O fim da era Orbán? A Hungria com Péter Magyar. Entrevista a Éva Kiss, Professora universitária em Budapeste.
- Duarte Amorim
- May 18
- 6 min read
Muito se tem falado sobre as eleições na Hungria, ao longo das últimas semanas. Fala-se da queda de um pequeno ditador, Viktor Orbán, através do milagre da eleição do novo Primeiro-Ministro, Péter Magyar, que até há não muito tempo pertencia ao partido do seu agora antecessor.
Tudo isto que temos ouvido tem sido por parte dos meios de comunicação e analistas políticos portugueses e internacionais. Mas será que é também assim que os húngaros veem esta eleição?
Ninguém melhor que a Professora Éva Kiss, húngara, docente de história na Corvinus University of Budapest, para nos ajudar a perceber. A Professora Éva Kiss foi minha professora de História da Europa Central, com particular foco na Hungria, durante os meus estudos em Budapeste. Através das suas aulas ganhei fascínio pela história da Hungria, particularmente pela Revolução de 1956, e confrontado com a necessidade de informar sobre a atual situação na Hungria, não tive dúvidas sobre a quem recorrer.
Aqui em Portugal, e em certa medida por toda a Europa, a derrota de Orbán e a vitória de Magyar têm sido descritas como uma verdadeira revolução política. Podemos realmente falar de uma revolução? O que é provável mudar de forma verdadeiramente significativa?
Aqui na Hungria, estamos a falar de uma mudança de sistema, e o TISZA (o partido liderado por Péter Magyar) prometeu precisamente isso. Neste momento, ainda não podemos ter a certeza de que irão implementar o seu programa, que promete a restauração do Estado de direito, reformas económicas e um regresso aos valores europeus.
A nova estrutura governativa e a escolha dos ministros – a maioria dos quais são profissionais de excelência – são encorajadoras. A natureza desta mudança é certamente mais do que uma simples vitória eleitoral do tipo normalmente observado nas democracias; alguns cientistas políticos descrevem o que aconteceu como uma “revolução eleitoral”.
Num sistema eleitoral que o FIDESZ (o partido de Orbán) moldou às suas próprias necessidades e foi continuamente reescrevendo em seu benefício; num sistema em que apenas as mensagens do FIDESZ eram ouvidas nos meios de comunicação estatais, foi necessário o enorme esforço de inúmeras pessoas para tornar possível esta mudança.
Isto inclui a participação eleitoral excecionalmente elevada, sem precedentes na Hungria desde a mudança de regime de 1990: quase 79% dos eleitores elegíveis votaram. Em comparação, nas eleições de 1990 – as primeiras após o fim do Estado socialista – a participação foi de cerca de 65%.
Quais foram os principais aspetos do governo de Orbán que levaram muitos críticos a descrevê-lo como estando a caminhar para o autoritarismo? Para quem observa de fora, e até para mim, tendo vivido seis meses em Budapeste, essa perceção nem sempre é evidente. Como é que os próprios húngaros viveram e sentiram o seu governo?
Por exemplo, o controlo dos meios de comunicação social, a pressão sobre o sistema judicial, a concentração de poder político ou o enfraquecimento das instituições democráticas.
Além disso, muitas pessoas ficaram perturbadas com o contraste evidente entre, por um lado, o nível de vida das pessoas comuns e o estado cada vez mais degradado dos serviços públicos e, por outro, o enriquecimento extraordinário da elite pró-FIDESZ.
Inúmeros empregos, subsídios e concursos públicos foram atribuídos apenas a pessoas, organizações e municípios leais ao FIDESZ. Nos últimos anos, diversos grupos foram alvo de assédio e ameaças, incluindo, por exemplo: professores, juízes, jornalistas, ativistas da sociedade civil e várias minorias.
Acha que as pessoas votaram mais a favor de Magyar, ou sobretudo contra Orbán?
Penso que as pessoas votaram principalmente contra Orbán e o seu regime. As eleições transformaram-se numa espécie de referendo sobre Orbán, e tornou-se evidente que existia apenas uma forma de derrotar Orbán e o seu partido FIDESZ no contexto de um sistema eleitoral injusto: um partido contra um partido.
Por isso, muitos partidos da oposição decidiram não se candidatar. Ao dizer isto, não pretendo desvalorizar o papel histórico de Péter Magyar; sem a sua perseverança e coragem, esta vitória não teria sido possível.
