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A Janela

  • Diogo Lopes de Carvalho
  • Dec 6, 2023
  • 1 min read

Updated: Jan 12, 2024

Da janela de sua casa, Ermelinda observa o seu mundo com um olhar cansado e vivido. Já não sai de casa e a sua visão, muito afetada, é o que lhe resta.


Madruga todos os dias, e a seguir à sua mítica torrada simples e copo de leite, põe-se à janela… Os pássaros cantam melodiosamente em coro, as folhas das árvores dançam ao ritmo do vento e a mãe grita num dramatismo teatral ao filho, que na sua tranquilidade invejável, anda serenamente, mais uma vez atrasado para as aulas.

Mais à tarde, observa os camaradas da sua idade, que jogam à sueca, celebrando as suas amizades centenárias, acompanhados pela mais portuguesa cerveja. Os miúdos, de volta da escola, correm pela rua com uma felicidade que só a ingenuidade da infância a sabe fazer.

De noite, Ermelinda observa os graúdos, que, depois de mais um dia monótono e melancólico de trabalho, voltam a casa, desanimados e cansados.

A isto se resume o dia de Ermelinda, que com apenas o pequeno-almoço no bucho, se perde observando a beleza e a singularidade do seu mundo, da sua rua.

Neste final de caminhada, o pequeno quadrado de Ermelinda é o seu porto de abrigo. Abrigo onde sente que, apesar dos desgostos que a vida acarreta, é impossível refletir sobre a morte sem pensar simultaneamente que viver é algo maravilhoso.

 
 
 

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