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- Tiago Bettencourt: "Acorda Portugal!"
Foi a 13 de dezembro que Tiago Bettencourt pisou o palco do Coliseu dos Recreios em Lisboa e nos brindou, novamente, com canções que se destacam entre as demais pela ausência de uma aparente simplicidade literária que me parece ter vindo a vitimar a música portuguesa nos últimos tempos. Tiago Bettencourt é, então, uma lufada de ar fresco para as gerações que cresceram ao som de Amália e que hoje procuram mais para além de sons agradáveis e familiares que enchem o silêncio. “Fim de Festa” foi um concerto que deu voz à vontade do artista de levar o público numa viagem pelas suas memórias. Num tom informal e desprendido de quaisquer cerimónias, Tiago Bettencourt traçou a sua história de autodescoberta e de compreensão do mundo que o rodeia, que teve início, como o mesmo afirma, na guitarra enquanto meio de expressão e combate à timidez. No alinhamento da busca incessante pela verdade que acompanha o artista, surge uma necessidade presente nas suas letras de estabelecer um caminho paralelo às grandes massas de artistas que se deixam mover pelas tendências vigentes. Na música “Lança”, escreve “Não és do rebanho. Não queres ser do rebanho”, condenando a postura daqueles que em nada procuram ser autênticos; na música “Dança” critica os artistas que vivem dominados por fenómenos de moda e também os seus ouvintes que acabam por se contentar com esta falta de individualidade. “Ficam as imitações, esquecem os originais. (…) Segue o barco da corrente. (…) Quando sentes a cópia do artista da moda. Mas se é para dançar, dança.” As canções de Tiago Bettencourt são então objeto de exposição de sentimentos e conceções cultivadas pelo artista que ganham uma nova beleza ao serem acompanhadas de uma melodia singular. Piano, guitarra acústica, guitarra elétrica – de todos estes se serve Tiago Bettencourt para produzir estas melodias que acompanham esta voz que grita a alma descontente. É para mim impossível não destacar um momento particular do concerto em que Tiago Bettencourt introduz a seguinte problemática: “Ficava surpreendido e confuso quando aqui em Portugal me perguntavam porque é que cantava em português. No meu país parecia não haver incentivo. Porque é que éramos assim como povo? Que falta de amor próprio é este? Porque é que a música portuguesa não é usada como bandeira?” O artista assim revela um descontentamento acompanhado de uma tristeza para com o seu país. Queixa-se da falta de incentivo àqueles que cantam a língua materna e procura perceber a origem deste fenómeno que o leva a desejar a evasão. Desejo este que se concretiza, como o mesmo declarou em palco, na aceitação de que a viagem é realmente uma forma de desprendimento da realidade que aflige o artista. Foi nas suas viagens que Tiago Bettencourt teve espaço para escrever muitas das suas canções e meditar acerca da razão por detrás deste desejo de evasão. Na sua canção “Viagem” canta a beleza da viagem enquanto meio de descoberta e com “Eu Esperei” exterioriza a expetativa de uma mudança para Portugal, exortando a restauração de uma obsoleta grandiosidade através dos seguintes versos que silenciaram o Coliseu dos Recreios no dia 13 de dezembro: “Eu esperei mas o dia não se fez melhor. Mas o sujo não se quis limpar. (…) A mentira não se fez verdade. A justiça não se fez mulher. A revolta não se faz vontade. Braços novos sem educação. Sangue velho chora de saudade! (…) Mão no peito mas não é amar. Cavaleiro mas já sem moral. (…) Mas o povo dorme de ilusão! E a tristeza é forma de sinal. Liberdade pode ser prisão. Meu Deus, livra-nos do mal. E acorda Portugal!” "Acorda Portugal!", grita Tiago Bettencourt, e gritam também aqueles que perseguem o “Caminho De Voltar”, “um sítio onde a estrada te deixou por onde tens que ir se te queres libertar”.
- Quem é o novo líder do PS?
Aos 11 anos, filho de empresário e neto de sapateiro, um rapaz oriundo de São João da Madeira fazia retiros espirituais no Seminário dos Carvalhos em Vila Nova de Gaia. Mas a devoção não durou. Por influência desse pai empresário, que tinha sido, paradoxalmente, líder de um grupo da esquerda radical, o jovem Pedro Nuno Santos filiou-se na Juventude Socialista com apenas 14 anos após a derrota de Jorge Sampaio para Aníbal Cavaco Silva nas legislativas de 1991. Costuma dizer que “nasceu e cresceu no PS”. A verdade é que, entre a sua vida em São João e Lisboa, sempre esteve na vida partidária. Estudou Economia no ISEG, onde venceu a Associação de Estudantes a uma lista da JSD, e foi aí que conheceu Duarte Cordeiro, Ministro do Ambiente, na altura também da JS. Desde aí que profetizaram o futuro: “Tu conquistas a concelhia de Lisboa, eu vou à federação de Aveiro, depois vamos à JS nacional”. E foi isso mesmo que aconteceu. Em 2004, Pedro Nuno tornou-se secretário-geral da Juventude Socialista, e quem lhe sucedeu em 2008 foi o seu braço direito Duarte Cordeiro. Nos seus quatro anos como líder, foi eleito deputado em 2005, lutou pela despenalização do aborto e em 2008 foi o único deputado da bancada parlamentar do PS a desafiar a disciplina de voto ao defender o casamento das pessoas do mesmo sexo, que seria mais tarde aprovado com o voto dos socialistas. Já fora da “jota”, em 2011, num jantar em Castelo de Paiva com membros do partido, PNS fez um discurso que até hoje lhe é relembrado. “Não pagamos a dívida! Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos!”. Tornar-se-ia célebre o seu grito: “as pernas dos banqueiros alemães até tremem!”