top of page

Gato Fedorento, a curiosidade e o Ronaldo. Entrevista a Zé Diogo Quintela

O Discreto
Jun 21
22 min read

Updated: Jul 1

Entre o Gato Fedorento e a Padaria Portuguesa, Zé Diogo Quintela tem muitas ideias, umas melhores que outras, segundo ele. O Discreto conversou com o humorista e cronista sobre os seus gostos, o Mundial (e seu amigo Ronaldo) e os vários projetos em que participou ao longo da vida.


Consegue lembrar-se de uma situação, uma ocasião na sua vida em que se desmanchou a rir e não podia, aquelas situações chatas?

 

Eu quando comecei a trabalhar, a fazer o Gato Fedorento, aliás, está gravado, à vista de todos, eu desmanchava-me rir em todos os sketches.

 

Eles dizem que o Zé Diogo era sempre o primeiro.

 

Era sempre o primeiro e às vezes o único. Quando começámos a fazer, até era só eu o Ricardo [Araújo Pereira], os sketches num programa que era o Perfeito Anormal, pá, eu estou a rir-me nos sketches todos. Era uma vergonha. Dava ali um ar de amadorismo com que as pessoas até simpatizavam, acho eu, mas que hoje em dia me irrita muito ter feito assim, acho que os que sketches perdem por causa disso.

 

De resto, normalmente sou muito controlado. Não tenho ataques de riso em enterros ou em situações assim. Por acaso, houve uma recentemente, num casamento, numa Igreja, que eu tive que deixar de olhar para quem estava comigo porque estava-me a rir, provavelmente por alguma coisa estúpida que o meu filho fez. Sou muito controlado, tenho aquilo a que chamam uma “cara de pau”.

 

Mas não a trabalhar, achava mesmo graça aquilo. Aliás, uma das coisas que eu digo é que achava que nós fazíamos um bom trabalho no início, por isso é que eu me ria, mas a partir de uma altura eu deixei de achar graça ao nosso trabalho e deixei de me rir. Eu era o nosso primeiro espectador.

 

Mas na vida, no geral, acha que há temas, há ocasiões, situações em que o humor não tem lugar?

 

São duas questões. Não há tema, eu não acho que haja um tema que não possa ser tocado pelo humor, que o humor não possa trabalhar sobre morte, doença. Até temas socialmente ou politicamente mais sensíveis agora, a raça, a sexualidade, crimes graves de abuso sexual sobre crianças. Podes fazer o humor com tudo, podes no sentido em que é permitido, é legalmente permitido. Também há espaço para isso na conversa da sociedade, até porque um dos papéis que o humor tem é de suavizar, de ser uma espécie de lubrificante nas relações, nas conversas.

 

Ainda agora fiz uma piada, mas que pelos vistos não teve piada, porque o outro lado não se riu. Estava a falar com uma arquiteta, com quem estou a fazer um projeto, e estávamos a falar de uma questão de segurança e eu disse, “Epá, borrifamos nisso, ninguém vai saber. Depois um dia, uma criança está a brincar no baloiço e acaba enforcada, mas que se lixe”, e ela… em silêncio e bom, não achou graça, pronto. Depois, uma pessoa nunca sabe, se calhar aconteceu a uma criança na família. Olha, agora já está.


Pronto, qualquer tema pode ser alvo do humor. Agora, há situações de facto em que uma piada não é apropriada, se estás num enterro não é melhor altura, numa situação solene, ou alguém está a um discurso emotivo e interromper com uma piada, por melhor que seja a piada. Acontece com vocês também, às vezes é numa situação onde tu não podes dizer uma piada, que tu te lembras da melhor piada, e depois no fim queres contar, pá, e agora não tem tanta graça, porque a minha graça era na situação, mas na situação não podia.

 

Portanto, acho que aí duas questões. Há humor em tudo. Podemos usar humor em tudo. Há situações, locais e alturas onde não é apropriado, só estraga.

 

Já escreve humor há muito tempo, desde há mais de 20 anos e continua a escrever. Acha que o humor evolui ao longo do tempo? O humor é intemporal, ou depende do tempo e das circunstâncias em que se insere?

 

Eu acho que o humor sobre temas atuais vai obrigatoriamente mudando. Podemo-nos rir agora do que está na atualidade, porque o humor depende sempre das referências que nós temos, daquilo que nós conhecemos. Portanto se nós retrospetivamente formos ver o humor que se fazia há 20 anos, podemos não achar tanta graça porque não temos as referências.

 

Agora é preciso perceber, não só a linguagem é diferente, mas mesmo que a linguagem fosse a linguagem atual, nós não íamos ter as referências, por isso é que as boas edições têm uma série de notas que ajudam muitas vezes a contextualizar. Nesse sentido o humor muda.

