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(Mais umas) Eleições Legislativas. Entrevista a Ricardo Costa

  • O Discreto
  • May 12, 2025
  • 8 min read

Ricardo Costa é uma das vozes mais reconhecidas do jornalismo em Portugal. Com mais umas eleições legislativas à porta, O Discreto esteve à conversa com o antigo Diretor de Informação da SIC.


Começávamos por lhe pedir um comentário a uma perceção nossa, e que parece geral, de um certo cansaço em relação à política: os temas, os políticos, o próprio comentário…

 

Há uma parte desse cansaço que vem por boas razões. Normalmente as pessoas interessam-se mais pelas coisas que não têm como garantidas, quando as democracias chegam a uma fase em que as pessoas a têm como garantido, tornam-se mais aborrecidas. Esta é a razão boa.

 

Depois, há um dado que é contraditório com essa sensação, perceção ou mesmo realidade, que é o facto de nas últimas e penúltimas eleições as pessoas terem votado muito mais. E se as pessoas não se interessassem, não votavam. Nestas últimas eleições votaram mais um milhão de pessoas do que nas anteriores e nas anteriores já tinham votado mais 300 ou 400 mil. Ou seja, de repente, nós tivemos muita gente a votar pela primeira vez, a sair da abstenção. E, portanto, este facto é contraditório com aquilo que estão a dizer, o que não significa que não seja verdade! Parece que são duas realidades paralelas.

 

O que pode levar à verdadeira explicação, que é que as pessoas se calhar interessam-se e depois não estão é interessadas em manter esse interesse durante quatro anos. E nestas eleições, uma das coisas mais interessantes a perceber é se a participação muito elevada de há um ano se vai manter ou não.

 

Tem-me feito alguma confusão esta questão de, em televisão, os políticos estarem sempre condicionados pelo tempo. Estão sempre a ser avisados que têm de terminar, muitas vezes sem conseguir passar a mensagem como desejariam.

 

Os meios condicionam os tempos, todos eles! Falando para a vossa geração, qual é o grande fator de sucesso atual no Youtube? São os Shorts e os longforms. Os shorts foram promovidos por receio pelo Tiktok, mas não estavam minimamente à espera no Youtube que as pessoas estivessem disponíveis para ver videocasts de três horas, mas as pessoas vêm.

Vêm porque o digital permite, a televisão não permite, nem nunca permitiu. Os meios condicionam! Mesmo quando um político dá uma entrevista a um jornal em papel e se sabe que naquelas páginas só vão caber 45000 caracteres, só cabem 45000 caracteres. Sempre foi assim!

 

Todos os meios têm as suas condicionantes, as suas vantagens e desvantagens. Qual é a desvantagem da televisão? É essa mesmo, têm tempo limitado. Mas qual é a grande vantagem? É que o debate deste ano chegou em simultâneo a 2.7 milhões de pessoas, mais nada faz isto. No Youtube isto até pode acontecer, mas não em simultâneo.

 

Mas se a televisão desse mais tempo para permitir aos políticos explicar bem as ideias, mesmo que isso significasse perder audiências…

 

Atualmente um político tem à sua disposição armas melhores do que tinha há quinze ou há vinte anos. Hoje um político tem o Youtube, podcasts. Pode variar, pode ir a um podcast mais à esquerda, a outro mais à direita. Um mais para jovens, outro menos. Pode fazer coisas em texto, em site, pode fazer trabalho em redes sociais. As redes sociais não têm sido determinantes em todas as eleições, mas em algumas têm tido um peso muito grande, depende muito de país para país.

 

Um candidato a primeiro-ministro vai a um debate em simultâneo na SIC, na TVI e na RTP, mas o mesmo candidato a primeiro-ministro também dá uma entrevista ao Geirinhas. Porque vai ter visualizações de pessoas que não o viram na televisão e vai falar de temas que não falou na televisão.

 

Quanto a estas eleições, não considera que houve, e há, uma ênfase desproporcional com a questão Spinumviva? Havendo muitos outros temas que afetam muito mais diretamente os portugueses.

 

Uma coisa são umas eleições regulares, outra coisa é quando há umas eleições antecipadas. Quer queiramos quer não, numas eleições antecipadas, acaba por ter de se discutir a razão da sua antecipação.