. Num momento difícil para o país, e que se revelou ainda mais fatal para o Partido Socialista, PNS foi um ávido defensor da reestruturação da dívida face à severa austeridade. Assinou em 2014 o documento Um programa sustentável para a reestruturação da dívida, junto de figuras do Bloco de Esquerda, como Francisco Louçã, mas também de figuras próximas do CDS, nomeadamente o ex-ministro das Finanças, António Bagão Félix. Convicto e determinado como é, demitiu-se de vice-presidente da bancada parlamentar do PS em 2012 por causa de divergências com o então secretário-geral, António José Seguro, que apoiou nas primárias contra Francisco Assis (agora seu apoiante), quando lhe ordenaram “deixar passar” o Tratado Orçamental, que estipulava um limite de 0,5% ao défice orçamental. Essas “divergências” com Seguro, partilhadas pelos seus amigos e camaradas Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves e João Galamba, levaram a que fossem apelidados de “jovens turcos”, pela sua oposição interna ao “segurismo”. Pedro Nuno Santos foi, aliás, o primeiro presidente de federação a apoiar António Costa quando este desafiou Seguro pela liderança do Partido. Daí em diante, a história já é conhecida. Costa nomeou Pedro Nuno seu Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares depois das eleições de 2015 e foi um dos obreiros da “geringonça”. Nome que não gosta: diz que “aquilo de geringonça nada teve, funcionou bem”. A sua proximidade com a esquerda é bem conhecida. Note-se que, “quando Paulo Raimundo chega à liderança do PCP, Costa não se lembrava de algum dia se ter cruzado com ele, Pedro Nuno sim”, conta o Expresso em abril deste ano. Em 2019 foi promovido a Ministro das Infraestruturas e da Habitação. É sabido que a sua relação com o PM se deteriorou com o passar dos anos. No congresso de 2018, entusiasmado, “tomou o congresso do partido como seu”, diz o Expresso. Mas Costa não gostou, e veio dizer depois que “ainda não tinha metido os papéis para a reforma”. Pedro Nuno Santos acumulou as pastas ministeriais que inflamaram quando se deu a pandemia. A crise levou a despedimentos e cortes salariais na TAP, e a um plano de reestruturação que PNS não queria levar ao parlamento, desafiando mais uma vez Costa, que o contrariou. Depois deu-se o episódio do despacho do aeroporto. Pedro Nuno Santos decidiu uma questão com 50 anos de forma repentina, emitindo numa manhã uma portaria que definia a localização do novo aeroporto em Alcochete. Levou um “puxão de orelhas” de Costa, que o obrigou a revogar a decisão. A última gota deu-se quando se soube indeminização da TAP a Alexandra Reis, de 500 mil euros, aprovada por PNS através do WhatsApp. Demitiu-se. Ele próprio dizia que já tinha sido tudo no PS. Esteve em todos os órgãos, só lhe faltava mesmo ser secretário-geral. No mês passado – talvez precocemente – teve finalmente a sua oportunidade. A 9 de outubro começou uma rúbrica de comentário na SIC Notícias, e menos de um mês depois António Costa demitiu-se na sequência do Comunicado da Procuradoria-Geral da República. Pode ter tido “a carreira de comentário mais curta de sempre”, mas este fim de semana foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, trinta e dois anos depois de se ter juntado à JS, com 14 anos. Temos três meses até às eleições legislativas. Pedro Nuno Santos, embora esteja, de acordo com as últimas sondagens, na liderança, terá uma campanha difícil. Terá de defender os seus erros no governo. Terá de alterar a imagem que criou de si próprio, moderando-se, dado que estas eleições ganhar-se-ão ao centro. Terá talvez de, não havendo maioria à esquerda, aguentar até esta legislatura acabar para governar. Tudo isto com a sombra de Costa sempre presente. Como disse, talvez a oportunidade tenha vindo em má altura para Pedro Nuno Santos. Veremos.
- A Revolta Argentina
Javier Milei tomou posse como Presidente da Argentina no passado dia 10 de dezembro, após ter sido eleito com 55,7% dos votos. Depois de uma surpreendente primeira volta, Milei e o partido La Libertad Avanza, com apenas dois anos de vida política, dois deputados e nenhum senador ou ministro, venceram as eleições argentinas. Derrotando, assim, o Peronista Sérgio Massas, ministro da economia da passada legislatura. O irreverente economista, anarco-capitalista, conservador, tem estado na boca do mundo e com ele, a Argentina. Com propostas como o fim do banco central, um mercado livre de venda de órgãos humanos, a substituição do peso argentino pelo Dólar, etc., Milei promete recuperar economicamente um país que nos últimos 42 anos apresenta uma taxa média de inflação anual a rondar os 206%. O ano de 2023 não foi diferente - a Argentina viu a inflação escalar os 142%, números que deixam qualquer povo intimidado. Com cerca de 40% da população a viver no limiar da pobreza, a Argentina necessitava, evidentemente, de uma mudança rápida. Milei exibe-se como motor da mudança, um “salvador” de uma população cansada. O seu adversário foi, nada mais nada menos, que o ministro da economia de um governo falhado, discípulo de governos que trouxeram a Argentina a uma decadência histórica. No ranking do índice de liberdade económica, a Argentina ocupa o lugar 144 de 177, estando atrás de países como o Quénia, a Serra Leoa, o Bangladesh, entre outros. Não deixa de ser curioso pensar como é que o centro-esquerda não conseguiu escolher ninguém melhor que o ministro da economia. Um ministro de uma economia falida para combater o discurso de Milei. O anarco-capitalista, obviamente, usou isso a seu favor e fez da agenda económica a sua principal bandeira. A população, ouviu-o e, desesperada, acabou por usar a lógica do ex-candidato brasileiro Tiririca: “pior do que está não fica”. O cabelo e a quantidade de palavrões que usa corporizaram uma série de propostas “revolucionárias” que, bem ou mal, diferem das convencionais. Com todas as dúvidas que Milei possa trazer, não deixa de ser um obcecado pela economia Argentina. Parece-me que as medidas que quer pôr em prática são, diria, excessivas e pouco realistas. Desde logo, porque, ao longo dos anos, o governo argentino implementou diferentes programas de assistência e de subsídios para ajudar a população mais desfavorecida. Cortar este tipo de apoios de um momento para o outro, pode trazer um grave abalo à estrutura social da Argentina. Irresponsável ou temerário? Desde a redemocratização da Argentina, apenas 3 dos 11 presidentes não eram peronistas. Milei será o quarto e, não tendo maioria no congresso, vai necessitar do apoio dos moderados. E, após as eleições, tem de facto moderado o seu discurso, tornando-o mais realista e pragmático. As alianças com o partido de Maurício Macri (ex-presidente) e com os peronistas de Córdoba têm tornado evidente que Milei precisa de um discurso mais frugal para conseguir governar e dar estabilidade política à Argentina, que tanto precisa. Só o futuro poderá ditar o sucesso ou insucesso da direita na Argentina. Com um Milei mais moderado algumas das propostas podem mesmo vingar. O descontentamento dos sucessivos governos peronistas fez-se sentir nas urnas e poderá ser um ponto de viragem, não só na Argentina, mas também na América do sul.
