produtos: o Macintosh em 1984 e o iPod em 2001. Por volta de 2005, 50% da receita da Apple vinha do iPod e, então, a Apple, com medo de ter o seu império seguro só com um "golden goose", decide começar a pensar quais seriam as maiores ameaças ao iPod e o que poderia ser “the next best thing”. Chegaram à conclusão de que os smartphones eram essa ameaça. Sim, antes do iPhone, o título smartphone já era usado, mas isso não significa que os telemóveis da altura eram realmente “smart”.


Percebendo que os telemóveis, mais cedo ou mais tarde, iriam ter as capacidades para guardar e reproduzir música tão bem como o iPod, Steve Jobs decide que a Apple tem de criar o próprio produto que iria destruir o seu "golden goose". O resto da história já é mais que conhecida: em 2007, o iPhone é lançado e realmente acaba por ser o produto da Apple que mais transformou o mundo. Em poucos meses, a indústria muda totalmente para a fórmula que a Apple tinha criado e as poucas empresas que hesitaram em mudar acabaram por morrer, nomeadamente a BlackBerry, que até à altura era uma, se não a maior, empresa de smartphones.


Até agora, só vimos exemplos contrários ao que o título nos propôs e é verdade: a inovação e a revolução não pararam com o iPhone. Em 2010, tivemos o iPad; em 2014, o Apple Watch; em 2016, os AirPods; e agora, recentemente, em 2024, o Apple Vision Pro, que promete integrar o mundo real com o mundo virtual. Mas será que está mesmo a haver uma revolução com cada um destes produtos mencionados?


Se avaliarmos cada um deles, talvez não encontremos assim tanto o fator ou efeito revolucionário que uma vez carregava a palavra.  É verdade que estes produtos atualmente fazem parte do nosso dia a dia, mas não possuindo um Apple Watch, AirPods, ou iPad, a vida prossegue, tendo todas as capacidades essenciais para funcionar exatamente da mesma maneira, e com igual eficiência, sem grandes repercussões. O mesmo não podemos dizer se atualmente eu viver com um Nokia 3310, o clássico "pedra" que é conhecido por ser indestrutível.


Na nossa vida pessoal ou de trabalho, é-nos esperado ter um smartphone, é-nos esperado que consigamos ver um vídeo que foi mandado no grupo de família, é-nos esperado já ter a nossa carta de condução, cartão de cidadão e outros documentos no nosso telemóvel. Não possuir um smartphone, não só dificulta a comunicação como terá outras dificuldades práticas no quotidiano.


Na minha opinião, o ano em que a Apple parou de arriscar, prejudicando a sua fama de “inovadora”, foi 2014, depois do lançamento do iPhone 6. O mais fino e maior até à altura, é o terceiro telemóvel mais vendido do mundo. Com este feito, a Apple passou a jogar pelo seguro e a deixar a parte de arriscar para outras empresas, como a Samsung. Ao longo dos anos, os iPhones foram aumentando de tamanho e de espessura, mas sempre com pequenas melhorias, suficientes para uma pessoa que possua um iPhone de três gerações atrás querer mudar, mas não sendo aptas de convencer um que possua o iPhone do ano anterior a fazer esse upgrade.


Embora tenha pena de já não existir esta Apple inovadora que nos metia num estado de antecipação e excitação quando ouvíamos nas keynotes as palavras “one more thing”, o que nós hoje vemos é uma Apple acessível ao “average consumer”. Embora tenha mantido a imagem de exclusividade e de atribuir preços que o mostram, é uma Apple na qual podemos confiar que o preço se reflete na qualidade dos materiais e atenção ao consumidor.


 O iPhone foi pioneiro em vários aspetos. Nomeadamente nas atualizações de software por sete anos, enquanto a norma nas outras empresas, até há dois anos, eram três. Não é por acaso que vemos tantas pessoas a usar produtos da Apple com 7 anos e ainda serem perfeitamente usáveis – isto é conhecimento comum.


Os produtos da Apple são os que mantêm melhor valor no mercado, enquanto o resto da indústria tende a desvalorizar significativamente. Ainda que seja muito criticada por estas decisões, outras empresas já começaram a implementar esta estratégia. A Samsung, conhecida por experimentar tecnologias e por não ter medo de arriscar no que toca a tecnologias experimentais, hoje joga pelo seguro. O exemplo mais recente que demonstra isto é o acabadinho de sair Samsung Galaxy S25 Ultra. A linha Ultra foi sempre feita com o objetivo de ser o pináculo do que a Samsung podia oferecer, tendo sempre um preço que mostrava também esse “pináculo”. Mas este ano foi diferente, a Samsung decidiu tirar

mais coisas deste dispositivo do que adicionar em relação ao do ano anterior.


Apesar de, e com grande pesar, não estarmos a ver as nossas empresas de seleção arriscarem mais, temos em troca telemóveis com uma segurança na sua qualidade e melhoramentos em aspetos internos que nos melhoram a vida (por exemplo, o tempo de bateria). Por vezes, é importante colocar a pergunta: preferimos a beleza que vem com o custo ou a estagnação na inovação que vem barata?

 
 
 

Comments


bottom of page