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- Os Primeiros Fleetwood Mac
Poucas foram as bandas que sofreram alterações tão radicais como uma das maiores do século XX, os Fleetwood Mac, tanto estilisticamente como estruturalmente. Podemos contar até quase 20 artistas diferentes que colaboraram na banda desde a sua formação em 1967. Foi a introdução do dueto de Lindsey Buckingham e Stevie Nicks em 1975 que iniciou uma fase de sucesso monumental para os Fleetwood Mac. Com o lançamento de Rumours em 1977, um dos álbuns mais vendidos de sempre, o grupo britânico-americano tornou-se numa das maiores e mais famosas bandas do mundo. Inevitavelmente, o estilo que os levou a este grau de notoriedade foi o de soft rock e de música popular, com traços de rock clássico, mantendo-se orientada para um género comercial. Porém, este tipo de música globalmente reconhecida com Nicks e Buckingham era drasticamente divergente do estilo inicialmente presente nos anos 60. Nascida em Londres, a banda foi formada por Peter Green. Green é considerado dos melhores guitarristas de blues da sua altura e, dentro dos ingleses, foi inequivocamente dos mais influentes. Recrutou Jeremy Spencer, John McVie e Mick Fleetwood (que acompanharam todo o percurso do grupo) e juntos fundaram os Fleetwood Mac. Grandes influências do guitarrista incluem Eric Clapton, Muddy Waters, B.B. King, e muitos dos maiores artistas de blues dos anos 60. Sendo assim, naturalmente, o modelo original de Fleetwood Mac foi concebido como uma banda de rock blues, embora hoje não seja reconhecida por isso. Não obstante, não é pelo soft rock comercial ter ofuscado esta vertente da banda que a torna menos louvável. Pelo contrário: acredito que a melhor versão (das inúmeras) dos Fleetwood Mac é a primeira, a fundadora. Tinham tudo que uma banda de blues inglesa precisava, e mais. Embora enraizada em blues tradicional, com a mestria de Peter Green, a música incorpora um estilo separador dos outros artistas da época. Como qualquer estimável guitarrista, manifestando-se através de riffs potentes e timbres polidos, a técnica de Green era fundamental para o caráter emotivo das músicas. Caráter este inerente ao estilo de blues e marcado por letras simples, dramáticas e impetuosas, retratando experiências e desafios pessoais, principalmente da vida amorosa. E, não nos esquecendo da secção rítmica, por trás da indústria de Peter Green está a base sólida oferecida por John McVie no baixo e Mick Fleetwood na bateria – o entendimento de ambos do ritmo de blues foi sem dúvida crucial para a composição e para autenticidade das músicas. Esta formação original de Green, Fleetwood, McVie e Spencer (com a eventual adição de outros membros) tocou até 1970, até a saída de Peter Green. Foram lançados três álbuns de estúdio, começando com o álbum autointitulado Fleetwood Mac (1968 – também conhecido por “Peter Green’s Fleetwood Mac”). Alguns dos seus maiores êxitos incluem “Black Magic Woman”, “Oh Well (Pt. 1)” e “Looking For Somebody”. Com isto, não posso deixar de recomendar, para além dos primeiros álbuns, as seguintes compilações musicais: Men of the World: The Early Years (2005); Fleetwood Mac’s Greatest Hits (1989) e English Rose (1969). Termino com uma letra da música “World Keep On Turning”, salientando a autenticidade da sua natureza como banda de rock blues: “Yeah, the way I love the woman, It’s bound to get me killed. (…) I need the woman so bad, I need her like the sky needs the sun.”
- Pensar é estar distraído.