- A "Estupidez" do Mal em Arendt e Scorsese
Killers of the Flower Moon é a nova e obrigatória longa-metragem de Martin Scorsese. Aqui, o veterano cineasta volta a tocar num dos pontos transversais à sua filmografia: o Mal. Mas um tipo muito específico de Mal… Vejamos. Em 1962, era condenado à morte em Israel Adolf Eichmann, o oficial alemão considerado um dos principais responsáveis pelo holocausto nazi. A responsável pela cobertura deste processo para o jornal The New Yorker foi Hannah Arendt, a qual ficou imortalizada pelo livro Eichmann em Jerusalém: Uma Reportagem Sobre A Banalidade do Mal, um fundamental tratado político-filosófico onde compilou os seus relatos de todo o processo. Em 1964, Arendt deu ainda uma entrevista a Joachim Fest para a SWR TV, igualmente decisiva para a consolidação das suas ideias, pela clarificação que fez da “banalidade do Mal”, um conceito por si introduzido. Apesar de central no seu Eichmann, este não tinha ficado definido de maneira precisa no mesmo, seja pelo tom jornalístico com que o escreveu, seja pela escola de pensamento heideggeriana de onde provinha e onde a ambiguidade em termos era preponderante. Tendo-se referido em Eichmann em Jerusalém a esta “banalidade” como “uma realidade terrível, que se situa além daquilo que as palavras podem exprimir e o pensamento conceber (word-and-thought-defying)”, em conversa com Fest, comparou-a a uma “certa estupidez”, dizendo que “há algo de realmente escandaloso nesta estupidez (Dummheit). Eichmann era perfeitamente inteligente, mas a este respeito era estúpido. Era esta estupidez que era tão escandalosa. E foi isso que quis dizer com banalidade. Não tem nada de profundo – nada de demoníaco! É a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”. Para a escritora, Eichmann representava um “novo tipo de criminoso” - “sem intenções criminosas” - que quisera apenas “seguir com o resto das pessoas”, que quisera poder dizer “nós”. “E este querer-poder-dizer-nós foi suficiente para cometer os maiores dos crimes possíveis.” Mas, para isso, Eichmann teve de “eliminar” da sua vida acções como “conversar sobre as coisas em conjunto, aceitar responsabilidade e pensar sobre o que se faz”. Assim, Eichmann, “tornou-se um cavalheiro extremamente perigoso”, para quem, como tantos outros, “a ideologia não desempenhava um grande papel”, mas sim a “obediência”. “Se lhes dissessem “Só és um de nós se cometeres homicídio connosco” – tudo bem. Se lhes dissessem “Só és um de nós se nunca cometeres homicídio” – tudo bem também.” Como consequência do “dizer “nós” e não “eu” - julgar por si próprio", surgiu a “estupidez” de que fala Arendt, i.e., a perda de uma consciência moral. Perda esta, segundo diz, evidenciada pela falta de reconhecimento da responsabilidade sobre os atos que cometeu e pela falta de remorso demonstradas pelo oficial. Para Eichmann, estes não passavam de simples “cumprimento de ordens” e “tratamento de números”, sendo “o arrependimento, para as criancinhas”. É agora possível olhar para a tradição das imagens em movimento e estabelecer uma analogia com as ideias de Arendt. No entanto, sendo muitos os filmes que reflectem sobre o carácter do Mal e das suas consequências, parece-me pertinente diferenciar três dos possíveis tipos de abordagens no contexto do Cinema Americano. A primeira é a do vilão clássico da Era Dourada de Hollywood, que, como Phillip Vandamm em North By Northwest e Liberty Valance em The Man Who Shot Liberty Valance, é livre e conscientemente cruel do início ao fim, isto mesmo que o público não o saiba logo. A este chamaria Arendt “o delinquente que comete um crime por convicção”. A segunda abordagem é a da exploração da decadência do ser humano através do estudo de personagem. Esta está presente em obras-primas da Nova Hollywood, de onde surgiu Scorsese, como Dog Day Afternoon, de Sidney Lumet e The Godfather de Francis Ford Coppola. Aqui, os personagens são apresentados em plena metamorfose, numa dualidade extrema e num realismo visceral. Percebemo-los como imperfeitos, apreensivos, mas empáticos e não raras vezes com princípios éticos bem definidos, como evidenciado na famosa fala de Michael Corleone “Esta é a minha família, não sou eu”, quando inquirido sobre as actividades criminosas da família, em The Godfather. Acontece que, quando forçados a uma decisão, optam de seu interesse e livre vontade por desafiar todas as normas da rectidão humana, perdendo sensibilidade moral e, num fatalismo quase grego, arruinando as suas vidas. Isto vê-se também em Michael quando, algum tempo depois, na tentativa de justificar um assassinato, afirma que “não é nada de pessoal, são apenas negócios”. Mas, presente em Killers, está a terceira abordagem da minha enumeração. Esta é aliás muitíssimo comum em Scorsese, desde The Irishman e The Wolf of Wall Street a Goodfellas. E, apesar deste realizador raramente escrever os seus filmes, os guiões que escolhe, a maneira como dirige os atores e as decisões que toma na rodagem dos mesmos demonstram a intencionalidade que tem em retratá-la. Em todos eles, vemos gente verdadeiramente “banal”. Têm família e amigos, divertem-se e trabalham. Têm sonhos e paixões - alguns até, fortuna – e a este ponto têm-nos a nós, espectadores. É então que, delito após delito, deitam tudo a perder. Autênticos monstros, espancam, roubam, drogam e matam. E como não é apenas o carácter bestial das suas acções que ignoram, mas também as próprias consequências, acabam na desgraça. Nesse momento, apercebemo-nos, caso ainda não o tivéssemos feito, como as suas aparentes simpatia, simplicidade e naturalidade se tratavam na verdade de gritantes superficialidade e cegueira moral, baseadas na falta de reflexão e num profundo desconhecimento da natureza do Homem. O que realmente diferencia estes personagens dos outros dois tipos acima referidos é a ausência de uma tomada de consciência. Por outras palavras, a “estupidez” ética adquirida nuns, nestes parece existir à partida e apenas estar à espera da oportunidade para se revelar – são, desde o início, “cavalheiros extremamente perigosos”. Numa carta a Gershom Scholem, Hannah Arendt caracteriza o Mal como “sempre só extremo, mas nunca radical, não possui nenhuma profundidade, espalha-se como um fungo parasita na superfície” – é precisamente isto que aqui sucede. A minha tese é assim a de que não apenas, e como diz Arendt, o Mal torna as pessoas estúpidas, mas a ingenuidade pode tornar as pessoas más. Por fim, Hannah Arendt conta a Fest que “há uma expressão inglesa: "Stop and think”. Ninguém pode pensar se não parar. Se se forçar uma pessoa a uma actividade implacável, ou se ela se deixar forçar a fazê-lo, verificar-se-á sempre que uma consciência de responsabilidade não se pode desenvolver. Esta só se pode desenvolver no momento em que a pessoa reflectir.” Nessa medida, considerando que os personagens da terceira categoria são também, sem excepção, homens de acção, e se está certa a velha máxima segundo a qual os mais pensativos dos homens são raramente os mais activos - que o diga Hamlet, o intelectual por excelência! - e vice-versa; se para o mais famoso mas também perspicaz dos heróis de Shakespeare a hybris está em pensar de mais (“conscience doth makes cowards of us all”), para os demais, pelo contrário, está em não parar e pensar duas vezes – “a simples relutância em sequer imaginar o que a outra pessoa está a experienciar”. Uns pecam por escolher o mal, outros pecam por não considerarem sequer a existência de uma escolha.
