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O conflito em que todos falharam

  • Jorge Q. Afonso
  • Mar 31, 2025
  • 5 min read

A Guerra da Ucrânia é uma escalada de acontecimentos, que acabou por culminar num conflito enorme e que marca a nossa época. Embora envolva diretamente dois países, envolve as restantes potências, o outro continente mais desenvolvido e mais organizações. Um conflito em que todos falharam, a Rússia de forma racional e humana e os outros de forma estratégica.

 

Rússia

 

A invasão russa baseia-se em justificações que variam entre a paranoia e a distorção histórica. Um dos principais argumentos é que a expansão da NATO para leste ameaça a segurança da Rússia. Esta justificação não resiste a uma análise profunda: a NATO nunca planeou atacar a Rússia, e qualquer ameaça real era mínima. Esta visão reflete uma mentalidade passada, pois Vladimir Putin acredita que Ucrânia e Rússia pertencem à mesma nação histórica e cultural. Para Putin, a Ucrânia é um Estado artificial, criado a partir de territórios historicamente russos.

 

Esta não foi a primeira vez que usou justificações históricas questionáveis. Antes da pandemia, afirmou que a invasão da Polónia na Segunda Guerra Mundial também foi culpa dos polacos. Esta mentalidade revanchista e imperialista de Putin foi ignorada pelo Ocidente durante demasiado tempo, o que permitiu à Rússia agir sem uma oposição forte.

 

Outro argumento utilizado é uma suposta violação de um acordo entre os EUA e a URSS no final da Guerra Fria. Em 1990, o então secretário de Estado norte-americano, James Baker, terá assegurado a Gorbachev que a NATO não avançaria "nem uma polegada para leste" se a Alemanha fosse reunificada. Embora a Rússia se possa sentir traída moralmente, esse compromisso nunca foi formalizado em tratado. Além disso, impedir a adesão dos países ex-soviéticos à NATO poderia ser uma violação da vontade soberana desses Estados.

 

Ucrânia

 

No centro deste conflito está a Ucrânia, a principal vítima desta guerra brutal. Desde a anexação da Crimeia em 2014 até à invasão de 2022, os ucranianos enfrentam a destruição das suas cidades, a perda de milhares de vidas e o deslocamento de milhões de pessoas. Nada disto mereciam.

 

Volodymyr Zelensky está desgastado emocionalmente pelo arrastar deste conflito, além de querer o melhor para o seu povo. Naturalmente, esta é uma mistura que o deixa vulnerável à prática de erros táticos. Infelizmente, foi o que acabou por acontecer no encontro entre os líderes da Ucrânia e dos EUA na Casa Branca, em finais de fevereiro. Embora tivesse razão em aspetos fundamentais, o presidente ucraniano quase deitou tudo a perder através de um confronto e um desleixo neurolinguístico, semelhante ao do insolvente que confronta o principal credor.

 

Tendo-se já percebido que a Ucrânia nunca ganhará esta guerra, resta a diplomacia. Uma das chaves para o fim deste conflito e a paz subsequente, foi bem abordada por Zelensky em Washington: Putin cumpre ou não o cessar-fogo? O presidente ucraniano sabe do que fala e, infelizmente, não foi devidamente ouvido por Trump e JD Vance. Zelensky ganhou imenso arcabouço com este conflito e sabe que uma palavra de cessar-fogo por parte de Putin, vale pouco ou nada.

 

Sendo irónico recordar-se, que Zelensky nem era o candidato mais pró-europeu nas eleições presidenciais ucranianas de 2019, era Poroshenko. O presidente ucraniano entre 2014 e 2019, era fortemente defensor da adesão à UE e NATO (Zelensky menos); assinou o Acordo de Associação com a UE (Zelensky falou mais do combate à corrupção e de reformas internas); e tinha uma postura mais firme contra as ações russas em relação à Crimeia e ao Donbass (Zelensky defendia negociações para alcançar uma solução pacifista no conflito do Donbass).