Dia 8 de Março de 1914, Fernando Pessoa acerca-se de uma cómoda alta e, tomando um papel, começa a escrever de pé, como tanto gostava. Resumindo o seu dia a Adolfo Casais Monteiro, por carta, escreve: “Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. (…) Aparecera em mim o meu Mestre.”. Foram poucas e necessárias palavras que definiram, na minha perspetiva, o dia mais importante da história da poesia portuguesa, a criação do heterónimo Alberto Caeiro. O Mestre Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa, dia 16 de Abril de 1889. No entanto, viveu a maioria da sua vida numa quinta no Ribatejo. Aí, escreveu o famoso Guardador de Rebanhos, o Pastor Amoroso e a maioria dos Poemas Inconjuntos, cuja compilação acaba de ser escrita em Lisboa, onde morre, tuberculoso, em 1915. De acordo com Ricardo Reis, a vida de Caeiro é inarrável. Tudo o que viveu são os poemas que escreveu. Para além disso, não há mais incidentes nem história, até porque seriam inevitavelmente irrelevantes. A obra de Caeiro surge porque tudo o que sente diretamente traz palavras suas, escrever é um instinto natural, uma espécie de necessidade inconsciente. A obra não foi pensada, foi consequência última da vivência na natureza, algo muito mais profundo do que a simples razão humana. Isto é, vive à base de pensamentos que surgem no subconsciente humano, ao experienciar as sensações progressivas da vida, mais nada. Segue um verso que exemplifica este pensamento: Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. (Caeiro, Poesia, p.37) Por isso, é o poeta libertador. Libertador porque reconhece a pequenez humana e desfaz-se dos conceitos artificiais criados pelo ser humano. Acaba com a morte e a vida, com a esperança e o seu contrário. Não vive à base de objetivos e apegos, mas de acordo com a ordem natural das coisas, tal como as árvores, os rios ou as flores. Limita-se a contemplar o que existe, que, por existir, é belo. Mais do que isso, vive num estado de permanente felicidade, porque tudo o que acontece é real e está certo, porque faz parte da natureza. O Mestre considera que, assim, desmistifica o Universo e tudo o que isso, supostamente, envolve, como se vê no poema que se segue: O que vale minha vida? No fim (não sei que fim) Um diz: ganhei trezentos contos, Outro diz: tive três mil dias de glória. Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante… E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz, Direi: olhei para as cousas e mais nada. E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira. E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas? Respondo: apenas as cousas… Tu não puseste lá mais nada. E Deus, que é da mesma opinião, fará de mim uma nova espécie de santo. (Caeiro, Poesia, p.103) Assim, descobre o mundo, a realidade e a verdade, sem pensar nisso. Descobre tudo o que os burros dos filósofos morrem sem conseguir encontrar. No entanto, em O Pastor Amoroso, Caeiro cai na sua própria antítese. No seu primeiro poema desta compilação, conclui que o amor, seja isso o que for, complementa a sua convivência direta com a natureza. Esta ideia segue nos seguintes versos: Não me arrependo do que fui outrora Porque ainda o sou. Só me arrependo de outrora te não ter amado. (Caeiro, Poesia, p.91) Contrariamente, nos últimos poemas deste livro, desiludido com o amor, quem escreve é o Caeiro Humano, aquele que diz estar a escutar a sua própria voz, que vem da razão humana, dos sentimentos exteriores aos rios e às plantas. Caeiro erra fatalmente e tem noção disso, já não é a natureza que fala por ele: Amei, e não fui amado, o que só vi no fim, (…) Eu não sei falar porque estou a sentir. Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa. (Caeiro, Poesia, p. 97) Caeiro pensou, distraiu-se e perdeu-se. Imagino o Pastor Amoroso como uma espécie de Messias que veio revelar como é apegar-se às coisas, para evitar que nós, seres humanos, escusemos de cair nesse erro. Por isso, quando volta a olhar para os montes, a verdade volta a surgir, com a mesma pureza, simplesmente verdadeira. Consequentemente, apesar de ser apresentado como o heterónimo rural, mesquinho e pouco culto, é Caeiro quem chega à verdade. A chegada do Mestre à verdade é única, genial e real. Caeiro tem a especialidade de revelar tudo. É Caeiro quem reconhece a sua pequenez, quem se apercebe dos esforços desnecessários dos homens pela verdade, pela busca incessante de um sentido através da razão. A verdade das coisas está à nossa frente: são simplesmente as coisas, mais nada. Para sermos felizes, não nos devemos desfocar da natureza, da contemplação séria e constante. Infelizmente, dada a condição humana, há a tentação do compromisso, do apego, do objetivo e da ambição. Tudo termos inúteis que não significam nada. A verdade está à nossa frente. Deixemos os pensamentos. Deixemos os Pastores Amorosos. Deixemos as lutas por coisa nenhuma... O que for, quando for, é que será o que é. (Caeiro, Poesia, p.109)
- O Metrónomo
Cai mais um grão, O ângulo diminui, E tudo o que já fui Perece numa dispersão. Desfaz-se a semana E outro mês ganha pressa, Enquanto tudo o que interessa É agora uma montanha plana. As tentações do descanso Lançam-se cada vez mais fortes, E procuram causar cortes No meu inerte avanço. Veementemente desprezo A sombra iluminada do abrigo, E, sonâmbulo, procuro o perigo Dos dias com que revezo.