 

Imaginemos que tinha sido o ano passado por causa do orçamento de Estado não ter passado. Não tenho dúvidas de que grande parte das perguntas seriam à volta do orçamento. Neste caso, as eleições foram provocadas, na minha opinião, por vontade de dois partidos, mas que partiu de um caso muito pessoal e, portanto, acaba por condicionar o debate.

 

Mas, reparem, no debate entre os dois candidatos a primeiro-ministro isto foi uma coisa muita rápida, no debate com o Ventura nem sequer se falou.

 

O próprio governo utilizou as eleições como forma de relegitimação. Portanto, não dá para fugir totalmente a esta questão. O PS também, na minha opinião erradamente, enfiou-se neste tema. Fala de saúde, fala de educação, mas à terceira frase já tem de estar a falar da Spinumviva.

 

Claro que há 100 temas mais importantes, mas quando uma eleição é causada por um determinado assunto, é muito difícil evitá-lo.

 

Passando aqui para outro tema – parece existir uma maior noção à volta da Defesa, com guerras à porta e tudo mais. No entanto, mesmo com o paradigma mundial a mudar cada vez mais, com a cimeira da NATO em junho, não há ninguém que vote pela Defesa. Continua a ser um tema secundário em relação aos outros – porquê?

 

Para mim foi a coisa mais absurda do debate entre o Montenegro e Pedro Nuno Santos, não se ter falado de Defesa. Porque é que eu acho que é grave não se falar? Pelo tema em si e pelas consequências que o tema traz.

 

Ou seja, quando o Estado vai estar obrigado a gastar de forma permanente mais uns milhares de milhões de euros, por ano, em Defesa, é óbvio que isso vai ter consequências. Vão ter que se fazer escolhas.

 

Eu acho que tinha sido mais honesto, mais adulto, mais correto para com os eleitores se os partidos, todos os que aspiram a estar em governos, dissessem, “Atenção, tenho aqui uma série de ideias, mas, em função do que acontecer com as despesas em Defesa, nós talvez tenhamos de calibrar uma série de questões”.

 

O orçamento já é uma confusão…

 

Sem dúvida.

 

E isso vai acontecer. É uma das coisas que mais me preocupa nestas eleições. Estamos a falar de umas eleições em maio, o governo toma posse em junho, e há uma cimeira da NATO onde, de repente, o que sair de lá obriga a refazer o orçamento. E muitas pessoas podem se sentir depois enganadas.

 

E vão se sentir enganadas por quem? Pelos partidos de sempre, o clássico, os que estão lá há 50 anos.

 

Eu percebo que não seja muito popular falar do assunto, mas é um risco que tem de ser tomado pelo PS e PSD. E o Chega também, se tem 50 deputados, e quer um dia entrar no governo, também está na altura de ser adulto e começar a tratar as pessoas como adultos.

 

E eu prefiro ser tratado como adulto. Prefiro que ponham um asterisco, que me digam, “Olhe, há aqui um tema das pensões, ou dos salários, impostos que nós até queríamos baixar, mas não vamos poder fazer”.

 

Mas acha que os partidos não o fazem por medo de prejuízos eleitorais?

 

Os partidos têm dois bons argumentos, embora coxos. Um é de a decisão ainda não ter sido tomada, só vai ser em junho a cimeira. Portanto têm sempre essa safa, mas é uma perna curta.

 

O segundo é, “Apesar tudo Bruxelas está disponível para uma série de soluções orçamentais que não afetam o défice”. Mas quem percebe de economia percebe que uma coisa é não afetar o défice, outra é não termos de pagar a conta. Vamos ter de pagar a conta na mesma.

 

Isto tinha sido mais útil porque quando este tema acontecer, e é já em junho, as pessoas vão ficar surpreendidas. E os partidos vão dizer, “Ah, mas o quê, ficaram surpreendidas com uma coisa que já sabiam que ia acontecer?”.

 

Uma coisa é o Covid, ninguém esperava, ou a questão da Ucrânia, outra é a cimeira da NATO. É complicado, e temo que a reação do povo português não seja brilhante a seguir.

 

Voltando a um tema mais nacional, e para acabar, acha que Luís Montenegro se arrepende da forma com que fez a campanha em 2024, em relação ao Chega e às suas ideias? Penso na imigração, o ano passado, corrija-me se estiver enganado, não teve esta questão como bandeira – agora parece ter uma maior relevância. 

 

Vamos ver se a AD ganha votos ao Chega.

 

É esse objetivo, ou não?