 

O tipo de coisas de que nos rimos, eu acho que isso é intemporal. E mesmo os mecanismos usados para a escrita do humor também são, de certa maneira, sempre os mesmos.

 

Respondendo diretamente à tua pergunta, o humor mudou sim, as coisas de que nos rimos sim, mas não também porque as coisas que nos fazem rir, independentemente do contexto e do tema específico, são normalmente as mesmas.

 

O tipo que se engana, o tipo – olhem, há bocado, antes da entrevista, estávamos a falar sobre o Ronaldo – com um grande ego, tem graça sempre em qualquer altura e, neste momento é um futebolista, mas há trinta anos podia ser um político e há cinquenta ser um artista.

 

Portanto, sim e não. Vou responder a todas as perguntas sim e não.

 

E hoje em dia o que é que o faz rir?

 

A pergunta é difícil. Eu sou uma péssima pessoa para perguntar isso, porque eu deixei de ver e de ler tanto humor como fazia antes. Houve uma altura em que eu era muito mais, sei lá, ativo profissionalmente, agora menos, e esforçava-me por estar a par, como eu acho que qualquer profissional deve fazer na sua profissão, estar a par daquilo que se faz, o estado da arte.

 

E nós podemos sempre ver os melhores. Quem é que faz o melhor que é para podermos, não imitar, mas poder almejar. Eu agora, não sei, devo-me estar um bocado a borrifar e já não vejo tanto. Mas continua a haver humoristas que me fazem rir.

 

Os meus colegas e eu, nós temos um método de trabalho que, no fundo, não é diferente de um grupo de amigos quando vocês estão com os vossos amigos a beber umas cervejas e há muitas piadas, muito meterem-se uns com os outros, portanto isso faz-me rir bastante, e se calhar uma das razões até pelas quais eu continuo a trabalhar é a possibilidade de poder fazer isso com um grupo de amigos, uns que já são há mais tempo, o Ricardo e o Miguel [Góis] já são há 20 e anos, mas os outros são mais recentes, desde que começamos a trabalhar, mas é um ótimo ambiente e eu acho que o facto de sermos profissionais do humor faz com que o tipo de interação que é normal entre grupos de amigos, no nosso caso, seja um bocadinho mais elevado.

 

Não quero dizer o nível, nem a qualidade. Mas o facto de sermos profissionais, de querermos sempre mostrar uns aos outros, além do gozo normal de gozar com o gordo, com o outro que fez não sei o que, o “Epá, estás vestido desta maneira” – é engraçado porque, apesar de temos quase 50 anos, mantém-se, é uma infantilidade, continua a ser e eu aprecio muito esse tipo de humor – “Epá, bonito corte de cabelo”.

 

O facto de sermos humoristas eu acho que faz com que haja sempre um bocadinho de competição. É engraçado. Eu acho que se fôssemos um grupo de gajos de UFC, aquela coisa que também existe de encontrões entre amigos, também era levado um bocadinho mais ao extremo, com grandes chaves e mata-leões. Isso é uma das coisas que faz-me rir, tirando isso, tirando o meu grupo de colegas, de amigos.

 

Vejo algum stand-up que eles me vão recomendando. O Guilherme Fonseca, um dos humoristas que trabalha comigo, que está sempre em cima dos acontecimentos, vai me mostrando. Há um que eu agora gosto muito que é o Anthony Jeselnik, que tem um tipo de humor...

 

Mais negro?

 

Sim e muito seco, não sentido de piadas secas, mas...

 

Sim, muito cru.

 

Sim, e depurado de todo o excesso, tanto é que ele parece um relojoeiro. Todas as piadas são muito bem montadas e sem peças a mais, um bom relojoeiro, presumo eu que não sei nada de relojoaria, faz as máquinas mais complexas com os componentes mais simples e mais pequenos, que é para caber tudo ali, não é?

 

Continuo a ver o Saturday Night Live que já teve melhores momentos e piores. Gosto muito do tipo que agora faz de Pete Hegseth, o Colin Jost. Vale a pena ver.  Mas, regra geral, os americanos ficaram todos malucos desde que o Trump foi para Presidente e então, a qualidade começou a ser menos humor e mais intervenção política.

 

Mas de resto, não há assim nada que eu aponte.

 

Um filme que o faça chorar a rir? Um filme ou um ator não comediante, no caso.  Algum assim de eleição?