- Kissinger: Pragmático e Polémico
Venerado por uns, condenado por outros. Henry A. Kissinger morreu com 100 anos na semana passada, dia 29 de novembro, e é inegável que foi das figuras mais influentes da segunda metade do século XX. Emigrou com a sua família para os Estados Unidos aos 15 anos devido à perseguição nazi e ainda combateu na Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, na Universidade Harvard, destacou-se academicamente e fez lá o seu doutoramento, tornando-se professor. Serviu no governo americano de 1969 a 1977, nos mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford, onde foi Conselheiro Nacional de Segurança e Secretário de Estado. Tinha um papel de extrema importância dadas as circunstâncias da Guerra Fria, e foi através do seu trabalho como diplomata que Henry Kissinger deixou a sua marca na geopolítica do mundo pós-guerra. É muito difícil, se não impossível, falar de Kissinger sem mencionar a controvérsia que jamais deixou de o rodear. Era visto tanto como um génio diplomático como um “amoral” traficante de guerra. Tanto o nomearam vencedor do Prémio Nobel da Paz, como o acusaram de apoiar genocídios. A verdade é que era um homem de dois extremos, cujas ações serão sempre complicadas de avaliar. Das políticas mais caracterizantes de Henry Kissinger é a de “realpolitik”, uma abordagem realista e, acima de tudo, pragmática à diplomacia, não se deixando levar por questões ideológicas ou morais. O realpolitik do então Secretário de Estado foi inovador na Casa Branca, e foi graças a este estilo prático de Kissinger que nasceram negociações com nações tais como a China e a União Soviética, ambas (embora de formas diferentes) fiéis aos ideais comunistas e, por isso, antagónicos aos dos EUA. Talvez o seu feito diplomático que mais se destaca é o estabelecimento de relações com a China de Mao Zedong, nos anos 70. Naquela altura, existia um enorme ceticismo em relação à República Popular da China. Era sabido que estava sob um regime comunista, mas um que variava daquele predominante na União Soviética, por isso apresentava-se, desde já, como possível ameaça aos Estados Unidos. Porém, em 1971, Kissinger fez duas viagens à China – a primeira em segredo. Viagens estas que essencialmente preparam a ida histórica do presidente Richard Nixon a Pequim. Nesta ida, aconteceu a reunião entre Nixon, Zhou Enlai, o primeiro-ministro da altura, e Mao Zedong, sendo aqui onde se oficializaram as relações sino-americanas, dando fim a mais de 20 anos de rutura diplomática. Embora estes acordos só tivessem entrado em vigor mais tarde, o trabalho de Kissinger levou a intercâmbios económicos por parte das nações e à instauração de “embaixadas de facto”, tanto na China como nas capitais americanas. O nascimento de relações com a RPC não beneficiou os EUA apenas economica e culturalmente - também os favoreceu estrategicamente. Em plena Guerra Fria, estes novos laços viram o isolamento político da União Soviética de Leonid Brezhnev, pois esta também se encontrava em conflito com a China. A ideia de haver uma ameaça combinada do ocidente e do oriente acelerou o processo de descongelamento do diálogo entre os Estados Unidos e a URSS. Foram precisas meras semanas depois da visita de Nixon a Pequim para Brezhnev convidar o presidente americano para uma cimeira em Moscovo e, aqui, Kissinger adotou a política de détente (termo francês que significa distensão). Novamente, a sua habilidade permitiu que fossem montados aparelhos diplomáticos que facilitaram os entendimentos entre as duas nações. Passo a citar Winston Lord, antigo embaixador americano da China, que explica o seguinte: “Esta reunião (de Kissinger) preparou as discussões posteriores e a abertura de relações, a qual teve um grande impacto imediatamente, ao melhorar os laços com os soviéticos. (...) Restaurou a confiança nos Estados Unidos (...) e restaurou a credibilidade americana”. Outro dos seus sucessos foi a mediação do diálogo entre Israel e os países árabes na Guerra do Yom-Kippur em 1973. O Secretário de Estado desenvolveu um novo estilo de diplomacia, o denominado “shuttle diplomacy”, onde serviu como intermediário entre os israelitas e os árabes, liderados pelo Egito e pela Síria. Foi devido à sua capacidade de mediação que houve um cessar de fogo de ambos os lados, recuperando (temporariamente) a estabilidade na região do Médio Oriente. Contudo, como referido, Kissinger era um político de dois polos. No meio destes célebres feitos, encontra-se uma sombria mancha de controvérsia perpetuamente enfatizada pelos seus críticos. É condenado por ser um criminoso de guerra, apoiante de golpes de estado e tolerante de mortes em massa em prol de interesses americanos. Em 1973, após a eleição democrática do Partido Socialista do Chile, Kissinger e os EUA auxiliaram o golpe de estado militar que colocou no poder o ditador, Augusto Pinochet, um general do exército chileno. Ditadura esta que viu a perseguição de milhares de apoiantes do socialismo, gerando uma enorme polémica à volta da ajuda americana. Embora, através de sucessivas reformas, o Chile tenha desenvolvido a sua economia significativamente, muitos acreditam que os fins não justificam os meios. Kissinger também é criticado pelo seu envolvimento na Guerra do Vietname e no bombardeamento do Cambodja. Argumenta-se que o Secretário de Estado estendeu desnecessariamente o conflito no Vietname, bombardeando territórios cambojanos para desorientar o exército vietnamita. Morreram milhares de inocentes e ainda se viu a subida ao poder de Pol Pot, onde, com a sua ditadura, sucedeu o genocídio cambojano. Perante isto, considerava-se que Kissinger possuía “uma extraordinária indiferença quanto ao sofrimento humano”, como comenta Greg Grandin, autor do livro “Kissinger’s Shadow”. Mas é irrefutável a relevância que a diplomacia de Henry Kissinger tem hoje. Foi o seu inabalável pragmatismo que moldou a política externa dos EUA e, consequentemente, de todo o mundo pós-guerra. Passo a salientar dois exemplos. Primeiro, o estabelecimento de contacto diplomático entre Washington e Pequim – sem a instauração de relações com a China, o ocidente não seria o mesmo. A partir de 1979, com Deng Xiaoping e as relações em efeito, a China iniciou um processo de liberalização da economia, tornando-se na segunda potência mundial. Assim, a ascensão da China e a sua abertura para o mundo ocidental podem, sem dúvida, ser associadas ao esforço prévio de Kissinger. De seguida, acredito que a sua contribuição para o cessar de fogo no Médio Oriente e a forma como o fez, destacam-se, para melhor, da atual diplomacia adotada pelos EUA. Não é a primeira vez que Israel é atacado de surpresa – a primeira foi em 1973, no Yom Kippur, um feriado judeu. A guerra durou apenas 20 dias, e foi por obra de Kissinger que se recuperou alguma estabilidade entre os dois povos, a qual se esgotou novamente dia 7 de outubro deste ano. Mas ao contrário de 1973, não existe Henry Kissinger – existe Antony Blinken. O Secretário de Estado também se tem aventurado entre os países árabes e Israel nos últimos meses (executando também shuttle diplomacy), mas com o que aparenta ser uma relativa ineficácia, pois nada indica o fim do conflito israelo-palestiniano. Sendo assim, quem neste mundo apresentará a assertividade interventiva de Kissinger? Será que é esta força de negociação que o mundo contemporâneo necessita? Creio que, apesar de tudo, pessoas como Henry Kissinger fazem falta.
- Não ao Chega, Sim a Portugal!