 

Isso é. No ano passado, a votação do Chega foi inesperada. Teve ainda mais do que as sondagens que davam 15-16%, e correu muito bem, etc. Claro que, para o PSD, isso levantou um tema muito sério, um tema até existencial. O PSD, não é a primeira vez, mas tem um partido à sua direita que quer disputar a sua hegemonia no espaço de centro-direita. Quer disputar, é uma ameaça.

 

O ano passado ganhou por muito pouco, com o CDS teve só mais dois que o PS, ninguém imaginava. Também ninguém imaginava que o Chega tivesse 50 deputados. Portanto eu percebo que no dia a seguir a formarem governo disseram, “Bem, como é que nós conseguimos conquistar espaço do PS, mas ao mesmo tempo fazer encolher o Chega?”. Isto foi uma preocupação do Governo.

 

Acho que um erro de termos ido a eleições tão cedo é que, se o PSD queria esta estratégia de pegar em vários temas, entre os quais a imigração, que convençam parte do eleitorado do Chega a voltar, precisava de mais tempo. Precisava de mais tempo, o tempo é curto. Tem pouco tempo para falar destes assuntos. O Chega já fala disto há muito tempo.

 

Outro ponto que para mim é a maior dúvida. Os partidos ditos moderados têm sempre alguma dificuldade nestes temas, quando há partidos à sua esquerda ou direita que são capazes de dizer coisas muito mais radicais, mais diretas e mais fáceis de perceber.

 

É mais fácil dizer, “Nem mais um imigrante!”, do que “Precisamos de x imigrantes…”. É sempre mais fácil dizer, “Expulsem os imigrantes!” do que “Só podemos expulsar os ilegais…”. Isso é um dilema para muitos países pelo mundo inteiro. Como lidar com certos temas quando outros dizem coisas a preto e branco.

 

Soluções simples para problemas complexos.

 

Exato.

 

E há ainda outra questão relacionada com a imigração – que o PSD sabe muito bem – que é o seguinte. O maior problema que Portugal tem é o problema demográfico. Totalmente indiscutível. Não é o único, há o Japão e a Coreia do Sul, mas tem uma população muito envelhecida e isso do ponto de vista económico é uma tragédia.

 

Ou temos uma economia super avançada do ponto de vista tecnológico, como a Coreia do Sul tenta ser, ou tem que se ter mais pessoas em idade ativa.

 

E isto só se consegue por duas vias. Uma, que demora muito tempo e ninguém sabe se funciona ou não, porque depende de vontades individuais, que é as pessoas terem mais filhos. A outra, é por imigração.

 

O tema dos apoios à natalidade, que é muito importante, espero que os governos deem todo o apoio possível, é que em muitos casos não funciona. O país com os maiores incentivos à natalidade é a Coreia do Sul – e aquilo não mexe. Na Europa é a Hungria, e aquilo não mexe. Continuam com uma taxa de fecundidade baixíssima. Está provado, por agora, que não funciona. Porque depende de uma série de questões e decisões, individuais e familiares.

 

É uma variável muito complexa e profunda.

 

E de longo prazo.

 

Sim, de longo prazo. Como é muito complicada, a variável de imigração é muito mais direta. Claro que isto levanta uma série de questões, mas qualquer pessoa que conheça a economia portuguesa percebe que, se de repente os imigrantes fossem embora, o país colapsava. Colapsava. Aliás o Paulo Portas, que é suspeito, diz que é uma loucura completa. Temos serviços, alguns deles dos mais prósperos da nossa economia, o setor do turismo, o agroindustrial a restauração, etc., que não funcionam sem imigração.

 

Portanto um partido como o PS ou PSD tem de ter muito cuidado em gerir esses temas. É um tema mesmo muito difícil. Difícil porque precisamos, e porque tem haver controle, limites e obviamente integração.

 

A política é complexa. As frases muito simples e curtas não respondem a maior parte dos desafios políticos. Uma parte da ascensão do Chega tem a ver com isso.

 

Há muitas pessoas que defendem que podia ser interessante ter o Chega no governo porque iria ser obrigado a lidar verdadeiramente com estes desafios. Aí o Ventura já não inventava coisas de ir buscar fundos comunitários para pagar pensões.

 
 
 

2 Comments


Guest
May 12, 2025

Bem visto o tema da Defesa

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Guest
May 12, 2025

Muito boa entrevista! 👌

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