Kissinger: Pragmático e Polémico
- Luís van Zeller
- Dec 10, 2023
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Updated: Jan 12, 2024
Venerado por uns, condenado por outros. Henry A. Kissinger morreu com 100 anos na semana passada, dia 29 de novembro, e é inegável que foi das figuras mais influentes da segunda metade do século XX.
Emigrou com a sua família para os Estados Unidos aos 15 anos devido à perseguição nazi e ainda combateu na Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, na Universidade Harvard, destacou-se academicamente e fez lá o seu doutoramento, tornando-se professor. Serviu no governo americano de 1969 a 1977, nos mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford, onde foi Conselheiro Nacional de Segurança e Secretário de Estado. Tinha um papel de extrema importância dadas as circunstâncias da Guerra Fria, e foi através do seu trabalho como diplomata que Henry Kissinger deixou a sua marca na geopolítica do mundo pós-guerra.
É muito difícil, se não impossível, falar de Kissinger sem mencionar a controvérsia que jamais deixou de o rodear. Era visto tanto como um génio diplomático como um “amoral” traficante de guerra. Tanto o nomearam vencedor do Prémio Nobel da Paz, como o acusaram de apoiar genocídios. A verdade é que era um homem de dois extremos, cujas ações serão sempre complicadas de avaliar.
Das políticas mais caracterizantes de Henry Kissinger é a de “realpolitik”, uma abordagem realista e, acima de tudo, pragmática à diplomacia, não se deixando levar por questões ideológicas ou morais. O realpolitik do então Secretário de Estado foi inovador na Casa Branca, e foi graças a este estilo prático de Kissinger que nasceram negociações com nações tais como a China e a União Soviética, ambas (embora de formas diferentes) fiéis aos ideais comunistas e, por isso, antagónicos aos dos EUA.
Talvez o seu feito diplomático que mais se destaca é o estabelecimento de relações com a China de Mao Zedong, nos anos 70. Naquela altura, existia um enorme ceticismo em relação à República Popular da China. Era sabido que estava sob um regime comunista, mas um que variava daquele predominante na União Soviética, por isso apresentava-se, desde já, como possível ameaça aos Estados Unidos. Porém, em 1971, Kissinger fez duas viagens à China – a primeira em segredo. Viagens estas que essencialmente preparam a ida histórica do presidente Richard Nixon a Pequim. Nesta ida, aconteceu a reunião entre Nixon, Zhou Enlai, o primeiro-ministro da altura, e Mao Zedong, sendo aqui onde se oficializaram as relações sino-americanas, dando fim a mais de 20 anos de rutura diplomática. Embora estes acordos só tivessem entrado em vigor mais tarde, o trabalho de Kissinger levou a intercâmbios económicos por parte das nações e à instauração de “embaixadas de facto”, tanto na China como nas capitais americanas.
O nascimento de relações com a RPC não beneficiou os EUA apenas economica e culturalmente - também os favoreceu estrategicamente. Em plena Guerra Fria, estes novos laços viram o isolamento político da União Soviética de Leonid Brezhnev, pois esta também se encontrava em conflito com a China. A ideia de haver uma ameaça combinada do ocidente e do oriente acelerou o processo de descongelamento do diálogo entre os Estados Unidos e a URSS. Foram precisas meras semanas depois da visita de Nixon a Pequim para Brezhnev convidar o presidente americano para uma cimeira em Moscovo e, aqui, Kissinger adotou a política de détente (termo francês que significa distensão). Novamente, a sua habilidade permitiu que fossem montados aparelhos diplomáticos que facilitaram os entendimentos entre as duas nações. Passo a citar Winston Lord, antigo embaixador americano da China, que explica o seguinte: “Esta reunião (de Kissinger) preparou as discussões posteriores e a abertura de relações, a qual teve um grande impacto imediatamente, ao melhorar os laços com os soviéticos. (...) Restaurou a confiança nos Estados Unidos (...) e restaurou a credibilidade americana”.
Outro dos seus sucessos foi a mediação do diálogo entre Israel e os países árabes na Guerra do Yom-Kippur em 1973. O Secretário de Estado desenvolveu um novo estilo de diplomacia, o denominado “shuttle diplomacy”, onde serviu como intermediário entre os israelitas e os árabes, liderados pelo Egito e pela Síria. Foi devido à sua capacidade de mediação que houve um cessar de fogo de ambos os lados, recuperando (temporariamente) a estabilidade na região do Médio Oriente.
Contudo, como referido, Kissinger era um político de dois polos. No meio destes célebres feitos, encontra-se uma sombria mancha de controvérsia perpetuamente enfatizada pelos seus críticos. É condenado por ser um criminoso de guerra, apoiante de golpes de estado e tolerante de mortes em massa em prol de interesses americanos.
Em 1973, após a eleição democrática do Partido Socialista do Chile, Kissinger e os EUA auxiliaram o golpe de estado militar que colocou no poder o ditador, Augusto Pinochet, um general do exército chileno. Ditadura esta que viu a perseguição de milhares de apoiantes do socialismo, gerando uma enorme polémica à volta da ajuda americana. Embora, através de sucessivas reformas, o Chile tenha desenvolvido a sua economia significativamente, muitos acreditam que os fins não justificam os meios.
Kissinger também é criticado pelo seu envolvimento na Guerra do Vietname e no bombardeamento do Cambodja. Argumenta-se que o Secretário de Estado estendeu desnecessariamente o conflito no Vietname, bombardeando territórios cambojanos para desorientar o exército vietnamita. Morreram milhares de inocentes e ainda se viu a subida ao poder de Pol Pot, onde, com a sua ditadura, sucedeu o genocídio cambojano. Perante isto, considerava-se que Kissinger possuía “uma extraordinária indiferença quanto ao sofrimento humano”, como comenta Greg Grandin, autor do livro “Kissinger’s Shadow”.
Mas é irrefutável a relevância que a diplomacia de Henry Kissinger tem hoje. Foi o seu inabalável pragmatismo que moldou a política externa dos EUA e, consequentemente, de todo o mundo pós-guerra. Passo a salientar dois exemplos.
Primeiro, o estabelecimento de contacto diplomático entre Washington e Pequim – sem a instauração de relações com a China, o ocidente não seria o mesmo. A partir de 1979, com Deng Xiaoping e as relações em efeito, a China iniciou um processo de liberalização da economia, tornando-se na segunda potência mundial. Assim, a ascensão da China e a sua abertura para o mundo ocidental podem, sem dúvida, ser associadas ao esforço prévio de Kissinger.
De seguida, acredito que a sua contribuição para o cessar de fogo no Médio Oriente e a forma como o fez, destacam-se, para melhor, da atual diplomacia adotada pelos EUA. Não é a primeira vez que Israel é atacado de surpresa – a primeira foi em 1973, no Yom Kippur, um feriado judeu. A guerra durou apenas 20 dias, e foi por obra de Kissinger que se recuperou alguma estabilidade entre os dois povos, a qual se esgotou novamente dia 7 de outubro deste ano. Mas ao contrário de 1973, não existe Henry Kissinger – existe Antony Blinken. O Secretário de Estado também se tem aventurado entre os países árabes e Israel nos últimos meses (executando também shuttle diplomacy), mas com o que aparenta ser uma relativa ineficácia, pois nada indica o fim do conflito israelo-palestiniano.
Sendo assim, quem neste mundo apresentará a assertividade interventiva de Kissinger? Será que é esta força de negociação que o mundo contemporâneo necessita?
Creio que, apesar de tudo, pessoas como Henry Kissinger fazem falta.



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