Outra ideia que tem sido frequentemente discutida é a de que Magyar poderá não ser assim tão diferente de Orbán em alguns aspetos – que continua a ser um conservador convicto e que fez parte do aparelho de Orbán até há pouco tempo. Há quem defenda também que, em questões essenciais, como o controlo da imigração, poderá existir mais continuidade do que mudança. Concorda com esta avaliação?
É verdade que, há dois anos e meio, Magyar ainda era membro do FIDESZ, mas, após a crise moral ligada ao FIDESZ que eclodiu no início de fevereiro de 2024, tornou-se um crítico feroz do partido. O Partido TISZA define-se como um partido conservador de centro-direita. No entanto, o mesmo já não pode ser dito do FIDESZ nos últimos anos, que se transformou num partido populista, de direita – e cada vez mais de extrema-direita.
Relativamente à relação com a Rússia, que mudanças espera sob a liderança de Magyar? E, de forma mais ampla, qual é a atitude geral da sociedade húngara em relação à Rússia?
Esperamos que o governo liderado por Magyar não corresponda às expectativas de Putin na mesma medida em que o governo de Orbán correspondia. Já existem sinais de que a nova política externa será diferente.
A 12 de maio, um ataque com drones russos atingiu um território na Transcarpátia (parte da Ucrânia) com uma população húngara significativa; em resposta, o recém-nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros convocou o embaixador russo e apresentou um protesto formal. Um incidente semelhante ocorreu em agosto de 2025, mas o governo de Orbán não fez absolutamente nada.
Quanto à atitude geral em relação à Rússia, posso dizer que o país teve algumas experiências históricas dolorosas; por exemplo, a nossa Revolução de 1956 foi esmagada pelo exército soviético. Nos últimos quatro anos, o governo de Orbán fez tudo o que estava ao seu alcance para virar a opinião pública contra a Ucrânia, e Orbán e os principais políticos do FIDESZ nunca mencionaram qualquer responsabilidade de Putin pelo início da guerra.
No entanto, só conseguiram influenciar parcialmente a opinião pública. Como nos últimos meses se falou muito – e surgiram muitos indícios – de que a Rússia estaria a interferir nas eleições em benefício de Orbán, “Russos, vão para casa” tornou-se um slogan recorrente nas manifestações da oposição. Este foi também o slogan da revolução húngara de 1956.
E quanto à relação da Hungria com a União Europeia e à perspetiva de uma integração europeia mais profunda?
A grande maioria da sociedade húngara é pró-europeia. Embora o FIDESZ tenha procurado tirar partido dos benefícios económicos oferecidos pela UE, criticou e minou consistentemente a União Europeia, chegando mesmo a conduzir campanhas de difamação internas contra determinados líderes da Comissão Europeia por motivos de política partidária.
Apesar disso, o FIDESZ não conseguiu virar a sociedade húngara contra a UE. O partido TISZA, de Magyar, é pró-europeu e procura cooperar com a União Europeia. Os seus eurodeputados integram o grupo do Partido Popular Europeu no Parlamento Europeu.
O novo parlamento húngaro tomou posse a 9 de maio, e a presidente da Assembleia, membro do partido TISZA, repôs a bandeira da UE no edifício do Parlamento como primeiro ato do seu mandato. A bandeira tinha sido retirada em 2014 pelo então presidente da Assembleia, do FIDESZ. Trata-se de um gesto simbólico, mas trouxe uma enorme alegria a muitos de nós.
Espera que Orbán continue a ser uma figura ativa e influente na oposição?
Ainda é cedo para dizer. A sua popularidade tem continuado a cair desde a derrota eleitoral. Embora tenha sido eleito para o parlamento como deputado da lista do seu partido, renunciou ao mandato.
Contrariamente à tradição, não esteve presente na sessão inaugural do novo parlamento nem na cerimónia de transição dos ministérios. Continua a ser presidente do FIDESZ e afirma estar a trabalhar na renovação do partido. Até agora, pronunciou-se apenas algumas vezes; na sua entrevista mais recente, fez aproximações à extrema-direita.
No entanto, o FIDESZ dispõe de uma enorme base económica, e nomeados do partido ocupam numerosos cargos públicos de relevo. A situação económica do país é muito difícil, e o próprio Péter Magyar prevê que a popularidade atual do seu governo diminua com o tempo. O instituto de sondagens Medián, que previu corretamente os resultados de abril com uma margem de erro de apenas um lugar parlamentar, concluiu, no seu inquérito de maio de 2026, que, se houvesse novas eleições neste domingo, 61% da população em idade de votar apoiaria o partido TISZA, enquanto apenas 21% continuaria a apoiar o FIDESZ
Quem irá liderar a futura oposição ainda está por ver.



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