André Ventura, fundador e presidente do partido Chega, apresenta uma capacidade intelectual e política fora de série. No que toca a criticar o governo ou quem lhe der jeito, tiro-lhe o chapéu. Para além disto, abstém-se de tudo o que esteja relacionado com soluções e substância no seu discurso. As recentes sondagens indicam um crescimento exponencial do partido. Tudo aponta para que o Chega passe para lá dos 40 deputados. Afinal de contas, que partido é este que não pára de crescer? Falo de um partido que se diz anti-socialista e que apresenta um projeto económico baseado no liberalismo de mercado. Apesar disso, tem uma opinião dúbia quanto à privatização da TAP. O seu programa eleitoral de 2022 dá início a todos os tópicos com a expressão “Contra os socialismos”, no entanto, pergunto-me se não simpatizará com essa ideologia. Continuando, falo de um partido, que, segundo André Ventura, no XVI Conselho Nacional, apresenta uma matriz cristã. Simultaneamente, pretende impor a castração química a certos condenados. Parece-me importante notar que existe consenso na Igreja Católica quanto à ilicitude desta medida. O Chega apresentou o programa para as legislativas de 2022 com o propósito de explicar “o que vamos fazer”. É percetível uma preocupação última com a reforma da justiça, com o combate à corrupção, com a valorização da família, com o controlo da imigração e com o crescimento económico. À primeira vista não parece mal, o problema é que o programa não responde à pergunta: “Como vamos fazer?”. Verdade seja dita, defende a criação de um ministério de família e promete tornar o Estado “uma pessoa de bem”, seja o que for que isso signifique. Vejamos, apesar das contradições que apresentei e da aparente falta de soluções no programa, o Chega tornou-se um partido extremamente relevante na vida política portuguesa, que, segundo André Ventura, em Março, vai concorrer para ganhar. Mas porquê? As pessoas estão extremamente zangadas. Penso nos professores, na polícia, nos bombeiros, nos médicos, nos agricultores e em tantas outras profissões necessárias para a nossa sociedade, que não são respeitadas nem dignificadas. Parece-me que o problema nem sequer começa no dinheiro, mas na indiferença generalizada da classe política e da população por quem luta não só por si, mas pelo bem comum, todos os dias. Ventura é esta voz. A voz de compaixão. A voz que respeita e dignifica. A voz que percebe. A voz que grita a raiva de tantos portugueses. A voz que não quer ser politicamente correta. A voz que fala dos ciganos, dos pedófilos, da corrupção, da prisão perpétua, da imigração, da União Europeia, dos subsídio-dependentes e de tantos outros tópicos que sempre foram tabus na vida política. Assim sendo, Ventura é quem dá corpo ao sofrimento e à angústia de todos estes portugueses que não vivem no Portugal que sempre sonharam. Não se enganem! Não é com o Chega, nem com o seu programa, que o sonho de um novo Portugal se vai concretizar. Seguem exemplos de medidas que este partido propõe no seu programa de 2022: Relativamente à economia: “O CHEGA diminuirá o peso do Estado na economia (hoje cerca de 50%) reduzindo os impostos e reduzindo mais do que proporcionalmente a despesa pública.”. Surgem-me certas perguntas: Que impostos? Quanto planeia reduzir? Relativamente à agricultura: “O CHEGA reforçará medidas de apoio à agricultura familiar, fundamental na reocupação do território e preservação de identidades e tradições do mundo rural.”. Surge-me uma pergunta: Que medidas? Relativamente à imigração: “O CHEGA recusa fazer da substituição demográfica dos portugueses por não-portugueses a resposta à queda da natalidade. A solução legítima passa por políticas que impeçam o fluxo migratório inverso, a saída para o estrangeiro de milhares e milhares de compatriotas nossos todos os anos.” Surge-me uma pergunta: Que políticas? O Chega é uma força política vaga. O Chega não tem propostas concretas para o país. O Chega não tem pessoas suficientes com experiência e de confiança para governar. Parece-me que, além da voz que apresentam, o Chega é nada, é uma farsa. O sentimento de revolta só se resolverá com um governo sério, com propostas realistas e práticas, que melhorem a vida dos portugueses. Este não é o campo de Ventura, ou do seu partido, como podemos ver. Também não me parece que seja o campo do partido socialista, nem das forças políticas de extrema-esquerda, que põem, muitas vezes, a ideologia à frente das necessidades dos portugueses. Tendo tudo isto em conta, não poderia deixar de partilhar a minha sincera preocupação com as eleições legislativas que se avizinham. Tudo indica que poderá surgir uma coligação PSD-CDS, que há de fazer acordos com a IL e que apenas governará se o Chega aprovar ou, pelo menos, se se abstiver do programa de governo. Assim sendo, votar neste partido pode dar continuidade à instabilidade democrática que vivemos. Agravando ainda mais o cenário político, Ventura diz que só aprova o programa de governo se incluir as suas reformas, que farão um “Governo de Direita”. O problema é que ninguém percebe que reformas são essas, nem que governo é esse. Tudo no seu discurso é “manhoso” e perigoso. Está na hora do PSD e do CDS-PP apresentarem respostas concretas e modernas que faltaram e que deram origem às frustrações e às novas tendências partidárias. São dois partidos de governo, com bons quadros, experientes e competentes. Acredito que uma coligação pré-eleitoral, com um programa realista de mudança, pode dar origem a uma era de prosperidade a Portugal. Portugal não precisa do Chega. Portugal não precisa desta voz. Portugal precisa de uma liderança séria, com ideias modernas, praticáveis e benéficas. Portugal precisa que o PSD e que o CDS-PP se ergam. Portugal precisa de uma nova AD! VIVA PORTUGAL!
- A Janela
Da janela de sua casa, Ermelinda observa o seu mundo com um olhar cansado e vivido. Já não sai de casa e a sua visão, muito afetada, é o que lhe resta. Madruga todos os dias, e a seguir à sua mítica torrada simples e copo de leite, põe-se à janela… Os pássaros cantam melodiosamente em coro, as folhas das árvores dançam ao ritmo do vento e a mãe grita num dramatismo teatral ao filho, que na sua tranquilidade invejável, anda serenamente, mais uma vez atrasado para as aulas. Mais à tarde, observa os camaradas da sua idade, que jogam à sueca, celebrando as suas amizades centenárias, acompanhados pela mais portuguesa cerveja. Os miúdos, de volta da escola, correm pela rua com uma felicidade que só a ingenuidade da infância a sabe fazer. De noite, Ermelinda observa os graúdos, que, depois de mais um dia monótono e melancólico de trabalho, voltam a casa, desanimados e cansados. A isto se resume o dia de Ermelinda, que com apenas o pequeno-almoço no bucho, se perde observando a beleza e a singularidade do seu mundo, da sua rua. Neste final de caminhada, o pequeno quadrado de Ermelinda é o seu porto de abrigo. Abrigo onde sente que, apesar dos desgostos que a vida acarreta, é impossível refletir sobre a morte sem pensar simultaneamente que viver é algo maravilhoso.
