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"Napoleon": Pelo menos o cavalo era branco.

  • Miguel Pereira
  • Dec 2, 2023
  • 5 min read

Updated: Jan 12, 2024

Foi a 2 de dezembro de 1804 na Catedral de Notre-Dame, em Paris, que Napoleão Bonaparte se coroou Imperador dos franceses. Pouco mais de dez anos antes era um refugiado político, filho da empobrecida nobreza corsa, mero tenente no Exército Republicano. Três anos depois, tornou-se no homem mais poderoso da Europa e cultivou um dos mais admiráveis e duradouros legados de que há memória. Hoje, graças ao novo filme de Ridley Scott, essa memória é mais uma vez adulterada, agora pela mais negligente imprecisão histórica: uma caracterização anglófila de um homem desinteressado e casmurro, que mais se assemelha a uma personagem de alívio cómico num filme da Marvel, que à figura imponente, genial, enérgica e ambiciosa que qualquer estudioso da lenda napoleónica conhece.


Não há homem sobre o qual mais tenha sido escrito que Napoleão Bonaparte. Mais livros foram escritos com o seu nome no título do que há dias desde a sua morte, em 1821. E as narrativas variam acerca de quem realmente foi. A propaganda britânica gozava com o pequeno "Boney", o ogre corso que aterrorizou crianças inglesas durante décadas. As memoirs dos seus compatriotas foram também, na sua grande maioria, negativas, muitos deles procurando estatuto numa França monárquica que rapidamente rejeitou o Imperador dos franceses como símbolo nacional (enquanto as instituições por ele criadas se tornavam pilares da França moderna). O próprio Napoleão, no seu exílio final na ilha remota de Santa Helena, ditou o que viria a ser o Le Mémorial de Sainte-Hélène, best-seller do séc. XIX, que tentava preservar o seu legado histórico, repleto de exageros e manipulações. “O Historiador, tal como o orador, deve persuadir, deve convencer”, disse. No séc. XX foi a vez da narrativa hitleriana: gerações de historiadores olharam para Napoleão através do prisma do Führer; ambos nascidos fora da nação que lideraram, ambos pereceram após fracassos no inverno russo. Duas semelhanças que parecem legitimar qualquer tipo de comparação. Quem se interessar pelo entendimento do homem acerca do qual muito foi dito, mas acerca do qual ninguém disse o mesmo, deparar-se-á com uma ambiguidade no seu retrato histórico: um general desumano e sem escrúpulos para uns, grande estadista para outros.


No Crime e Castigo de Dostoievski, Napoleão tem um papel central. Arquétipo do herói “a quem tudo é permitido”, influencia o jovem Raskolnikov a matar. No mesmo registo, também Nietzsche menciona o Imperador em muitas das suas obras. Elogia a sua “nobreza” e descreve-o como “o homem antigo nos tempos modernos”. Um verdadeiro übermensch. É esta ideia que alicia Raskolnikov e o impele a cometer o crime. Num dos seus delírios febris de nervosismo pós-homícidio faz a seguinte exclamação:


“(...) o verdadeiro soberano, a quem tudo é permitido, arrasa Toulon, faz uma carnificina em Paris, esquece um exército no Egito, gasta meio milhão de pessoas na campanha de Moscovo, mas limita-se a um calembur em Vilno; e a ele erguem monumentos depois da morte!”


