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Inveja, Freud e Vómito

  • Francisco Mendonça
  • Mar 21, 2025
  • 3 min read

Vivemos num mundo onde os carros se guiam sozinhos, onde os telemóveis e computadores pensam por nós, onde qualquer pensamento criativo pode ganhar vida com um clique, mas ironicamente, onde, o mesmo sentimento que matou Abel, pouco depois do princípio dos tempos, reina e governa uma parte significativa da nossa sociedade. Refiro-me à inveja, algo que nos corrói por dentro, mas que se tem banalizado como uma manifestação normal entre as pessoas. O que antes era impensável dizer ou fazer, estando num estado consciente, hoje não passa de uma mera trivialidade no âmbito das redes sociais. A procura de erros nos outros, e o posterior isolamento ideológico, tornando-se Deuses para si próprios, intocáveis, incriticáveis, tornou inegável a ideia de que a inveja não só nos influencia como nos governa.


Começando como uma forma de comunicação, a evolução perversa e intrincada do que as redes sociais representavam levou a que estas se tornassem numa espécie de saco de vómito onde o nosso Id (fazendo a prometida ligação a Freud) se podia expressar sem amarras nem condicionamentos. Uma bolsa onde esta instância egoísta, impulsiva e irracional de cada um podia finalmente dizer tudo o que desejava. Com efeito, não são poucos os casos onde observamos qualquer uma destas três características (irracionalidade, egoísmo, impulsividade) numa publicação numa rede social. Desde comunidades Terra Planistas, a políticas de cancelamento, a diarreias ideológicas que duram 2 minutos pois, entretanto, já se viu um vídeo de um “influencer” espetacular que dizia o contrário, encontramos exemplos das três. Não é difícil arranjar justificação para esta segurança que se sente nas redes, para além do afastamento físico entre utilizadores, o anonimato (ou segunda personalidade) realçou a possibilidade de nos tornarmos autênticos animais reféns desta motivação primária. O uso das redes sociais para muitos foi uma forma de conter a bílis que não mais era do que a inveja que não podiam expressar em público. Mas de facto, e como um bom saco de vómito, as redes sociais limitavam-se a um recipiente fechado e selado onde alguns dos utilizadores se dirigiam para se aliviarem.


Infelizmente, e com grande insatisfação constato que este saco está roto. Esta caixa de pandora foi aberta, com a pequena diferença da esperança ter sido claramente corroída pela acidez dos sucos gástricos da liberdade de se poder odiar, sem a culpa ou remorso habitual. Tudo o que disse até agora sobre as redes sociais aplicava-se até há uns anos, quando estas eram novidade, onde os seus utilizadores iam vomitar, sabendo, porém, que era um ato único, era algo fora do normal e da realidade do dia a dia. Tendo chegado aos dias de hoje, em que a geração que já não teve uma experiência pré-redes se começa a manifestar, e que, fruto dessa ausência, não consegue distinguir o saco de vómito da sua própria cama. Este novo grupo que se insurge demonstra claramente ter sido criado no hábito de que vomitar é o normal, consumidos e absorvidos pelo ideal de libertação desmedida destes malfadados meios de “descomunicação”. Com discurso preso por politicamente corretos e tabus, ou simplesmente feito de uma massa aforme sem estrutura lógica, esta geração incontinente não se retém de se manifestar com o mesmo desprezo e inveja pelo outro como faz nas redes sociais, criando políticas de ódio e de cancelamento. Políticas essas que não são mais do que partes do vómito lentamente a escorrer pela lateral do saco, chegando à sua extremidade, esperando pelo momento certo em que se lançam num voo que acabará na poça que se está a formar por baixo. Concluindo, eu, que o melhor a fazer é comprar galochas.

 
 
 

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