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- Pensar é estar distraído.
Dia 8 de Março de 1914, Fernando Pessoa acerca-se de uma cómoda alta e, tomando um papel, começa a escrever de pé, como tanto gostava. Resumindo o seu dia a Adolfo Casais Monteiro, por carta, escreve: “Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. (…) Aparecera em mim o meu Mestre.”. Foram poucas e necessárias palavras que definiram, na minha perspetiva, o dia mais importante da história da poesia portuguesa, a criação do heterónimo Alberto Caeiro. O Mestre Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa, dia 16 de Abril de 1889. No entanto, viveu a maioria da sua vida numa quinta no Ribatejo. Aí, escreveu o famoso Guardador de Rebanhos, o Pastor Amoroso e a maioria dos Poemas Inconjuntos, cuja compilação acaba de ser escrita em Lisboa, onde morre, tuberculoso, em 1915. De acordo com Ricardo Reis, a vida de Caeiro é inarrável. Tudo o que viveu são os poemas que escreveu. Para além disso, não há mais incidentes nem história, até porque seriam inevitavelmente irrelevantes. A obra de Caeiro surge porque tudo o que sente diretamente traz palavras suas, escrever é um instinto natural, uma espécie de necessidade inconsciente. A obra não foi pensada, foi consequência última da vivência na natureza, algo muito mais profundo do que a simples razão humana. Isto é, vive à base de pensamentos que surgem no subconsciente humano, ao experienciar as sensações progressivas da vida, mais nada. Segue um verso que exemplifica este pensamento: Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. (Caeiro, Poesia, p.37) Por isso, é o poeta libertador. Libertador porque reconhece a pequenez humana e desfaz-se dos conceitos artificiais criados pelo ser humano. Acaba com a morte e a vida, com a esperança e o seu contrário. Não vive à base de objetivos e apegos, mas de acordo com a ordem natural das coisas, tal como as árvores, os rios ou as flores. Limita-se a contemplar o que existe, que, por existir, é belo. Mais do que isso, vive num estado de permanente felicidade, porque tudo o que acontece é real e está certo, porque faz parte da natureza. O Mestre considera que, assim, desmistifica o Universo e tudo o que isso, supostamente, envolve, como se vê no poema que se segue: O que vale minha vida? No fim (não sei que fim) Um diz: ganhei trezentos contos, Outro diz: tive três mil dias de glória. Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante… E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz, Direi: olhei para as cousas e mais nada. E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira. E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas? Respondo: apenas as cousas… Tu não puseste lá mais nada. E Deus, que é da mesma opinião, fará de mim uma nova espécie de santo. (Caeiro, Poesia, p.103) Assim, descobre o mundo, a realidade e a verdade, sem pensar nisso. Descobre tudo o que os burros dos filósofos morrem sem conseguir encontrar. No entanto, em O Pastor Amoroso, Caeiro cai na sua própria antítese. No seu primeiro poema desta compilação, conclui que o amor, seja isso o que for, complementa a sua convivência direta com a natureza. Esta ideia segue nos seguintes versos: Não me arrependo do que fui outrora Porque ainda o sou. Só me arrependo de outrora te não ter amado. (Caeiro, Poesia, p.91) Contrariamente, nos últimos poemas deste livro, desiludido com o amor, quem escreve é o Caeiro Humano, aquele que diz estar a escutar a sua própria voz, que vem da razão humana, dos sentimentos exteriores aos rios e às plantas. Caeiro erra fatalmente e tem noção disso, já não é a natureza que fala por ele: Amei, e não fui amado, o que só vi no fim, (…) Eu não sei falar porque estou a sentir. Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa. (Caeiro, Poesia, p. 97) Caeiro pensou, distraiu-se e perdeu-se. Imagino o Pastor Amoroso como uma espécie de Messias que veio revelar como é apegar-se às coisas, para evitar que nós, seres humanos, escusemos de cair nesse erro. Por isso, quando volta a olhar para os montes, a verdade volta a surgir, com a mesma pureza, simplesmente verdadeira. Consequentemente, apesar de ser apresentado como o heterónimo rural, mesquinho e pouco culto, é Caeiro quem chega à verdade. A chegada do Mestre à verdade é única, genial e real. Caeiro tem a especialidade de revelar tudo. É Caeiro quem reconhece a sua pequenez, quem se apercebe dos esforços desnecessários dos homens pela verdade, pela busca incessante de um sentido através da razão. A verdade das coisas está à nossa frente: são simplesmente as coisas, mais nada. Para sermos felizes, não nos devemos desfocar da natureza, da contemplação séria e constante. Infelizmente, dada a condição humana, há a tentação do compromisso, do apego, do objetivo e da ambição. Tudo termos inúteis que não significam nada. A verdade está à nossa frente. Deixemos os pensamentos. Deixemos os Pastores Amorosos. Deixemos as lutas por coisa nenhuma... O que for, quando for, é que será o que é. (Caeiro, Poesia, p.109)
- O Metrónomo
Cai mais um grão, O ângulo diminui, E tudo o que já fui Perece numa dispersão. Desfaz-se a semana E outro mês ganha pressa, Enquanto tudo o que interessa É agora uma montanha plana. As tentações do descanso Lançam-se cada vez mais fortes, E procuram causar cortes No meu inerte avanço. Veementemente desprezo A sombra iluminada do abrigo, E, sonâmbulo, procuro o perigo Dos dias com que revezo.