 

Então, o filme que se calhar é o que me tem marcado é A Vida de Brian, dos Monty Python. O ponto de partida é original. Um tipo que nasce mesmo ao lado de Jesus, num estábulo ao lado e a vida dele é toda cruzada com a de Jesus, paralela, aliás. O filme é genial, já tem 50 anos. E na altura muito polémico, tudo o que goza ou faz humor com a igreja.

 

Engraçado, porque na altura, foi muito criticado, com os boicotes e tal, hoje em dia a igreja curiosamente tem um maior à vontade, aceita muito mais do que outros géneros de igrejas ou seitas que não se podem gozar.

 

Depois, atores. Há atores que não são comediantes, mas que têm grandes timings de comédia. Os americanos têm muito isso, é uma escola ótima. Por exemplo, o Alec Baldwin do 30 Rock o tipo é um ator, que faz filmes dramáticos, faz filmes de ação, até acho eu, mas quando faz comédia, é um ótimo ator.

 

Outro é o John Hamm, que fez Mad Men, mas agora estou a ver uma série com ele que é Your Friends & Neighbors, aquilo é uma série de drama e comédia, mas quando ele faz humor – ele tem várias participações no Saturday Night Live também – é um bom ator com timings de comédia muito bons.

 

É interessante porque não é de todo visto como comediante, por ter aquela imagem de Mad Men tão enigmática.

 

Pá e há outro que tem graça também, que é o Timothy Olyphant, que fazia uma série chamada Justified. Também é um ator que faz drama, mas naquela série o gajo é um polícia, um Marshal, com muita graça, muita ginga.

 

Os americanos fazem, esse género de séries bem, que têm uma parte mais de ação ou dramática e depois têm uma parte mais cómica, misturam muito bem. Têm bons atores e atrizes também. Por exemplo, lá está, a que fazia o 30 Rock, a Tina Fey, que também escreve. Também apresenta muito bem os Golden Globes. Tem muita graça.

 

São atores, que têm um alcance muito grande, fazem drama e comédia com igual qualidade.

 

O melhor XI com jogadores portugueses que tenha visto jogar?

Olha, na baliza: Baía.

 

Lateral esquerdo: este Nuno Mendes.

 

Centrais: o Ricardo Carvalho e o Pepe.

 

Lateral direito: gostei do Miguel, o gajo era meio maluco, mas, se calhar, melhor, o Paulo Ferreira.

 

Médios: Paulo Sousa, se bem que teve uma carreira muito curta e na seleção não teve sorte, mas sim, Paulo Sousa. Deco. Agora gosto imenso deste João Neves, mas ainda tem que jogar mais. É o único que ainda não está contaminado com o vírus do Ronaldo, que ainda joga normalmente. Eu gostava do Maniche. Jogava com o Maniche, Paulo Sousa e Deco.

 

Ataque: Figo à direita. Ronaldo lá na frente. E Futre.

 

Não é uma má equipa.

 

Nada má.

 

E relativamente à tragédia de ontem (Portugal x RD Congo), se fosse selecionador, quais eram as prioridades?

 

Se fosse selecionador, matava-me. Se fosse Martínez, o gajo está ali em Houston, ia ali para a autoestrada, de certeza que passam uns camiões... Não, epá, aquilo é tudo muito mau. Eu tinha começado por não levar o Ronaldo.

 

Não levava, sequer? Um bocado extremo ou não?

 

Não sei, quantos avançados a Seleção devia ter. Três? E tens o Paulinho, tens o tipo que foi o melhor jogador do campeonato escocês, o Cláudio Braga, o Beto. Ou então ia, mas não era titular.

 

E depois temos um problema na defesa, porque o Gonçalo Inácio não serve, mas pelos vistos o tipo do Benfica também não. O gajo não limpa, parecia que estava a ver um jogo de ping-pong. E sem Rúben Dias estamos tramados. À direita se calhar punha o Matheus Nunes, é incompreensível como é que entra o Nelson Semedo e não o Matheus Nunes.

 

O meio-campo, jogava com aqueles três, não jogava com o Bernardo, os três da frente eram outros três, provavelmente jogava com o Ramos, Trincão, e o Pedro Neto, talvez, ou João Félix. O Rafael Leão tem um problema mental, não lhe apetece. Mas jogava com o Gonçalves Ramos, se calhar com o João Félix. Também acho que é um desperdício de talento, mas remata, inventa ali qualquer coisa. Olha o Guedes. É um gajo vertical, como eles dizem, vertical, corre para a baliza e remata.

 

O outro gajo é uma tragédia, é uma tragédia. As primeiras substituições foram aos 65 minutos, estava a trocar mensagens com os meus amigos e disse-lhes, vamos ver que justificação é que o Martínez tem para não ter tirado o Ronaldo logo aos 60 minutos. O gajo não tirou sequer, jogou 90 minutos. Ontem [Inglaterra x Croácia], o Modric sai aos 60 minutos.

