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A economia da não propiedade - liberdade ou dependência?

Gonçalo Pereira Redondo
May 22
3 min read

No princípio dos anos 2000, deu-se um ponto de rutura na economia moderna. Uma nova era de digitalização e de controlo de acesso, onde o custo marginal passa a ser quase nulo, através da utilização de softwares que apelam ao comodismo do cliente, fidelizando os consumidores e passando da venda única para a subscrição. Esta economia não começou no digital, todavia foi transformada por ele, facilitando o seu desenvolvimento e promovendo esta mudança. Traz características atraentes para os clientes, possibilitou a democratização do acesso a diversos bens e serviços, com a ajuda de custos inicias reduzidos e acesso bastante flexível.

 

A economia da não propriedade traduz-se na crescente valorização do acesso contínuo de um bem ou serviço através de mensalidades, subscrições, leasings ou até partilhas – trata-se de possuir apenas o direito de uso – conseguinte, os consumidores acabam por não ser, de facto, donos do bem ou serviço que detêm. Simultaneamente, as novas gerações, cada vez menos valorizam o bem físico como sinal de estatuto ou de propriedade, e passam a dar mais destaque à flexibilidade e às experiências – uma mudança cultural e da mentalidade dos jovens que passam a ter um menor apego patrimonial.

 

As empresas reparam nestas alterações e adaptam-se rapidamente de forma a atingir os seus objetivos e a moldar o mercado com o seu modelo de negócio. É notável uma grande mudança na forma de comercializar os produtos, que é transversal a empresas que oferecem desde conteúdos de streaming até serviços que monitorizam saúde.


Assim, representa uma forma de se adaptarem às novas formas de pensar e de como os consumidores hierarquizam as necessidades, intenções e interesses de consumo, que acabam por traduzir-se em grandes mudanças no mercado, que consequentemente, potencializam exponencialmente a competitividade das empresas nos mais variados setores.

 

De facto, é de notar que este conceito veio ajudar as empresas a maximizar lucros de uma forma exponencial – uma economia moderna que visa reduzir o custo material, passando, maioritariamente, o negócio para o digital, que acarreta, também, os seus custos (construção ou manutenção do software, por exemplo). A economia do não possuir, promove receitas recorrentes constantes e mantém uma relação contínua com o cliente, que acaba, também, por providenciar dados que podem ser bastante valiosos.

 

Porém, esta mudança pode trazer algumas desvantagens para os consumidores. Não será de espantar que os pagamentos recorrentes de uma mensalidade, exemplificando, acabam por sair a um preço total mais elevado no longo prazo, comparando com a aquisição de um bem ou serviço no comércio tradicional (a pronto) em que se faz apenas um único pagamento na altura da compra. Esta série de pequenos pagamentos acumulam-se e os consumidores acabam por pagar indefinidamente por algo que poderá nunca vir a ter nem matéria física nem “dono”. As vastas playlists criadas no Spotify pelo mundo fora nunca se traduzirão numa coleção de discos de vinil, ou a infinidade de filmes disponíveis na Netflix nunca serão substituídos por uma coletânea de DVDs.

 

Este conceito acaba por criar uma espécie de dependência destas pequenas parcelas pagas temporariamente – promove um conforto ilusório que torna impossível “desligar” por completo do online. A economia da não propriedade no fundo vende uma ideia de liberdade: a ideia de menos compromisso, menos responsabilidades e mais escolha. À primeira vista é um modelo de negócio genial – concentra todo o espetro de opções para o consumidor numa simples plataforma ou aplicação.

 

Esta rutura na economia vem acrescentar uma nova perspetiva à escola de pensamento da economia institucional, que tem como máxima que quem controla os ativos controla o poder, e analisa como as instituições e empresas moldam o comportamento da sociedade. Neste caso, os ativos todos passam a ser apenas um – o nível de dependência do consumidor – a economia da não propriedade aparenta vender liberdade, mas acaba por gerar dependência do sistema e mantém refém os utilizadores que apenas se preocupam com qual o melhor pacote para aderir no próximo mês. Acaba por gerar um paradigma – oferece liberdade, mas a troco de quê?

 
 
 

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