- Nostalgia Política
Por volta das 20h30 deste dia, há 43 anos atrás, despistava-se o pequeno Cessna onde seguia Francisco Sá Carneiro, então Primeiro-Ministro, e Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa à época. Acidente ou atentado? Não me compete a mim avaliar. O que é facto é que a marca que deixa em cada português, principalmente nos que viveram aquele tempo, é de um sentimento de que tudo poderia ter sido melhor. Ninguém pode saber ao certo o que teria acontecido, mas Camarate, e particularmente a figura de Sá Carneiro, geraram na direita política um mito, um sentimento de utopia perdida, tão característico do povo português. Já o D. Sebastião mais recente ainda está entre nós, embora em perseverante silêncio. Chama-se Pedro Passos Coelho e saiu de cena em 2018. Com dimensões distintas, e separados por mais de 30 anos democráticos, criou-se também à volta de Passos Coelho um mito. O seu regresso aos palcos políticos é ansiosamente aguardado por muitos. Porquê? Porque tal como Sá Carneiro, a obra ficou por acabar. Sá Carneiro castigado por Camarate e Passos pelo eleitorado. Do centro à direita radical, todos se sentem herdeiros de Sá Carneiro, uns com mais legitimidade e outros com menos. É importante relembrar as palavras de André Ventura em 2020 quando afirmou ser “o principal continuador” de Sá Carneiro. E ainda que “se Sá Carneiro estivesse vivo” acreditaria no projeto político do Chega. Declarações que são refutadas pela presidente do Instituto Francisco Sá Carneiro, Maria da Graça Carvalho: “O Chega não comunga connosco estes princípios de Sá Carneiro”. Acrescentando que as ideias do primeiro e único líder do Chega “são bastante contrárias ao pensamento de Sá Carneiro, que era uma pessoa cosmopolita e inclusiva”. Com Passos Coelho, a história repete-se. O antigo Primeiro-Ministro referiu há poucas semanas que o Chega é um partido legal, tal como os outros. Rapidamente a máquina deste partido começou a funcionar, pegou nestas declarações e distorceu-as, apelando assim ao voto dos fiéis passistas. Ora, os legítimos herdeiros do mito da direita portuguesa devem fazer-se dignos de tal e conquistar e convencer estes portugueses de que a alternativa que sentem que morreu em 1980 e ressuscitou em 2011, voltando a perecer em 2015 (mesmo sendo muito diferentes), está hoje bem viva e reside no centro-direita, com fronteiras bem delineadas. Hoje, os portugueses sentem que sempre que o centro-direita deu a mão, as circunstâncias o traíram. Com Sá Carneiro, uma tragédia, e com Passos, a troika. Os líderes desta ala devem, por isso, fazer uso deste traço sebastianista dos portugueses e utilizar esta ferramenta. Acredito, na minha perspetiva não dogmática, que o PSD e o CDS-PP (e eventualmente o PPM e o MPT) devem ir juntos a eleições e investir nesta narrativa. Para além de que a inclusão do CDS permitirá dar confiança aos eleitores mais à direita, que se iludiram com o Chega, de que a alternativa moderada existe e está pronta. A boa notícia é que se não conseguirem a maioria sozinhos, podem ainda recorrer à Iniciativa Liberal, o que permitirá não morrer na praia, como em 2015. Os protagonistas são outros, as circunstâncias também. Mas acredito que o espírito e a missão mantêm a mesma essência. Que à terceira seja de vez.
- "Napoleon": Pelo menos o cavalo era branco.
Foi a 2 de dezembro de 1804 na Catedral de Notre-Dame, em Paris, que Napoleão Bonaparte se coroou Imperador dos franceses. Pouco mais de dez anos antes era um refugiado político, filho da empobrecida nobreza corsa, mero tenente no Exército Republicano. Três anos depois, tornou-se no homem mais poderoso da Europa e cultivou um dos mais admiráveis e duradouros legados de que há memória. Hoje, graças ao novo filme de Ridley Scott, essa memória é mais uma vez adulterada, agora pela mais negligente imprecisão histórica: uma caracterização anglófila de um homem desinteressado e casmurro, que mais se assemelha a uma personagem de alívio cómico num filme da Marvel, que à figura imponente, genial, enérgica e ambiciosa que qualquer estudioso da lenda napoleónica conhece. Não há homem sobre o qual mais tenha sido escrito que Napoleão Bonaparte. Mais livros foram escritos com o seu nome no título do que há dias desde a sua morte, em 1821. E as narrativas variam acerca de quem realmente foi. A propaganda britânica gozava com o pequeno "Boney", o ogre corso que aterrorizou crianças inglesas durante décadas. As memoirs dos seus compatriotas foram também, na sua grande maioria, negativas, muitos deles procurando estatuto numa França monárquica que rapidamente rejeitou o Imperador dos franceses como símbolo nacional (enquanto as instituições por ele criadas se tornavam pilares da França moderna). O próprio Napoleão, no seu exílio final na ilha remota de Santa Helena, ditou o que viria a ser o Le Mémorial de Sainte-Hélène, best-seller do séc. XIX, que tentava preservar o seu legado histórico, repleto de exageros e manipulações. “O Historiador, tal como o orador, deve persuadir, deve convencer”, disse. No séc. XX foi a vez da narrativa hitleriana: gerações de historiadores olharam para Napoleão através do prisma do Führer; ambos nascidos fora da nação que lideraram, ambos pereceram após fracassos no inverno russo. Duas semelhanças que parecem legitimar qualquer tipo de comparação. Quem se interessar pelo entendimento do homem acerca do qual muito foi dito, mas acerca do qual ninguém disse o mesmo, deparar-se-á com uma ambiguidade no seu retrato histórico: um general desumano e sem escrúpulos para uns, grande estadista para outros. No Crime e Castigo de Dostoievski, Napoleão tem um papel central. Arquétipo do herói “a quem tudo é permitido”, influencia o jovem Raskolnikov a matar. No mesmo registo, também Nietzsche menciona o Imperador em muitas das suas obras. Elogia a sua “nobreza” e descreve-o como “o homem antigo nos tempos modernos”. Um verdadeiro übermensch. É esta ideia que alicia Raskolnikov e o impele a cometer o crime. Num dos seus delírios febris de nervosismo pós-homícidio faz a seguinte exclamação: “(...) o verdadeiro soberano, a quem tudo é permitido, arrasa Toulon, faz uma carnificina em Paris, esquece um exército no Egito, gasta meio milhão de pessoas na campanha de Moscovo, mas limita-se a um calembur em Vilno; e a ele erguem monumentos depois da morte!” Ora, à parte a sua admiração pelo “soberano”, parece-me que Raskolnikov podia muito bem ter acabado de sair da sala de cinema depois de ter visto o Napoleon, que estreou em Portugal na passada quinta-feira, dia 23 de novembro. Um filme que contribui para a narrativa vulgar e degradante que tem caracterizado Napoleão como um simples bárbaro sem escrúpulos, um monstro que pouco se importava com a vida dos seus homens face à sua intrigante vida matrimonial, que na realidade nada tinha de fantástico. E agora, passados quase vinte anos da publicação das mais de trinta e três mil cartas que Napoleão escreveu durante a sua curta, mas agitada, vida, temos a oportunidade de avaliar a sua verdadeira identidade e desmistificar a conceção napoleónica no imaginário coletivo de uma forma ponderada e responsável. Mas parece-me que tanto David Scarpa, o argumentista, como Ridley Scott (que afirmou numa entrevista estar aliviado por não ter ficado responsável por “ler os livros”) ficaram para trás: o seu protagonista é o velho Boney da propaganda britânica, um tarado sexual que ganhou as suas batalhas por mero acaso e conquistou a Europa porque o seu ego assim o comandava. O que dificilmente poderia estar mais aquém da realidade. Napoleão Bonaparte era um homem brilhante e não esta personagem miseravelmente retratada por Joaquin Phoenix. Foi escritor na sua juventude e um ávido leitor durante toda a sua vida. Tinha um apurado senso de humor e existem vários relatos que o comprovam. Não desprezava a vida dos seus homens, aliás, em todas as grandes batalhas Napoleão perdeu pelo menos um amigo e por isso ficava visivelmente afetado. Não era um belicista obcecado. Mais guerras lhe foram declaradas do que o inverso. Era antes um génio militar sem precedentes. Até Wellington o considerava o melhor de todos os tempos. Tinha um carisma inigualável, e uma capacidade sobre-humana de persuasão. Escusado será dizer que mudou a guerra para sempre: não é por acaso que lhes chamam “as guerras napoleónicas”. Remeto para a sua campanha em Itália em 1796 e as batalhas de Marengo, Austerlitz, Jena e Friedland. Perdeu apenas sete