 

Pensando no Gato Fedorento, mas também em outras coisas que tenha feito, como é que é o seu processo criativo, como é que se materializam as suas ideias?

 

De todas as coisas que eu fiz, ou tenho feito, ao longo dos anos, o Gato Fedorento é diferente. Porventura, é provavelmente, o processo que eu mais gosto. Um processo colaborativo, estamos entre amigos, colegas, e há ali sempre um ambiente de competição.

 

Acho que um humorista gosta de fazer as pessoas rir, mas gosta ainda mais de fazer humoristas rir. Há ali uma satisfação de reconhecimento.

 

De aprovação.

 

Sim. E, portanto, nós tínhamos ali uma época em que nós escrevemos, sei lá, 500 e tal sketches em 4 ou 5 anos. Uma barbaridade.

 

O processo era quase sempre o mesmo, chegávamos com uma lista de papel cheio de ideias, tínhamos uma reunião, normalmente à volta da PlayStation, jogávamos muito. Dizíamos: “Tenho esta ideia: um tipo chega a uma repartição, pede uma licença e o outro gajo diz, ‘ok é preciso o papel’, ele diz, ‘mas qual papel?’, ‘o papel’, depois ele repete isto, só tenho isto”. Outro gajo diz “ok, essa é engraçada, guardamos essa”. Depois eu apresentava outra, ninguém dizia nada, pronto esta não dá.

 

Cada um trazia as suas ideias, as que estavam mais ou menos aprovadas, íamos escrevê-las. Outras, logo ali na discussão ficavam mais ou menos resolvidas, este do papel é um exemplo. Alguém trouxe a primeira parte, mas não sabia para onde é que aquilo ia, depois alguém disse, “só se a seguir vem outro, troca o funcionário e diz ‘o selo’.” Eles diziam, “ok, este é giro”, e já temos, pronto, encosta esse.

 

Mas outros demoravam muito, alguns mais de um ano até descobrir como é que aquilo acabava, ou se calhar inverter completamente a piada.

 

E, portanto, era um processo muito colaborativo, trazíamos as ideias, discutíamos, íamos para casa, escrevíamos. Apresentávamos o sketch uns aos outros, já escrevia este, vejam lá, alguém sugeria correções, outros diziam “vamos gravar isto”, ou outros diziam “não gosto disto”, havia muito esta discussão que durava até à altura da gravação. Textos muitas vezes só eram fixados mesmo na altura, às vezes até gravávamos uma versão e não gostávamos muito isto.

 

Um processo muito interativo e eu gostava muito disso. E depois lá está, havia também essa competiçãozinha, eu pelo menos eu sentia isso, pensava “não estou a produzir o suficiente, o Miguel, o Ricardo e o Tiago cada um fez não sei quantos sketches, eu não fiz nenhum tenho que fazer mais”.

 

Havia uma coisa de não querer ser o peso morto, mas também querer ser bom, melhorar. Acho que nós nos obrigávamos todos uns aos outros a ser melhores. O produto final de escrita ganhava com isso.

 

E o processo atual?

 

Atualmente, com o programa que fazemos com o Ricardo, é diferente. É um programa todo ele em cima da atualidade, implica estar sempre a ver notícias.

 

É um género de programa que nós começámos a fazer primeiro em 2009, eram vocês uns bebés. Foi a primeira vez que fizemos um programa de eleições. Era diferente, a internet ainda era muito incipiente, o YouTube não tinha o arquivo que tem hoje, não havia box. Não dava para puxar para trás, ouvia-se uma coisa e tomava-se nota, tinha-se de ir a um arquivo da SIC. Felizmente a SIC já estava no processo de digitalizar porque antes disso era tudo com cassetes.

 

Hoje em dia não, está na box, no YouTube, Twitter. De qualquer maneira nós temos de estar em cima disso. Vamos usando canais de WhatsApp, um só dedicado a isso. Vamos pondo coisas que vemos ao longo da semana.

 

Fazemos isso, tomamos notas sobre as ideias que os outros vão pondo, chegamos à sexta-feira, temos uma primeira reunião. Começamos já a depurar mais aquilo que vamos usar, temos um editor que trabalha connosco, mandamos imagens para ele preparar.

 

E no domingo, estamos lá de manhã até à hora de ir para o ar, às 21h30, a escrever.

 

Só escrevem no domingo?