 

Embora Zelensky não seja mais um candidato simpático para a Rússia numas eleições ucranianas, certamente o presidente ucraniano estará arrependido de não ter adotado uma posição mais pró-europeia e ocidental antes. Basta recordar que em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, tendo derrubado o presidente ucraniano pró-Rússia de então, Viktor Yanukovych.

 

EUA

 

A resposta norte-americana ao conflito seguiu inicialmente a linha tradicional da sua política externa: diplomacia, apoio ao regime democrático, oposição à opressão e, se necessário, intervenção militar. No entanto, à medida que o tempo passou e mesmo no início, este envolvimento tornou-se tema de debate interno, refletindo mudanças no espectro político do país.

 

Historicamente, os republicanos sempre foram mais agressivos no combate à influência russa, especialmente durante a Guerra Fria. Mas com Putin, que adotou um discurso mais nacionalista e conservador, setores da direita americana passaram a vê-lo com menos hostilidade. Antagonicamente, os democratas tornaram-se mais defensores de uma postura firme contra Moscovo, em parte devido à ascensão do pensamento neoconservador dentro do partido.

 

Um problema é que a linha que separa esta linha tradicional do neoconservadorismo, é muito ténue. O neoconservadorismo tem uma outra reputação, que faz despertar a ideia de belicismo, guerra e fraude. Basta recordar toda aquela administração (Bush) que arquitetou as guerras do Afeganistão e Iraque, como o fez e quem apoiou esta linha no passado, embora fosse adversário político interno (Biden por exemplo). Embora muitos se tenham afastado do partido republicano por não se reverem em Trump, a verdade é que a presença de alguns “neocons” nesta corrente política do partido democrata, faz a mesma não ser popular, além de passar a ideia de não querer a resolução diplomática deste conflito. Só esta virada mostra que Trump vence com isto e os democratas perdem.

 

É impossível não especular se a relação entre Trump e Putin poderá desempenhar um papel para a resolução deste conflito e se já não o terá desempenhado antes. Considero que se Trump tivesse feito o segundo mandato durante o tempo de Biden (algo que não defendi), esta guerra dificilmente teria acontecido. Entendo que a postura de um chefe de Estado é muito importante, não só em diplomacia, mas no geral da política externa de uma potência. Embora os EUA tenham uma política externa continuada, independentemente de quem ocupe o poder, a verdade é que a postura de alguém forte, energético, imperativo e algo imprevisível, desperta mais cuidado nos adversários do que alguém aparentemente fraco, debilitado, previsível e sem capacidade de se impor. Duas posturas opostas que marcaram, respetivamente, os dois mandatos em política externa. O resultado está à vista, o mundo era mais pacífico em 2021 do que agora.

 

Europa/EU

 

Por último, como tem estado neste processo, a Europa. Existe uma frase utilizada em relação a assuntos estratégicos de guerra: "Por objetivos secundários negoceia-se, por principais combate-se e por vitais morre-se”. Além de não se perceber se a Ucrânia é um objetivo principal ou secundário e de muitos países da União continuarem a depender de gás russo, a UE deixou descurar a vertente militar e de defesa ao longo dos anos.

Embora supere em termos de orçamento militar e número de tropas, a verdade é que a Europa depende da NATO (EUA) e não tem a coordenação e estratégia da Rússia. Além de mobilização, materiais e capacidade nuclear. A capacidade frouxa da Europa para ajudar a resolver este conflito é o preço a pagar por anos de desleixo. Resta recompor a situação (que já vai tarde) e esperar que a nossa geração não tenha de passar pelo mesmo de há 86 anos.

 

Apesar de eventualmente este conflito se possa resolver até ao verão deste ano, a paz internacional poderá ainda não voltar para ficar definitivamente. Um ano, outro assunto pendente e outra potência estará no centro da preocupação global: 2027, Taiwan e China.

 
 
 

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