das sessenta em que participou. Como soberano também não desiludiu. É responsável pelo primeiro e mais influente código civil na história, que ainda é aplicado em alguns países e está na base do de muitos outros, incluindo Portugal. Criou o Louvre e o Banco de França, que ainda hoje existem. Consolidou e expandiu algumas das ideias que definiram o séc. XIX, como a meritocracia, a igualdade perante a lei, a tolerância religiosa e, naturalmente, foi ele que carimbou a Revolução Francesa. Foi o iluminismo montado a cavalo. É a razão pela qual os Bourbons não restauraram o Antigo Regime quando retornaram ao poder. Voltando ao filme, o que inquieta ainda mais é a aparentemente propositada infidelidade histórica. Numa entrevista, o historiador e biógrafo de Napoleão, Andrew Roberts, disse que “apenas 38 minutos” do filme estavam corretos. Logo no começo, o general Bonaparte abre fogo às pirâmides, o que é desnecessariamente impreciso e demonstra somente que a irresponsabilidade é propositada e de uma arrogância deplorável. Napoleão comandou tropas na Batalha das Pirâmides em 1798, mas as pirâmides estavam a quinze quilómetros do conflito. Mais tarde, na sombria cena da Batalha de Austerlitz, Napoleão ordena o que aparenta ser um massacre das forças austríacas, o que não aconteceu da forma que o filme representa. Não há referência a figuras emblemáticas do Império, e que até seriam cinematicamente valiosas, como o Marechal Murat, Cambacérès, Davout e Marie Walewska, para nomear alguns. Esta última, famosa amante de Napoleão, entre as vinte e uma que aparentemente teve, poderia ter introduzido uma maior complexidade à relação entre o Imperador e Josefina, o principal e entediante enredo do filme. Tal como Roberts, tive sérias dificuldades em apontar qualquer assertividade histórica, numa produção que chegou aos duzentos milhões de dólares. E não acho que seja capricho. O filme alertou-me para o perigoso poder que o cinema tem hoje em dia. As biopics têm uma grande influência sobre o imaginário coletivo, e esta não a utilizou com a devida responsabilidade. Pergunto-me então: quem será agora Napoleão? Mais uma vez, o mito ganha terreno. Já o homem, vai tragicamente sendo esquecido.
- O Tsunami "Populista" na Europa: Holanda
Na passada quarta-feira, dia 22 de Novembro, a Holanda teve um resultado eleitoral histórico, onde, pela primeira vez, garantiu o primeiro lugar ao partido “populista” de direita (PVV). O PVV foi fundado em 2006 e a sua presença no parlamento tem sido silenciosa, nunca tendo elegido mais que 24 deputados (2010), tendo este número sido alcançado na ressaca da crise de 2008. Durante os últimos 13 anos, o PVV esteve sempre na oposição, elegendo entre 15 e 20 deputados, de um total de 150 e, pela primeira vez na sua história, foi o partido mais votado, elegendo 37 deputados. No passado recente, a Holanda e o eleitorado holandês tinham prioridades políticas semelhantes às de Portugal, sendo os temas mais importantes a política fiscal, as críticas à burocracia, entre outros temas de caráter não urgente. Mas foi a partir do início de 2020 que a opinião publica e a polarização começaram a ganhar importância. A desconfiança nos partidos e no sistema político disparou para os 62%, a popularidade dos partidos centristas/bloco central foi gravemente posta em causa e os temas prioritários tornaram-se as políticas climáticas, fomentando o ceticismo europeu, a inflação, novamente um catalisador de ideias antieuropeístas, baseado nas críticas ao BCE, e, por fim, o tema mais popular que definiu o tom do discurso político nos últimos anos: a imigração. Todos estes temas têm vindo a polarizar a sociedade holandesa, no entanto, surge um tema que tem especial tração; a política climática e a ecologia interventiva do governo holandês, promovida pela União Europeia. Nos últimos 10 anos tem se vindo a formar no país uma classe de ativistas, composta principalmente por estudantes e jovens, com o objetivo de promover a agenda progressiva na Holanda. O progressismo e o globalismo ganharam popularidade nas camadas mais jovens e foram enraizados, com sucesso, no sistema de ensino holandês, especialmente nas universidades. E daí surgiu a normalização da ideia de que a atividade humana é um ataque ao planeta, devendo ser restringida ao máximo. Só após a normalização deste pacote de ideias foi possível o surgimento de políticas como, por exemplo, a limitação da utilização de fertilizantes de nitrogénio na agricultura e a expansão das taxas de carbono. Sendo a Holanda dos maiores produtores de alimentos da Europa, estas medidas atuam como barreiras à prosperidade do país, sendo tudo isto em nome de uma teoria globalista que visa o fim da liberdade de circulação, dos direitos de propriedade e do aumento da qualidade de vida. Para estes “objetivos” climáticos serem alcançados, será necessária austeridade em nome do clima, na forma de taxas de carbono, redução ou abolição do consumo de carne e aumento de preços da alimentação que poderão levar ao racionamento de comida e à escassez de recursos. E é exatamente isto que os holandeses temem, porque, no momento em que o próprio sistema, com o apoio da União Europeia, age diretamente contra os interesses dos holandeses, em nome de uma agenda elitista, desconectada das reais necessidades da população, toda a noção de "esquerda e direita” desaparece, surgindo um novo paradigma de “patriotismo e populismo” vs. globalismo. Tanto com governos de esquerda como de direita, estas políticas predatórias são postas na prática com sucesso, o que mostra e transmite o sinal de que o país não é independente e não se encontra em controlo do seu próprio destino. E esta realidade é tangível na questão da imigração, onde os antigos governos holandeses permitiram imigração em massa, em nome da "compaixão e diversidade", à custa do tecido social, segurança, identidade e união do país. As altas taxas de imigração não só levaram a um aumento do crime violento, como também à diluição da cultura holandesa e ao aumento da polarização interna. Esta realidade reflete-se constantemente nas sondagens e refletiu-se na semana passada em força. A imigração em massa nunca promoveu o bem-estar dos holandeses, e é quando as massas chegam a esta conclusão, que o voto patriota e “populista” ganha força. Como mencionei anteriormente, esta eleição não se resumiu a "direita vs esquerda", mas sim à independência de interesses internacionais que entram em conflito com o interesse nacional. Foi uma eleição entre um bloco central comprometido e europeísta e um partido mais em sintonia com as preocupações da população, nomeadamente a soberania nacional, a imigração e a libertação da tirania ecológica. Falo disto, pois enquanto o PVV fala das consequências da imigração em massa, da irresponsabilidade do BCE e da importância da agricultura, as Universidades, a imprensa e o bloco central falam de diversidade, conceitos abstratos de igualdade e racismo. A grande vitória do progressismo foi convencer a população a votar e a apoiar políticas que vão diretamente contra os seus interesses e que promovem os interesses de instituições globalistas e megacorporações. Isto para dizer que as prioridades do mundo moderno não partem das pessoas, nem são definidas por elas, mas sim por elites que não possuem valores conservadores, que rejeitam qualquer forma de patriotismo e que têm interesses próprios opostos aos da nação. Esta eleição é de grande relevância para Portugal, pois ilustra o potencial rumo da direita e oferece um manual de instruções, o qual deveria ser estudado pela direita portuguesa. A tendência é de fortalecimento, nacionalismo e “populismo”. É olhando para exemplos como os EUA, Itália, França e Espanha, que vemos a criação desta ala “antissistema”. No entanto, o fortalecimento da direita só acontecerá em momentos de urgência, e é a urgência que leva à mobilização. Temas como a política fiscal e a corrupção tornam a política um hobby em vez de uma batalha. É apenas através da sensação de ameaça que a “garra” da direita será revitalizada. Para concluir, o resultado da eleição na holanda serviu para sublinhar o descontentamento da população com o modelo globalista e as suas consequências. Não apenas a eleição na holanda, mas a explosão em popularidade da direita conservadora no ocidente, leva-nos à conclusão de que a tendência é de que o “centro” diminua e que os “extremos” cresçam. A consciência ideológica da direita está a regressar.