 

Só no domingo. É ele [Ricardo Araújo Pereira] que escreve, está no computador e nós estamos todos à volta, com um ecrã gigante. Aquilo é escrito da maneira como ele diz. Ele tem uma capacidade muito boa, parece que ele vai dizendo as coisas dentro da cabeça e vai verbalizando interiormente tudo, e então escreve da maneira como ele gosta que aquilo saia.

 

Esse processo também é colaborativo, mas é mais limitado. O universo é mais limitado, é o universo da atualidade. Se vocês forem fazer uma análise dos últimos 100 programas, muito facilmente vêm padrões. Estamos um bocado limitados pelo universo, particularmente o português, são sempre as mesmas pessoas, as mesmas situações.

 

Por exemplo, nos Estados Unidos, vejo um bocadinho do Daily Show, o gajo vai ver este congressista do Delaware, que é um satanista nas horas vagas e tem um exorcismo, não sei.

 

Desde que há o Chega, sempre temos mais um bocadinho.

 

Nas autárquicas, o 3º na lista de Coimbra…

 

É incrível, os gajos têm mesmo olho para aquilo. Não que nos outros lados não haja, mas os tipos têm uma pontaria. O gajo que rouba malas…

 

Melhor material, difícil!

 

Sim, esse é digno dos Estados Unidos. Um deputado que abafa malas e roupa para meter na Vinted? Isto era um sketch.

 

Pronto eu gostava mais do antigo. Quando escrevíamos sketches, os temas eram diferentes. Eramos muito permeáveis, qualquer ideia pode ser transformada num sketch. Criativamente foi uma altura muito rica.

 

Há outras coisas que eu faço, como crónicas, já há bastantes anos, mas o processo é diferente. Vou tomando notas, muitas vezes já com piadas, mas como também são muito sobre a atualidade, estão um bocadinho limitadas.

 

Tenho também agora o podcast que faço com o Miguel e o Ricardo. Aí é que cada um pega em dois temas, tentamos que sejam os mais absurdos possíveis e vai para lá. Investiga-se um bocado e depois vai para lá. No último episódio, achei imensa graça, foi o processo de embalsamamento da Eva Perón. Maravilhado, dediquei umas valentes horas àquilo.

 

E quando vai tomando notas, quando investiga e escreve, pensa mais no seu próprio sentido de humor, ou mais no dos seus amigos e colegas, na questão da competição e do reconhecimento? Ou então no público geral, maior?

 

Boa pergunta. Para já é sempre uma coisa que me faz rir a mim. Ou pelo menos começa por ser uma coisa que me deixa curioso, parte da minha curiosidade. A curiosidade é uma coisa engraçada, porque treina-se. Treina ou, quer dizer, não se apaga. A maior parte das pessoas, nós todos, estamos sujeitos a tantas coisas, a distrações.

 

Estímulos.

 

Exato, estímulos. Mas se ligássemos a todos, éramos uns tontos – como as crianças, que se distraem, estão a ir para a escola, veem o pássaro, vão atrás do pássaro. Mas porquê? Porque as crianças têm a curiosidade ligada ao máximo, não está minimamente condicionada. Nós não, temos que nos condicionar, passamos por um anúncio, aquela merda é esquisita, mas cagas nisso, estou a ir para o trabalho, tenho coisas para fazer.

 

Nós, enquanto humoristas, uma das nossas ferramentas é ouvir, notar nas coisas. Isto de certeza que vos acontece: quando ouvem humoristas, e falam de um tema, vocês dizem: “Pois é! Eu já tinha mais ou menos pensado nisto! Nunca tinha desenvolvido como um humorista desenvolve, mas já tinha reparado que as pessoas, quando estão numa bicha e querem passar à frente, fingem que estão a falar com o amigo como se já lá estivessem”. Sei lá, lembrei-me disto agora.

 

Sim, isso já me aconteceu, mas o humorista pegou naquilo, aconteceu-lhe e transformou. Desenvolveu. Isso é a curiosidade, o início. Nós ganhamos isso de não calar, de não silenciar, a nossa curiosidade.

 

Agora eu sei que com os meus amigos e colegas, em princípio, estamos mais ou menos sintonizados. Temos essa afinidade, e mais do que humorística também de amizade. Como vocês, o vosso grupo de amigos, riem-se das mesmas coisas que mais ninguém se ri; tudo a rir de uma grande private joke. Às vezes nem precisa de ser privado, gostam de uma coisa e mais ninguém percebe. Provavelmente as namoradas dizem que é só parvoíces.

 

Com os meus amigos acontece a mesma coisa. E depois, sem nunca nos termos preocupado com isso, descobrimos que, ao fazer o Gato Fedorento, aquilo que nos interessava, aquilo que nos fazia rir ao ponto de querermos fazer um sketch sobre isso, fazia rir as pessoas também.

