Do Eco ao Extremismo: O Preço de Ouvir Uma Só Voz
- Caetana Ribeiro da Cunha
- Jan 29, 2025
- 4 min read
Se alguma vez me perguntassem como criar um grupo de extremistas alimentados por retóricas e narrativas ideológicas, eu diria para começar por instigar o medo, usar uma imagem forte, e provocar. O ideal, seria, porém, e aqui adoto as palavras que o economista Adam Smith disse – num contexto mais económico –, deixar as pessoas serem “guiadas pela mão invisível”, sem terem de chegar ao extremismo. Como o próprio Churchill disse: “confiem nas pessoas”.
Mas até que ponto? Até que ponto podemos deixar as pessoas serem guiadas por uma mão invisível, até que ponto podemos confiar nelas, quando nem elas sabem em que confiar? O mundo em que nos encontramos hoje é sinceramente um mundo assustador; a facilidade com que o que quer que seja se espalhe é algo de perturbador. A marosca que uma pessoa muito eloquente e quem sabe, bonitinha, nos pode meter na cabeça no que toca a uma certa ideologia é desconcertante. Passar pela Avenida da Liberdade, ouvir uma manifestação, um discurso emotivo, ficar convencido de que aquilo é a verdade, e rapidamente ser trabalhado por um fim específico, é uma realidade. O ponto aqui é ver o fácil que é convencer alguém de alguma coisa importante.
A ideia de um “tudo ou nada” é o grande problema das nossas sociedades. Pensar que é desta maneira e de nenhuma outra, que só há uma verdade, é errado, e estritamente antidemocrático. Não aceitar que há outra maneira de olhar para o mundo é uma praga, algo que acontece mais vezes do que devia nos dias de hoje. Isto deve-se em larga parte a um discurso centrado numa só racionalidade, criando facilmente uma certa câmara de eco. Com a ajuda dos algoritmos, uma figura autoritária e de alguma forma, extremista, cria com muita facilidade um exército de fanáticos, extremistas, radicais – chamem-no do que quiserem, mas que são excessivos naquilo que dizem e fazem, não há como o negar.
O que eu quero perceber mesmo, é como é que se chega a este ponto? Como é que as pessoas se tornam radicais, extremas, fanáticas? Será uma causa da falta de coesão social ou um produto de tal? Eu acho, sinceramente, que é os dois.
Vimos isto no Egito, por exemplo, durante a Primavera Árabe, quando as pessoas estavam tão frustradas que se deixaram manipular por fins políticos e religiosos ao ponto de perpetuar ainda mais as instabilidades sociais no país pelo presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana. Ou até, e de maneira provocadora, relembro-vos dos acontecimentos de 6 de Janeiro de 2021, onde um grupo de – vá chamemo-los pelo que são – extremistas, invadiram o capitólio após uma mensagem de Trump aos seus apoiantes – coincidência? Não sei, parece-me mais eloquência dele. Dando um exemplo nacional, a reação à morte de Odair Moniz em outubro de 2024 foi marcada por desacatos e manifestações por toda a Grande Lisboa. Qual a reação à rusga no Martim Moniz? Uma guerra política dos dois lados do espectro. Um é o Odair, e outro é Martim, mas não basta ter Moniz como último nome para aparecer nas notícias portuguesas e dar que falar aos dois lados do espectro político, desencadeando assim várias reações – muitas vezes violentas – a cada acontecimento. O problema é quando as reações passam de comentários – mesmo comentários de ódio – para ação, e ação violenta deixem-me adicionar.
A realidade é que as pessoas não sabem agir com controlo. Não há modos nas manifestações. Parece que a única maneira de responder a algum acontecimento polémico ou mensagem de autoridade é com pilhagem, violência e agressão. Não há como controlar as pessoas porque nem querem ser controladas. Os meios que são utilizados para nos passar informação parecem ser cada vez mais sedentos de confronto; tanto os mídia como estas figuras de autoridade se tornam um símbolo sadista que quer expor variadíssimos problemas sociais e como tal, prolongam os problemas de que se queixam inicialmente.
O extremismo, e com isso eu quero dizer as reações de que já falei, de acordo com o dicionário Priberam, é “a adoção de teorias político-sociais extremas”. As pessoas que são consideradas extremistas – que são cada vez mais – adotam estas posições porque assim o são influenciadas. Tanto a esquerda como a direita utilizam o medo da outra para desencadear o extremismo. É exatamente o medo do crescimento do outro lado do espetro político que faz com que reações extremistas comecem. E como dizia, são tanto os mídia como as figuras polémicas e fortes que pedem o extremismo como reação ao extremismo.
A extinção de outras opiniões políticas é o cúmulo do fim da democracia nos nossos países; ela impede o pluralismo, que é tão essencial para uma democracia funcional, mina a estabilidade e coesão social, e distrai o governo daquilo que realmente importa nos assuntos internos do país. As coisas tornam-se no que se tornam talvez porque os mídia assim o querem, assim o mostram, e assim o inspiram.
O absolutismo, esta ideia do “tudo ou nada”, impede que a paz prevaleça. Não pode haver democracia, estabilidade e segurança sem o tal pluralismo; mas isto é contando que o pluralismo seja respeitado e acolhido. Carl Schmitt, filósofo político, pede este dissenso para a permanência da democracia, mas há que haver condições para o dissenso. Não é a pilhar, a pegar fogo, a atacar, que se vai chamar atenção para uma questão aparentemente essencial. A minha mãe sempre me disse “quem grita numa discussão, perde logo a razão”, e quem diz gritar, também diz pilhar, pegar fogo e atacar.
Acho que a solução para esta revolta das pessoas, e a maneira como conduzem tal revolta, é responsabilidade dos líderes de cada país. Responsabilidade para conseguirem transmitir corretamente os seus pontos de vista, responsabilidade de manterem órgãos da comunicação que tenham a segurança e estabilidade como principal objetivo, e responsabilidade de educarem os seus sujeitos a saberem distinguir diferentes pontos de vista e a saber viver com eles sem passar para o extremo.
Voltando ao meu ponto inicial, há, sim, que deixar as pessoas serem guiadas pela mão invisível de Smith, e em cada democracia acolhedora, há que confiar nas pessoas. Mas também há que cultivar um ambiente propício á estabilidade social e política. Não é um trabalho fácil, mas tenho esperança de que as próximas gerações tragam isto à mesa – ou sujeito-me a ter essa esperança.



Parabéns Jorge Afonso.
Texto bem escrito e lúcido.