- Pedro Nuno "Santo"
O passado dia 13 de Novembro foi um dia em grande para o neto do sapateiro. Sala cheia no Largo do Rato e mais tarde, na estação onde teve a carreira mais curta de comentador de que há memória, senta-se com Rodrigo Guedes de Carvalho. Confesso que, mesmo sendo uma figura já conhecida, a postura com que Pedro Nuno Santos encarou esta nova etapa deixou-me manifestamente surpreso. Fala do Partido Socialista, sua segunda casa, e, particularmente, de si mesmo como se de redentores se tratassem. Mas a verdade é que, num momento em que o PS volta a bater no fundo, com mais um pântano político, lá estava uma enchente na sede nacional a louvar um ex-ministro do atual governo, protagonista deste pântano. Convém que os portugueses se lembrem como é que Pedro Nuno se tornou ex-ministro: apresentou a sua demissão há pouco menos de um ano, depois de se tornar pública a indemnização ilegal de meio milhão de euros recebida por Alexandra Reis, por ter saído antecipadamente da TAP. É verdade que este valor não se compara aos 3.2 mil milhões por ele injetados nesta companhia, mas mudava a vida a muitos portugueses. O legado que deixa passa também por, hoje, nem a indemnização que deixou direta ou indiretamente passar, conseguir comprar uma casa em Lisboa. E perante todas estas lamentáveis evidências, Pedro Nuno fala ao país com toda a tranquilidade, dizendo apenas que os erros são humanos e que só não acontecem a quem fica na retaguarda. Não podia estar mais de acordo, sou aliás severamente contra as mortes políticas antecipadas. Mas pedia-se a um futuro candidato a primeiro-ministro que não se ficasse pelo “aprender com os erros” e dissesse muito concretamente porque e onde é que errou e como é que planeia não voltar a falhar. Ora, parece que Pedro Nuno prefere focar-se no ataque intransigente e inabalável à Direita, seja ela qual for. Faz uma acusação que me parece extremamente grave e perigosa em democracia: acusa o PSD de se estar a preparar para se coligar com o Chega. Esta afirmação é democraticamente perigosa pois acusa o PSD e o seu líder, em particular, de estarem a mentir aos portugueses, uma vez que já disseram claramente que essa não é uma hipótese. E daqui vão ter de se tirar consequências: Ou o PSD cumpre o que diz e Pedro Nuno passa a mentiroso ou o PSD não cumpre e Luís Montenegro perde toda a credibilidade. Na Sic, questionado pelo jornalista se não está a “importantizar” em demasia o Chega, Pedro Nuno abandona essa sua “muleta” eleitoral e remata que um eventual acordo PSD-IL já é suficientemente radical. Eu pergunto então como devemos nomear o Bloco e o PC (dos quais Pedro Nuno foi a ponte na solução geringonça) e o Chega, evidentemente.
- Os Primeiros Fleetwood Mac
Poucas foram as bandas que sofreram alterações tão radicais como uma das maiores do século XX, os Fleetwood Mac, tanto estilisticamente como estruturalmente. Podemos contar até quase 20 artistas diferentes que colaboraram na banda desde a sua formação em 1967. Foi a introdução do dueto de Lindsey Buckingham e Stevie Nicks em 1975 que iniciou uma fase de sucesso monumental para os Fleetwood Mac. Com o lançamento de Rumours em 1977, um dos álbuns mais vendidos de sempre, o grupo britânico-americano tornou-se numa das maiores e mais famosas bandas do mundo. Inevitavelmente, o estilo que os levou a este grau de notoriedade foi o de soft rock e de música popular, com traços de rock clássico, mantendo-se orientada para um género comercial. Porém, este tipo de música globalmente reconhecida com Nicks e Buckingham era drasticamente divergente do estilo inicialmente presente nos anos 60. Nascida em Londres, a banda foi formada por Peter Green. Green é considerado dos melhores guitarristas de blues da sua altura e, dentro dos ingleses, foi inequivocamente dos mais influentes. Recrutou Jeremy Spencer, John McVie e Mick Fleetwood (que acompanharam todo o percurso do grupo) e juntos fundaram os Fleetwood Mac. Grandes influências do guitarrista incluem Eric Clapton, Muddy Waters, B.B. King, e muitos dos maiores artistas de blues dos anos 60. Sendo assim, naturalmente, o modelo original de Fleetwood Mac foi concebido como uma banda de rock blues, embora hoje não seja reconhecida por isso. Não obstante, não é pelo soft rock comercial ter ofuscado esta vertente da banda que a torna menos louvável. Pelo contrário: acredito que a melhor versão (das inúmeras) dos Fleetwood Mac é a primeira, a fundadora. Tinham tudo que uma banda de blues inglesa precisava, e mais. Embora enraizada em blues tradicional, com a mestria de Peter Green, a música incorpora um estilo separador dos outros artistas da época. Como qualquer estimável guitarrista, manifestando-se através de riffs potentes e timbres polidos, a técnica de Green era fundamental para o caráter emotivo das músicas. Caráter este inerente ao estilo de blues e marcado por letras simples, dramáticas e impetuosas, retratando experiências e desafios pessoais, principalmente da vida amorosa. E, não nos esquecendo da secção rítmica, por trás da indústria de Peter Green está a base sólida oferecida por John McVie no baixo e Mick Fleetwood na bateria – o entendimento de ambos do ritmo de blues foi sem dúvida crucial para a composição e para autenticidade das músicas. Esta formação original de Green, Fleetwood, McVie e Spencer (com a eventual adição de outros membros) tocou até 1970, até a saída de Peter Green. Foram lançados três álbuns de estúdio, começando com o álbum autointitulado Fleetwood Mac (1968 – também conhecido por “Peter Green’s Fleetwood Mac”). Alguns dos seus maiores êxitos incluem “Black Magic Woman”, “Oh Well (Pt. 1)” e “Looking For Somebody”. Com isto, não posso deixar de recomendar, para além dos primeiros álbuns, as seguintes compilações musicais: Men of the World: The Early Years (2005); Fleetwood Mac’s Greatest Hits (1989) e English Rose (1969). Termino com uma letra da música “World Keep On Turning”, salientando a autenticidade da sua natureza como banda de rock blues: “Yeah, the way I love the woman, It’s bound to get me killed. (…) I need the woman so bad, I need her like the sky needs the sun.”