 

Há uma parte que é sorte. Descobrimos que as pessoas gostavam também e isso se calhar é uma das razões pelas quais tivemos a sorte de ter tido sucesso. Tínhamos esta sintonia também com o público.

 

Depois também nunca cometemos um erro que eu acho que muitos humoristas cometem.

 

Apenas pensar no público?

 

Apenas pensar no público, mas não só.

 

É ter uma ideia errada do que é o público. Normalmente que o público não vai perceber isto. Esse é o primeiro. Pensar que “nós percebemos, nós somos gajos formados, e a malta não vai perceber isto”. E é falso. Primeiro porque nós não somos tão espertos como achamos que somos, nem os outros são tão burros como achamos que eles são. Depois, o que estamos a fazer também não é física quântica, são piadas.

 

Mas quem fez isso antes de nós, e fez isso bem, era o Herman [José]. O Herman, em miúdo via, mas eu não percebia o Herman. Aliás, eu ria-me com o Herman porque tinha graça. E só mais tarde é que o percebi. Estava a ter piada para mim, que tinha sete anos, mas também para os meus primos, tinham 17, e estava a ter piada para os meus pais. Tinha um lado infantil, um lado meio escatológico, faz-se sempre rir, piadas “de cocó”, mas depois tinha também um humor mais subtil, mais fino. Apelava a vários escalões etários e não só escalões etários, mas também classes, demografias.

 

E nós nunca falámos sobre isso inicialmente, nunca dissemos, “este sketch é muito difícil”.

 

A propósito disso, lembra-se de algum sketch onde pensaram, “esta ideia é genial”, mas o público não acolheu?

 

É boa a pergunta. Que nós gostássemos muito? Havia uns que nós gostávamos muito e talvez não fossem tão bem-sucedidos como outros.

 

Ou então o contrário? “Este não é tão bom, mas filmamos na mesma”, e fez um grande sucesso?

 

Há uns que me espantam, não acho nada de especial e as pessoas gostam mesmo. São gostos.

 

Acontece-me imenso hoje em dia com umas crónicas que eu escrevo, muita preguiçosas. Não tenho muito tempo, estou à pesca de um tema, a lamber os jornais. Deixa cá que cuspir mais 3000 caracteres sobre isto, piadas formulaicas, aquelas que já fiz, e mudo só o nome. Às vezes entrego e penso, “isto é uma vergonha”. E é esse que a malta vem dizer, “olha realmente, desta vez, tiveste muita graça”.

 

Depois há outros onde tomo notas durante uma semana, vou escrever a achar que está muita bem construído e tal, e nada, ninguém diz nada.

 

Agora, em relação a sketches, por exemplo, nós fazíamos umas músicas que gostávamos imenso, lá num programa da SIC. Ainda fazíamos uns telediscos. Epá, achava as músicas geniais. Musicalmente eram boas, tínhamos um músico a trabalhar connosco, o Armando Teixeira.

 

Fizemos uma música chamada “Para Tábua”, uns gajos que eram os Il Ivo. Pá, pronto, vocês não sabem, eram quatro cantores, acho que italianos. São tipos com fatos, cantam operaticamente. E eram muito conhecidos, vinham muito a Portugal. Nós fizemos um pastiche daquilo a perguntar qual é o melhor caminho para Tábua. Gosto daquilo.

 

E as pessoas não ligaram muito?

 

Às músicas não.

 

Tem sempre em consideração o impacto que a sua comédia pode vir a ter, a nível de opinião pública ou perceções das pessoas? Ou foca-se apenas no entretenimento? Sendo o exemplo mais direto o Isto é Gozar com Quem Trabalha, um programa muito popular.

 

Não, não temos em conta esse impacto que pode ter. Nós achamos que não é aquilo que muitas vezes se diz. O chamado “poder do humor”, o humor não tem o poder que as pessoas acham que tem. Não muda regimes, não faz cair governos.

 

Com certeza que o poder está no espaço público e nós temos um programa que é visto por um milhão de pessoas em média semanalmente. Com certeza que tem impacto, tem impacto na visão que as pessoas têm, nas perceções que formam, mas nós não achamos, primeiro, que é um poder decisivo, ou um impacto decisivo.

 

Depois, também não nos preocupamos com isso. Não somos agentes políticos, somos humoristas. Primeiro objetivo: fazer rir. Nesse sentido, não nos preocupamos com o impacto social que poder ter.

 

Pessoalmente – também não.

 

Ainda menos no Gato Fedorento.