Ora, à parte a sua admiração pelo “soberano”, parece-me que Raskolnikov podia muito bem ter acabado de sair da sala de cinema depois de ter visto o Napoleon, que estreou em Portugal na passada quinta-feira, dia 23 de novembro. Um filme que contribui para a narrativa vulgar e degradante que tem caracterizado Napoleão como um simples bárbaro sem escrúpulos, um monstro que pouco se importava com a vida dos seus homens face à sua intrigante vida matrimonial, que na realidade nada tinha de fantástico. E agora, passados quase vinte anos da publicação das mais de trinta e três mil cartas que Napoleão escreveu durante a sua curta, mas agitada, vida, temos a oportunidade de avaliar a sua verdadeira identidade e desmistificar a conceção napoleónica no imaginário coletivo de uma forma ponderada e responsável. Mas parece-me que tanto David Scarpa, o argumentista, como Ridley Scott (que afirmou numa entrevista estar aliviado por não ter ficado responsável por “ler os livros”) ficaram para trás: o seu protagonista é o velho Boney da propaganda britânica, um tarado sexual que ganhou as suas batalhas por mero acaso e conquistou a Europa porque o seu ego assim o comandava. O que dificilmente poderia estar mais aquém da realidade.


Napoleão Bonaparte era um homem brilhante e não esta personagem miseravelmente retratada por Joaquin Phoenix. Foi escritor na sua juventude e um ávido leitor durante toda a sua vida. Tinha um apurado senso de humor e existem vários relatos que o comprovam. Não desprezava a vida dos seus homens, aliás, em todas as grandes batalhas Napoleão perdeu pelo menos um amigo e por isso ficava visivelmente afetado. Não era um belicista obcecado. Mais guerras lhe foram declaradas do que o inverso. Era antes um génio militar sem precedentes. Até Wellington o considerava o melhor de todos os tempos. Tinha um carisma inigualável, e uma capacidade sobre-humana de persuasão. Escusado será dizer que mudou a guerra para sempre: não é por acaso que lhes chamam “as guerras napoleónicas”. Remeto para a sua campanha em Itália em 1796 e as batalhas de Marengo, Austerlitz, Jena e Friedland. Perdeu apenas sete das sessenta em que participou. Como soberano também não desiludiu. É responsável pelo primeiro e mais influente código civil na história, que ainda é aplicado em alguns países e está na base do de muitos outros, incluindo Portugal. Criou o Louvre e o Banco de França, que ainda hoje existem. Consolidou e expandiu algumas das ideias que definiram o séc. XIX, como a meritocracia, a igualdade perante a lei, a tolerância religiosa e, naturalmente, foi ele que carimbou a Revolução Francesa. Foi o iluminismo montado a cavalo. É a razão pela qual os Bourbons não restauraram o Antigo Regime quando retornaram ao poder.


Voltando ao filme, o que inquieta ainda mais é a aparentemente propositada infidelidade histórica. Numa entrevista, o historiador e biógrafo de Napoleão, Andrew Roberts, disse que “apenas 38 minutos” do filme estavam corretos. Logo no começo, o general Bonaparte abre fogo às pirâmides, o que é desnecessariamente impreciso e demonstra somente que a irresponsabilidade é propositada e de uma arrogância deplorável. Napoleão comandou tropas na Batalha das Pirâmides em 1798, mas as pirâmides estavam a quinze quilómetros do conflito. Mais tarde, na sombria cena da Batalha de Austerlitz, Napoleão ordena o que aparenta ser um massacre das forças austríacas, o que não aconteceu da forma que o filme representa. Não há referência a figuras emblemáticas do Império, e que até seriam cinematicamente valiosas, como o Marechal Murat, Cambacérès, Davout e Marie Walewska, para nomear alguns. Esta última, famosa amante de Napoleão, entre as vinte e uma que aparentemente teve, poderia ter introduzido uma maior complexidade à relação entre o Imperador e Josefina, o principal e entediante enredo do filme.


Tal como Roberts, tive sérias dificuldades em apontar qualquer assertividade histórica, numa produção que chegou aos duzentos milhões de dólares. E não acho que seja capricho. O filme alertou-me para o perigoso poder que o cinema tem hoje em dia. As biopics têm uma grande influência sobre o imaginário coletivo, e esta não a utilizou com a devida responsabilidade. Pergunto-me então: quem será agora Napoleão? Mais uma vez, o mito ganha terreno. Já o homem, vai tragicamente sendo esquecido.

 
 
 

1 Comment


Guest
Dec 03, 2023

Excelente crítica

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