 

No Gato Fedorento, zero. Nós no Gato Fedorento, tivemos sorte, porque foi tudo antes das redes sociais. Noutro dia escrevi uma coisa, está no Instagram, chega lá um gajo e diz: “És uma besta!”. Se está aqui um gajo a chamar-me besta, vou ter de ir lá dizer: “Olhe que eu não sou uma besta, atenção!”.

 

Quando nós começámos, fizemos um blog, chamado Gato Fedorento, onde púnhamos os textos que não eram aproveitados. Nós na altura escrevíamos a metro para o Herman e havia uma série de ideias que nós tínhamos que o Herman dizia: “Isto vocês guardem e depois metem lá um dia no vosso programa na RTP2 às duas da manhã, que isto no meu programa da SIC, não”. Pronto, e nós púnhamos uma série de coisas no blog.

 

E uma das features do blog era a secção de comentários. E uma das primeiras coisas que nós fizemos foi tirar os comentários, “Ninguém vai comentar nos nossos posts!”. E foi no início, em 2003, eu acho que tivemos olho. A única coisa que tínhamos era um email, se quiserem mandam-nos um, às vezes respondíamos.

 

Uma das vezes que recebemos mais hate mail foi quando eu fiz um post sobre os gajos das tunas, que é um tema fácil, mas também era miúdo. E recebi vários emails dos gajos furiosos a dizer: “Não têm ideia do que é que a tuna faz pela integração na faculdade e das grandes figuras públicas que foram tunos”. Nem respondi, como é óbvio. Eu gosto muito de alguém indignar-se em casa.

 

O Ricardo diz que uma vez, por causa de uma Mixórdia de Temáticas, recebeu coisas indignadíssimas na defesa do andebol, porque ele tinha gozado com uma coisa qualquer em que o protagonista era jogador de andebol.

 

Isto para dizer, sim, borrifamos no impacto público. Não me preocupa. Mas eu não digo que se o meu melhor amigo for acusado de uma coisa muito chata... Se calhar não venho fazer um artigo a bater nele, é o meu melhor amigo, mesmo que tenha feito uma coisa muito má, ou seja, tenho esses cuidados, pessoais, faço uma espécie de auto-limitação.

 

Mas agora, temas públicos não vou retrair. Porque há sempre um andebol, há uma tuna, alguém se vai sempre ofender. E as pessoas têm, com certeza, direito a sentir-se ofendidas, há uns que se ofendem mais do que outros, agora não têm é direito a, por causa disso, querer impedir outros de as ofenderem, principalmente quando a ofensa não é propositada.

 

Resumidamente: não me preocupo minimamente.

 

Tem algum passatempo ou característica desconhecida ou inesperada?

 

Epá, sou um gajo muito desinteressante. Sou mesmo desinteressante, agora que começo a pensar nisso. Gosto de ler, gosto de fazer coisas com o meu filho. A maior parte é obrigação, mas acho divertido.

 

O meu filho tem algumas bizarrias. E portanto, apesar de só ter sete anos, é uma companhia engraçada.

 

E lá está, aquela coisa da curiosidade, ele tem curiosidade a 100%, e eu ao pé dele tenho também a minha ligada, porque há certas coisas que ele diz que merecem atenção. Ele é meio monomaníaco, agora era mitologia grega, depois passou para a romana, a Roma antiga. Então fui a Roma com ele, passar um fim-de-semana a visitar todos aqueles monumentos, ruínas. É um passatempo que eu tenho.

 

De resto, há coisas básicas. Neste momento sou um “rato do ginásio”. Porque me disseram que a partir dos 40 e tal anos temos que fazer muito ginásio para manter a massa muscular. Há coisas que um gajo quando tem a vossa idade, não pensa nisso. Mas deviam, cabrões, vão ver quando tiverem a minha idade!

 

Com a vossa idade, um gajo faz duas semanas de desporto vê logo resultados, está mais forte, mais magro, o que seja. Na minha idade, estou um ano para ver uma melhoria e em duas semanas de férias em que bebo e como, perco tudo! Portanto neste momento estou um bocadinho rato de ginásio.

 

O seu pedido de eleição na padaria portuguesa.

 

Croissant brioche misto. É o melhor. Porque o croissant é um bocado doce. E eu gosto do contraste entre o doce do brioche e o salgado do queijo e do fiambre. Gostava muito do pão de carvão, infelizmente foi descontinuado, ainda no meu tempo. Foi o meu primo que tirou aquilo, era ótimo pá!

 

E o melhor XI de humoristas?

 

O melhor humorista português que eu já vi é o Ricardo, tive muita sorte de trabalhar com ele. Depois, os meus colegas Miguel e Tiago do Gato Fedorento.

 

Sem posições?

 

Ah, posições! Quando nós jogávamos à bola o Ricardo jogava a avançado, o gajo tinha a mania que jogava bem, que marcava muitos golos. O Miguel jogava à defesa e o Tiago corria bastante.

 

Agora, com os outros nunca joguei. Mas os outros seriam a Joana [Marques] e Cátia [Domingues]. A Joana dá imensa cacetada, dá caneladas, mesmo sem nunca termos jogado à bola. Uma vez mandou-me pontapé num armário que ia caindo ali na SIC.

 

Ela é fanática do Porto, mas fanática mesmo! E no primeiro ano em que trabalhámos juntos no programa do Ricardo houve uma final da Taça da Liga, Sporting Vs. Porto. E aquilo ainda por cima foi no pós Alcochete, tive ali um período de depressão em relação ao Sporting, não ligava. Se me perguntares qual era o XI do Sporting na altura, não faço ideia.

 

Então estamos a ver essa final, porque nós trabalhávamos à noite, que foi um sábado à noite. E ela muito em cima e eu disse, “vocês vão ganhar, nós não jogamos nada”. Eles estão a ganhar e o Sporting empata de penálti no fim. E eu disse: “Não te preocupes, vocês vão ganhar, nós não jogamos nada”.

 

E aquilo vai a penáltis. Eu sempre caladinho e muito indiferente e quando o Sporting marca o último que ganha ou o Porto faz o que perde, eu viro-me para ela e digo: “Chupa, tripeira de merda, toma!”. Ela ficou chocada, chocadíssima, não estava de toda a espera e eu continuava: “Achavas que ias ganhar, toma, Porto é merda!”.  Parecia uma hooligan, ela até hoje não esqueceu.

 

Na vez seguinte que o Porto ganha uma coisa ao Sporting, ela entra lá no nosso escritório com um cartaz a dizer: “Zé Diogo, chupa!”. Pronto, tudo bem, estamos quites. Não, não! Ainda este ano o Porto é campeão, a primeira merda que eu recebo é uma mensagem da Joana Marques a dizer: “Chupa Zé Diogo!”. Nunca vai esquecer, nunca vai esquecer.

 

Depois o resto é só benfiquistas, Manuel Cardoso, Cláudio Almeida, Guilherme Fonseca (que não gosta de futebol, só gosta de basquete de NBA, o que é ridículo), mas é do Benfica.

 

Faltam-me três. Gosto do Daniel Carapeto. E mais? É difícil.

 

Herman – a capitão talvez?

 

Herman, claro, se há uma razão para eu ter tentado ser humorista, é o Herman.

 

E faltam-me dois, epá acho que vamos jogar só com nove. Não quero, porque depois se digo um e não outro…isto é a resposta politicamente correta, eu estou-me a borrifar!

 

Mas já disse um de fora do programa.

 

Quem?

 

O Daniel Carapeto.

 

O Daniel, sim, é de fora, mas tenho afinidade com ele.

 

Mas pronto vamos ficar assim. Por exemplo, a seleção ficava melhor se jogasse só com dez, sem o Ronaldo. É que quando se joga com dez, já se sabe e preparam-se. Agora, imagina um matreco ali a atrapalhar e eles: “Espera, o gajo está equipado igual a nós. Calma, calma, não lhe passes”. Atrapalha!

 

Se tivesse de escolher uma expressão portuguesa, a sua preferida, qual seria?

 

Epá, sem ser palavrão? Eu digo tantos palavrões, porra!

 

Esta não é tanta expressão linguística, é um provérbio. Mas, o meu provérbio preferido de toda a língua portuguesa é: “Os cães ladram, a caravana passa”.

 

Lá está, usávamos muito em relação às polémicas, quando este sketch foi considerado isto ou aquilo. E nós dizíamos sempre: “Os cães ladram, a caravana passa”. Que é um bocado cagão, um gajo aqui na caravana a passar e os cães a ladrar nas rodas. Mas, eu gosto dessa atitude.

 

Acho que um tipo tem que ser fanfarrão q.b., não gosto de falsa humildade, apesar de me ter retirado da equipa de humoristas. Acho que temos de ter sempre um bocadinho de confiança, se não é paralisante.

 

É o que o Ronaldo vai pôr na descrição de uma publicação a seguir a marcar um golo?

 

O problema aí é que a caravana não passa. Acho que as irmãs dele já estão com umas teorias da conspiração, elas são meio analfabetas: “Muito esquisito, muito estranho, esta equipa não joga nada”. Do género: “Estão a fazer de propósito para o meu irmão não brilhar”. Porra pá.

 
 
 

Comments


bottom of page